A
psicanálise do burnout – neoliberalismo e colapso
O
burnout virou palavra de uso comum. Aparece em consultórios, reportagens da
grande mídia e conversas na fila do mercado. Mas, curiosamente, o DSM-5 (o
famoso Manual de Diagnóstico em Saúde Mental) não o reconhece como diagnóstico
formal, ou seja, não é uma “doença” da psiquiatria mainstream. Quando muito,
enquadra seus efeitos em categorias como “transtorno depressivo maior” ou
“transtorno de ansiedade generalizada” (American Psychiatric Association,
2013).
A
Organização Mundial da Saúde, por sua vez, define burnout como fenômeno
ocupacional, ligado ao estresse crônico no trabalho (OMS, 2019). Em outras
palavras, a medicina descreve os sintomas, mas hesita em nomear o processo. É
justamente aí que a psicanálise pode contribuir com algumas ferramentas de
interpretação.
O termo
surgiu nos anos 1970 com Herbert Freudenberger, ao observar profissionais
altamente engajados que, depois de um período de dedicação intensa, entravam em
colapso (Freudenberger, 1974). Não eram sujeitos apáticos, mas exatamente o
contrário. Gente que acreditava muito no que fazia, mas não conseguia parar.
Christina Maslach refinou a ideia ao descrever três dimensões do fenômeno
(Maslach e Jackson, 1981). A intuição de origem já dizia muito. O problema não
é falta de investimento no trabalho, mas investimento demais, compulsivo, sem
mediação.
A
síndrome de burnout será redefinida por Christina Maslach a partir de um tripé
dimensional que compreende a (i) exaustão emocional, caracterizada pelo
esgotamento dos recursos internos do sujeito; (ii) a despersonalização, que se
manifesta por meio de atitudes cínicas e distanciamento afetivo em relação ao
público atendido; e (iii) a reduzida realização pessoal, traduzida por um
sentimento de ineficiência e fracasso pessoal/profissional.
Diferentemente
das abordagens que patologizam o indivíduo ou atribuem o esgotamento a uma
suposta “fragilidade de caráter” ou da “personalidade/self”, essa perspectiva
psicossocial desloca o foco para as falhas na cultura organizacional e no
ambiente de trabalho, compreendendo o fenômeno como um sintoma da estrutura
social contemporânea e não como uma psicopatologia estritamente individual.
A
psicanálise radicaliza essa sacada de Christina Maslach. O burnout não é apenas
cansaço. É um modo de funcionamento psíquico. Um sujeito que hiperinveste no
trabalho como forma de sustentar valor, identidade e reconhecimento para o
Outro. O trabalho deixa de ser apenas atividade que gera renda (e alguma
satisfação, em alguns casos) e passa a ser a garantia de existência daquela
pessoa. Nesse cenário, parar não é descansar. É cair derrotado, é “perder o
jogo”, é não existir mais como sujeito.
Aqui
entra o neoliberalismo e toda a cultura da performance, do se vire sozinho, do
“empreendedor de si”, mas não como palavra de efeito, mas como forma de
organização da vida no capitalismo global. O sujeito contemporâneo é convocado
a funcionar maquinicamente como empresa de si mesmo, permanentemente
disponível, mensurável, produtivo. A precarização não é só econômica.
É
também simbólica, pois é empobrecimento dos afetos e dos vínculos. As
referências coletivas que antes organizavam o laço social se fragilizam (ou
tornam-se “líquidas”, para lembrar Bauman), e o indivíduo passa a depender
ainda mais do desempenho para se sentir alguém (Dejours, 1992).
Mas há
um deslocamento importante em relação às formas clássicas de dominação nas
sociedades de mercado. Não se trata mais apenas de um supereu externo, de um
“patrão” que impõe regras de fora ao sujeito que depende deste para ganhar
dinheiro. O comando se internaliza como ‘ideal de eu”. O sujeito passa a se
exigir por dentro, internalizando o “chicote do patrão” a partir de um modelo
de excelência, desempenho e sucesso que o próprio sujeito incorpora (Han,
2015).
A
cobrança não vem apenas de fora. Vem de dentro, e esta é geralmente mais
implacável que as antigas cobranças do ambiente. É uma servidão que se
apresenta como “livre escolha da pessoa”. O sujeito acredita que quer aquilo
que, na verdade, o submete como uma espécie de escravo desse ideal de eu já
internalizado.
Esse
arranjo produz um paradoxo clínico. Para continuar funcionando, o sujeito não
pode entrar em contato com sua própria exaustão, tristeza ou limite. Ele segue
sem parar. Entrega-se. Responde a todas as demandas. Adapta-se. Até que chega a
hora em que não consegue mais. É quando o sistema colapsa e, aí, o que emerge
muitas vezes tem a forma de uma depressão, mas já em estado bruto, sem qualquer
elaboração. Não é a depressão vivida e simbolizada, como no luto e na
melancolia (Freud, 1917). É a depressão que foi adiada até se tornar
inevitável, até possuí-lo e quebrá-lo em pedaços. A couraça de aço derrete. A
produtividade implode. É a queda.
A
psicanálise lê esse processo em três níveis fundamentais. No primeiro nível,
temos a economia do investimento psíquico. O burnout surge como o colapso de um
excesso – que, com Jacques Lacan, chamamos de gozo – e não necessariamente de
uma falta. No segundo nível, existe uma dimensão narcísica profunda. O sujeito
não apenas trabalha, mas se mede pelo trabalho, pois o eu e a função estão
atados em uma fusão patológica (Lasch, 1986). Quando ele falha, não perde
apenas desempenho, dinheiro ou produtividade: perde o próprio valor de si.
No
terceiro nível, ocorre uma grave falha de simbolização. O sofrimento acumulado
não encontra palavras nem espaço para elaboração, e isso leva o sujeito a tocar
o barco sem qualquer autopercepção. Ele é empurrado para uma ação contínua e
compulsiva até que o sistema explode. O que foi silenciado retorna, então, sob
a forma de exaustão ou vazio depressivo, pânico ou angústia.
Autores
como Christophe Dejours mostram que o trabalho não é só fonte de renda. É lugar
de reconhecimento e também de sofrimento. Certas formas de organização exigem
engajamento subjetivo intenso sem oferecer retorno simbólico suficiente. O
resultado não é apenas estresse. É desgaste do próprio sentido (Dejours, 1992).
Há um
ponto clínico decisivo sobre o burnout: ele não se resolve apenas reduzindo a
carga horária ou descansando. Embora a luta contra a escala 6×1 seja
fundamental, ela não é a tábua de salvação para esses casos. Tais medidas de
redução do tempo de trabalho podem trazer um alívio momentâneo, mas não
transformam a posição do sujeito diante da vida. Se o trabalho ocupa o lugar
central de sustentação da identidade, a simples retirada ou redução dessa
atividade pode, inclusive, agravar o sentimento de vazio depressivo.
O
sujeito sente o “empuxo ao gozo” de continuar trabalhando de forma compulsiva,
pois teme não ser ninguém sem essa atividade. Existe um medo profundo de se
transformar em resto ou rebotalho caso pare de produzir, já que ele não
consegue associar produção a nada que não seja trabalhar e ganhar dinheiro. A
clínica mostra que o verdadeiro desafio está em reconstruir o valor do eu para
além do fazer, da exploração do trabalho, dos sistemas políticos opressivos
(Martín-Baró, 1996).
A
questão, então, não é só trabalhar menos, mas deslocar a relação com o
trabalho. Isso implica recuperar a capacidade de limite, redistribuir
investimentos libidinais, reconhecer perdas e, sobretudo, encontrar outras
formas de existência que não dependam exclusivamente da produtividade. Em
termos lacanianos, trata-se de atravessar certas identificações ideais e
reposicionar o desejo, em vez de apenas responder à exigência de desempenho
feita pelo Outro (Lacan, 1964).
Em
termos mais simples, o burnout é o preço de se tentar funcionar como máquina
sendo humano. Como toda tentativa desse tipo, ela funciona por um tempo, até
que não funciona mais. A psicanálise não oferece uma solução rápida nem um
manual de desempenho emocional; em vez disso, propõe algo mais incômodo e
enriquecedor: um espaço para que o sujeito deixe de apenas se adaptar ao
sistema e comece a entender por que precisou funcionar assim até colapsar.
Como
doença ocupacional, o burnout é fruto da estrutura socioeconômica do
neoliberalismo, que valoriza a produtividade incessante e a autoexploração. Por
isso, a cura não se resume a um mero deslocamento subjetivo dentro do
consultório. Ela exige também uma transformação sociopolítica desse regime e
uma reconfiguração coletiva do ambiente que rompa com a lógica do esgotamento e
do louvor ao cansaço.
Em
última análise, trata-se menos de um conserto do eu e mais de uma mudança de
posição diante da vida que inclua a dimensão macropolítica. No longo prazo,
essa costuma ser a única saída que não conduz ao mesmo ponto de ruptura.
Fonte:
Por Marcio Sales Saraiva, em A Terra é Redonda

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