Tarifas, Pix, terrorismo e minerais críticos:
como os EUA pressionam o Sul Global na disputa contra a China
Embora as últimas ações dos EUA contra o
Brasil pareçam isoladas, elas fazem parte de uma mesma arquitetura de poder.
Tarifas comerciais, a classificação de
facções como terroristas, ameaças financeiras e
a disputa por minerais críticos compõem, juntas, um dispositivo articulado de
pressão multiescalar. Essa estratégia reposiciona o Brasil de forma complexa no
tabuleiro da geopolítica contemporânea.
À primeira vista, a elevação de tarifas sobre
produtos brasileiros pode ser interpretada como mais um capítulo do
protecionismo na política externa estadunidense. No entanto, essas medidas
adquirem outra dimensão quando observadas sob uma perspectiva geopolítica mais
ampla.
Em um contexto de transição energética e
intensificação da disputa tecnológica com a China, recursos como lítio e nióbio
assumem papel estratégico nas cadeias globais de valor.
A reorganização dessas cadeias revela uma
geopolítica da desigualdade, na qual países periféricos são pressionados a
fornecer insumos sob condições assimétricas. Nesse sentido, ao manter tais
recursos fora das tarifas, os Estados Unidos asseguram o suprimento enquanto
reconfiguram as regras de sua exploração.
É dentro dessa lógica que os minerais
críticos funcionam como o fio condutor de todas as decisões dos Estados Unidos,
cujo objetivo final é reduzir a influência chinesa sobre setores estratégicos
do Brasil e garantir a supremacia tecnológica de Washington.
É nesse terreno que a agenda securitária se
articula à dinâmica econômica dos recursos estratégicos. Segundo reportagem
de Lucas Macedo publicada pelo g1,
facções como o PCC e o Comando Vermelho transformaram os crimes ambientais em
uma engrenagem de financiamento, lavagem de dinheiro e poder regional. A
extração ilegal de madeira, a grilagem e o tráfico de animais agora financiam
armas e consolidam o controle do crime sobre a floresta.
Esse domínio, que se estende a zonas de
mineração e a corredores logísticos, produz um cenário em que economia,
ilegalidade e geopolítica se fundem, conectando a exploração da natureza
diretamente às cadeias globais de recursos estratégicos. Ao classificar essas
facções como organizações
terroristas, os Estados Unidos internacionalizam o
problema e instituem um enquadramento jurídico sob medida para seus interesses.
A designação ativa ferramentas de sanção e
vigilância financeira que, na prática, abrem caminho para Washington intervir
nas cadeias de suprimento mineral brasileiras, sob o pretexto de asfixiar o
financiamento do terrorismo.
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Esse movimento é estratégico e decisivo,
pois, ao associar a exploração de minerais críticos ao financiamento do
terrorismo, Washington cria um mecanismo de pressão sobre setores-chave da
economia brasileira. O impacto dessa medida extrapola a segurança pública e
reconfigura o ambiente de negócios, forçando empresas e fundos internacionais a
operar sob um rígido regime de risco geopolítico, sujeito a sanções e
bloqueios.
Diante disso, o verdadeiro objetivo
estadunidense emerge de forma nítida: conter a expansão chinesa sobre os
setores estratégicos do Brasil, limitando a capacidade do país asiático de
investir na infraestrutura e na integração logística nacional.
É nesse ponto que surge uma ferramenta
altamente eficaz chamada Seção 311 do USA PATRIOT Act. Promulgada
em outubro de 2001 em resposta aos ataques de 11 de setembro, essa legislação
antiterrorismo expandiu massivamente os poderes de vigilância e investigação
das autoridades estadunidenses.
Segundo diretrizes do Departamento do Tesouro
dos Estados Unidos, o dispositivo tem como um de seus principais objetivos
combater os riscos de lavagem de dinheiro e o financiamento do terrorismo,
fornecendo ao Tesouro estadunidense uma estrutura regulatória flexível e
poderosa para proteger o sistema financeiro contra ameaças específicas.
Dito de outra maneira, não se trata de
sancionar países, mas de neutralizar ameaças, aplicar penalidades apenas aos
agentes considerados de interesse e induzir comportamentos por meio do temor da
exclusão financeira.
Em outra frente de pressão, emerge a Seção
301, instrumento legal que autoriza o governo dos Estados Unidos a impor
sobretaxas a parceiros comerciais sob a alegação de práticas discriminatórias
contra empresas estadunidenses. O objetivo é punir práticas consideradas
prejudiciais às corporações do país, por meio de retaliações que pressionam os
países-alvo a reconfigurar suas leis em favor dos interesses de Washington.
Utilizando essa prerrogativa, o governo
estadunidense encerrou uma ampla investigação comercial aberta contra o Brasil
em julho do ano passado, cujo relatório final trazia o sistema Pix como um de
seus alvos
estratégicos. Segundo a BBC
News Brasil, o documento afirma que “o Brasil tem
prejudicado injustamente as empresas americanas que atuam em serviços
concorrentes de pagamento eletrônico, inclusive por meio de políticas que
favorecem seu campeão nacional, o Pix”.
A ofensiva fundamenta-se na alegação de que
o ecossistema
de pagamentos brasileiro produz distorções concorrenciais que afetam diretamente gigantes de tecnologia e
operadoras de cartões, como Visa e Mastercard. Conforme detalha a BBC
News Brasil, o Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos
(USTR) sustenta que há um conflito de interesses na atuação do Banco Central,
que acumula as funções de regulador e gestor de uma plataforma pública,
gratuita e de ampla utilização.
É a partir dessa leitura que Washington busca
legitimar a abertura do sistema, criando condições para a reentrada e a
expansão de corporações estrangeiras no mercado financeiro brasileiro. Nessa
perspectiva, o Pix passa a ser enquadrado como um mecanismo de intervenção
estatal que limita a concorrência e compromete a atuação de provedores
internacionais.
A articulação entre essas três dimensões — a
comercial, a securitária e a financeira — indica uma mudança na forma como o
poder é exercido no cenário internacional. Já não se faz necessário recorrer a
invasões diretas ou a bloqueios totais contra um país. As estratégias
tornaram-se mais sutis e passam a operar de maneira coordenada, produzindo
efeitos semelhantes por vias indiretas.
Nesse contexto, o alvo deixa de ser apenas a
economia brasileira e passa a incidir sobre a soberania dos países,
particularmente sobre sua capacidade de exercer autonomia decisória em áreas
estratégicas.
O que está em jogo é a inserção do Brasil em
uma nova geografia do poder global. Uma geografia marcada por zonas de
influência, corredores estratégicos e territórios disputados não por meio de
ocupações militares, mas por mecanismos de regulação, financiamento e controle
de fluxos.
Diante desse tabuleiro geopolítico, a questão
que permanece é: será que o Brasil conseguirá navegar em um ambiente
internacional sem abrir mão de sua autonomia e de sua soberania? Ou seremos,
mais uma vez, capturados pelas engrenagens de uma ordem internacional que
redefine, silenciosamente, os termos da nossa dependência?
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BRICS garante
desenvolvimento global, diz analista ao comentar êxitos do bloco citados por
Putin
Os
fortes resultados econômicos dos países do BRICS, sobre os quais Vladimir Putin
falou no SPIEF 2026, indicam que o bloco desempenha um papel crucial no caminho
para o desenvolvimento global com o envolvimento ativo dos países do Sul
Global, disse à Sputnik Pavel Goncharov, analista financeiro e diretor da
empresa de consultoria Goncharoff LCC.
Durante
a sessão plenária do Fórum
Econômico de São Petersburgo 2026, o presidente russo disse que quase metade do
crescimento do PIB global nos últimos cinco anos foi fornecida pelos
países do BRICS, enquanto o G7 teve apenas 18%.
Além
disso, a participação dos países do BRICS no PIB mundial em paridade de
poder de compra é de cerca de 40%, enquanto a parcela dos países do G7 é
inferior a 29%, acrescentou o líder russo.
"Assim
que os restritivos corredores financeiros tradicionais, expressos em dólar ou
euro, ou mecanismos como o SWIFT, forem substituídos, os freios serão
liberados e o potencial do Sul Global, tanto político quanto econômico, poderá
refletir a real dinâmica soberana", opinou Goncharov.
Segundo
ele, os países-membros
do BRICS e
os países associados ao bloco são relativamente livres social, política e
economicamente.
Por
isso, tendem a tomar medidas pragmáticas em vez de optar por
"experimentos sociais irrealistas", muitas vezes a mando de um centro
político como os Estados Unidos ou a União Europeia, sem relação com as
características culturais ou econômicas do país.
"A
diferença [entre o Ocidente coletivo e o BRICS] é óbvia, como evidenciam
os dados dos últimos cinco anos", resumiu o especialista.
Ao
discursar no SPIEF 2026, Vladimir Putin destacou que o foco do comércio global
e do sistema financeiro internacional continuará a mudar, com o
crescimento da liderança dos países do BRICS na economia global.
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Acordo Mercosul-Canadá avança em décima rodada de
negociações
As
negociações para a conclusão do acordo de livre
comércio entre o Mercosul e o Canadá avançaram com um encontro de grupos
temáticos na cidade de Toronto (CA), entre os dias 25 e 29 de maio.
O
encontro, a X Rodada Negociadora do Acordo de Livre Comércio entre o Mercosul e
o Canadá, aprofundou as discussões para a consolidação do tratado, que haviam
sido retomadas em outubro do ano passado.
Em 2025
as negociações do país anglófono tiveram aumento considerável com o Brasil,
após ambos terem sido afetados pelas barreiras comerciais do governo dos
Estados Unidos. O fluxo de comércio entre
Brasil e Canadá alcançou
US$ 10,4 bilhões no ano passado. As exportações brasileiras para o mercado
canadense somaram US$ 7,3 bilhões em 2025, com crescimento de 14,8% em relação
ao ano anterior e recorde histórico da série.
As
negociações retomadas em outubro passado, refletem o interesse das partes em
aprofundar as relações econômicas e comerciais, promovendo o fortalecimento do
comércio bilateral e uma maior integração produtiva entre as economias do
Mercosul e do Canadá.
O
encontro ao final de maio teve destaque para as reuniões presenciais dos grupos
técnicos sobre comércio de bens, serviços e serviços financeiros, entrada
temporária de pessoas a negócios, regras de origem, propriedade intelectual,
salvaguardas bilaterais, desenvolvimento sustentável, comércio inclusivo e
temas legais e institucionais.
Além
das discussões técnicas o ministro de comércio internacional do Canadá,
Maninder Sidhu, recebeu os negociadores-chefes do Mercosul.
Ao
longo da décima rodada, cinco capítulos do Acordo avançaram para a etapa de
encerramento de negociações. A previsão das partes é de concluir o acordo em
novos encontros, ainda no primeiro semestre, com data a definir. No encontro
anterior, no final de abril, as discussões se desenvolveram em torno das regras
de origem, propriedade intelectual, barreiras sanitárias e fitossanitárias e
comércio e desenvolvimento sustentável.
A
retomada das negociações em bloco tem sido uma prioridade da gestão atual do
Mercosul, presidida pelo governo paraguaio. O acordo com a União Europeia
começou a vigorar em 1º de maio.
O bloco
também tem avançado nas discussões com outros países da América Latina, como Chile,
Equador, Colômbia e Peru, além do progresso nas discussões com os Emirados
Árabes Unidos e com o bloco EFTA, composto por Islândia, Liechtenstein, Noruega
e Suíça.
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Acordo Mercosul-UE
fracassou? Europa oficialmente proíbe exportação da carne do Brasil, diz mídia
A União
Europeia (UE) oficializou um veto à importação de carne do Brasil, que entrará
em vigor em setembro, escreve o jornal O Globo.
O
jornal destaca que a UE retirou o
Brasil da lista de nações que cumprem as regras sobre o uso de antimicrobianos
na pecuária.
"A
UE publicou, na quinta-feira [4], um documento oficializando a sua decisão de
excluir o Brasil da lista de países que cumprem as suas regras contra o uso
excessivo de antimicrobianos na pecuária. Com isso, o Brasil fica proibido
de exportar carne para o bloco a partir de 3 de setembro deste ano",
ressalta a publicação.
Ao
exigir comprovações que Brasília não apresentou nos prazos definidos, o bloco
impõe barreiras técnicas que podem prejudicar a competitividade das exportações
brasileiras.
A exclusão afeta diversos produtos essenciais, como carne bovina e de frango,
pescado e mel, ampliando as perdas potenciais para os produtores e as
cadeias de valor.
A
medida aumenta as incertezas para os empresários e pode gerar custos
adicionais com certificação, rastreabilidade e testes laboratoriais para que o
Brasil recupere o acesso ao mercado europeu.
Em um
momento de expansão de acordos comerciais, a restrição europeia cria um entrave
que ameaça a estabilidade e os ganhos econômicos das exportações
brasileiras, conclui a reportagem.
Anteriormente,
o governo brasileiro afirmou ter recebido "com
surpresa" a decisão da UE de retirar o Brasil da lista de países
autorizados a exportar produtos de origem animal destinados ao consumo humano
para o bloco europeu a partir de setembro de 2026, pois a medida ocorreu
no mesmo mês em que entrou em vigor o acordo de livre comércio Mercosul-UE, em
maio.
Em
nota, o governo afirmou que vai atuar para reverter a decisão e manter o fluxo
comercial com o mercado europeu. "O governo do Brasil tomará prontamente
todas as medidas necessárias para reverter essa decisão, voltar à lista de
países autorizados e garantir o fluxo de vendas desses produtos para o mercado
europeu, para o qual exporta há 40 anos."
<><> Uruguai espera se tornar um
polo para fertilizantes russos no Mercosul, diz ministro
O
Uruguai espera se tornar um centro de distribuição de fertilizantes russos no
Mercosul, declarou o ministro uruguaio da Pecuária, Agricultura e Pesca,
Alfredo Fratti, à Sputnik.
Fratti
afirmou que espera discutir com seu homólogo russo a possibilidade de iniciar
a produção de
fertilizantes com
investimento russo.
"Se
tivéssemos uma zona franca lá, poderíamos alcançar maior estabilidade de
preços. O Uruguai também se tornaria um centro para a região, porque o
Brasil, a Argentina e o Paraguai, que são membros do
Mercosul,
também precisam de fertilizantes, e estes poderiam ser importados do
Uruguai sem impostos", disse ele à margem do Fórum Econômico Internacional
de São Petersburgo (SPIEF, na sigla em inglês).
Conforme
lembrou o ministro, os preços dos
fertilizantes subiram acentuadamente devido à situação global. Para o
Uruguai, um dos principais produtores e exportadores de produtos
agrícolas, a questão dos preços e do fornecimento estável de fertilizantes
é particularmente crítica, acrescentou.
Fonte:
Diálogos do Sul Global/Opera Mundi/Sputnik Brasil

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