segunda-feira, 8 de junho de 2026

Tarifas, Pix, terrorismo e minerais críticos: como os EUA pressionam o Sul Global na disputa contra a China

Embora as últimas ações dos EUA contra o Brasil pareçam isoladas, elas fazem parte de uma mesma arquitetura de poder. Tarifas comerciais, a classificação de facções como terroristas, ameaças financeiras e a disputa por minerais críticos compõem, juntas, um dispositivo articulado de pressão multiescalar. Essa estratégia reposiciona o Brasil de forma complexa no tabuleiro da geopolítica contemporânea.

À primeira vista, a elevação de tarifas sobre produtos brasileiros pode ser interpretada como mais um capítulo do protecionismo na política externa estadunidense. No entanto, essas medidas adquirem outra dimensão quando observadas sob uma perspectiva geopolítica mais ampla.

Em um contexto de transição energética e intensificação da disputa tecnológica com a China, recursos como lítio e nióbio assumem papel estratégico nas cadeias globais de valor.

A reorganização dessas cadeias revela uma geopolítica da desigualdade, na qual países periféricos são pressionados a fornecer insumos sob condições assimétricas. Nesse sentido, ao manter tais recursos fora das tarifas, os Estados Unidos asseguram o suprimento enquanto reconfiguram as regras de sua exploração.

É dentro dessa lógica que os minerais críticos funcionam como o fio condutor de todas as decisões dos Estados Unidos, cujo objetivo final é reduzir a influência chinesa sobre setores estratégicos do Brasil e garantir a supremacia tecnológica de Washington.

É nesse terreno que a agenda securitária se articula à dinâmica econômica dos recursos estratégicos. Segundo reportagem de Lucas Macedo publicada pelo g1, facções como o PCC e o Comando Vermelho transformaram os crimes ambientais em uma engrenagem de financiamento, lavagem de dinheiro e poder regional. A extração ilegal de madeira, a grilagem e o tráfico de animais agora financiam armas e consolidam o controle do crime sobre a floresta.

Esse domínio, que se estende a zonas de mineração e a corredores logísticos, produz um cenário em que economia, ilegalidade e geopolítica se fundem, conectando a exploração da natureza diretamente às cadeias globais de recursos estratégicos. Ao classificar essas facções como  organizações terroristas, os Estados Unidos internacionalizam o problema e instituem um enquadramento jurídico sob medida para seus interesses.

A designação ativa ferramentas de sanção e vigilância financeira que, na prática, abrem caminho para Washington intervir nas cadeias de suprimento mineral brasileiras, sob o pretexto de asfixiar o financiamento do terrorismo.

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Esse movimento é estratégico e decisivo, pois, ao associar a exploração de minerais críticos ao financiamento do terrorismo, Washington cria um mecanismo de pressão sobre setores-chave da economia brasileira. O impacto dessa medida extrapola a segurança pública e reconfigura o ambiente de negócios, forçando empresas e fundos internacionais a operar sob um rígido regime de risco geopolítico, sujeito a sanções e bloqueios.

Diante disso, o verdadeiro objetivo estadunidense emerge de forma nítida: conter a expansão chinesa sobre os setores estratégicos do Brasil, limitando a capacidade do país asiático de investir na infraestrutura e na integração logística nacional.

É nesse ponto que surge uma ferramenta altamente eficaz chamada Seção 311 do USA PATRIOT Act. Promulgada em outubro de 2001 em resposta aos ataques de 11 de setembro, essa legislação antiterrorismo expandiu massivamente os poderes de vigilância e investigação das autoridades estadunidenses.

Segundo diretrizes do Departamento do Tesouro dos Estados Unidos, o dispositivo tem como um de seus principais objetivos combater os riscos de lavagem de dinheiro e o financiamento do terrorismo, fornecendo ao Tesouro estadunidense uma estrutura regulatória flexível e poderosa para proteger o sistema financeiro contra ameaças específicas.

Dito de outra maneira, não se trata de sancionar países, mas de neutralizar ameaças, aplicar penalidades apenas aos agentes considerados de interesse e induzir comportamentos por meio do temor da exclusão financeira.

Em outra frente de pressão, emerge a Seção 301, instrumento legal que autoriza o governo dos Estados Unidos a impor sobretaxas a parceiros comerciais sob a alegação de práticas discriminatórias contra empresas estadunidenses. O objetivo é punir práticas consideradas prejudiciais às corporações do país, por meio de retaliações que pressionam os países-alvo a reconfigurar suas leis em favor dos interesses de Washington.

Utilizando essa prerrogativa, o governo estadunidense encerrou uma ampla investigação comercial aberta contra o Brasil em julho do ano passado, cujo relatório final trazia o sistema Pix como um de seus alvos estratégicos. Segundo a BBC News Brasil, o documento afirma que “o Brasil tem prejudicado injustamente as empresas americanas que atuam em serviços concorrentes de pagamento eletrônico, inclusive por meio de políticas que favorecem seu campeão nacional, o Pix”.

A ofensiva fundamenta-se na alegação de que o ecossistema de pagamentos brasileiro produz distorções concorrenciais que afetam diretamente gigantes de tecnologia e operadoras de cartões, como Visa e Mastercard. Conforme detalha a BBC News Brasil, o Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) sustenta que há um conflito de interesses na atuação do Banco Central, que acumula as funções de regulador e gestor de uma plataforma pública, gratuita e de ampla utilização.

É a partir dessa leitura que Washington busca legitimar a abertura do sistema, criando condições para a reentrada e a expansão de corporações estrangeiras no mercado financeiro brasileiro. Nessa perspectiva, o Pix passa a ser enquadrado como um mecanismo de intervenção estatal que limita a concorrência e compromete a atuação de provedores internacionais.

A articulação entre essas três dimensões — a comercial, a securitária e a financeira — indica uma mudança na forma como o poder é exercido no cenário internacional. Já não se faz necessário recorrer a invasões diretas ou a bloqueios totais contra um país. As estratégias tornaram-se mais sutis e passam a operar de maneira coordenada, produzindo efeitos semelhantes por vias indiretas.

Nesse contexto, o alvo deixa de ser apenas a economia brasileira e passa a incidir sobre a soberania dos países, particularmente sobre sua capacidade de exercer autonomia decisória em áreas estratégicas.

O que está em jogo é a inserção do Brasil em uma nova geografia do poder global. Uma geografia marcada por zonas de influência, corredores estratégicos e territórios disputados não por meio de ocupações militares, mas por mecanismos de regulação, financiamento e controle de fluxos.

Diante desse tabuleiro geopolítico, a questão que permanece é: será que o Brasil conseguirá navegar em um ambiente internacional sem abrir mão de sua autonomia e de sua soberania? Ou seremos, mais uma vez, capturados pelas engrenagens de uma ordem internacional que redefine, silenciosamente, os termos da nossa dependência?

¨      BRICS garante desenvolvimento global, diz analista ao comentar êxitos do bloco citados por Putin

Os fortes resultados econômicos dos países do BRICS, sobre os quais Vladimir Putin falou no SPIEF 2026, indicam que o bloco desempenha um papel crucial no caminho para o desenvolvimento global com o envolvimento ativo dos países do Sul Global, disse à Sputnik Pavel Goncharov, analista financeiro e diretor da empresa de consultoria Goncharoff LCC.

Durante a sessão plenária do Fórum Econômico de São Petersburgo 2026, o presidente russo disse que quase metade do crescimento do PIB global nos últimos cinco anos foi fornecida pelos países do BRICS, enquanto o G7 teve apenas 18%.

Além disso, a participação dos países do BRICS no PIB mundial em paridade de poder de compra é de cerca de 40%, enquanto a parcela dos países do G7 é inferior a 29%, acrescentou o líder russo.

"Assim que os restritivos corredores financeiros tradicionais, expressos em dólar ou euro, ou mecanismos como o SWIFT, forem substituídos, os freios serão liberados e o potencial do Sul Global, tanto político quanto econômico, poderá refletir a real dinâmica soberana", opinou Goncharov.

Segundo ele, os países-membros do BRICS e os países associados ao bloco são relativamente livres social, política e economicamente.

Por isso, tendem a tomar medidas pragmáticas em vez de optar por "experimentos sociais irrealistas", muitas vezes a mando de um centro político como os Estados Unidos ou a União Europeia, sem relação com as características culturais ou econômicas do país.

"A diferença [entre o Ocidente coletivo e o BRICS] é óbvia, como evidenciam os dados dos últimos cinco anos", resumiu o especialista.

Ao discursar no SPIEF 2026, Vladimir Putin destacou que o foco do comércio global e do sistema financeiro internacional continuará a mudar, com o crescimento da liderança dos países do BRICS na economia global.

¨      Acordo Mercosul-Canadá avança em décima rodada de negociações

As negociações para a conclusão do acordo de livre comércio entre o Mercosul e o Canadá avançaram com um encontro de grupos temáticos na cidade de Toronto (CA), entre os dias 25 e 29 de maio.

O encontro, a X Rodada Negociadora do Acordo de Livre Comércio entre o Mercosul e o Canadá, aprofundou as discussões para a consolidação do tratado, que haviam sido retomadas em outubro do ano passado.

Em 2025 as negociações do país anglófono tiveram aumento considerável com o Brasil, após ambos terem sido afetados pelas barreiras comerciais do governo dos Estados Unidos. O fluxo de comércio entre Brasil e Canadá alcançou US$ 10,4 bilhões no ano passado. As exportações brasileiras para o mercado canadense somaram US$ 7,3 bilhões em 2025, com crescimento de 14,8% em relação ao ano anterior e recorde histórico da série.

As negociações retomadas em outubro passado, refletem o interesse das partes em aprofundar as relações econômicas e comerciais, promovendo o fortalecimento do comércio bilateral e uma maior integração produtiva entre as economias do Mercosul e do Canadá.

O encontro ao final de maio teve destaque para as reuniões presenciais dos grupos técnicos sobre comércio de bens, serviços e serviços financeiros, entrada temporária de pessoas a negócios, regras de origem, propriedade intelectual, salvaguardas bilaterais, desenvolvimento sustentável, comércio inclusivo e temas legais e institucionais.

Além das discussões técnicas o ministro de comércio internacional do Canadá, Maninder Sidhu, recebeu os negociadores-chefes do Mercosul.

Ao longo da décima rodada, cinco capítulos do Acordo avançaram para a etapa de encerramento de negociações. A previsão das partes é de concluir o acordo em novos encontros, ainda no primeiro semestre, com data a definir. No encontro anterior, no final de abril, as discussões se desenvolveram em torno das regras de origem, propriedade intelectual, barreiras sanitárias e fitossanitárias e comércio e desenvolvimento sustentável.

A retomada das negociações em bloco tem sido uma prioridade da gestão atual do Mercosul, presidida pelo governo paraguaio. O acordo com a União Europeia começou a vigorar em 1º de maio.

O bloco também tem avançado nas discussões com outros países da América Latina, como Chile, Equador, Colômbia e Peru, além do progresso nas discussões com os Emirados Árabes Unidos e com o bloco EFTA, composto por Islândia, Liechtenstein, Noruega e Suíça.

¨      Acordo Mercosul-UE fracassou? Europa oficialmente proíbe exportação da carne do Brasil, diz mídia

A União Europeia (UE) oficializou um veto à importação de carne do Brasil, que entrará em vigor em setembro, escreve o jornal O Globo.

O jornal destaca que a UE retirou o Brasil da lista de nações que cumprem as regras sobre o uso de antimicrobianos na pecuária.

"A UE publicou, na quinta-feira [4], um documento oficializando a sua decisão de excluir o Brasil da lista de países que cumprem as suas regras contra o uso excessivo de antimicrobianos na pecuária. Com isso, o Brasil fica proibido de exportar carne para o bloco a partir de 3 de setembro deste ano", ressalta a publicação.

Ao exigir comprovações que Brasília não apresentou nos prazos definidos, o bloco impõe barreiras técnicas que podem prejudicar a competitividade das exportações brasileiras. A exclusão afeta diversos produtos essenciais, como carne bovina e de frango, pescado e mel, ampliando as perdas potenciais para os produtores e as cadeias de valor.

A medida aumenta as incertezas para os empresários e pode gerar custos adicionais com certificação, rastreabilidade e testes laboratoriais para que o Brasil recupere o acesso ao mercado europeu.

Em um momento de expansão de acordos comerciais, a restrição europeia cria um entrave que ameaça a estabilidade e os ganhos econômicos das exportações brasileiras, conclui a reportagem.

Anteriormente, o governo brasileiro afirmou ter recebido "com surpresa" a decisão da UE de retirar o Brasil da lista de países autorizados a exportar produtos de origem animal destinados ao consumo humano para o bloco europeu a partir de setembro de 2026, pois a medida ocorreu no mesmo mês em que entrou em vigor o acordo de livre comércio Mercosul-UE, em maio.

Em nota, o governo afirmou que vai atuar para reverter a decisão e manter o fluxo comercial com o mercado europeu. "O governo do Brasil tomará prontamente todas as medidas necessárias para reverter essa decisão, voltar à lista de países autorizados e garantir o fluxo de vendas desses produtos para o mercado europeu, para o qual exporta há 40 anos."

<><> Uruguai espera se tornar um polo para fertilizantes russos no Mercosul, diz ministro

O Uruguai espera se tornar um centro de distribuição de fertilizantes russos no Mercosul, declarou o ministro uruguaio da Pecuária, Agricultura e Pesca, Alfredo Fratti, à Sputnik.

Fratti afirmou que espera discutir com seu homólogo russo a possibilidade de iniciar a produção de fertilizantes com investimento russo.

"Se tivéssemos uma zona franca lá, poderíamos alcançar maior estabilidade de preços. O Uruguai também se tornaria um centro para a região, porque o Brasil, a Argentina e o Paraguai, que são membros do Mercosul, também precisam de fertilizantes, e estes poderiam ser importados do Uruguai sem impostos", disse ele à margem do Fórum Econômico Internacional de São Petersburgo (SPIEF, na sigla em inglês).

Conforme lembrou o ministro, os preços dos fertilizantes subiram acentuadamente devido à situação global. Para o Uruguai, um dos principais produtores e exportadores de produtos agrícolas, a questão dos preços e do fornecimento estável de fertilizantes é particularmente crítica, acrescentou.

 

Fonte: Diálogos do Sul Global/Opera Mundi/Sputnik Brasil

 

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