Velocidade
de 'moto', tímido, mas já 'bailador': como era o pequeno Vini Jr, segundo seu
primeiro técnico
Quando
vê Vinícius Jr se consagrando como
artilheiro da seleção na Copa do Mundo 2026, o técnico Cacau Beraldini reconhece
a criança com quem trabalhou 20 anos atrás.
Ele
enxerga a mesma garra, velocidade e personalidade que via desabrochar quando o
pequeno Vini — que era muito tímido fora do jogo — entrava em campo e se soltava.
"É
o mesmo menino que iniciou lá atrás. Um jogador que vai para cima do
adversário, e pode errar uma primeira vez, uma segunda vez, que vai tentar de
novo, com muita personalidade e velocidade", diz Carlos Eduardo Beraldini,
conhecido por todos como Cacau.
"E
comemorando todos os gols com uma dancinha. Isso ele já fazia quando criança.
Não é para provocar o adversário, ele adora dançar."
Era
2006 quando Vinícius José Paixão de Oliveira Jr. — que nasceu em 12 de julho de
2000 e faz aniversário uma semana antes da final desta Copa — chegou na
Escolinha do Flamengo no bairro do Mutuá, no município de São Gonçalo, região
metropolitana do Rio.
Levado
pelo pai, Vinicius José, ele foi recebido por Cacau e sua esposa Valéria
Beraldini, que cuidam da escolinha onde cerca de 200 crianças aprendem os primeiros lances.
A
família morava a 3 km dali, em um bairro pobre, Porto do Rosa. Vini já era bom
de bola e passava horas brincando com a molecada na rua.
Com
intervalos para empinar pipa e jogar bolinha de gude, foi ali que aprendeu
"os melhores dribles", como o craque destacou na vida adulta
lembrando a infância.
Na rua,
começou a aprender cedo o domínio da bola que mais tarde o levaria ao Real
Madrid, em 2018.
Eleito
melhor jogador do mundo pela Fifa, em 2024, conquistou duas Champions League
pelo clube — marcando gols nas finais das temporadas 2021/22 e 2023/24 — e,
nesta Copa 2026, alcançou um feito histórico ao balançar as redes em todos os
jogos da fase de grupos, quatro ao todo.
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'O Vini atropelava todo mundo'
Mas a
chegada daquele Vini mirim à Escolinha do Flamengo impôs uma dificuldade para
Cacau.
"Era
muito fácil. O Vini pegava a bola e saía driblando todo mundo. Às vezes tinha
até reclamação de alguns pais. Então logo botamos ele para treinar com os mais
velhos", lembra o técnico.
"Mas
nem os mais velhos criavam dificuldade para ele. O Vini atropelava todo
mundo."
Dos 7
aos 10 anos, Vini se dividiu entre duas escolas de futebol, entrando também no
futsal do Canto do Rio, clube centenário de Niterói.
A
modalidade foi importante para que aprimorasse "dribles curtos, pensamento
rápido, ações de momento", como Vini destacou em entrevista ao site do
clube ao ser contratado pelo Real Madrid.
"Na
época, era muito pequeno, não pensava muito em jogar, ganhar dinheiro, essas
coisas. Só queria me divertir e até hoje jogo assim."
A
partir dos 8 ou 9 anos, Cacau conta que começaram a levá-lo para competições. E
aí teve certeza de que aquele menino tinha "algo bem diferente".
"Ele
era muito acima dos outros", lembra.
"Com
a bola, ele sempre demonstrava muita velocidade tanto no raciocínio quanto na
execução das jogadas. Ele antevia jogadas, coisa que os outros meninos tinham
mais dificuldade para fazer."
Atletas
adversários e pais de outros jogadores se admiravam. "Para pegar esse
menino aí, não tem como, só se for de moto – ele é muito rápido!",
relembra Cacau.
"Passamos
a ver ali uma possibilidade muito grande de ele seguir em frente com
sucesso."
Em
2010, Vini passou no teste para o juvenil do Flamengo, vitória que inaugurou
anos de périplos árduos para treinar. Era preciso atravessar a ponte
Rio-Niterói e chegar até a outra ponta do Rio de Janeiro para treinar no Ninho
do Urubu, centro de treinamentos do Flamengo na zona oeste, a 70km de São
Gonçalo.
Cacau
lembra que a mãe de Vini, Fernanda, precisava ir com o filho até a sede do
Flamengo na Gávea, na zona sul do Rio, onde o atleta, que nem adolescente era
ainda, pegava o ônibus do clube até o Ninho.
Ela
ficava esperando horas na sede da Gávea até o filho retornar, para então
pegarem o ônibus de volta para São Gonçalo.
O pai
de Vini foi trabalhar em São Paulo para conseguir mais dinheiro para a família
nessa época — realidade que só mudou depois que Vini começou a ganhar bem e
pediu para o pai voltar para o Rio e começar a trabalhar com ele.
"A
família do Vini tem uma parte muito grande no que ele é hoje. Eles se dedicaram
totalmente para que o Vini pudesse treinar, tanto na escolinha quanto na base
do Flamengo. Teve muito sacrifício de sua mãe e do seu pai. Sua família era
muito humilde, mas muito batalhadora e trabalhadora", lembra Cacau.
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Sucesso compartilhado
Mesmo
que o sucesso começasse a levá-lo para longe, Vini se manteve fiel às raízes em
São Gonçalo.
"Sempre
que ganhava troféus na base do Flamengo, ele os trazia para a escola para
repartir a experiência com as crianças", lembra Cacau.
Foi
assim com os primeiros troféus que ganhou atuando pela base no Flamengo; e foi
assim até o Campeonato Sul-Americano sub-17, quando voltou para a escolinha em
Mutuá tirando fotos e distribuindo autógrafos para as crianças.
"Era
muito gratificante para todos nós ver sua evolução e seu crescimento", diz
o técnico.
Mas o
desempenho no Campeonato Sul-Americano, onde além de campeão, foi melhor
jogador e artilheiro, chamou atenção de clubes internacionais, e o sucesso
levou Vini para muito mais longe de casa.
Com
apenas 17 anos, pouco tempo após entrar no time principal do Flamengo, teve a
venda para o Real Madrid firmada pelo clube carioca de onde era
"cria". O valor de 45 milhões de euros foi a segunda transferência
mais cara do futebol brasileiro na época.
Mas a
imagem do filho ilustre ainda é marcante nos locais por onde passou em São
Gonçalo. Na escolinha em Mutuá, estão expostos troféus de competições de que
Vini participou, muitas fotos de seu passado, e dois banners gigantes do craque
já adulto nas laterais do campo, inspirando as crianças durante os treinos.
"Para
a gente é um orgulho muito grande fazer parte de uma pontinha dessa história do
Vini", diz Cacau.
Na
Escola Municipal Paulo Reglus Neves Freire, onde Vini estudou na infância, o
craque se faz presente com as ações do Instituto Vini Jr., ONG que desenvolve
ações voltadas para a educação por meio da tecnologia e do esporte e busca combater o racismo.
No
centro de São Gonçalo, um mural de quase 8 metros de altura com a imagem de
Vini levando a mão direita ao peito em agradecimento simboliza sua importância
para o município. Foi pintado pelo grafiteiro gonçalense Siri do Muro, nome
artístico de Vinícius Medeiros, após Vini ser eleito melhor jogador do mundo
pela Fifa, em 2024.
"O
Vini é um símbolo aqui na cidade. Ele fez a gente olhar para dentro de nós e
entender que nada é impossível. Com dedicação e foco, é possível alcançar um
sonho", afirma o grafiteiro.
Ao lado
do mural, o orgulho está estampado em letras garrafais: "Nosso cria de São
Gonça! É o melhor do mundo! Vini Jr."
O sonho
na escolinha não é apenas com o hexacampeonato. É "chegar à final e vencer
com gols do Vini", diz Cacau. "Seria fantástico!"
E
então, quem sabe, o filho ilustre possa fazer mais uma visita para compartilhar
um certo troféu e distribuir autógrafos em São Gonçalo. "Vamos esperar o
Vini aqui, se Deus quiser, se ele conseguir trazer esse hexa. A gente o espera
sempre de portas abertas, ele sabe muito bem disso. Sabe o carinho que todos
nós temos por ele aqui."
Fonte:
BBC News Brasil

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