segunda-feira, 29 de junho de 2026

A briga pública cada vez mais acirrada entre Trump e premiê da Itália

Circula nas redes sociais italianas um meme gerado por inteligência artificial que mostra Giorgia Meloni fazendo tudo o que se poderia esperar de alguém que acabou de sair de um difícil fim de relacionamento. Em uma foto falsa, ela aparece com um novo corte de cabelo; em outras, é imaginada reservando férias em um lugar só para solteiros, treinando para uma maratona e criando um perfil em um aplicativo de namoro. Claro que nenhuma das imagens é real, mas a piada funciona porque capta o desentendimento político muito público entre a primeira-ministra da Itália e o presidente dos EUA, Donald Trump.

Nos últimos meses, a relação entre os dois passou de ataques públicos a insultos pessoais, esfriando o que costumava ser uma das alianças mais em evidência da política mundial. Não faz muito tempo que Meloni era chamada de "a encantadora de Trump" (Trump whisperer), e foi a única líder europeia com assento na primeira fila na sua posse, em janeiro de 2025. Em abril, ela também foi a líder da União Europeia escolhida para ir à Casa Branca para uma reunião destinada a aliviar as tensões sobre as tarifas dos EUA sobre produtos europeus.

Para alguém que começou nas margens da política italiana, com raízes na tradição pós-fascista do país, e que passou anos tentando se reposicionar como um rosto moderado e confiável da direita europeia, essa proximidade com Trump nunca foi vista apenas como um vínculo diplomático útil. Era a prova, no maior palco possível, de que ela pertencia àquele espaço. Mas a imprevisibilidade de Trump se mostrou difícil de lidar para Meloni, afetando sua credibilidade tanto no cenário nacional quanto internacional.

A primeira ruptura veio no fim de março, quando o Ministério da Defesa da Itália recusou permitir que aeronaves militares dos EUA com destino ao Oriente Médio utilizassem a base aérea da Otan em Sigonella, na Sicília, sem aprovação do Parlamento — uma decisão baseada na Constituição italiana e na forte oposição pública à guerra. Semanas depois, o embate se intensificou.

Trump atacou o papa Leão 14 na rede Truth Social em abril, por causa das críticas do pontífice à guerra — chamando-o de "fraco no combate ao crime". Meloni, que governa um país profundamente católico, classificou o ataque como "inaceitável". Trump não reagiu bem. "Estou chocado com ela", disse ao jornal italiano Corriere della Sera. "Achei que ela fosse corajosa, mas me enganei." Ele acrescentou: "Ela é inaceitável… não é a mesma pessoa, a Itália não é o mesmo país."

Neste mês, as coisas pareciam melhorar. Na cúpula do G7 em Évian-les-Bains, na França, Trump e Meloni foram fotografados conversando intensamente em um sofá, e autoridades italianas falaram em uma "conversa esclarecedora". Meloni disse a jornalistas que o clima havia sido "muito positivo", sem "atritos". Os jornalistas mal tiveram tempo de publicar a matéria antes de tudo desmoronar novamente.

Dias depois, Trump disse à emissora italiana La7 que Meloni havia "implorado" por uma foto na cúpula, em uma entrevista por telefone dublada em italiano e nunca exibida em inglês. "Ela queria uma foto comigo desesperadamente", disse a dublagem em italiano de Trump. "Eu não teria tirado, mas fiquei com pena dela."

Meloni não demorou a responder. Postou um vídeo, em italiano, chamando o relato de Trump de "totalmente inventado". "Não sei por que o presidente dos EUA se comporta dessa maneira com seus próprios aliados", disse. "Só posso dizer que é uma pena que ele não demonstre a mesma firmeza com os inimigos do Ocidente… Mas há uma coisa de que ele deve se lembrar: nem eu nem a Itália jamais imploramos."

O ministro das Relações Exteriores da Itália, Antonio Tajani, cancelou uma viagem planejada a Washington. A reação na Itália foi rápida e atravessou todo o espectro político. O presidente italiano, Sergio Mattarella, telefonou para expressar solidariedade. Integrantes do governo de Meloni e parlamentares classificaram as declarações como ofensivas, prejudiciais à dignidade da Itália e merecedoras de desculpas, enquanto membros da oposição condenaram os comentários como uma afronta inaceitável ao país como um todo.

Trump reafirmou sua posição em Camp David, insistindo na Truth Social que ela havia pedido a foto "repetidas vezes" e acusando-a de tentar voltar a ser "amiga" agora que os EUA haviam "derrotado militarmente o Irã". Quando essa disputa parecia esfriar, outra controvérsia foi reaberta sobre bases militares.

<><> Disputa sobre bases militares

Na última quarta-feira, o secretário-geral da Otan, Mark Rutte, disse à Fox News que cerca de 500 aeronaves dos EUA decolaram de bases americanas na Itália em apoio à Operação Epic Fury, o codinome para a campanha EUA-Israel contra o Irã. Isso fazia parte de um apoio europeu mais amplo, que, segundo ele, totalizou milhares de voos pelo continente. Roma não reagiu bem.

O Ministério da Defesa da Itália classificou a declaração de Rutte como "falaciosa" e "totalmente enganosa", insistindo que autorizou apenas voos técnicos e logísticos, não operações de combate, e que recusou qualquer pedido que ultrapassasse esse limite. Um porta-voz da Otan esclareceu posteriormente que Rutte apenas quis destacar como os aliados, incluindo a Itália, cumpriram acordos bilaterais existentes sobre bases. Essas declarações geraram uma controvérsia política na Itália, onde o governo de Meloni tem reiterado que não autorizou o uso do território italiano para ações militares diretas contra o Irã. Para Meloni, que enfrentou meses difíceis após sua recente derrota em um referendo constitucional e terá eleições no próximo ano, algumas grandes questões permanecem.

Como ela vai se reposicionar no espectro político internacional? Qual será o próximo passo em sua aliança desconfortável com Emmanuel Macron, da França, durante tanto tempo seu "rival-amigo", mas agora cada vez mais importante para sua posição? E, acima de tudo, será que ela e Trump vão se reconciliar? "Esta pode ser uma situação difícil de reverter", disse Gianni Riotta, autor e vice-presidente do Conselho para os Estados Unidos e Itália. "A capacidade de Meloni de construir uma ponte agora parece uma mera ilusão, ela não conseguiu se posicionar entre a Europa e os EUA", disse à BBC. "Ela tentou agradar os dois lados, sobre a Ucrânia, sobre as tarifas. Então o Papa rompeu isso: ela teve que apoiá-lo, e Trump não aceita isso. Trump tem uma visão de amigo ou inimigo desde seus tempos no mercado imobiliário em Nova York — ou você está comigo ou contra mim — e, uma vez que esse entendimento se rompeu, ele pressionou mais, e Meloni reforçou sua imagem de mulher dura." Nos círculos diplomáticos de Roma, ninguém quer uma ruptura total.

Relatos no início desta semana sugeriam que vários ministros do governo estavam prontos para faltar à recepção do Dia da Independência da Embaixada dos EUA na Villa Taverna, antecipada este ano para 2 de julho, em solidariedade a Meloni, que não deve comparecer de qualquer forma. Esse clima desde então se suavizou. Tajani disse que irá "de cabeça erguida", e aliados da primeira-ministra agora indicam que a conversa sobre boicote esfriou para uma postura mais discreta de "cada um é livre para fazer o que quiser". Mas o verdadeiro teste virá na cúpula da Otan em Ancara, no início do próximo mês, quando Trump e Meloni devem estar, pela primeira vez desde o G7, novamente na mesma sala.

¨      A troca de farpas entre Trump e Meloni: 'Nem eu nem a Itália imploramos nada. Trump é mentiroso'

A primeira-ministra da Itália, Giorgia Meloni, afirmou ter ficado "surpresa" com a declaração à TV italiana do presidente americano, Donald Trump, de que ela teria "implorado" por uma foto com ele, o que gerou divergências entre os dois líderes.

Meloni afirmou que os comentários de Trump foram completamente "inventados" e o ministro das Relações Exteriores da Itália, Antonio Tajani, cancelou uma viagem para os Estados Unidos programada para o início da semana que vem. A troca de farpas em público indica como os antigos laços próximos entre os dois chefes de governo se deterioraram nos últimos meses, desde que Trump decidiu ir à guerra contra o Irã.

Nesta semana, Trump e Meloni foram observados mantendo conversações próximas durante a cúpula do G7, em Evian-les-Bains, no leste da França. E a líder italiana declarou aos repórteres que suas relações estavam inalteradas e "não houve recriminações". Mas, em uma entrevista posterior ao canal de TV italiano La7 por telefone, Trump afirmou: "Ela me implorou para tirar uma foto com ela; fiquei com pena dela."

Trump e Meloni foram filmados diversas vezes na França. Em uma das imagens, eles pareciam envolvidos em uma conversa em um pequeno sofá, com a primeira-ministra sorrindo enquanto eles falavam. "Provavelmente, ela está feliz porque falei com ela", disse Trump. A La7 não transmitiu as palavras originais de Trump em inglês, mas sim a dublagem em italiano. Meloni reagiu em total descrença, declarando estar "francamente atordoada", em um breve pronunciamento no Instagram, para seus sete milhões de seguidores. "Não sei por que o presidente dos Estados Unidos se comporta desta forma em relação a aliados", disse ela, destacando que não foi a primeira vez em que isso aconteceu. "Só o que posso dizer é que é lamentável que ele não demonstre a mesma determinação em relação aos inimigos do Ocidente e aos inimigos dos Estados Unidos, cujos líderes ele trata com muito mais indulgência. Mas ele precisa se lembrar de uma coisa: nem eu, nem a Itália, nunca imploramos", concluiu Meloni. A BBC entrou em contato com a Casa Branca, pedindo comentários sobre o episódio.

¨      O que está por trás da troca de farpas entre Trump e Giorgia Meloni

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, entrou em atrito com mais uma liderança mundial. Desta vez, o alvo é a primeira-ministra da Itália, Giorgia Meloni. Antes aliados próximos, os dois passaram a trocar críticas nos últimos dias.

Em um primeiro momento, o papa Leão XIV aparenta ser o pivô da crise. Meloni criticou Trump após o presidente norte-americano chamar o pontífice de “fraco”, no domingo (12), por condenar a guerra no Irã.

“Considero inaceitáveis as palavras do presidente Trump em relação ao Santo Padre. O papa é o líder da Igreja Católica, e é correto e natural que ele peça paz e condene todas as formas de guerra”, afirmou a premiê, em comunicado divulgado na segunda-feira (13).

A resposta veio um dia depois. Em entrevista ao jornal italiano Corriere della Sera, Trump disse estar “chocado” com a postura da líder italiana e afirmou acreditar que ela não tinha coragem.

“Ela não é mais a mesma pessoa, e a Itália nunca mais será o mesmo país.”

Apesar do episódio envolvendo Leão XIV, o distanciamento entre Trump e Meloni começou meses antes.

Analistas ouvidos pelo jornal The New York Times avaliam que a premiê aproveitou o momento para sinalizar ao público interno um afastamento do presidente norte-americano, em meio a pesquisas que indicam aumento da impopularidade de ambos entre eleitores italianos.

👉 Entenda a seguir como Trump e Meloni se aproximaram e se afastaram.

Ponte com os EUA

Meloni sempre foi vista como uma das líderes europeias mais próximas de Trump. Os dois compartilhavam posições semelhantes em temas como combate à imigração ilegal e críticas a agendas progressistas, classificadas por eles como “woke”.

A aproximação começou antes mesmo de Meloni chegar ao poder.

  • Em 2018, ela recebeu o ex-conselheiro de Trump Stephen Bannon em uma conferência conservadora na Itália, quando ainda era considerada uma política em ascensão.
  • No ano seguinte, Meloni participou de um evento conservador nos Estados Unidos. Ela discursou no mesmo dia que Trump.

Quando Trump retornou à Casa Branca, em 2025, Meloni foi a única líder europeia presente na cerimônia de posse, em Washington. A premiê elogiava com frequência as políticas do republicano e passou a ser vista como um nome de confiança dos EUA na Europa.

O clima começou a mudar em abril do ano passado, quando Trump anunciou tarifas comerciais contra dezenas de países, incluindo aliados europeus. Meloni afirmou que os Estados Unidos estavam tomando a decisão errada ao taxar produtos do continente.

Ainda assim, naquele mesmo mês, a premiê viajou a Washington e se reuniu com Trump na Casa Branca. O encontro, realizado diante de jornalistas no Salão Oval, foi marcado por elogios mútuos. Meloni chegou a ser apontada como uma possível ponte entre EUA e Europa.

Em outubro, os dois protagonizaram um momento inusitado durante um evento no Egito para a assinatura de um acordo de cessar-fogo na Faixa de Gaza.

“Na América, se você disser a uma mulher que ela é bonita, sua carreira política acabou. Mas eu assumo o risco”, disse Trump durante o discurso. Em seguida, virou-se para Meloni, que estava atrás dele, e disse:

“Você não vai se ofender se eu disser que você é linda, vai? Porque você é.”

A premiê sorriu e manteve o bom humor enquanto Trump a descrevia como “incrível” e “bem-sucedida”. Em outros momentos do evento, porém, ela aparentou estar entediada.

<><> Crise

A relação ganhou novos contornos em janeiro, quando Trump voltou a defender a anexação da Groenlândia, território autônomo sob soberania da Dinamarca.

A proposta foi rejeitada por países europeus, que chegaram a enviar militares para exercícios na ilha. Questionada sobre o assunto em uma coletiva de imprensa, Meloni tentou se equilibrar entre um tom conciliador e outro mais firme.

“Não acredito na hipótese de os EUA iniciarem uma ação militar na Groenlândia, com a qual eu não concordaria”, afirmou. “Acredito que o governo Trump, com seus métodos muito assertivos, está chamando a atenção para a importância estratégica da Groenlândia.”

Em fevereiro, quando os EUA atacaram o Irã em uma ação conjunta com Israel, a Itália foi surpreendida. O ministro da Defesa italiano estava de férias nos Emirados Árabes e precisou ser resgatado em um jato militar. O caso virou alvo de deboche da oposição.

“Por meses nos contaram que Meloni era a ponte entre Trump e a Europa. Hoje descobrimos que a Casa Branca avisou sobre a operação no Irã britânicos, franceses, alemães e até poloneses. Todos, menos nós, italianos. Que vergonha!”, escreveu o líder da oposição, Matteo Renzi.

Rapidamente, pesquisas apontaram que os italianos não apoiavam a ofensiva norte-americana. Além disso, a guerra fez os preços de gás e energia subirem no país. Tudo isso ocorreu no mesmo mês em que a Itália iria às urnas para votar uma reforma do Judiciário apoiada por Meloni.

Diante desse cenário, a premiê passou a condenar a guerra.

  • Nos primeiros dias do conflito, ela afirmou estar preocupada com o conflito e disse que os Estados Unidos agiram sem consultar aliados europeus.
  • Dias depois, Meloni declarou que a Itália não participaria da guerra.
  • Além disso, o ministro da Defesa italiano afirmou que o ataque contra o Irã “ocorreu fora das normas do direito internacional”.
  • Em mais um gesto, Meloni se recusou a permitir que caças dos Estados Unidos utilizassem uma base aérea na Sicília em operações de combate no Irã.

Ainda assim, a premiê acabou derrotada no referendo sobre a reforma judicial. O resultado fortaleceu a oposição, que enfrentava dificuldades em combater as políticas do governo.

<><> Oportunidade

Segundo o The New York Times, especialistas avaliam que Meloni pode ter se aproveitado da crise entre Trump e o papa para romper com o presidente norte-americano. Analistas acreditam que um afastamento definitivo poderia mudar a percepção de eleitores italianos incomodados com os EUA.

Na terça-feira (14), em mais um movimento nesse sentido, ela anunciou que a Itália não renovaria um acordo de defesa com Israel. A medida foi adotada após disparos de advertência atingirem um comboio italiano que integra a missão de paz da ONU no sul do Líbano.

  • 🔎 A decisão, segundo analistas ouvidos pela Associated Press, foi motivada mais pela política interna do que por uma mudança estratégica.

Enquanto isso, o ministro das Empresas e do Made in Italy, Adolfo Urso, afirmou que as relações entre Estados Unidos e Itália não serão abaladas pela controvérsia envolvendo o papa Leão.

“Itália e Estados Unidos são países aliados e mantêm sua relação e aliança dentro das instituições internacionais, começando, obviamente, pela Aliança Atlântica”, disse em entrevista à Radio 24.

Já Trump insistiu nesta quarta-feira que a relação entre os dois países se deteriorou. “Ela tem sido negativa”, disse em entrevista à Fox News.

“Qualquer um que se recusou a nos ajudar nessa questão do Irã não tem mais o mesmo relacionamento conosco.”

Por outro lado, Mariangela Zappia, ex-embaixadora da Itália nos Estados Unidos, afirmou que a crise pessoal entre Meloni e Trump não deve afetar as relações entre os dois países. Segundo ela, Trump tem agido de forma impulsiva após se frustrar com a Europa em relação ao Irã.

“A Europa considera absolutamente os Estados Unidos um aliado histórico, mas, de certa forma, quer participar das decisões que são tomadas”, disse Zappia à Associated Press.

 

Fonte: BBC News Mundo/g1

 

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