Gavin
Moulton: Quando a Igreja Ortodoxa era vermelha
Em
2025, o jovem estadunidense convertido à Igreja Ortodoxa Russa e apresentador
de podcast, Conrad Franz, visitou Donbas, na Ucrânia ocupada, em uma viagem de
imprensa patrocinada pela instituição religiosa. Nas redes sociais, Franz
publicou fotos com soldados russos segurando uma bandeira com um ícone de
Cristo e se gabou de ter recebido uma medalha da Brigada de Foguetes Czar
Nicolau II. Para Franz, vivenciar uma região devastada pela guerra foi
revigorante. Ao relembrar a viagem, ele comentou que “a vida parece muito mais
real lá”.
Assim
como a Igreja Ortodoxa Russa, sediada em Moscou, que apoiou fortemente a
invasão russa, Franz vê a guerra em termos morais, chegando a se
referir aos soldados
ucranianos como “satanistas”. Após retornar a Moscou, ele elogiou a
reconstrução da Catedral de Cristo Salvador em Moscou — um símbolo da
reintegração da Igreja e do Estado russos por Vladimir Putin — como um exemplo
de “algo que um governo cristão é capaz de fazer”.
A
celebração do autoritarismo cristão e da política de extrema-direita por Franz
é comum em um movimento pequeno, porém crescente, de homens convertidos à
ortodoxia nos Estados Unidos. Provenientes principalmente das regiões Sul e
Sudoeste do país, esses novos convertidos buscam uma versão mais antiga e
rigorosa do cristianismo, desprovida de recursos tecnológicos ou da estética
contemporânea. Diferentemente do protestantismo tradicional e do
evangelicalismo moderno, a autoridade hierárquica inquestionável, o patriarcado
estrito e a valorização da beleza estética da ortodoxia russa oferecem uma
visão alternativa do cristianismo para aqueles insatisfeitos com a corrente
religiosa dominante nos EUA. Buscando uma conexão com o passado ausente nas
megaigrejas que mais parecem galpões, os convertidos são atraídos pelas cúpulas
em forma de cebola, ícones e padres de barbas longas das igrejas russas. A
guinada à direita da ortodoxia, incluindo a condenação dos direitos LGBTQ+ e o
conservadorismo social da Rússia de Putin, é igualmente atraente para os
protestantes convertidos que discordam das alas progressistas de suas antigas
denominações.
Historicamente,
a ortodoxia nos EUA — que representa aproximadamente 1% da população — tem sido
composta por migrantes do Leste Europeu e do Oriente Médio. Os dois maiores
grupos ortodoxos nos Estados Unidos são a Arquidiocese Ortodoxa Grega dos EUA e
a Igreja Ortodoxa nos EUA (OCA, na sigla em inglês), a filial estadunidense da
Igreja Ortodoxa Russa. A OCA adotou seu nome atual em 1970, quando Moscou lhe
concedeu independência. Como a ortodoxia era frequentemente associada a um
grupo étnico e derivava autoridade de patriarcas estrangeiros, existem muitas
jurisdições ortodoxas nos Estados Unidos, incluindo as igrejas armênia,
antioquena, cárpato-russa, ucraniana e sérvia. Mas os convertidos estão
concentrados principalmente na Igreja Antioquena e na OCA, devido às suas
numerosas igrejas com cultos em língua inglesa e padres convertidos.
A
ortodoxia de direita buscada pelos convertidos estadunidenses de hoje, no
entanto, é apenas uma parte da longa história da Igreja Russa nos Estados
Unidos. Construída por migrantes da classe trabalhadora em cidades mineiras e
industriais, as raízes da ortodoxia russa são mais comunitárias e rebeldes do
que os novos convertidos poderiam esperar. O
novo livro do
estudioso de religião Aram Sarkisian, Orthodoxy on the line: Russian
orthodox migrants and labor migration in the progressive era, investiga a
história radical da ortodoxia russa no Centro-Oeste e Nordeste dos EUA a partir
de jornais em língua estrangeira, arquivos da igreja e arquivos do FBI.
Sarkisian contesta relatos hagiográficos da igreja que “traçam uma linha nítida
entre a adesão à ortodoxia e a política de esquerda”. De fato, muitos “clérigos
e leigos participaram de ações trabalhistas, expressaram críticas ao
capitalismo industrial e se juntaram a grupos socialistas, comunistas e
anarquistas”. Após a Revolução Russa de 1917, alguns fiéis ortodoxos chegaram
ao ponto de criar igrejas independentes inspiradas pelo bolchevismo.
Como
uma igreja com forte orientação nacional, a Ortodoxia Russa nos Estados Unidos
esteve envolvida em conflitos europeus desde seus primórdios. No Alasca, a
igreja chegou como parte da expansão imperial, e nos Estados Unidos
continentais, o czar financiou o crescimento da igreja para aumentar o soft
power russo entre os imigrantes eslavos. Como argumenta Sarkisian, “os
recursos das burocracias imperiais obscureceram as fronteiras entre a Igreja
Russa e o Estado czarista”. Marinheiros e o coral de um navio de guerra russo
participaram da consagração da nova Catedral Ortodoxa em Manhattan, em 1901, e
padres ortodoxos promoveram o czarismo, incentivando todos os imigrantes
eslavos a “olhar com carinho para Moscou”. Mas, em 1917, a Revolução
Bolchevique pôs fim à dinastia Romanov, rompendo os laços da Ortodoxia
Estadunidense com a metrópole e forçando as igrejas a repensarem o significado
de seus vínculos políticos e espirituais com a Rússia.
Alguns
dos convertidos ortodoxos de hoje, especialmente aqueles da Igreja Ortodoxa
Russa Fora da Rússia (ROCOR, na sigla em inglês) — uma seita tradicionalista
fundada na década de 1920 por apoiadores da monarquia russa — também olham para
a Rússia e citam a aliança de Putin com a Igreja Ortodoxa Russa como
inspiradora. Eles veem a religiosidade pública de Putin como um baluarte
do cristianismo em um mundo cada vez mais secular e esperam emular o modelo
russo de relações entre Igreja e Estado nos Estados Unidos.
Como
essa onda de convertidos não foi criada em países ortodoxos ou em comunidades
da diáspora, as redes sociais proporcionaram seu primeiro contato com a igreja.
Imagens populares de Putin sem camisa na natureza, usando uma cruz tripartida,
e filmagens de drones destacando a grandiosidade e a rica ornamentação de novas
igrejas financiadas pelo governo mostraram aos convertidos como o poder
político poderia auxiliar poderosamente a religião, mesmo que essa visão de
relações estreitamente interligadas entre Igreja e Estado seja proibida pela
Constituição estadunidense.
Vídeos
que circulam frequentemente nas redes sociais ortodoxas mostram a imponente
Catedral Principal das Forças Armadas Russas, construída por Putin. Construída
nos arredores de Moscou em 2018, a igreja celebra uma fé militante e
autoritária. A guerra é retratada como fundamental para a Ortodoxia. Em
mosaicos gigantes, soldados com metralhadoras acompanham santos portando armas.
Abaixo das legendas, são listadas dezenas de guerras travadas por soldados
russos, terminando com a invasão da Ucrânia em 2014 e deixando espaço para a
inscrição dos nomes de guerras ainda não travadas.
A
invasão da Ucrânia por Putin em 2022 também atraiu a Igreja Ortodoxa
Estadunidense para sua órbita. Em 15 de agosto de 2025, o Arcebispo Alexei de
Sitka se encontrou com Putin durante sua visita ao Alasca e expressou apreço
pelo papel da Rússia como protetora da Igreja. O encontro intensificou as
crescentes preocupações sobre a influência da Rússia nas igrejas ortodoxas dos
EUA. Líderes da Igreja Ortodoxa Ucraniana nos Estados Unidos condenaram
prontamente a participação do arcebispo em uma sessão de fotos com Putin como
“uma traição ao Evangelho de Cristo”.
or mais
estranho que pareça, o fenômeno da conversão de estadunidenses à Ortodoxia não
é novidade. Assim como hoje, os convertidos impulsionaram a primeira grande
expansão da Ortodoxia há mais de um século. Embora a maioria associe a
Ortodoxia Russa nos EUA à colonização do Alasca e às missões às comunidades
indígenas, o maior crescimento da igreja ocorreu no Centro-Oeste e Nordeste
industrializados. Essa onda de convertidos era composta principalmente por
católicos gregos, sobretudo ucranianos e rutenos cárpatos das províncias da
Galícia e Transcarpátia, no Império Austro-Húngaro. Eles compartilhavam uma
história litúrgica com os ortodoxos, mas uma história política com as potências
católicas da Polônia, Áustria e Hungria. Sob os impérios católicos, as grandes
populações ortodoxas da região foram autorizadas a continuar com as práticas
ortodoxas, como o casamento de clérigos e as iconostases (revestimentos de
ícones), em troca de juramento de fidelidade a Roma.
Quando
os católicos gregos chegaram aos Estados Unidos, tentaram praticar sua fé como
faziam na Europa. Mas os bispos católicos romanos protestaram contra práticas
católicas gregas, como o casamento de clérigos, e negaram a autoridade dos
bispos católicos gregos europeus para ministrar aos fiéis nos EUA. Os bispos
estadunidenses não entendiam o que diferenciava os católicos gregos de outros
eslavos e esperavam que eles pudessem se juntar às congregações polonesas ou
eslovacas já existentes. As tentativas dos bispos católicos romanos de
controlar e assimilar os católicos gregos alimentaram a insatisfação. Os
católicos gregos da classe trabalhadora não queriam entregar seus salários
suados a uma igreja que se ressentia de sua cultura e expressão litúrgica únicas.
A
conversão do padre greco-católico Alexis Toth acelerou o crescimento da
Ortodoxia Russa. Toth é reverenciado como “Confessor e defensor da fé ortodoxa
nos EUA” e como um dos pais da
Ortodoxia Estadunidense. Toth se converteu à ortodoxia após ser rejeitado pelo
bispo católico romano John Ireland, de Minneapolis. Toth havia se apresentado
ao bispo, solicitando permissão para trabalhar entre os greco-católicos em Minneapolis,
mas Ireland o expulsou ao descobrir que ele era casado. Toth era viúvo e, para
Ireland, nenhum verdadeiro padre católico poderia ter esposa, embora isso fosse
a norma para os greco-católicos na Europa. Buscando uma nova autoridade
espiritual, Toth contatou o bispo ortodoxo russo de São Francisco e acabou
sendo recebido na igreja, juntamente com toda a sua congregação em Minneapolis.
A
conversão de Toth gerou descontentamento nas comunidades greco-católicas e
transformou Minneapolis na “Kiev estadunidense” — o berço da Ortodoxia nos EUA.
Inspiradas pela liderança de Toth, as congregações votaram em massa para deixar
a Igreja Católica e se unir à Igreja Ortodoxa Russa, abrindo um vasto novo
território missionário entre os migrantes eslavos. A identidade comunitária era
fundamental para esses migrantes e, diferentemente das conversões de hoje,
muitas vezes paróquias inteiras se convertiam, no sentido oposto de uma decisão
de fé individual ou pessoal. Os convertidos consagraram sua história singular
no nome oficial de sua nova igreja: Greco-Católica Ortodoxa Russa.
Embora
Sarkisian se concentre no apelo espiritual e no entusiasmo dos missionários
russos nos Estados Unidos, o súbito interesse pela Ortodoxia Russa entre os
migrantes da fronteira oriental do Império Austro-Húngaro teve ramificações
políticas: as conversões nos EUA atraíram a atenção das autoridades czaristas.
A terra natal dos convertidos, os Cárpatos, possuía grande valor estratégico,
pois continha passagens montanhosas que controlavam o acesso russo à bacia
húngara. A disseminação da ortodoxia oferecia benefícios políticos, aumentando
o soft power da Rússia nos Estados Unidos e incentivando os
migrantes de retorno a difundir a ortodoxia nas regiões fronteiriças
austro-húngaras que a Rússia esperava um dia conquistar.
O
financiamento russo auxiliou congregações de imigrantes em dificuldades e
ajudou a igreja a se expandir rapidamente. O czar fez doações generosas,
financiando a maior parte do orçamento da instituição. Catedrais
impressionantes surgiram em Chicago, Cleveland, Passaic e Brooklyn,
introduzindo a arquitetura russa singular nas cidades industriais
estadunidenses. Esses projetos de grande repercussão atraíram muita atenção.
Notavelmente, o arquiteto modernista estadunidense Louis Sullivan projetou a
Catedral Ortodoxa Russa da Santíssima Trindade em Chicago, mesclando suas
formas ecléticas e distintas com plantas tradicionais de igrejas russas,
criando uma das fusões mais inesperadas da arquitetura dos EUA.
Os
empregos nas indústrias em expansão dos Estados Unidos atraíram imigrantes
ortodoxos de todo o mundo, incluindo albaneses, sírios e sérvios. Um grande
número de ucranianos e bielorrussos juntou-se aos muitos convertidos ao
catolicismo grego, formando uma comunidade diversificada de fiéis que Sarkisian
chama de Rus’ Ortodoxa Estadunidense. Essas igrejas multiétnicas da Rus’
Estadunidense serviram como postos avançados de Moscou, estendendo a autoridade
imperial sobre as comunidades diaspóricas multinacionais nos Estados Unidos.
Visitas de corais militares russos, orações pelo czar durante a liturgia e a
promoção da língua russa (em vez de bielorrusso, ruteno ou ucraniano)
projetaram uma agenda política russa no coração dos Estados Unidos.
Como a
Revolução Russa mudou a Ortodoxia Estadunidense
Mas em
1917, a Revolução Russa destruiu os laços sociais e financeiros entre os fiéis
ortodoxos nos EUA e o czar, levando a igreja a uma dívida de centenas de
milhares de dólares. Uma autoridade ortodoxa de Nova York expressou preocupação
com a situação na Rússia e enfatizou o papel da igreja: “Na ausência de uma
forma permanente de governo, a Igreja será mais necessária do que nunca para
manter as massas sob controle e impedi-las de se entregarem a todos os tipos de
excessos brutais que as revoluções provocam”. Sem o czar, porém, o apoio
financeiro e as doações de ícones e materiais litúrgicos do Estado russo para a
igreja estadunidense cessaram abruptamente.
Durante
o mesmo período, as duras condições de trabalho, a discriminação étnica e os
acidentes de trabalho fizeram com que muitos ortodoxos simpatizassem com a
mensagem comunista de igualitarismo, cooperação e propriedade coletiva da
indústria. Um jornal da igreja alertava os leitores sobre as difíceis condições
na indústria estadunidense e aconselhava que “apenas as pessoas fisicamente
mais aptas e saudáveis” emigrassem. Um incidente em Detroit, em particular,
ofendeu a comunidade ortodoxa. No Natal de 1914, a Ford demitiu centenas de
trabalhadores russos que haviam tirado o dia de folga para comemorar o feriado
de 7 de janeiro. Quando os críticos protestaram contra a política cruel, um
porta-voz da Ford declarou: “Se esses homens pretendem construir suas vidas nos
EUA, devem seguir os feriados estadunidenses”, atribuindo a demissão dos
trabalhadores à sua incapacidade de assimilação, e não à violação de seus
direitos religiosos por parte da empresa.
Os
executivos das empresas esperavam que a ortodoxia russa exercesse uma
influência tranquilizadora sobre os trabalhadores, mas nem sempre foi esse o
caso. Após a greve do Pão e Rosas em Massachusetts, o Metropolita Platon
Rozhdestvensky, um bispo da alta cúpula, declarou: “Em nenhum outro país do
mundo a situação dos desempregados pode ser tão terrível quanto nos riquíssimos
Estados Unidos”, e proclamou: “Precisamos de uma lei que afirme de maneira
categórica os direitos dos trabalhadores”. Os esforços práticos obtiveram
resultados mistos. Em Gary, Indiana, a US Steel doou milhares de dólares para
ajudar a financiar a construção da Igreja de Santa Maria, o que, como observou
um analista russo, diminuiu a circulação de um popular jornal anti-czarista.
Após
uma briga generalizada no domingo de Páscoa em Berlin, New Hampshire, motivada
pelo consumo de álcool, executivos de uma empresa de papel escreveram à diocese
russa prometendo apoio para a nomeação de um padre em tempo integral, com o
objetivo de controlar a comunidade. Quando o padre chegou e a empresa pagou
pela nova igreja, a situação se mostrou mais desafiadora do que o esperado. Um
observador notou que “os frequentadores de bares estão fazendo um último
esforço desesperado para controlar a situação na igreja” e aconselhou o padre:
“A única solução é proibir terminantemente que esses homens tenham qualquer
ligação com o Comitê da Igreja”. Após apenas quatro meses, o padre foi forçado
a deixar a igreja.
As
comunidades ortodoxas nos Estados Unidos acompanharam os acontecimentos na
Rússia. Quando a revolução eclodiu, muitos fiéis estavam ansiosos para apoiar a
reforma na Rússia e em suas próprias igrejas. A Igreja Ortodoxa Russa havia
sido fundamentalmente parte de um projeto imperialista e, após o colapso do
regime czarista, os trabalhadores se perguntavam como seria uma igreja do povo
e como ela poderia apoiar sua luta contra a ganância corporativa por meio da
organização sindical.
As
tensões entre o bolchevismo e a ortodoxia chegaram ao auge em Detroit e
Baltimore. Na Igreja Ortodoxa Russa de Todos os Santos, na periferia do bairro
Poletown, em Detroit, um padre ortodoxo temia que toda a sua congregação
tivesse se tornado bolchevique. Os fiéis exibiam bandeiras de
Eugene Debs e Vladimir Lênin em um clube ligado à paróquia e cantavam em voz
alta canções radicais no porão da igreja. Para controlar a situação, o padre
negou a comunhão a supostos “comunistas” que “trabalhavam e promoviam agitações
contra a igreja”, e pode até ter informado a polícia para que intercedesse pela
prisão e deportação dos paroquianos indisciplinados.
Mas os
paroquianos radicalizados recusaram-se a desistir, assumiram o controle do
conselho da igreja e insistiram na reforma. Argumentavam que, como a igreja
havia orado pelo czar enquanto líder da Rus’, deveria agora orar pelo sucesso
da União Soviética. Os paroquianos chegaram a exigir que um ícone de São
Nicolau, o Taumaturgo, fosse substituído por um de Lênin. Esses conflitos entre
o padre e a congregação sobre a compatibilidade entre o bolchevismo e a
ortodoxia se intensificaram em uma batalha judicial de anos pelo controle da
paróquia, que acabou chegando à Suprema Corte de Michigan.
De
forma semelhante, inspirados pela revolução, os fiéis ortodoxos russos em
Baltimore estabeleceram formalmente uma paróquia dissidente. A congregação
ressentia-se da introdução de práticas capitalistas pelo pastor, como a
cobrança de altas taxas pelos serviços religiosos. Rompendo com o controle
jurisdicional ortodoxo, os paroquianos decidiram fundar uma nova igreja, a
Igreja da Santíssima Trindade, que seria de propriedade coletiva do povo, onde
poderiam viver suas convicções políticas radicais. A mensagem encontrou eco
entre os trabalhadores, e a igreja rapidamente arrecadou uma quantia
extraordinária para adquirir a propriedade e contratar um padre.
Os
trabalhadores ortodoxos não foram os únicos a reagir à Revolução Russa. As
autoridades estadunidenses desencadearam uma onda de histeria, espalhando o
medo de que o bolchevismo ameaçasse o modo de vida dos EUA. Comunidades da
diáspora, como os radicais da igreja Todos os Santos em Detroit, imediatamente
passaram a ser alvo de suspeitas. Os trabalhadores migrantes do Leste Europeu e
seus filhos constituíam a maioria dos trabalhadores em grande parte da
indústria pesada do país e lideraram algumas das greves mais longas da história
estadunidense. A eclosão de uma greve massiva na indústria siderúrgica em
setembro de 1919, juntamente com o envolvimento de milhares de europeus
orientais e organizadores comunistas, levou muitos estadunidenses a associarem
todos os eslavos aos bolcheviques.
No
final de 1919 e início de 1920, o governo federal visou ativistas de esquerda
em todo o país, incluindo aqueles das paróquias ortodoxas radicais da Todos os
Santos em Detroit e da Santíssima Trindade em Baltimore, para deportação sem o
devido processo legal, em uma operação que ficou conhecida como as Batidas de
Palmer. Como Sarkisian relata, “Em trinta e três cidades, abrangendo vinte e
três estados, agentes federais prenderam milhares de supostos ‘radicais’, a
maioria imigrantes do Leste Europeu”. A imprensa saudou a medida e elogiou as
prisões drásticas e abrangentes, sem se preocupar com a flagrante violação das
liberdades civis.
Alarmado
pela poderosa combinação de bolchevismo e ortodoxia que eclodiu em Baltimore, o
Departamento de Investigação (atual FBI) passou a vigiar a crescente Igreja da
Santíssima Trindade e tentou deportar seu pastor. Os investigadores do governo
presumiram que a única explicação para o rápido sucesso da igreja era o
financiamento soviético e enviaram espiões para se infiltrarem na paróquia. O
departamento descobriu que os padres da igreja lideravam os fiéis em cânticos
de protesto e concluiu que a igreja havia sido fundada exclusivamente por
razões políticas, mas não encontrou nenhuma evidência de financiamento
soviético.
As
batidas policiais para deportação criaram uma atmosfera de medo na igreja de
Baltimore. Um visitante incomum em um piquenique da paróquia alertou a
congregação sobre a presença de um espião. O padre informou a congregação de
que estavam sob vigilância e os exortou a agir com cautela: “Devemos saber com
quem falamos e não usar as mesmas palavras que usamos com nossos
trabalhadores”. Além disso, o padre condenou a incursão do FBI nos assuntos da
igreja, comparando os informantes que traíram a igreja à traição de Judas a
Cristo.
A
vigilância da paróquia continuou, e o FBI contratou informantes adicionais.
Mesmo sob crescente escrutínio, o padre seguiu criticando a sociedade
estadunidense em seus sermões, lamentando que “o povo dos EUA é educado para
adorar o ouro e não a Deus”. Impulsionados a reformar a sociedade, a religião e
a indústria, os paroquianos se organizaram em prol da mudança social em
Baltimore, e a igreja cooperou estreitamente com a seção local do Partido
Comunista. Um evento de arrecadação de fundos para os comunistas chegou a
exibir o brasão da igreja em seus ingressos.
Embora
a combinação de Ortodoxia e Bolchevismo tenha atraído críticas de anarquistas e
preocupação do governo federal, ela era claramente popular entre os habitantes
de Baltimore. A Igreja da Santíssima Trindade continuou a crescer e permanece
uma paróquia ativa até hoje. Depois de atenuar parte de sua retórica
revolucionária, a igreja se reconciliou com as autoridades Ortodoxas, mas o
legado do esquerdismo e da Ortodoxia perdurou por décadas. Quando um novo padre
chegou na década de 1950, encontrou uma bandeira soviética e retratos de Lênin
e Josef Stalin expostos no salão da igreja. Em vão, o padre tentou explicar à
congregação que o marxismo e a religião eram incompatíveis, sem perceber a
ironia de que essa combinação havia levado os fiéis a construir algumas das
igrejas ortodoxas mais importantes do país.
Nas
últimas décadas, a Ortodoxia tomou um rumo marcadamente diferente. Entre numa
igreja hoje e poderá encontrar fiéis venerando um ícone de Nicolau II e da
família imperial. Esta nova visão da Ortodoxia idealiza o poder dos reis sobre
os camponeses, dos sacerdotes sobre os paroquianos e dos homens sobre as
mulheres. Os Romanov, assassinados pelos bolcheviques em 1918, foram
controversamente glorificados como santos em 2000 pelo Patriarca Alexandre II.
Para os convertidos, o autoritarismo e a hierarquia de gênero fazem parte do
seu apelo. Em publicações no X, Franz
lamentou a queda dos Romanov como o “fim da ordem imperial ordenada por Deus” e
promoveu diversas teorias da conspiração sobre os bolcheviques e o judaísmo.
Embora
o estado atual da Igreja Ortodoxa esteja muito distante dos esforços de reforma
dos ativistas de um século atrás, Orthodoxy on the line mostra
como a organização religiosa levou a reformas significativas e revela como a
tradição comunitária da Ortodoxia apoiou migrantes e trabalhadores que buscavam
uma vida melhor nos Estados Unidos. Por meio de um trabalho de pesquisa
minucioso em arquivos, Sarkisian resgatou um capítulo extraordinário da
história religiosa e trabalhista que desafia muitos estereótipos sobre a
Ortodoxia Russa e destaca as contribuições cruciais das igrejas de migrantes
eslavos para a luta da classe trabalhadora.
Embora
a história das igrejas bolcheviques independentes seja um capítulo esquecido da
Ortodoxia Estadunidense, ela prova que as reformas mais radicais podem começar
em lugares muito inesperados.
Fonte:
Tradução Pedro Silva, para Jacobin Brasil

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