'Brexit
foi início da onda populista da extrema direita na Europa', diz especialista
Segundo
Hassan Akram, da Universidade Diego Portales, dez anos do referendo que marcou
a saída do Reino Unido da União Europeia tem 'saldo negativo'...
Há 10
anos, em 23 de junho de 2016, os britânicos surpreenderam o mundo ao
optar pela saída da União Europeia (UE). Uma maioria
de 51,9% votou pelo Brexit no referendo
convocado pelo então primeiro-ministro David Cameron, uma decisão em reação às
severas políticas de austeridade implementadas após a crise financeira de 2008.
Para o
professor de políticas públicas Hassan Akram, da Wake Forest University e da
Universidad Diego Portales, o contexto e impactos do Brexit deram início à
“onda populista da extrema direita que vivemos hoje”.
Ao Opera
Mundi, Akram destacou que grande parte dos britânicos não entendia ao certo o
que significava a presença do país no bloco europeu, embarcando nas promessas
não realizadas de uma direita radical. “Eles estavam com raiva dos
especialistas, dos políticos e das políticas de austeridade”, afirmou.
Dez
anos depois, o saldo é negativo, segundo o
especialista, ao comentar “as dívidas elevadas, o crescimento fraco e a alta
insatisfação popular” nos países que compõem o Reino Unido.
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Leia a entrevista na íntegra:
·
Akram, dia 23 de junho completam-se dez anos do referendo
do Brexit. Como começou esse processo?
Hassan
Akram:
não havia uma maioria forte a favor do Brexit antes daquele referendo. Ele
ocorreu em junho, antes da primeira eleição de Donald Trump, em novembro de
2016, quando as pessoas ainda não acreditavam que ele pudesse vencer nos
Estados Unidos.
Naquele momento, a Inglaterra estava passando
por uma reviravolta, e o debate era que a saída da União Europeia seria um voto
estúpido que iria prejudicar o país, uma espécie de dano auto infligido. Todos
diziam: “isso é uma péssima ideia”. Mesmo assim, o país votou a favor dessa
ideia. Havia um ministro, Michael Gove, que dizia: “estamos cansados dos
especialistas”. Isso foi dito sobre o Brexit. Estávamos cansados dos
especialistas e, meses depois, Trump venceu com esse mesmo discurso nos Estados
Unidos, contra os especialistas. O Brexit foi o começo de tudo, desse movimento
antivacina, com todas essas teorias da conspiração.
·
Havia um movimento contra a União Europeia?
Sempre
houve uma minoria muito pequena de pessoas contra a União Europeia no Reino
Unido. Houve um referendo na década de 60, durante o governo trabalhista,
porque o país havia aderido à Comunidade Econômica, que acabou se transformando
em outra coisa.
Então,
realizou-se um referendo posterior para confirmar a decisão. Naquela época, a
oposição mais forte veio da esquerda, que sempre questionou a União Europeia
como uma instituição pouco democrática, que concedia muito poder a burocratas
que ninguém havia eleito. A esquerda, naquele momento, desejava regulamentar
mais as empresas e afirmava que o bloco tinha uma estrutura institucional
contrária às regulamentações sociais e favorável ao capital e às grandes
empresas.
Com o
passar do tempo, no entanto, a União Europeia começou a criar mais
regulamentações sociais e a política da Inglaterra acabou dando uma guinada à
direita, com a primeira-ministra Margaret Thatcher (1979-1990) e outros.
A União
Europeia então passou de uma ideia pró-capital e grandes empresas para uma
instituição que praticamente importou de contrabando certas regulamentações
mais sociais da Inglaterra. Nesse contexto, ela acabou se tornando parte de um
centrismo bem articulado. Ela estava lá e ninguém se importava muito com ela.
Havia um grupo minoritário com tendências conspiratórias que lamentava “termos
perdido nosso poder como país independente”, mas, na verdade, a perda de
autonomia nacional foi uma questão da globalização em geral.
Focar a
crítica nas instituições europeias é ignorar o que estava acontecendo nos
Estados Unidos e com as transnacionais. Essa foi uma crítica antiga que em
algum momento fez sentido, mas não no século 21.
·
Como isso vai ressurgir em 2016?
A razão
pela qual isso se tornou algo massivo foi por causa de uma manobra política
mesquinha. O então primeiro-ministro David Cameron, embora do Partido
Conservador, era progressista. Ele vinha de uma direita branda, mais voltada
aos direitos sociais, a favor do casamento gay e agia como um ambientalista.
Por conta disso, ele tinha diversos problemas com a ala mais radical dos
conservadores. O referendo foi um truque dele, uma forma de silenciar esse
punhado de radicais, mas o tiro saiu pela culatra. A estratégia para acalmar os
ânimos acabou explodindo contra ele, que nunca imaginou que perderia o
referendo.
Isso
ocorreu porque sabia o que era o Brexit na verdade. No dia seguinte à vitória, a busca número um
do Google na Inglaterra era: “o que é a União Europeia?”. Ninguém sabia o que o
bloco fazia, esse era um debate super intelectualizado.
As
pessoas votaram pelo sim porque estavam irritadas com a elite política do país
e por bons motivos. Depois da crise financeira de 2008, a Inglaterra impôs uma
política de austeridade brutal e a população estava sofrendo as consequências
dessas políticas. Houve uma crise econômica muito forte e isso levou à adoção
da política de austeridade que, por sua vez, gerou um imenso descontentamento
na Inglaterra.
As
pessoas votaram no Brexit por causa disso. Elas não entendiam que a União
Europeia não tinha nada a ver com aquilo e, pelo contrário, que havia ajudado a
corrigir os erros cometidos pelos políticos. Isso não foi compreendido. Além
disso, a UE era associada aos imigrantes. Elas imaginavam que, saindo da União
Europeia, os imigrantes teriam de ir embora. Nunca entenderam que eles entraram
no país não por causa dos europeus, mas devido à própria história do Império
Britânico. Aliás, as pessoas continuam muito furiosas hoje, porque agora há
mais imigrantes depois do Brexit do que antes.
·
Naquele momento veio à tona o escândalo dos dados do
Facebook–Cambridge Analytica. O que foi aquilo?
A
Cambridge Analytica acabou sendo condenada por exceder os gastos. Ela tinha os
dados pessoais da empresa Meta, então Facebook, e os utilizavam para
publicidade direcionada. Era um contexto em que havia um forte desconhecimento
sobre o que era a União Europeia, então eles usaram dados privados, obtidos de
forma questionável, para direcionar publicidade enganosa a grupos vulneráveis.
Eram
grupos que não tinham nenhum conhecimento sobre o assunto, e eles sabiam disso
porque os identificava pelas redes sociais. Foi uma estratégia para alcançar
pessoas que não tinham informações. O problema não foi o fornecimento de
informações enganosas – na política, todos usam informações de qualidade
questionável – mas o fato de que eles eram os únicos que alcançavam essas
pessoas.
Os
demais não tinham esse banco de dados e a possibilidade de se dirigir
diretamente a esses grupos. Então, essas pessoas acabaram recebendo apenas os
argumentos pró-Brexit. Não havia o outro lado para contrariar.
Esse
foi o mesmo padrão utilizado no referendo da Colômbia e do Chile, onde o
problema não foi a qualidade dos argumentos, mas o fato de que apenas um lado
do debate chegou a ser ouvido pela maioria das pessoas, porque eles detinham
controle sobre o sistema das redes sociais para direcionar e canalizar esse
conteúdo.
·
Quais os impactos da saída do Brexit nesses dez anos?
A saída
da União Europeia teve um impacto negativo para a economia
britânica, que viveu um caos por vários anos. Esse caos foi agravado pela
pandemia que piorou ainda mais a situação. Hoje, a Inglaterra está com dívidas
elevadas, um crescimento fraco e muita insatisfação popular.
Agora,
em vez de associar esses problemas ao Brexit, parte significativa da população
diz: “apesar de não estarmos mais na União Europeia, as políticas continuam as
mesmas e os migrantes ainda entram porque não temos políticos do nosso lado que
vão expulsar esses migrantes”. A questão da migração é hoje um tema muito
forte. Não era tanto durante a votação do Brexit. Ali, o que vimos foi um grito
de raiva contra os especialistas, a elite e a austeridade fiscal. Mas, depois
da votação, o Brexit abriu as portas para intensos discursos anti-imigração.
Vimos o
surgimento de uma direita ainda mais à direita do que o Partido Conservador, o
Reform UK (Partido Reformista). Nigel Farage, líder carismático do Brexit, está
na primeira posição para ser o próximo primeiro-ministro pela legenda. Trata-se
de um risco real. Ele defende que o Brexit fracassou porque os conservadores
eram de uma direita covarde e não foram suficientemente duros com a imigração.
Esse é
o discurso, uma invenção de uma figura racista que vem culpando os migrantes
pela situação econômica do país. Nós temos agora uma extrema direita na
Inglaterra e Grã-Bretanha que não existia. O Brexit tornou isso possível e ela
realmente se tornou um fator importante. Estamos vendo grandes protestos contra
migrantes, pessoas queimando casas onde vivem refugiados; nós retornamos a uma
questão dos anos 70.
·
Como foram os governos na Inglaterra após o Brexit?
Por
muito tempo, os conservadores governaram sem conseguir aprovar nada, apenas
discutindo se o Parlamento deveria ou não expulsar os migrantes. Foi um debate
extremamente pesado. Depois, os trabalhistas venceram e foram sequestrados por
uma esquerda moderada, mas muito mais à direita do que [Fernando] Cardoso no
Brasil. São mais conservadores, mais inconsistentes e, no fim das contas, eles
é que assumiram o controle do partido.
Há uma
desintegração do tradicional sistema de duopólio britânico. O Partido
Conservador, que engloba a direita radical e a centro-direita, atualmente está
desestruturado porque a direita radical se afastou e fundou outro partido.
O mesmo
acontece com o Partido Trabalhista, que tem se posicionado no centro ou no
centro-esquerda, mas sempre com a esquerda em uma posição secundária. Ela é
simplesmente humilhada como parceiro menor, enquanto a legenda é dominada pelos
centristas do tipo Cardoso.
Quando
Jeremy Corbyn, que é da esquerda, conquistou pela primeira vez a liderança do
partido, ele foi humilhado e atacado por dentro. Foi uma jogada deliberada e
voluntária da alta cúpula do Partido Trabalhista e também da base partidária.
As pessoas agiram para que ele perdesse. Aí começou uma caça às bruxas que
expulsou a esquerda do partido.
·
Existe alguma possibilidade de um retorno do Reino Unido
à Inglaterra?
Se a
gente olhar as pesquisas, a maioria esmagadora da população diz que o Brexit
foi um fracasso, mas não há apoio para um retorno à União Europeia na classe
política, nem na população. Algumas pessoas acham que o Brexit foi um desastre
porque os governos não foram suficientemente de direita ao expulsar os
migrantes. Outros dizem que, bem, foi uma má ideia, mas o caminho de volta está
bloqueado. Essa é a posição de grande parte da classe política.
Renegociar
seria muito complicado e não está claro para a União Europeia se isso vale a
pena, porque, neste momento, nós temos um governo de centro-esquerda, mas se
eles negociarem algo e a situação mudar, ou seja, se a extrema direita chegar
ao poder, eles vão romper as relações de novo.
Então,
a Europa não está particularmente interessada em negociar com a Inglaterra que
tem sido um parceiro desleal e instável. Os políticos britânicos entendem que
não têm espaço para fazer isso.
O
entendimento é de que a União Europeia é um tratado de livre comércio, onde é
possível ter relações de intercâmbio econômico mais fluidas, devido à menor
proteção alfandegária na fronteira, mas que isso vem acompanhado de um mercado
de trabalho unificado, ou seja, sem controle migratório.
A
Inglaterra não estaria preparada para ter essa liberdade de circulação dentro
da União Europeia novamente. Essa é uma posição que, infelizmente, com toda
essa culpabilização dos imigrantes pelos problemas econômicos, bloqueia
qualquer avanço nessa direção.
·
Na sua avaliação, qual a lição que o Brexit deixa para o
mundo?
O
Brexit foi o início dessa onda de populismos de extrema direita. A lição é que,
quando o centro político, os moderados e os conservadores adotam uma política
de austeridade, quando eles reduzem os direitos sociais e dizem “essa é a
realidade”, e que qualquer pessoa que vote fora dessa linha “não entende o que
é ser responsável”, as pessoas se cansam dos especialistas.
Quando
o centro ou o centro-esquerda neoliberal faz isso, o resultado é o
fortalecimento da extrema direita. Ela cresceu e todo esse discurso populista
cresceu por culpa do centro, que deixou as pessoas com tanto mal-estar que
eliminou qualquer possibilidade além da extrema direita.
Todos
os governos de esquerda têm sido de centro-esquerda e têm repetido o mais do
mesmo. Quando a esquerda é mais do mesmo, ganha a ultradireita.
¨
Brexit: se arrependimento matasse...Por Luis Pellegrini
Há
dez anos, em 23 de junho de 2016, o Reino Unido votava pela saída da União
Europeia. Hoje, a maioria dos britânicos está convencida de que o Brexit foi um
péssimo negócio ou, no mínimo, uma grande decepção. E agora que o mal está
feito, será possível uma reversão?
Um
levantamento recente do instituto YouGov mostra que 58% dos britânicos
consideram que deixar a União Europeia foi um erro, enquanto apenas 29% ainda
acreditam que a decisão foi correta. Até mesmo 15% dos eleitores de Nigel
Farage, o grande símbolo do Brexit, hoje defendem o retorno à União Europeia. A
mesma opinião é compartilhada por cerca de 80% dos filiados ao Partido
Trabalhista, sem falar nos eleitores dos Verdes e dos Liberal-Democratas.
Outros
estudos, citados pela revista The Economist, sugerem que, se um novo referendo
fosse realizado hoje, 62% votariam pela volta à União Europeia, contra apenas
38% favoráveis à permanência fora do bloco. Um contraste impressionante com o
apertado resultado de 52% a 48% que decidiu o Brexit há uma década.
Entre
os jovens, o arrependimento é ainda maior: cerca de 60% da Geração Z votaria
pela volta à União Europeia, enquanto apenas uma pequena minoria manteria a
situação atual.
Por que
muitos se arrependeram? As promessas centrais da campanha pró-Brexit não se
concretizaram da forma esperada. Entre os fatores mais citados pelos britânicos
estão: crescimento econômico mais lento; aumento da burocracia para exportações
e importações; dificuldades para pequenas empresas que comerciavam com a
Europa; inflação dos alimentos e de produtos importados; escassez de mão de
obra em setores como agricultura, transporte e hotelaria; redução das
oportunidades de estudo e trabalho para jovens no continente europeu.
Outro
ponto importante é a imigração. O Brexit foi vendido como um instrumento para
controlar as fronteiras. Contudo, embora a imigração proveniente da União
Europeia tenha diminuído, a imigração de países fora da UE aumentou
significativamente, levando muitos eleitores a concluir que um dos principais
objetivos da saída não foi alcançado.
Mas
isso significa que querem voltar? Não exatamente. Existe uma distinção
importante entre arrepender-se do Brexit e querer reingressar imediatamente na
União Europeia. Muitos britânicos acreditam que a saída foi um erro, mas também
entendem que retornar seria politicamente complexo, economicamente custoso e
diplomaticamente difícil. Assim, o apoio mais amplo hoje é por: estreitar
relações comerciais; reduzir barreiras alfandegárias; ampliar a cooperação em
defesa e segurança; facilitar a mobilidade de estudantes e trabalhadores. Ou
seja, muitos preferem uma aproximação gradual em vez de simplesmente “desfazer”
o Brexit.
Apesar
da mudança de opinião, uma parcela da população continua convencida de que
deixar a União Europeia foi a decisão correta. Entre eleitores conservadores,
da extrema direita, e simpatizantes do partido de Nigel Farage, o Brexit ainda
é visto como uma afirmação da soberania nacional. Muitos dos que hoje lamentam
os resultados não rejeitam necessariamente a ideia do Brexit em si. Argumentam
que o projeto foi mal conduzido pelos sucessivos governos, e não que o
princípio da saída fosse equivocado.
Em
síntese, dez anos após o referendo de 2016, o Reino Unido parece viver um
fenômeno que a imprensa britânica passou a chamar de “Bregret”
("Brexit" + "regret"): um crescente sentimento de que a
promessa de recuperar prosperidade, soberania e controle das fronteiras
produziu resultados muito inferiores aos esperados, ainda que o país permaneça
hesitante e dividido sobre qual deveria ser o próximo passo.
Talvez
saudosos dos orgulhosos tempos vitorianos, quando a Inglaterra era “o império
no qual o Sol nunca se põe”, essa parcela dos eleitores britânicos que
ainda hesitam em apoiar a volta do Reino Unido à União Europeia pode estar se
esquecendo de que, em política e em economia, a hesitação costuma ser
prejudicial. Ao longo da história, um dos princípios mais recorrentes da arte
de governar é que a indecisão frequentemente custa mais caro do que uma decisão
imperfeita. Isso porque a política é, antes de tudo, gestão do tempo. Há
momentos em que a oportunidade desaparece rapidamente, e um governante que
demora a agir perde a iniciativa, transmite insegurança e abre espaço para que
adversários ditem os acontecimentos.
Nicolau
Maquiavel observava que a fortuna favorece aqueles capazes de agir com
determinação quando as circunstâncias exigem. Para ele, a hesitação excessiva
era uma das marcas dos governantes que acabavam dominados pelos acontecimentos,
em vez de dominá-los.
E os
antigos gregos, pais da nossa civilização, afirmavam sabiamente que a hubris -
a arrogância - é a maior de todas as falhas trágicas. Os deuses punem com o
maior rigor aqueles que perdem a consciência dos próprios limites. O
descomedimento é apanágio dos deuses, e só a eles é permitido ir além das
próprias pernas. Terão os britânicos incorrido nessa falha trágica ao achar que
seria melhor para eles ficar sozinhos, em vez de permanecer conectados aos bons
amigos da Europa Unida?
Fonte:
Opera Mundi/Brasil 247

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