segunda-feira, 29 de junho de 2026

'Brexit foi início da onda populista da extrema direita na Europa', diz especialista

Segundo Hassan Akram, da Universidade Diego Portales, dez anos do referendo que marcou a saída do Reino Unido da União Europeia tem 'saldo negativo'...

Há 10 anos, em 23 de junho de 2016, os britânicos surpreenderam o mundo ao optar pela saída da União Europeia (UE). Uma maioria de 51,9% votou pelo Brexit no referendo convocado pelo então primeiro-ministro David Cameron, uma decisão em reação às severas políticas de austeridade implementadas após a crise financeira de 2008.

Para o professor de políticas públicas Hassan Akram, da Wake Forest University e da Universidad Diego Portales, o contexto e impactos do Brexit deram início à “onda populista da extrema direita que vivemos hoje”.

Ao Opera Mundi, Akram destacou que grande parte dos britânicos não entendia ao certo o que significava a presença do país no bloco europeu, embarcando nas promessas não realizadas de uma direita radical. “Eles estavam com raiva dos especialistas, dos políticos e das políticas de austeridade”, afirmou.

Dez anos depois, o saldo é negativo, segundo o especialista, ao comentar “as dívidas elevadas, o crescimento fraco e a alta insatisfação popular” nos países que compõem o Reino Unido.

<><> Leia a entrevista na íntegra:

·        Akram, dia 23 de junho completam-se dez anos do referendo do Brexit. Como começou esse processo?

Hassan Akram: não havia uma maioria forte a favor do Brexit antes daquele referendo. Ele ocorreu em junho, antes da primeira eleição de Donald Trump, em novembro de 2016, quando as pessoas ainda não acreditavam que ele pudesse vencer nos Estados Unidos.

Naquele momento, a Inglaterra estava passando por uma reviravolta, e o debate era que a saída da União Europeia seria um voto estúpido que iria prejudicar o país, uma espécie de dano auto infligido. Todos diziam: “isso é uma péssima ideia”. Mesmo assim, o país votou a favor dessa ideia. Havia um ministro, Michael Gove, que dizia: “estamos cansados dos especialistas”. Isso foi dito sobre o Brexit. Estávamos cansados dos especialistas e, meses depois, Trump venceu com esse mesmo discurso nos Estados Unidos, contra os especialistas. O Brexit foi o começo de tudo, desse movimento antivacina, com todas essas teorias da conspiração.

·        Havia um movimento contra a União Europeia?

Sempre houve uma minoria muito pequena de pessoas contra a União Europeia no Reino Unido. Houve um referendo na década de 60, durante o governo trabalhista, porque o país havia aderido à Comunidade Econômica, que acabou se transformando em outra coisa.

Então, realizou-se um referendo posterior para confirmar a decisão. Naquela época, a oposição mais forte veio da esquerda, que sempre questionou a União Europeia como uma instituição pouco democrática, que concedia muito poder a burocratas que ninguém havia eleito. A esquerda, naquele momento, desejava regulamentar mais as empresas e afirmava que o bloco tinha uma estrutura institucional contrária às regulamentações sociais e favorável ao capital e às grandes empresas.

Com o passar do tempo, no entanto, a União Europeia começou a criar mais regulamentações sociais e a política da Inglaterra acabou dando uma guinada à direita, com a primeira-ministra Margaret Thatcher (1979-1990) e outros.

A União Europeia então passou de uma ideia pró-capital e grandes empresas para uma instituição que praticamente importou de contrabando certas regulamentações mais sociais da Inglaterra. Nesse contexto, ela acabou se tornando parte de um centrismo bem articulado. Ela estava lá e ninguém se importava muito com ela. Havia um grupo minoritário com tendências conspiratórias que lamentava “termos perdido nosso poder como país independente”, mas, na verdade, a perda de autonomia nacional foi uma questão da globalização em geral.

Focar a crítica nas instituições europeias é ignorar o que estava acontecendo nos Estados Unidos e com as transnacionais. Essa foi uma crítica antiga que em algum momento fez sentido, mas não no século 21.

·        Como isso vai ressurgir em 2016?

A razão pela qual isso se tornou algo massivo foi por causa de uma manobra política mesquinha. O então primeiro-ministro David Cameron, embora do Partido Conservador, era progressista. Ele vinha de uma direita branda, mais voltada aos direitos sociais, a favor do casamento gay e agia como um ambientalista. Por conta disso, ele tinha diversos problemas com a ala mais radical dos conservadores. O referendo foi um truque dele, uma forma de silenciar esse punhado de radicais, mas o tiro saiu pela culatra. A estratégia para acalmar os ânimos acabou explodindo contra ele, que nunca imaginou que perderia o referendo.

Isso ocorreu porque sabia o que era o Brexit na verdade. No dia seguinte à vitória, a busca número um do Google na Inglaterra era: “o que é a União Europeia?”. Ninguém sabia o que o bloco fazia, esse era um debate super intelectualizado.

As pessoas votaram pelo sim porque estavam irritadas com a elite política do país e por bons motivos. Depois da crise financeira de 2008, a Inglaterra impôs uma política de austeridade brutal e a população estava sofrendo as consequências dessas políticas. Houve uma crise econômica muito forte e isso levou à adoção da política de austeridade que, por sua vez, gerou um imenso descontentamento na Inglaterra.

As pessoas votaram no Brexit por causa disso. Elas não entendiam que a União Europeia não tinha nada a ver com aquilo e, pelo contrário, que havia ajudado a corrigir os erros cometidos pelos políticos. Isso não foi compreendido. Além disso, a UE era associada aos imigrantes. Elas imaginavam que, saindo da União Europeia, os imigrantes teriam de ir embora. Nunca entenderam que eles entraram no país não por causa dos europeus, mas devido à própria história do Império Britânico. Aliás, as pessoas continuam muito furiosas hoje, porque agora há mais imigrantes depois do Brexit do que antes.

·        Naquele momento veio à tona o escândalo dos dados do Facebook–Cambridge Analytica. O que foi aquilo?

A Cambridge Analytica acabou sendo condenada por exceder os gastos. Ela tinha os dados pessoais da empresa Meta, então Facebook, e os utilizavam para publicidade direcionada. Era um contexto em que havia um forte desconhecimento sobre o que era a União Europeia, então eles usaram dados privados, obtidos de forma questionável, para direcionar publicidade enganosa a grupos vulneráveis.

Eram grupos que não tinham nenhum conhecimento sobre o assunto, e eles sabiam disso porque os identificava pelas redes sociais. Foi uma estratégia para alcançar pessoas que não tinham informações. O problema não foi o fornecimento de informações enganosas – na política, todos usam informações de qualidade questionável – mas o fato de que eles eram os únicos que alcançavam essas pessoas.

Os demais não tinham esse banco de dados e a possibilidade de se dirigir diretamente a esses grupos. Então, essas pessoas acabaram recebendo apenas os argumentos pró-Brexit. Não havia o outro lado para contrariar.

Esse foi o mesmo padrão utilizado no referendo da Colômbia e do Chile, onde o problema não foi a qualidade dos argumentos, mas o fato de que apenas um lado do debate chegou a ser ouvido pela maioria das pessoas, porque eles detinham controle sobre o sistema das redes sociais para direcionar e canalizar esse conteúdo.

·        Quais os impactos da saída do Brexit nesses dez anos?

A saída da União Europeia teve um impacto negativo para a economia britânica, que viveu um caos por vários anos. Esse caos foi agravado pela pandemia que piorou ainda mais a situação. Hoje, a Inglaterra está com dívidas elevadas, um crescimento fraco e muita insatisfação popular.

Agora, em vez de associar esses problemas ao Brexit, parte significativa da população diz: “apesar de não estarmos mais na União Europeia, as políticas continuam as mesmas e os migrantes ainda entram porque não temos políticos do nosso lado que vão expulsar esses migrantes”. A questão da migração é hoje um tema muito forte. Não era tanto durante a votação do Brexit. Ali, o que vimos foi um grito de raiva contra os especialistas, a elite e a austeridade fiscal. Mas, depois da votação, o Brexit abriu as portas para intensos discursos anti-imigração.

Vimos o surgimento de uma direita ainda mais à direita do que o Partido Conservador, o Reform UK (Partido Reformista). Nigel Farage, líder carismático do Brexit, está na primeira posição para ser o próximo primeiro-ministro pela legenda. Trata-se de um risco real. Ele defende que o Brexit fracassou porque os conservadores eram de uma direita covarde e não foram suficientemente duros com a imigração.

Esse é o discurso, uma invenção de uma figura racista que vem culpando os migrantes pela situação econômica do país. Nós temos agora uma extrema direita na Inglaterra e Grã-Bretanha que não existia. O Brexit tornou isso possível e ela realmente se tornou um fator importante. Estamos vendo grandes protestos contra migrantes, pessoas queimando casas onde vivem refugiados; nós retornamos a uma questão dos anos 70.

·        Como foram os governos na Inglaterra após o Brexit?

Por muito tempo, os conservadores governaram sem conseguir aprovar nada, apenas discutindo se o Parlamento deveria ou não expulsar os migrantes. Foi um debate extremamente pesado. Depois, os trabalhistas venceram e foram sequestrados por uma esquerda moderada, mas muito mais à direita do que [Fernando] Cardoso no Brasil. São mais conservadores, mais inconsistentes e, no fim das contas, eles é que assumiram o controle do partido.

Há uma desintegração do tradicional sistema de duopólio britânico. O Partido Conservador, que engloba a direita radical e a centro-direita, atualmente está desestruturado porque a direita radical se afastou e fundou outro partido.

O mesmo acontece com o Partido Trabalhista, que tem se posicionado no centro ou no centro-esquerda, mas sempre com a esquerda em uma posição secundária. Ela é simplesmente humilhada como parceiro menor, enquanto a legenda é dominada pelos centristas do tipo Cardoso.

Quando Jeremy Corbyn, que é da esquerda, conquistou pela primeira vez a liderança do partido, ele foi humilhado e atacado por dentro. Foi uma jogada deliberada e voluntária da alta cúpula do Partido Trabalhista e também da base partidária. As pessoas agiram para que ele perdesse. Aí começou uma caça às bruxas que expulsou a esquerda do partido.

·        Existe alguma possibilidade de um retorno do Reino Unido à Inglaterra?

Se a gente olhar as pesquisas, a maioria esmagadora da população diz que o Brexit foi um fracasso, mas não há apoio para um retorno à União Europeia na classe política, nem na população. Algumas pessoas acham que o Brexit foi um desastre porque os governos não foram suficientemente de direita ao expulsar os migrantes. Outros dizem que, bem, foi uma má ideia, mas o caminho de volta está bloqueado. Essa é a posição de grande parte da classe política.

Renegociar seria muito complicado e não está claro para a União Europeia se isso vale a pena, porque, neste momento, nós temos um governo de centro-esquerda, mas se eles negociarem algo e a situação mudar, ou seja, se a extrema direita chegar ao poder, eles vão romper as relações de novo.

Então, a Europa não está particularmente interessada em negociar com a Inglaterra que tem sido um parceiro desleal e instável. Os políticos britânicos entendem que não têm espaço para fazer isso.

O entendimento é de que a União Europeia é um tratado de livre comércio, onde é possível ter relações de intercâmbio econômico mais fluidas, devido à menor proteção alfandegária na fronteira, mas que isso vem acompanhado de um mercado de trabalho unificado, ou seja, sem controle migratório.

A Inglaterra não estaria preparada para ter essa liberdade de circulação dentro da União Europeia novamente. Essa é uma posição que, infelizmente, com toda essa culpabilização dos imigrantes pelos problemas econômicos, bloqueia qualquer avanço nessa direção.

·        Na sua avaliação, qual a lição que o Brexit deixa para o mundo?

O Brexit foi o início dessa onda de populismos de extrema direita. A lição é que, quando o centro político, os moderados e os conservadores adotam uma política de austeridade, quando eles reduzem os direitos sociais e dizem “essa é a realidade”, e que qualquer pessoa que vote fora dessa linha “não entende o que é ser responsável”, as pessoas se cansam dos especialistas.

Quando o centro ou o centro-esquerda neoliberal faz isso, o resultado é o fortalecimento da extrema direita. Ela cresceu e todo esse discurso populista cresceu por culpa do centro, que deixou as pessoas com tanto mal-estar que eliminou qualquer possibilidade além da extrema direita.

Todos os governos de esquerda têm sido de centro-esquerda e têm repetido o mais do mesmo. Quando a esquerda é mais do mesmo, ganha a ultradireita.

¨      Brexit: se arrependimento matasse...Por Luis Pellegrini

Há dez anos, em 23 de junho de 2016, o Reino Unido votava pela saída da União Europeia. Hoje, a maioria dos britânicos está convencida de que o Brexit foi um péssimo negócio ou, no mínimo, uma grande decepção. E agora que o mal está feito, será possível uma reversão?

Um levantamento recente do instituto YouGov mostra que 58% dos britânicos consideram que deixar a União Europeia foi um erro, enquanto apenas 29% ainda acreditam que a decisão foi correta. Até mesmo 15% dos eleitores de Nigel Farage, o grande símbolo do Brexit, hoje defendem o retorno à União Europeia. A mesma opinião é compartilhada por cerca de 80% dos filiados ao Partido Trabalhista, sem falar nos eleitores dos Verdes e dos Liberal-Democratas.

Outros estudos, citados pela revista The Economist, sugerem que, se um novo referendo fosse realizado hoje, 62% votariam pela volta à União Europeia, contra apenas 38% favoráveis à permanência fora do bloco. Um contraste impressionante com o apertado resultado de 52% a 48% que decidiu o Brexit há uma década.

Entre os jovens, o arrependimento é ainda maior: cerca de 60% da Geração Z votaria pela volta à União Europeia, enquanto apenas uma pequena minoria manteria a situação atual.

Por que muitos se arrependeram? As promessas centrais da campanha pró-Brexit não se concretizaram da forma esperada. Entre os fatores mais citados pelos britânicos estão: crescimento econômico mais lento; aumento da burocracia para exportações e importações; dificuldades para pequenas empresas que comerciavam com a Europa; inflação dos alimentos e de produtos importados; escassez de mão de obra em setores como agricultura, transporte e hotelaria; redução das oportunidades de estudo e trabalho para jovens no continente europeu. 

Outro ponto importante é a imigração. O Brexit foi vendido como um instrumento para controlar as fronteiras. Contudo, embora a imigração proveniente da União Europeia tenha diminuído, a imigração de países fora da UE aumentou significativamente, levando muitos eleitores a concluir que um dos principais objetivos da saída não foi alcançado.

Mas isso significa que querem voltar? Não exatamente. Existe uma distinção importante entre arrepender-se do Brexit e querer reingressar imediatamente na União Europeia. Muitos britânicos acreditam que a saída foi um erro, mas também entendem que retornar seria politicamente complexo, economicamente custoso e diplomaticamente difícil. Assim, o apoio mais amplo hoje é por: estreitar relações comerciais; reduzir barreiras alfandegárias; ampliar a cooperação em defesa e segurança; facilitar a mobilidade de estudantes e trabalhadores. Ou seja, muitos preferem uma aproximação gradual em vez de simplesmente “desfazer” o Brexit.

Apesar da mudança de opinião, uma parcela da população continua convencida de que deixar a União Europeia foi a decisão correta. Entre eleitores conservadores, da extrema direita, e simpatizantes do partido de Nigel Farage, o Brexit ainda é visto como uma afirmação da soberania nacional. Muitos dos que hoje lamentam os resultados não rejeitam necessariamente a ideia do Brexit em si. Argumentam que o projeto foi mal conduzido pelos sucessivos governos, e não que o princípio da saída fosse equivocado. 

Em síntese, dez anos após o referendo de 2016, o Reino Unido parece viver um fenômeno que a imprensa britânica passou a chamar de “Bregret” ("Brexit" + "regret"): um crescente sentimento de que a promessa de recuperar prosperidade, soberania e controle das fronteiras produziu resultados muito inferiores aos esperados, ainda que o país permaneça hesitante e dividido sobre qual deveria ser o próximo passo.

Talvez saudosos dos orgulhosos tempos vitorianos, quando a Inglaterra era “o império no qual o Sol nunca se põe”,  essa parcela dos eleitores britânicos que ainda hesitam em apoiar a volta do Reino Unido à União Europeia pode estar se esquecendo de que, em política e em economia, a hesitação costuma ser prejudicial. Ao longo da história, um dos princípios mais recorrentes da arte de governar é que a indecisão frequentemente custa mais caro do que uma decisão imperfeita. Isso porque a política é, antes de tudo, gestão do tempo. Há momentos em que a oportunidade desaparece rapidamente, e um governante que demora a agir perde a iniciativa, transmite insegurança e abre espaço para que adversários ditem os acontecimentos.

Nicolau Maquiavel observava que a fortuna favorece aqueles capazes de agir com determinação quando as circunstâncias exigem. Para ele, a hesitação excessiva era uma das marcas dos governantes que acabavam dominados pelos acontecimentos, em vez de dominá-los.

E os antigos gregos, pais da nossa civilização, afirmavam sabiamente que a hubris - a arrogância - é a maior de todas as falhas trágicas. Os deuses punem com o maior rigor aqueles que perdem a consciência dos próprios limites. O descomedimento é apanágio dos deuses, e só a eles é permitido ir além das próprias pernas. Terão os britânicos incorrido nessa falha trágica ao achar que seria melhor para eles ficar sozinhos, em vez de permanecer conectados aos bons amigos da Europa Unida? 

 

Fonte: Opera Mundi/Brasil 247

 

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