Saúde
mental vira obrigação legal nas empresas brasileiras; entenda
A
partir desta terça-feira (26/5), a saúde mental passa oficialmente a integrar a
lista de obrigações legais das empresas brasileiras com a entrada em vigor da
atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), do Ministério do Trabalho. Na
prática, a mudança obriga empregadores a identificar, mapear e prevenir riscos
psicossociais no ambiente corporativo — como assédio moral, metas abusivas,
excesso de demandas e ambientes emocionalmente hostis. A fiscalização começa
agora e empresas que ignorarem as novas exigências poderão sofrer multas, ações
trabalhistas e até interdição de atividades.
A
atualização ocorre em meio a um cenário alarmante. Segundo dados da Previdência
Social, o Brasil registrou mais de 546 mil afastamentos do trabalho por
transtornos mentais em 2025, o maior número da série histórica. O custo para o
INSS chegou perto de R$ 1 bilhão.
Para a
assessora de ministro do Tribunal Superior do Trabalho (TST) e doutoranda em
Direito pela Universidade de Brasília (UnB), Valéria de Oliveira Dias, a nova
norma representa uma mudança profunda na forma como o adoecimento emocional é
tratado nas relações de trabalho. “A lógica para o cuidado da saúde mental no
trabalho passa a ser preventiva, de proteção à pessoa trabalhadora para evitar
que ela adoeça”, afirma.
Segundo
ela, antes da atualização, o foco das empresas estava concentrado em riscos
físicos e mais visíveis, como máquinas, ruídos, produtos químicos e esforço
repetitivo. Agora, fatores emocionais entram formalmente no mesmo nível de
importância. “Os chamados riscos psicossociais, que afetam a saúde mental e as
emoções de quem trabalha, passam a entrar nessa mesma lista obrigatória, em pé
de igualdade com os demais”, explica.
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Multas adiadas
Importante
lembrar que nessa segunda-feira (25), o Ministério do Trabalho adiou em 90 dias
a aplicação de multas relacionadas às mudanças nas regras da Norma
Regulamentadora 1 (NR-1), que começam a valer nesta terça-feira (26). Apesar do
adiamento, no período de três meses o critério serão as duas visitas feitas
pelo fiscal e a primeira deverá ser para orientação da empresa, sem a aplicação
de sanções administrativas.
“Durante
os 90 dias subsequentes à entrada em vigor, a atuação da Inspeção do Trabalho
tende a priorizar ações de orientação, instrução e notificação das organizações
quanto à necessidade de adequação, especialmente em relação às novas exigências
introduzidas, sem prejuízo da adoção de medidas administrativas nos casos
aplicáveis”, diz a pasta.
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O que muda para as empresas
Com a
nova NR-1, todas as empresas com funcionários registrados precisarão incluir
riscos psicossociais no Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR). Isso
significa que situações como pressão excessiva, jornadas abusivas, clima de
medo, assédio moral e insegurança constante passam a exigir monitoramento
formal e medidas preventivas.
A
especialista destaca que não basta apenas reconhecer os problemas no papel.
Será necessário criar planos de ação concretos, envolver lideranças e
documentar tudo. “A empresa deve focar, de forma mais proativa e documentada,
no bem-estar psicofísico dos trabalhadores. É uma exigência que pode ser
cobrada pela fiscalização”, diz.
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Entre as medidas esperadas estão:
• revisão do PGR para incluir saúde
mental;
• criação de protocolos de prevenção;
• participação na identificação dos
problemas;
• treinamento de lideranças;
• acompanhamento contínuo dos ambientes de
trabalho;
• registros formais das ações adotadas.
• Burnout pode virar processo trabalhista
para empresas
O
burnout, reconhecido pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como síndrome
ligada ao trabalho, tende a ganhar ainda mais relevância jurídica com a nova
regulamentação. Segundo Valéria, quando o adoecimento é reconhecido como
ocupacional, ele passa a ter efeitos semelhantes aos de um acidente de
trabalho. Isso inclui estabilidade de 12 meses após o retorno do afastamento,
depósito do FGTS durante o período afastado e possibilidade de indenizações.
“Se a empresa ignorou o problema e alguém adoeceu, esse documento, ou a falta
dele, vira prova contra ela”, alerta.
Ela
afirma que o maior risco para as empresas não é apenas financeiro, mas também
estrutural. “O adoecimento no trabalho, na maioria das vezes, é sintoma de algo
que está errado no ambiente de trabalho.”
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O que pode ser considerado risco psicossocial
A nova
norma amplia o entendimento sobre fatores que podem causar adoecimento mental
no ambiente profissional. Entre os principais riscos estão:
• metas impossíveis ou cobranças abusivas;
• jornadas exaustivas;
• assédio moral e sexual;
• pressão constante por produtividade;
• monitoramento excessivo;
• falta de apoio da chefia;
• conflitos internos recorrentes;
• ambiente hostil;
• insegurança permanente sobre o emprego.
A
especialista chama atenção também para o trabalho mediado por aplicativos e
plataformas digitais. “O ritmo e as metas são impostos por algoritmos, sem que
o trabalhador saiba ao certo as regras do jogo. É um terreno fértil para esse
tipo de adoecimento.”
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Trabalhadores poderão denunciar ambientes abusivos
A nova
regra também fortalece os mecanismos de denúncia para trabalhadores que
enfrentam ambientes emocionalmente abusivos. As denúncias podem ser feitas
internamente, por canais de ética e pela CIPA, mas também diretamente ao
sindicato, à fiscalização do trabalho ou ao Ministério Público do Trabalho
(MPT). Em muitos casos, o procedimento pode ser anônimo.
Segundo
Valéria, a legislação também protege trabalhadores contra retaliações.
“Retaliar um trabalhador por ele ter apontado um problema é, em si, uma conduta
ilícita, que gera responsabilidade para a empresa.”
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Nova regra fortalece ações na Justiça
Para
especialistas da área trabalhista, a atualização da NR-1 deve mudar também o
cenário das disputas judiciais envolvendo saúde mental. Isso porque as empresas
passarão a ter obrigação de produzir documentos comprovando que identificaram
riscos e adotaram medidas preventivas.
Caso
não façam isso, a ausência de registros poderá ser usada como prova em
processos. “Se a empresa mapeou o risco e nada fez, isso pesa contra ela. Se
sequer mapeou, descumpriu a norma”, afirma a pesquisadora.
Ela
avalia que o avanço acompanha uma mudança mais ampla na Justiça do Trabalho,
que vem reconhecendo cada vez mais o direito ao ambiente de trabalho saudável,
inclusive do ponto de vista emocional.
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“O trabalho tem adoecido as pessoas”
Para
Valéria, o recorde de afastamentos por transtornos mentais evidencia uma falha
estrutural nas relações de trabalho atuais. “Quando o adoecimento vira fenômeno
de massa, a explicação está na forma como o trabalho está organizado, não
apenas na história individual de cada um.”
Segundo
ela, a principal mudança trazida pela nova NR-1 é justamente deslocar o foco do
indivíduo para o ambiente corporativo. “O trabalho, que deveria ser fonte de
dignidade e pertencimento, tem adoecido as pessoas. A norma é uma tentativa,
ainda inicial, de inverter essa rota", conclui a especialista.
Fonte:
Correio Braziliense

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