segunda-feira, 29 de junho de 2026

João Filho: Michelle X Flávio - bolsonarismo transformou a política em rinha de família

O inferno astral pelo qual passa a candidatura Flávio Bolsonaro, do Partido Liberal do Rio de Janeiro, parece não ter hora para acabar. Desde que o Intercept revelou que o maior bandido do Brasil financiou o filme “Dark Horse” a pedido do primogênito de Jair, a coisa tem degringolado de uma maneira difícil de segurar. Se o bolsonarismo não fosse uma seita, a candidatura do filho de Jair Bolsonaro já teria naufragado.

Desta vez a pancada não veio do jornalismo, mas do seio da própria família. Depois de sofrer ataques públicos dos enteados e do núcleo americano do bolsonarismo, Michelle Bolsonaro se vingou de todos eles com um vídeo de 27 minutos, em que revela as entranhas da sua tradicional família brasileira.

Com um nível de elegância, clareza retórica e perspicácia política que os homens criados por Jair Bolsonaro jamais alcançarão, Michelle revidou os ataques que Flávio, Eduardo Bolsonaro, do PL de São Paulo, e os parajornalistas Allan dos Santos e Paulo Figueiredo têm feito publicamente contra ela. “Eles me tratam como se eu fosse idiota. Como se eu fosse alguém que chegou ontem, mas eu não sou. Eu sei mais do que eles pensam”, disparou Michelle, deixando claro que não aceitará o papel de coadjuvante e está disposta a brigar pelo espólio eleitoral de Jair Bolsonaro.

<><> Sem indiretas

O vídeo gravado é uma peça de marketing político sofisticada para os padrões bolsonaristas. Não há palavras mal escolhidas ou improvisos. O cuidado na seleção dos objetos em cima da mesa, o vocabulário redondo, a dicção clara, a postura confiante — tudo foi calculado com um esmero que nunca se viu no bolsonarismo.

Diferente dos filhos de Jair, não houve indiretinhas, mensagens cifradas ou ameaças veladas. Michelle demonstra de maneira clara e direta os motivos pelos quais gravou o vídeo e a quem ele está endereçado. Marcou posição e se mostrou distante do destrambelhamento dos enteados.

A primeira-dama da prisão domiciliar deixou claro que não tem qualquer preocupação com o desgaste da candidatura de Flávio Bolsonaro. O timing do fogo-amigo é revelador. No momento em que o noticiário mirava as relações de Jaques Wagner, senador pelo PT da Bahia, com a turma do banco Master e dava um respiro para Flávio, Michele não pensou duas vezes ao acender o pavio de uma nova bomba e jogar no colo do enteado.

Além disso, o vídeo foi feito sob medida para dialogar com as mulheres e com os evangélicos, que são justamente as faixas do eleitorado em que Flávio tem perdido força nos últimos meses. Todo o esforço feito nos últimos dias para para suavizar sua imagem junto ao eleitorado feminino escorreu pelo ralo no momento em que a própria madrasta foi a público denunciar suas humilhações.

<><>‘Vamos tratar de futebol’

A bordoada de Michelle deixou Flávio atônito, levando-o a uma primeira reação apressada e patética. Poucos minutos após a publicação do vídeo da madrasta, o senador apareceu em vídeo dizendo: “Hoje é dia de jogo, nada nem ninguém me aborrece. Vamos tratar de coisa boa, vamos tratar de futebol”.

É como a criança que, diante de uma bronca, tampa os ouvidos e canta um “lá lá lá” bem alto para não ter que lidar com a realidade. Lembrou muito a primeira reação do senador diante da primeira reportagem da Vaza Flávio, quando soltou uma gargalhada nervosa ao ser perguntado sobre a grana do Vorcaro.

No dia seguinte ao vídeo de Michelle, o senador tentou mudar o tom e apareceu para se desculpar no estilo “peço desculpas se alguém se sentiu ofendido”. Apesar do pedido de desculpas, ele alegou que não havia feito nada errado e que sempre foi um anjo de candura com as mulheres.

Mas, logo em seguida, honrou o sobrenome e lançou mão de machismo: “Entendo a angústia da Michelle vendo meu pai, todos os dias, sofrendo com tamanha injustiça. Eu também sofro, mas sigo firme!”. Traduzindo para o bolsonarês: “Michelle está ficando louca, mas o primeiro filho homem de Jair segue defendendo-o com bravura e serenidade”.

<><> Projetos pessoais de poder

A treta escancara o que é bolsonarismo: um grupo político que anda a reboque dos interesses de uma única família. As brigas pessoais entre os parentes se misturam com interesses políticos numa simbiose maluca que lembra as histórias dos tempos da monarquia. Não há um projeto para o país.

Michelle e Flávio não estão discutindo divergências programáticas ou estratégicas. O que estamos vendo é um conflito entre os projetos pessoais de cada integrante da família tendo como pano de fundo a disputa do espólio eleitoral de Jair Bolsonaro. A direita brasileira hoje anda a reboque de uma família em crise e cujo patriarca está preso.

Nada disso é novidade. Há tempos que a briga pela herança política de Jair já estava anunciada. A novidade é o tamanho do apetite de Michelle e o quão preparada ela está para esse jogo.

As armas foram colocadas sobre a mesa e assustaram os filhos de Jair. Michelle não está mesmo para brincadeira. Agora o candidato Flávio tem duas grandes preocupações nessa campanha: o celular de Vorcaro e a disposição da madrasta em ser a principal protagonista do bolsonarismo.

•        A culpa de Bolsonaro na briga entre Flávio e Michelle

Aliados de primeira hora do clã Bolsonaro apontam Jair Bolsonaro como responsável pela raiz dos problemas entre Michelle e Flávio.

A queixa é que, quando decidiu que o filho seria o nome da família para concorrer à Presidência, o capitão reformado não comunicou a ex-primeira-dama diretamente. Michelle contou a interlocutores que soube da notícia por terceiros, e não pelo marido.

Até aquele momento, ela nutria esperança de ser vice numa eventual chapa com o governador Tarcísio de Freitas na corrida pelo Palácio do Planalto. As expectativas foram frustradas.

O clima azedou de vez quando Michelle Bolsonaro não conseguiu emplacar a vereadora Priscila Costa como candidata ao Senado pelo PL no Ceará.

Na aliança consolidada com Ciro Gomes (PSDB), o partido acertou que uma vaga na chapa seria indicada pelos tucanos e a outra ficaria com o pai do deputado federal André Fernandes, o deputado estadual Alcides Fernandes (PL-CE).

Esse embate foi o estopim para o vídeo gravado por Michelle, que tornou pública toda a desavença com Flávio Bolsonaro e trouxe estragos para a campanha eleitoral do senador.

•        Michelle mostra um pouco da essência do bolsonarismo

Deus, pátria e família são os valores oficiais do bolsonarismo. O Deus, entretanto, é o do velho testamento, com pendores violentos e vingativos – e não a figura conciliadora e dada ao perdão do novo testamento. A pátria não seria de todos os brasileiros, mas apenas dos que pensam e vivem de certa maneira, os demais seriam degradados a serem desprezados (esquerdistas, isentões e os “vagabundos” que vivem de auxílios sociais). A família, finalmente, seria marcada pela discórdia e pela agressão mútua, como tem ficado cada vez mais claro.

A natureza do bolsonarismo, desde o início da carreira do patriarca Jair Bolsonaro, portanto, tem sido destruir e não construir. Não é à toa que saiu do exército acusado de planejar atentados no Rio de Janeiro. Como numa versão deteriorada de Cem Anos de Solidão, a obra-prima de Gabriel Garcia Márquez, seus herdeiros políticos e de sangue parecem ser condenados a seguir o destino do líder pioneiro.

Ao atacar ontem os próprios enteados, a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro apenas repete um modus operandi. De que a política não se faz com acordos em busca de um ideal possível, mas com agressão. É da mesma maneira que agem outros dois filhos de Bolsonaro: Eduardo e Carlos. O filho mais novo, Jair Renan, é apenas um aprendiz nesta arte do insulto. A novidade agora é que Michelle resolveu explicitar uma guerra civil da qual tínhamos notícias apenas dos bastidores, mas que ocorre há tempos.

•        Flávio tenta esvaziar peso político da madrasta no PL, Michelle não vai recuar

O presidenciável do PL, Flávio Bolsonaro, tem um plano: esvaziar o poder político da madrasta no partido e tirá-la de cena nas articulações nacionais. A conclusão é apresentada nos bastidores da sigla e ilustrada com o passo a passo da crise entre ele e Michelle.

Em dezembro passado, sem combinação prévia nem sequer com o presidente da legenda, Valdemar Costa Neto, o filho “Zero Um” de Jair Bolsonaro anunciou sua pré-candidatura ao Planalto. O fato ocorreu quando a ex-primeira-dama era fortemente cotada para compor uma chapa com o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos). Flávio também implodiu as negociações de Michelle para a composição do palanque no Ceará, fato que virou novamente o estopim da briga desta semana. Mas não foi só isso.

Na avaliação de integrantes do PL Mulher, segmento da legenda presidido por Michelle, o enteado adotou uma estratégia para minar sua força até no eleitorado feminino. Na mesma semana, convidou a senadora Damares Alves (Republicanos-DF) para participar da elaboração do seu plano de governo, e sondou a deputada federal Bia Kicis (PL-DF) para ser sua vice na chapa.

Ambas são muito amigas de Michelle, têm grande desempenho entre as eleitoras mulheres e também no público evangélico. Ou seja, segmentos nos quais Michelle aparece como protagonista no PL Nacional. Mas, em vez de pedir ajuda e tentar uma aproximação com a madrasta para buscar votos e simpatia das mulheres, ele preferiu tirá-la de cena.

Não foi à toa que nos vídeos publicados na internet a ex-primeira-dama desabafou: “Eles me tratam como se fosse idiota. Como se fosse alguém que chegou ontem. Eu não sou. Eu sei mais do que eles pensam”.

Neste round, Michelle saiu em desvantagem. Sofreu mais críticas do que elogios entre os eleitores de direita, por ter escancarado em público os problemas que enfrenta com os filhos de Jair. Mas ela não se fez de rogada e já deixou claro que continuará no embate.

Basta observar como ela encerra o vídeo com as críticas a Flávio: “Falei QUASE tudo o que precisava ser dito”, diz a legenda da gravação, em letras garrafais.

•        Michelle supera caso Jaques Wagner em quase sete vezes nas redes

O vídeo em que a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro tornou público o desentendimento com o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) dominou o debate político nas redes sociais e alcançou quase sete vezes mais engajamento do que as publicações sobre o senador Jaques Wagner (PT-BA) e sua citação nas investigações envolvendo o Banco Master. Os dados constam em relatório divulgado ontem pelo Instituto Democracia em Xeque (DX), que analisou a repercussão dos dois episódios ao longo da última semana.

De acordo com o levantamento, os dois principais campos da disputa presidencial de 2026 enfrentaram desgastes provocados por personagens de suas próprias bases políticas. No grupo governista, Wagner deixou a liderança do governo no Senado na quarta-feira, após ter o nome citado na Operação Compliance Zero. Já no campo bolsonarista, Michelle  levou para as redes sociais um conflito com o enteado Flávio Bolsonaro, apontado como pré-candidato apoiado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro para a sucessão presidencial.

O estudo aponta que as publicações relacionadas à mulher de Jair Bolsonaro acumularam aproximadamente 1,4 milhão de interações, enquanto os conteúdos sobre o petista baiano registraram cerca de 214 mil. A diferença também foi observada no volume de menções: foram 91,6 mil postagens sobre a ex-primeira-dama, contra 29,3 mil referentes ao senador baiano.

Segundo os pesquisadores do Democracia em Xeque, a discrepância na recepção dos dois episódios por suas respectivas audiências provocou uma rápida mudança na agenda pública digital. Até o fim da tarde de 24 de junho, o caso envolvendo Wagner concentrava grande parte das discussões políticas nas plataformas, impulsionado principalmente pelo anúncio de seu afastamento da liderança do governo no Senado.

No entanto, a divulgação do vídeo por Michelle alterou o cenário em poucas horas. Entre a noite do dia 24 e a manhã seguinte, a ex-primeira-dama respondeu por 76% de todas as menções que faziam referência aos dois personagens analisados pelo instituto, reduzindo significativamente o espaço dedicado aos desdobramentos da investigação sobre o Banco Master e às repercussões políticas enfrentadas por Wagner.

Na avaliação do DX, ambos os episódios produziram desgaste para seus respectivos campos políticos, mas tiveram dinâmicas distintas. O caso de Jaques Wagner estimulou debates sobre a investigação, as suspeitas relacionadas ao Banco Master e os efeitos de sua saída da liderança governista. Já a manifestação pública de Michelle ampliou as discussões sobre a pré-candidatura de Flávio Bolsonaro, a disputa por influência dentro do bolsonarismo e divergências no PL em torno da aliança com o ex-ministro Ciro Gomes no Ceará. Para o instituto, Michelle “impôs a sua pauta”, promovendo uma “troca brusca nas pautas do debate público” nas redes sociais.

 

Fonte: The Intercept/Tribuna da Bahia/Estadão

 

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