segunda-feira, 29 de junho de 2026

Quatro grandes terremotos no mesmo dia: há relação entre os tremores na Venezuela, Japão e EUA?

Dois terremotos com magnitude superior a 7 foram registrados na Venezuela na noite de quarta-feira (24/6) e deixaram centenas de mortos.

Mas esse não foi o único lugar do mundo a registrar tremores mais fortes nesta data.

Horas antes, um terremoto de magnitude 5,6 aconteceu na Califórnia, nos Estados Unidos.

E, cerca de 30 minutos depois dos abalos sísmicos na Venezuela, foi a vez do Japão sentir o chão tremer, num evento com magnitude de 6,9.

A proximidade dos horários chamou atenção de algumas pessoas e virou tema de postagens em redes sociais.

Mas será que esses quatro terremotos têm alguma relação entre si?

A BBC News Brasil entrou em contato com o Serviço Geológico Britânico para encontrar a resposta para essa pergunta.

E, segundo especialistas da entidade, a resposta é não — e, embora seja incomum que tremores com magnitude mais elevada aconteçam em horários tão próximos, isso não significa que eles estejam conectados de alguma maneira.

<><> Os tremores

O Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS, na sigla em inglês), mantém um site que registra os tremores registrados nas últimas horas.

Lá, é possível ver que, no dia 24 de junho, foram registrados quatro abalos que ultrapassaram a magnitude 5.

O primeiro aconteceu na Califórnia, nos Estados Unidos, às 16h10, no horário UTC+1 (Tempo Universal Coordenado, na sigla em inglês), que é equivalente ao atual horário de verão britânico, usado como padrão para medições do tipo.

A magnitude desse evento foi de 5,6.

Mais tarde, às 23h04, foi registrado o primeiro terremoto no norte da Venezuela, com magnitude 7,2.

Cerca de um minuto depois, às 23h05, veio o segundo terremoto no mesmo local, com uma magnitude ligeiramente maior, de 7,5.

Alguns minutos depois, às 23h30, o USGS detectou um novo tremor de magnitude 6,9 no Japão.

<><> Coincidência incomum

O Serviço Geológico Britânico explica que os terremotos no norte da Venezuela "estão relacionados às complexas dinâmicas da placa tectônica do Caribe".

Essa placa interage com outras quatro placas tectônicas: a da América do Norte, da América do Sul, de Nazca e de Cocos.

Já os tremores no Japão estão relacionados às interações entre a placa tectônica do Pacífico e a placa de Okhotsk (que comumente é considerada como uma parte da placa da América do Norte).

Por fim, os abalos sentidos na Califórnia são causados pelas falhas geológicas que atravessam a região, sendo que a Falha de San Andreas é a mais famosa delas.

Ou seja: segundo os especialistas, apesar da proximidade de horários, todos esses fenômenos aconteceram em placas tectônicas distintas e não há nada, até o momento, que os conecte.

O Serviço Geológico Britânico calcula que, a cada ano, são esperados cerca de 100 terremotos com magnitude entre 6 e 7 em todo o planeta.

Estima-se que nesse mesmo período aconteçam entre 10 e 15 terremotos de magnitude 7 a 8.

E ocorrem um ou dois terremotos de magnitude maior que 8.

"Nós sabemos amplamente onde esses eventos podem ocorrer, mas não quando isso acontecerá", conclui o Serviço Geológico Britânico.

<><> Os 'terremotos gêmeos' da Venezuela

Segundo físicos, geólogos e especialistas em sismologia, os dois terremotos consecutivos que atingiram a região — separados por apenas 39 segundos — configuram o que se conhece como "terremotos gêmeos".

Esse fenômeno é especialmente incomum.

A sequência mais típica é a ocorrência de um terremoto principal, seguido por uma série de réplicas de menor intensidade. Mas o que ocorreu na Venezuela foi diferente.

Em termos simples, os "terremotos gêmeos" ocorrem quando há dois terremotos principais, e o segundo não pode ser considerado apenas uma réplica do primeiro — seja porque ambos têm intensidade semelhante ou porque seus epicentros estão muito próximos entre si. E foi exatamente isso que aconteceu na Venezuela.

O primeiro terremoto, ocorrido na região da costa às 18h04, teve magnitude 7,2 e epicentro próximo à cidade de San Felipe, no estado de Yaracuy, cerca de 280 km a oeste de Caracas.

O segundo terremoto ocorreu 39 segundos depois, a apenas 45 quilômetros de distância, com epicentro próximo ao município de Yumare. Esse tremor foi ainda mais forte, atingindo magnitude 7,5.

"Entendemos que estamos diante de terremotos gêmeos: dois terremotos que ocorreram muito próximos tanto no tempo quanto no espaço", explicou à BBC News Mundo, serviço em espanhol da BBC, William Barnhart, coordenador adjunto do Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS).

"O segundo foi cerca de três vezes mais potente que o primeiro e é muito provável que o terremoto de magnitude 7,2 tenha desencadeado o de magnitude 7,5", acrescentou.

O fator do tempo que separa os dois abalos também é relevante, embora haja menos consenso científico sobre esse ponto.

Alguns pesquisadores afirmam que, para caracterizar os "gêmeos", o segundo terremoto deve ocorrer em um intervalo curto — de segundos, minutos, horas ou dias. Outros, porém, consideram que ele pode acontecer até anos depois, sendo o mais importante a ligação física entre os dois eventos.

¨      Por que Brasil não sofre com grandes terremotos, ao contrário dos países vizinhos

Os dois terremotos que atingiram a Venezuela na quarta-feira (24/6) e mataram mais de 589 pessoas foram registrados como sismos de 7,2 e de 7,5 de magnitude - dos mais fortes já ocorridos no continente em toda a história.

Apesar do abalo fortíssimo no vizinho ao norte, o Brasil foi quase totalmente poupado, com apenas leves tremores tendo sido sentidos em cidades como Manaus ou Belém. Dois brasileiros estão entre as vítimas.

O Brasil parece ser, em geral, poupado de terremotos. Mas a ciência mostra que não é bem assim.

O que acontece é que, como o país está localizado no meio de uma placa tectônica, ou seja, longe das bordas que estão em constante atrito com outras na crosta terrestre, os tremores acabam sendo sentidos com menos intensidade no país.

Tecnicamente, o Brasil está no centro da chamada placa Sul-Americana.

Já os países vizinhos ao Brasil, especialmente os que estão mais próximos à cordilheira dos Andes, têm em seus territórios bordas de duas placas — e são destes encontros que ocorrem os terremotos, alguns deles com catastróficas consequências.

Para entender isso é preciso compreender como os terremotos ocorrem. E isto está diretamente ligado à constituição da crosta terrestre — a camada externa do planeta é formada por gigantescas placas rochosas, chamadas de placas tectônicas.

<><> Tensões constantes

"Essa parte mais da superfície da Terra seria algo semelhante a um casco de tartaruga, com várias peças se encaixando", compara o geógrafo e historiador Sergio Ribeiro Santos, professor na Universidade Presbiteriana Mackenzie.

E elas se movimentam a velocidades que podem chegar a até 10 centímetros por ano.

São formações imensas. A placa Sul-Americana, em alguns trechos, pode ter até 200 quilômetros de espessura.

Há placas que "carregam" os continentes, outras que estão cobertas por água marinha e até mesmo as que combinam ambas as superfícies. Professor em um colégio paulistano e mestre em geografia pela Universidade de São Paulo (USP), o geógrafo Sergio de Moraes Paulo faz uma analogia com uma casca de ovo para explicar o que é a crosta terrestre. "Só que uma casca toda fragmentada, em grandes placas, que são as placas litosféricas, as placas tectônicas", pontua ele.

"Como a parte de baixo, o manto, que é como se fosse a clara do ovo, está se mexendo, as placas também se mexem", explica Paulo.

Segundo o professor, esse movimento se torna mais notável nas chamadas "áreas de contato" — ou seja, o limite entre um placa e outra.

O geógrafo Santos explica que essa movimentação se dá por conta das altas temperaturas do interior do planeta.

O movimento das placas faz com que elas estejam constantemente em atrito umas com as outras, como se buscassem se encaixar em um espaço limitado. Elas se empurram, se raspam e se chocam. Se a tensão é constante, há momentos em que a energia chega a um nível em que as rochas se fraturam, se rompem. Mais ou menos como ocorre se pegarmos uma pedra e, com uma ferramenta bastante sólida, formos apertando-a cada vez mais — uma hora ela trinca, quebra.

No âmbito de dimensões gigantescas das placas tectônicas, essa fratura é chamada de falha. Mas a energia liberada desse movimento é tão grande que acaba fazendo vibrar todo o solo ao redor. É isso que faz com que ocorram os tremores.

A área onde essas duas placas colidem é conhecida como limites convergentes.

<><> No meio, a tranquilidade

"O Brasil está bem no meio da placa tectônica, e os terremotos acontecem muito mais próximos dos extremos das placas, nos limites convergentes. Ficamos distantes desses limites", explica o geógrafo Anderson Andrade, pesquisador no Instituto Mackenzie.

"Os países vizinhos ao Brasil, principalmente os mais próximos à cordilheira dos Andes, estão muito perto desses limites convergentes", acrescenta Andrade.

O que ocorre em países vizinhos ao Brasil é justamente a localização — onde se tocam as placas Sul-Americana e a de Nasca, na costa oeste da América do Sul, na região banhada pelo Oceano Pacífico. "Ali temos um movimento mais intenso e os abalos sísmicos. Aí ocorrem os terremotos. Esses abalos podem até chegar ao Brasil, mas como estamos no meio da placa, eles chegam mais fracos", explica Paulo.

Segundo Santos, foi exatamente a fricção entre essas duas placas tectônicas que deu origem à imensa cadeia montanhosa chamada de Cordilheira dos Andes.

"Os países andinos da América do Sul, logo a oeste, estão sobre o contato entre duas grandes placas tectônicas", sintetiza o engenheiro Antonio Eduardo Giansante, professor na Universidade Presbiteriana Mackenzie. "Qualquer movimento entre ambas causatremores e se for mais intenso, tem-se um terremoto. Muitas vezes o contato entre essas placas tem uma quantidade grande energia armazenada e por qualquer variação entre ambas, há liberação dessa energia e reacomodação entre ambas as placas, terremotos de grande intensidade."

<><> Terremotos brasileiros

Dados do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo (USP) mostram que o Brasil teve cerca de 100 terremotos no século. Nenhum deles de forte intensidade — na maioria, seus efeitos foram imperceptíveis pela população.

Os terremotos são medidos pela chamada escala Richter e, via de regra, apenas os que atingem mais de 7 graus nessa forma de medição causam alguma destruição. O mais grave do Brasil ocorreu em 1955, quando em algumas localidades do estado do Mato Grosso foram registrados 6,6 graus nessa escala. Na mesma ocasião, localidades do Espírito Santo chegaram a registrar 6,3 graus.

Em 1980, houve um terremoto registrado no Ceará com 5,2 graus na escala Richter. Três anos mais tarde, os sismógrafos marcaram 5,5 graus no estado do Amazonas.

Neste século, alguns episódios marcantes também foram percebidos no Brasil. Em 2007, 6,1 graus de abalo sísmico chegaram a ser percebidos por moradores na divisa entre os estados do Acre e do Amazonas. No mesmo ano, em Minas Gerais, houve um sismo registrado de 4,9 graus.

Em abril de 2008 ocorreu aquela que talvez tenha sido a percepção sísmica de maior repercussão na história recente do Brasil. Na ocasião, 5,2 graus na escala Richter foram registrados em São Paulo, Rio de Janeiro, Paraná e Santa Catarina.

O caso mais recente foi em 2018, quando reflexos de um terremoto na Bolívia foram percebidos em determinadas regiões do Brasil.

Segundo as medições do Centro de Sismologia da USP, os últimos tremores registrados no território brasileiro ocorreram em 11 de junho deste ano, quando três pequenos terremotos ocorreram na região de Tucuruí, no Pará — o maior deles, com 3,5 graus de magnitude.

A repercussão dos tremores é proporcional à intensidade deles. Em outras palavras, abalos sísmicos pequenos são muito comuns. "Mas acabamos por ter notícias apenas daqueles mais intensos, que geram imagens impressionantes", diz o geógrafo Paulo.

¨      Terremoto na Venezuela é duro golpe em país mergulhado em incerteza e anos de degradação estrutural

O número de vítimas mortais após os dois potentes terremotos que sacudiram a Venezuela na quarta-feira (24/6) continua aumentando. Neste sábado (27/6), foram confirmadas 1.430 vítimas e mais de 3.200 feridos. E não há dúvida de que este desastre natural representa um golpe devastador para um país mergulhado há anos na incerteza.

Menos de seis meses atrás, forças americanas capturaram Nicolás Maduro, o líder de esquerda que governava o país desde 2013, em uma incursão à sua residência presidencial em Caracas ao amanhecer. Ele foi transportado para Nova York, nos Estados Unidos, para responder a acusações de narcotráfico.

Desde então, a Venezuela é governada pela então vice-presidente Delcy Rodríguez, aliada de Maduro, para grande pesar dos partidários da oposição. Eles esperavam que o governo Trump colocasse no poder a líder opositora, María Corina Machado.

A reação de Rodríguez frente ao terremoto deixou claro quais aspectos mudaram (e quais permanecem inalterados) desde a incursão americana de janeiro, bem como os inúmeros desafios enfrentados pela maltratada infraestrutura do país.

Rodríguez se dirigiu à nação através do canal estatal VTV, mais de duas horas após os tremores.

Até então, havia muito pouca informação oficial, certamente porque as vias de comunicação com algumas das regiões mais afetadas estavam interrompidas.

Mas esta é também mais uma consequência das restrições impostas à imprensa independente pelo governo de Maduro. Sites de notícias foram fechados, além de centenas de emissoras de rádio, principalmente regionais, que teriam sido fundamentais para oferecer informações atualizadas para o público local.

Delcy Rodríguez estava acompanhada pelo seu irmão Jorge Rodríguez, presidente da Assembleia Nacional Venezuelana, que tomou seu juramento como presidente interina, poucos dias depois da captura de Maduro. Com eles, estava também outro fiel aliado do ex-presidente: o ministro do Interior da Venezuela, Diosdado Cabello.

Cabello não vestia uniforme militar na ocasião, como fazia com frequência nos meses que antecederam a intervenção militar dos Estados Unidos. Ele e Jorge Rodríguez permaneceram em silêncio, ao lado da presidente do país.

Delcy Rodríguez estava visivelmente abalada durante seu discurso.

Ela pediu, "antes de tudo", união ao povo venezuelano, profundamente dividido há mais de uma década, entre os apoiadores de Maduro e do seu predecessor e mentor, Hugo Chávez (1954-2013), e seus opositores.

Ela declarou estado de emergência no país e encarregou o general Juan Ernesto Sulbarán, comandante da Guarda Nacional da Venezuela, de liderar a reação frente à crise.

Durante os mais de 25 anos em que Chávez e Maduro ficaram no poder, altos oficiais militares ocuparam cargos fundamentais no governo venezuelano.

Muitos ministérios ficaram anos nas mãos de generais. Analistas indicam que um dos motivos que levaram à deterioração da infraestrutura venezuelana é a falta de experiência técnica dos ministros responsáveis.

Sob o olhar atento do governo Trump, Rodríguez substituiu recentemente o general que dirigia o Ministério da Habitação por um arquiteto civil. E também trocou outro general, que chefiava o Ministério da Eletricidade, por um engenheiro elétrico.

Mas anos de má gestão e escassez, esta agravada pelas sanções dos Estados Unidos, contribuíram decisivamente para a deterioração de grande parte das moradias sociais.

A falta de cimento, por exemplo, foi causada pelo colapso da indústria estatal do produto, nacionalizada durante o governo Chávez. Ela impediu muitas vezes a realização dos reparos necessários em edifícios e moradias, que ficaram mais sujeitos a desabamentos.

O poder e a influência das forças armadas durante as últimas duas décadas também fizeram com que o equipamento militar, frequentemente, tivesse prioridade em relação ao fornecimento de ferramentas e veículos modernos às unidades de proteção civil.

Consciente destas deficiências, Delcy Rodríguez expressou sua gratidão aos governos estrangeiros que ofereceram ajuda ao seu país.

Ela mencionou, entre outros, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e seu governo. Segundo a presidente, eles estiveram "em contato constante com todas as nossas autoridades, oferecendo apoio e solidariedade".

Rodríguez também mencionou ter conversado com os presidentes da República Dominicana e de El Salvador, além de agradecer ao presidente do Chile, José Antonio Kast — todos eles, governos de direita.

As ofertas de ajuda não surpreendem, após um terremoto tão devastador. Mas a sua aceitação, por parte de Rodríguez, representa uma clara ruptura com as políticas de Maduro, que só aceitava ajuda de aliados ideológicos.

"Em momentos como este, a solidariedade entre os nossos povos é uma fonte inestimável de força", afirmou ela.

Para todos os venezuelanos que despertaram frente às cenas de devastação naquela manhã, particularmente para os familiares das vítimas sepultadas sob os escombros, esta abertura para permitir a entrada de assistência é fundamental. Ela oferecerá um raio de esperança, em um momento de angústia e incerteza.

 

Fonte: BBC News Brasil

 

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