segunda-feira, 29 de junho de 2026

Acordo com EUA alivia crise econômica do Irã

O Irã enfrenta um caminho longo e turbulento para se recuperar da guerra de quase quatro meses com os Estados Unidos e Israel. Antes de o conflito eclodir, o país já lidava com anos de sanções e isolamento internacional devido ao seu programa nuclear, que haviam reduzido pela metade as exportações de petróleo, sua principal fonte de receitas.

A economia iraniana estava em situação crítica, com inflação próxima de 50% e escassez severa de itens básicos. A guerra infligiu uma contração adicional de 10% na economia, segundo analistas, incluindo danos à infraestrutura e perda de exportações de petróleo.

O memorando de entendimento, firmado em 17 de junho, entre o governo americano e o regime iraniano oferece alívio imediato ao suspender as sanções dos EUA, permitindo a Teerã ampliar as exportações de petróleo bruto e derivados. O fim das sanções, válido por 60 dias, também abrange transporte marítimo, seguros e transações bancárias, colocando a República Islâmica em uma posição jurídica e financeira mais favorável do que antes da guerra.

Para Ali Vaez, diretor do projeto Irã no International Crisis Group, afirma que o acordo proporciona um necessário "alívio econômico imediato". "Mesmo com a possibilidade de vender petróleo à China, o regime iraniano tinha muita dificuldade para manter o básico funcionando antes do conflito", explica.

Outros elementos do acordo – como o desbloqueio de ativos e um fundo de reconstrução proposto de 300 bilhões de dólares (cerca de R$ 1,6 trilhão) – permanecem condicionados e podem levar meses ou anos para se concretizar.

<><> Exportações de petróleo disparam após isenções

O Irã já vinha exportando petróleo à revelia das sanções americanas há anos, recorrendo a uma frota "fantasma" de petroleiros e a vendas com grandes descontos – principalmente para a China – para gerar receita.

Mesmo após o início da guerra, no fim de fevereiro, embarques limitados continuaram, apesar do fechamento efetivo do estreito de Ormuz. Os volumes caíram para cerca de 64 mil barris por dia sob bloqueio naval dos EUA, segundo dados da TankerTrackers, empresa que rastreia remessas de petróleo.

Com o memorando em vigor, o país agora pode obter preços melhores por seu petróleo, que até então vinha sendo vendido, em grande parte, a refinarias independentes chinesas por valores bem abaixo do mercado.

O Irã também tinha dificuldade para repatriar essa receita vinda da China, com boa parte do dinheiro retida em contas de compensação ou depósitos restritos, o que impedia seu uso para importações essenciais ou gastos do governo. As novas isenções incluem explicitamente transações bancárias, o que deve facilitar o acesso a esses recursos.

Richard Nephew, pesquisador sênior da Universidade Columbia, disse ao Wall Street Journal que o Irã pode gerar cerca de 8 bilhões de dólares em receita com petróleo durante o período inicial das isenções.

As exportações iranianas já reagiram fortemente: 36 milhões de barris deixaram o país pelo Estreito de Ormuz em seis dias, contando a partir de 15 de junho, segundo a TankerTrackers – o equivalente a mais de 5 milhões de barris por dia. Outros 36 milhões de barris estão armazenados à espera de transporte.

<><> Próximo desafio: ativos congelados

Pelo acordo, Teerã busca acesso a parte de mais de 100 bilhões de dólares em ativos iranianos congelados por sanções, mantidos principalmente em bancos da China, Catar, Índia, Iraque e Japão.

Embora o país peça a liberação gradual de cerca de 24 bilhões de dólares, o documento afirma que os recursos congelados ficarão "totalmente disponíveis" após a implementação. Autoridades americanas, no entanto, dizem que qualquer transferência seguirá um modelo de "pagamento por desempenho", condicionado ao cumprimento de compromissos por parte do Irã.

Mesmo que o valor integral seja liberado, analistas alertam que o impacto será limitado para o regime e quase irrelevante para a população. "É difícil imaginar que 24 bilhões de dólares ou algo nessa ordem realmente ajude o Irã a se recuperar desse conflito", afirmou Vaez.

<><> Fundo de reconstrução de 300 bilhões de dólares

Há ainda o muito mais ambicioso fundo de reconstrução, com condições rigorosas, especialmente relacionadas ao programa nuclear iraniano e ao financiamento de grupos como Hezbollah e Hamas. Teerã inicialmente pressionou por centenas de bilhões de dólares em compensações diretas de Washington pelos danos da guerra, o que foi rejeitado pelo governo de Donald Trump.

A negativa levou à proposta de um fundo privado de reconstrução, estimado em 300 bilhões de dólares, com países do Golfo Pérsico – Catar, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos – como principais financiadores.

"Não será um fundo do qual o Irã poderá sacar livremente", disse Nephew. "Será vinculado a projetos específicos", acrescentou, citando exemplos como uma nova usina de dessalinização ou a reconstrução de portos.

O fundo proposto, incluído na segunda fase do acordo, é visto por muitos analistas como pouco realista neste momento, diante das inúmeras pendências. "Se algum dia chegarmos à segunda fase, que é quando o fundo de reconstrução se materializa – e isso é uma grande incógnita –, então acredito que os países do Golfo terão interesse em investir no Irã", avalia Vaez à DW.

Após terem sido alvos de ataques iranianos, os líderes do Golfo avaliam se o fundo vai contribuir para a estabilidade de longo prazo da região e se ganharão maior influência sobre Teerã.Ainda assim, esses países expressam forte resistência a investir grandes montantes se não houver mudanças significativas de comportamento e a reconstrução da confiança.

Tanto os EUA quanto o Irã veem a primeira fase do memorando como um teste decisivo que, segundo analistas, pode fracassar a qualquer momento.

"Os iranianos querem ver se Trump realmente cumpre o alívio de sanções e consegue conter o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu", disse Vaez. "Caso contrário, não há motivo para negociar um acordo mais abrangente."

¨      Comércio entre Irã e Emirados Árabes Unidos é retomado após acordo com os EUA

As transações econômicas entre o Irã e os Emirados Árabes Unidos (EAU) começaram a ser retomadas após a redução das tensões na região, afirmou neste sábado (27) Mohammad Sadegh Ghanadzadeh, vice-diretor de Serviços Comerciais da Organização para Promoção do Comércio do Irã.

"Agora, com o retorno de uma relativa calma à região, estamos vendo cargas e contêineres saindo do porto de Jebel Ali com destino ao Irã. O comércio está aumentando gradualmente. Esperamos que, aos poucos, volte aos níveis anteriores à guerra", declarou Ghanadzadeh, citado pela agência iraniana IRNA.

O ministro das Relações Exteriores dos Emirados Árabes Unidos, xeique Abdullah bin Zayed Al Nahyan, conversou por telefone com seu homólogo iraniano, Abbas Araghchi, após a assinatura do memorando de entendimento entre Teerã e Washington.

Durante a conversa, o chanceler emiradense ressaltou a importância da implementação dos termos do acordo, do respeito aos princípios de soberania e de boa vizinhança, além da garantia da liberdade de navegação no estreito de Ormuz.

Abdullah bin Zayed também manifestou a expectativa de que as negociações em andamento produzam resultados positivos capazes de assegurar segurança e estabilidade duradouras para a região.

<><> Ataque dos EUA contra o Irã

Apesar da vigência do acordo, governo dos EUA informou na última sexta-feira (26) que bombardeou a região do estreito. A justificativa foi que o país persa violou o cessar-fogo, assinado no último dia 17 para encerrar o conflito iniciado no fim de fevereiro.

O Comando Central das Forças Armadas dos EUA (CENTCOM) afirmou que atacou pelo ar locais de armazenamentos de mísseis e drones iranianos, além de equipamentos de radar no litoral sul do país. "A agressão não provocada contra a navegação comercial por parte das forças iranianas violou claramente o cessar-fogo", comunicou o CENTCOM nas redes sociais.

O presidente estadunidense, Donald Trump, descreveu o incidente em Ormuz como "violação insensata" da trégua acordada.

O Irã, por sua vez, informou que a cidade de Sirik, ao leste do estreito, foi atacada. O Corpo de Guardiães da Revolução Islâmica disse estar preparado para os combates e afirmou que responderá ao ataque "no momento e no local que considerar apropriados".

¨      Trump e seus oponentes usarão carta do Irã nas eleições para o Congresso, opina especialista

O presidente dos EUA, Donald Trump, e seus oponentes políticos podem usar o conflito com o Irã como um argumento a seu favor à medida que as eleições legislativas de meio de mandato se aproximam, disse à Sputnik o professor de história, ciência política e direito da Universidade de Nazaré, no estado de Nova York, Timothy Kneeland.

"Que o presidente Trump vá usar esse argumento é muito provável. Apoiadores do presidente americano estão exercendo alguma pressão política, aguardando a resolução dos conflitos internacionais", disse o professor.

Segundo ele, os opositores políticos de Trump também podem fazer da agenda internacional um dos temas das eleições de meio de mandato de novembro.

"É claro que seus oponentes farão disso o tema das eleições de meio de mandato de novembro, alegando que a liderança do Partido Democrata nos assuntos internacionais excede em muito a liderança do presidente dos Estados Unidos", avaliou Kneeland.

O analista observou que os esforços de outros países para influenciar Trump têm efeito limitado, devido ao seu desejo de ser um pacificador e ao medo do chefe da Casa Branca de perder a Câmara dos Representantes ou o Senado para os democratas.

"Qualquer tentativa de outros países para influenciá-lo é restringida pelo desejo de mostrar que ele é um pacificador em todo o mundo, e por seus temores de perder a Câmara dos Representantes ou o Senado dos EUA para oponentes políticos do Partido Democrata", disse o especialista americano.

Em 2026, as eleições gerais de meio de mandato serão tradicionalmente realizadas na primeira terça-feira de novembro, dia 3. Analistas preveem que os republicanos correm o risco de perder o controle da Câmara dos Deputados para os democratas.

¨      Israel manterá tropas no sul do Líbano e ameaça reagir se Irã tentar sabotar acordo

Israel manterá a presença militar de longo prazo no sul do Líbano e responderá "com grande força" caso o Irã tente impedir a implementação do acordo firmado entre os dois países, afirmou neste sábado (27) o ministro da Defesa israelense, Israel Katz.

Representantes de Israel e do Líbano assinaram na última sexta-feira (26), em Washington, um acordo-quadro para encerrar o conflito entre os dois países. A mediação foi dos Estados Unidos.

Katz classificou o entendimento como "um acontecimento histórico e uma importante conquista política e de defesa" para Israel. Segundo ele, o acordo pode criar, pela primeira vez em décadas, uma realidade mais segura na fronteira norte do país e fortalecer a segurança da população israelense.

O ministro também afirmou que o pacto representa "um golpe estratégico contra o bloco liderado pelo Irã" e acusou Teerã de tentar pressionar Israel e os Estados Unidos para inviabilizar a retirada das tropas israelenses do território libanês.

"Se o Irã tentar atacar Israel para impedir a implementação do acordo, responderemos com grande força", declarou.

<><> Tropas permanecerão até desarmamento do Hezbollah

Katz informou ainda que o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu determinou que as Forças de Defesa de Israel (FDI) preparem uma permanência prolongada na zona de segurança estabelecida no sul do Líbano.

Segundo o ministro, as tropas israelenses só deixarão a região após o desarmamento completo do Hezbollah em todo o território libanês e quando a segurança dos moradores do norte de Israel estiver garantida.

Para isso, as IDF deverão adaptar sua estrutura para proteger os militares destacados na área e neutralizar ameaças contra as comunidades israelenses próximas à fronteira.

¨      Chancelaria do Irã classifica ataques dos EUA como violação de memorando

Os ataques dos EUA ao Irã são uma clara violação do memorando de entendimento, declarou o Ministério das Relações Exteriores da República Islâmica.

"O Ministério das Relações Exteriores da República Islâmica do Irã condena os ataques aéreos do exército terrorista dos EUA em vários locais na costa sul do Irã na noite de sexta-feira, 26 de junho de 2026. Estes ataques brutais […] são uma violação grosseira […] da Carta da ONU, bem como uma clara violação do primeiro ponto do memorando", aponta o comunicado publicado no canal oficial da entidade diplomática no Telegram.

O Comando Central das Forças Armadas dos EUA já havia confirmado ataques contra o Irã em resposta a um suposto ataque a uma embarcação comercial no estreito de Ormuz. A mídia iraniana mais tarde relatou explosões ouvidas na cidade de Sirik, na costa do estreito de Ormuz.

O Irã e os EUA assinaram remotamente um memorando na noite de 18 de junho, que prevê o fim do conflito militar iniciado em 28 de fevereiro. O memorando também estabelece um prazo para que os EUA levantem seu bloqueio marítimo e o Irã restaure o transporte marítimo no estreito de Ormuz.

¨      Irã vence EUA e, além de bilhões de dólares, Washington paga preço estratégico da derrota, diz mídia

Mísseis e drones iranianos atingiram uma instalação naval dos EUA no Bahrein, causando destruição significativa, fato que o Pentágono ainda não confirmou ou divulgou oficialmente, escreve um jornal estadunidense.

A publicação destaca que o quartel-general do comando, mais de uma dúzia de estruturas adicionais e dois terminais de comunicação por satélite foram gravemente danificados no ataque.

"Os extensos danos causados à única base naval dos EUA no Oriente Médio, juntamente com os ataques a pelo menos 20 locais norte-americanos em toda a região, incluindo instalações militares e diplomáticas, fizeram com que os Estados Unidos reavaliassem toda a sua presença na região", ressalta o jornal.

Segundo a matéria, os ataques com mísseis e drones iranianos reduziram as principais instalações de comando, terminais de comunicação e estruturas de apoio a escombros. Os custos de reconstrução são estimados em centenas de milhões de dólares.

O ataque expôs a inadequação total das defesas de bases antigas contra armas de precisão modernas, forçando uma retirada humilhante de posições de longa data no Kuwait e na Arábia Saudita, além de uma luta para realocar ativos que estejam fora do alcance do Irã, observa o artigo.

Apesar das tentativas de ocultar a extensão da devastação, restringindo o acesso a imagens de satélite, ficou evidente que a espinha dorsal do poder naval norte-americano na região havia sido efetivamente prejudicada.

Ao mesmo tempo, o custo total da guerra subiu para dezenas de bilhões de dólares, mas o verdadeiro preço foi estratégico: o domínio incontestável que os EUA outrora desfrutavam nas águas do Golfo foi destruído, e o poder de fogo iraniano passou a ditar os termos do engajamento.

Agora, com a confiança dos aliados abalada e sem um caminho claro para restaurar a postura anterior, os EUA enfrentam a amarga realidade de uma presença regional reduzida e são forçados a aceitar que suas bases não são mais santuários, mas sim uma responsabilidade diante da supremacia militar iraniana, conclui a reportagem.

Anteriormente, um jornal britânico relatou que as empresas norte-americanas do setor militar-industrial enfrentam dificuldades para atender à exigência do Pentágono de aumentar a produção de munições, em um contexto no qual os EUA tentam repor seus estoques de mísseis, esgotados pelo conflito com o Irã.

 

Fonte: DW Brasil/Sputnik Brasil

 

 

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