'Eu
estava lá! Vi a mão de Deus e o gol do século de Maradona na Copa vencida pela
Argentina, 40 anos atrás'
Não era
para eu estar ali.
Eu
tinha 17 anos, nunca havia ido a um jogo de futebol e não tinha interesse no
esporte.
Mas,
naquela tarde, ao entrar no Estádio Azteca, na Cidade do México, eu iria
assistir a Argentina enfrentando a Inglaterra pelas quartas de final da Copa do
Mundo da Fifa de Futebol Masculino de 1986. E presenciaria algo que eu só
entenderia por completo muitos anos depois.
Nós não
tínhamos planos para aquele dia, até que o telefone tocou pela manhã.
Um
amigo do meu pai tinha dois ingressos para o jogo que ele não poderia usar.
Será que minha mãe e eu gostaríamos de ir?
Meu pai
não tinha certeza se suas "princesas" deveriam ir ao jogo. Afinal,
apenas cinco anos haviam se passado após a guerra das Malvinas/Falklands e ele
receava que as possíveis tensões entre os torcedores argentinos e ingleses
pudessem se espalhar pelo estádio.
O
conflito de 1982 durou 74 dias. Nele, morreram 649 militares argentinos, 255
britânicos e três civis, moradores do arquipélago.
Por
isso, dentro e fora do campo, aquele jogo entre a Argentina e a Inglaterra era
mais que uma simples partida de futebol.
Mas eu
ainda estava longe de ser jornalista. E não entendia totalmente as discussões
futebolísticas e os antecedentes geopolíticos da partida.
Minha
mãe não pensou duas vezes. Afinal, era a Copa do Mundo e ela não deixaria sua
filha perder aquela oportunidade única na vida.
A Copa
de 1986 foi disputada no meu país, o México. Parecia que todos estavam
comemorando porque a nossa seleção, do superastro mexicano Hugo Sánchez, não
tinha ido tão mal quanto o esperado.
O
México caiu nas quartas de final para a poderosa Alemanha Ocidental, nos
pênaltis. Foi o nosso melhor resultado em uma Copa do Mundo, ao lado do torneio
de 1970, também disputado no país.
Vivi
aquilo mais como uma festa do que como um jogo.
Eu me
arrumei toda e usei muita maquiagem. Imaginei que o estádio estaria repleto de
torcedores estrangeiros bonitos, não jogadores lendários.
Minha
mãe achou aquilo um exagero, mas deixou passar.
<><>
Maradona, de vilão a herói
A
animação começou ainda no caminho, já que precisávamos cruzar a cidade para ir
ao estádio.
Bandeiras
nas janelas dos carros, estranhos cantando pelo trânsito. Mesmo no caminho pelo
enorme anel viário da capital, o Periférico, era possível sentir o entusiasmo
crescendo.
É claro
que eu entrei na festa, gritando com todo mundo "Viva México!", mesmo
que a nossa seleção já estivesse fora da Copa.
O
futebol não tinha muita importância para mim. O essencial era participar do
momento.
Dentro
do Azteca, a festa era irresistível. O barulho, as cores, a sensação de que o
mundo todo estava reunido em um só lugar.
À nossa
volta, havia torcedores de todas as partes, cantando, rindo, vestindo roupas
típicas, seus rostos pintados com cores brilhantes.
Havia
garotas pintando bandeiras no rosto e pedi que fizessem uma em mim. Não tenho
fotos e, é claro, ainda não havia telefones celulares.
Eu me
lembro de pensar menos no jogo em si e mais na emoção de estar ali no meio da
torcida.
Quando
o jogo começou, eu quase não acompanhava o que acontecia no gramado.
Eu
estava muito ocupada entrando na ola, a conhecida onda mexicana, totalmente
envolvida pelo ritmo da torcida. O futebol parecia distante, era quase
secundário.
O
primeiro tempo terminou em zero a zero. Mas, aos seis minutos do segundo tempo,
tudo mudou.
De
repente, todos ficaram de pé. Por um segundo, o estádio foi pura comemoração.
Depois, seguiu-se a confusão, discussões, muito barulho vindo de todas as
direções.
Diego
Maradona se lançou no ar ao mesmo tempo em que o goleiro inglês, Peter Shilton,
lutava pela bola. O argentino marcava o primeiro gol do jogo.
Foi ali
que tudo mudou para mim. De repente, o futebol era o que importava.
As
pessoas à minha volta perguntavam se o gol havia sido válido ou não. Afinal,
ele cabeceou a bola para a rede... ou sua mão foi a responsável?
Veementes
protestos podiam ser ouvidos do lado dos torcedores ingleses.
Havia
ao meu lado um homem com roupas muito formais, vestindo terno e gravata.
Provavelmente, ele havia vindo direto do escritório.
Ele
discutia intensamente o jogo e parecia conhecer muito de futebol. Eu estava
confusa e decidi recorrer a ele.
Por qué
tanto alboroto?, perguntei. Por que tanto alvoroço?
Ele
explicou que Maradona havia colocado a bola na rede com a mão, mas o árbitro
não viu e validou o gol.
Aquilo
me deixou perplexa.
Naquele
momento, eu certamente não imaginava ter presenciado o que se tornaria um dos
gols mais comentados da história do esporte. Para mim, era apenas um lance que
havia acontecido no campo e os torcedores à minha volta pareciam estar
discutindo.
Com o
passar do tempo, o gol ficou conhecido em todo o mundo como a "Mão de
Deus", a famosa expressão criada pelo próprio Maradona: Ele marcou o gol
"um pouco com a cabeça e um pouco, com a mão de Deus".
O
debate sobre o primeiro gol de Maradona seguia intenso nas arquibancadas. Tanto
que, quatro minutos depois, quase perdemos o segundo!
E,
aqui, chegamos ao ponto. Quando relembro os momentos que passei entre os
milhares de torcedores no estádio naquele dia, minha primeira lembrança não é
da "Mão de Deus", mas sim do segundo gol.
Ao
contrário do primeiro grande lance de Maradona, o estádio inteiro ficou em
silêncio enquanto ele carregava a bola no ataque.
Maradona
avançou com uma precisão quase impossível, driblando quatro jogadores ingleses.
Até o goleiro Shilton recebeu uma finta e acabou sentado no chão.
Você
podia vê-lo se mover ao longo do campo, trançando para um lado e para o outro,
até que... bum! Bola no fundo da rede. O estádio explodiu!
Olhei
em volta e fiquei admirada ao ver que, ao contrário do primeiro gol, todos
comemoravam este segundo. Até mesmo alguns torcedores ingleses que estavam
próximos.
"É
por isso que as pessoas adoram futebol", pensei eu. "Agora, tudo faz
sentido."
Anos
depois, Maradona criaria a famosa frase: "A bola não fica suja." Esta
é a melhor forma de explicar a aparente contradição entre os dois gols, com
poucos minutos de diferença.
Gary
Lineker descontou para os ingleses e a famosa partida terminou com a vitória da
Argentina por 2 a 1.
O
engraçado é que, ao final do jogo, quando minha mãe e eu saímos do estádio em
direção ao carro, já havíamos esquecido o futebol a que havíamos acabado de
assistir. Eu estava mais interessada no ar de festa à nossa volta.
Naquele
momento, minha cabeça não estava no jogo em si. Eu vivia a arrebatadora
sensação de ter estado dentro do Azteca, aquele lugar imenso, icônico, que
guarda partes importantes da história recente do México nas suas paredes.
Aquele
não é só um estádio de futebol. Ele faz parte da nossa memória coletiva.
<><>
O histórico Azteca
O
Estádio Azteca já havia recebido a Copa de 1970, quando o Brasil de Pelé deixou
sua marca para sempre nos torcedores mexicanos. Foi ali que o Brasil venceu a
Itália na final, por 4 a 1, conquistando o tricampeonato mundial.
A
admiração dos mexicanos pela seleção brasileira permaneceu por muitos anos.
Eu
tinha só um ano de idade quando o Brasil foi tricampeão, mas o México relembrou
seu futebol e o espírito dos brasileiros até muito tempo depois. Muitos
mexicanos desenvolveram profunda afeição pela seleção canarinho.
Sempre
houve a sensação de que, quando o México saía das competições, muitos
torcedores meio que adotavam o Brasil, admirando seu estilo e seu talento.
Em
1986, o Brasil jogou bem e conquistou os corações mexicanos. A eliminação nos
pênaltis para a França, nas quartas de final, pareceu uma verdadeira tragédia
para muitos de nós.
É claro
que, como latino-americanos, ficamos felizes ao ver o triunfo da Argentina,
ainda mais com o brilho de Maradona.
Mas, se
você perguntar a muitos mexicanos, eles irão responder que sonhavam em silêncio
em ver o Brasil campeão no México mais uma vez.
Mas a
história do estádio não inclui apenas boas lembranças. Ainda repercutia na
minha memória o terremoto de 1985, que reduziu setores inteiros da Cidade do
México a escombros.
Passamos
semanas com o ar cheirando a pó e perda. A cidade parecia estar com a
respiração suspensa.
O
Estádio Azteca foi um dos principais locais de refúgio naquela ocasião. Foi ali
que famílias que haviam perdido tudo encontraram abrigo e esperança.
Entrar
no estádio era profundamente comovente, algo quase solene. E, ainda assim, ele
se transformou em um local de vida e alegria.
Enquanto
minha mãe e eu andávamos, conversando e comendo tacos e frutas com chili e
limão, dos vendedores de rua, ficamos imensamente orgulhosas de sermos
mexicanas.
Nós
ríamos de como adotávamos todo tipo de estereótipos, como os sombreros e roupas
de cores brilhantes. Nós usávamos tudo aquilo com bom humor e rebeldia.
E, ao
recebermos a Copa do Mundo, nós, mexicanos, oferecíamos calor humano, alegria e
generosidade para todo o mundo.
O
próprio mascote da Copa de 1986, uma pimenta com um sombrero, parecia capturar
aquele espírito mexicano — totalmente arrojado, brincalhão e,
inconfundivelmente, nosso.
Anos se
passaram até que eu pudesse compreender que havia presenciado um momento
verdadeiramente mágico.
Por
estranho que possa parecer, o futebol em si, nunca me emocionou muito, mesmo
depois do jogo. Mas aquele momento específico permaneceu na minha memória.
Sim, o
primeiro gol foi controverso e enfureceu muitas pessoas. Não só à minha volta
naquele dia, mas em todo o mundo, por muitos anos.
Tempos
depois, morei na Argentina, trabalhando como correspondente da BBC. As pessoas
mencionavam com frequência a Mão de Deus. Meus amigos argentinos nunca perdiam
a oportunidade de mencionar o episódio para os meus colegas ingleses.
Mas,
com isso, o segundo gol acabava sendo esquecido. E ele foi simplesmente
espetacular, quase inacreditável, se eu não tivesse visto com meus próprios
olhos.
Pessoalmente,
eu prefiro me gabar de ter visto no estádio este segundo gol — o "Gol do
Século"!
Fonte:
Por Lourdes Heredia, do Serviço Mundial da BBC

Nenhum comentário:
Postar um comentário