Cannabrava:
Bilionários, bancos e impunidade - os escândalos que desafiam a Justiça
A
sucessão de escândalos financeiros envolvendo alguns dos maiores bilionários do
Brasil deixa uma pergunta inevitável: existe a mesma Justiça para todos?
Enquanto trabalhadores e pequenos empresários enfrentam o peso da lei e da
crise econômica, grandes fortunas aparecem repetidamente associadas a
investigações sobre fraudes bilionárias, gestão temerária e manipulação
contábil. A concentração de riqueza parece caminhar lado a lado com uma
preocupante sensação de impunidade.
O caso
mais recente envolve o bispo Edir Macedo, fundador da Igreja Universal,
controlador da Record e do Banco Digimais. A Polícia Federal deflagrou a
Operação Miragem para apurar suspeitas de gestão fraudulenta, manipulação de
demonstrativos contábeis, inserção de informações falsas e operações de crédito
vedadas pela legislação do sistema financeiro.
A
Justiça Federal determinou o bloqueio de até R$ 670 milhões em bens dos
investigados, além de buscas e apreensões e da quebra dos sigilos bancário e
fiscal.
Segundo
as investigações, o banco teria utilizado mecanismos para ocultar sua real
situação financeira, inflar artificialmente seu patrimônio e aparentar
solvência perante os órgãos de fiscalização, em práticas que os investigadores
apontam como semelhantes às verificadas no extinto Banco Master.
Entre
os investigados estão administradores do banco, entre eles o bispo João
Urbaneza, apontado como homem de confiança de Edir Macedo, seu filho, Tiago
Urbaneza, e outros envolvidos na gestão da instituição.
O
Digimais especializou-se em operações de crédito consignado e financiamento de
veículos, chegando a oferecer CDBs com remuneração superior a 110% do CDI entre
2023 e 2024. Entre seus contratos figurava o crédito consignado destinado aos
militares da Aeronáutica, firmado em 2025, com vigência até 2030, mediante
desconto em folha de pagamento.
Edir
Macedo, apontado pela revista Forbes como o pastor mais rico do mundo, com
patrimônio estimado em cerca de US$ 2 bilhões, o equivalente a aproximadamente
R$ 10 bilhões, vive atualmente em Miami. Segundo as informações divulgadas, ele
não pôde ser ouvido pela Polícia Federal por residir nos Estados Unidos. A
investigação prossegue e ainda não há condenações.
Outro
escândalo envolve os bilionários Carlos Alberto Sicupira e Paulo Alberto
Lemann, filho de Jorge Paulo Lemann que é controlador histórico das Lojas
Americanas. Segundo a revista Forbes, Lemann possui uma fortuna estimada em US$
19,8 bilhões, cerca de R$ 88 bilhões, enquanto Sicupira acumula aproximadamente
US$ 6,8 bilhões, o equivalente a cerca de R$ 40 bilhões.
Ambos
figuram entre os homens mais ricos do mundo e, justamente por isso, chama ainda
mais atenção o fato de estarem no centro de uma das maiores investigações sobre
fraude corporativa da história do país.
As
investigações sobre a fraude contábil estimada em R$ 54 bilhões nas Lojas
Americanas levaram à expedição de mandados de busca e apreensão e ao sequestro
de bens até esse montante.
A
operação também alcança ex-executivos das Americanas e executivos de grandes
instituições financeiras, entre elas Itaú, Bradesco e Santander, que
participaram de operações atualmente sob investigação.
É
importante registrar que as investigações ainda estão em andamento e que todos
os envolvidos têm direito à ampla defesa e à presunção de inocência.
Mas os
fatos conhecidos até aqui revelam um padrão inquietante: sucessivas suspeitas
de manipulação de balanços, ocultação de prejuízos e utilização do sistema
financeiro para produzir uma aparência de solidez que não correspondia à
realidade.
O que
impressiona é o contraste entre a dimensão das fortunas acumuladas e a dimensão
das fraudes investigadas. De um lado, patrimônios medidos em dezenas de bilhões
de reais. De outro, trabalhadores enfrentando juros elevados, empresas fechando
as portas, serviços públicos com recursos escassos e uma população submetida a
uma das maiores desigualdades do planeta.
Quando
os protagonistas desses escândalos figuram entre os homens mais ricos do mundo,
a pergunta torna-se inevitável: a riqueza está sendo construída pelo
empreendedorismo ou por mecanismos que desafiam os limites da legalidade?
Uma
democracia sólida exige que a lei seja rigorosamente igual para todos. O
combate à corrupção e às fraudes financeiras não pode distinguir poder
econômico, influência política ou posição religiosa. Se o Brasil deseja
construir instituições respeitadas, precisa demonstrar que bilhões de reais e
sobrenomes influentes não colocam ninguém acima da Justiça.
• Bilionário Sicupira passa a ocupar o
centro da investigação sobre a fraude das Americanas
O
bilionário Carlos Alberto Sicupira, conhecido como Beto Sicupira, passou a
ocupar uma posição central nas investigações sobre a fraude contábil bilionária
das Americanas. Segundo informações da coluna de Mirelle Pinheiro, no
Metrópoles, a colaboração premiada do ex-diretor financeiro da companhia, Fábio
Abrate, é um dos elementos que ajudam a explicar por que o empresário entrou no
radar da nova fase da Operação Disclosure, conduzida pela Polícia Federal.
Sicupira
é um dos nomes mais conhecidos do capitalismo brasileiro. Além de acionista de
referência das Americanas, ele também é um dos acionistas da Ambev e integra o
grupo de empresários associado ao chamado trio de bilionários formado por Jorge
Paulo Lemann, Marcel Telles e o próprio Sicupira, que construiu influência em
grandes empresas de varejo, bebidas e consumo.
A
segunda fase da Operação Disclosure foi deflagrada nesta quinta-feira (25), com
o cumprimento de nove mandados de busca e apreensão no Rio de Janeiro e em São
Paulo. Além de Sicupira, a investigação também alcança Paulo Alberto Lemann,
filho de Jorge Paulo Lemann e ex-integrante do conselho de administração da
Americanas, o ex-conselheiro Eduardo Saggioro.
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Conhecimento pleno
De
acordo com o material publicado pelo Metrópoles, Abrate afirmou ao Ministério
Público Federal (MPF) que Sicupira estava entre as pessoas que, em sua
avaliação, tinham conhecimento das irregularidades investigadas. A delação do
ex-diretor financeiro passou, assim, a ser uma peça relevante para a Polícia
Federal aprofundar a apuração sobre o eventual grau de conhecimento de
integrantes do alto comando da empresa e do grupo controlador em relação às
supostas manipulações contábeis.
Na
colaboração premiada, Abrate descreveu a relação entre o então
diretor-presidente da Americanas, Miguel Gutierrez, apontado pela investigação
como principal responsável pelas fraudes, e integrantes do comando da
companhia. Segundo ele, Gutierrez mantinha contato permanente com a ex-diretora
Anna Saicali e também com Sicupira.
Ao
responder a perguntas sobre quem teria conhecimento das decisões tomadas pela
antiga diretoria, Abrate afirmou que Gutierrez e Saicali “sabiam de tudo”. Em
seguida, incluiu Sicupira entre as pessoas que, segundo sua percepção, também
teriam conhecimento das irregularidades.
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Novos desdobramentos
Apesar
das declarações do ex-diretor financeiro, o Ministério Público Federal não
denunciou Sicupira quando apresentou, em março de 2025, a ação penal contra 13
ex-executivos e ex-funcionários da Americanas. Naquele momento, o MPF sustentou
que o conselho de administração e os acionistas de referência haviam sido
induzidos a erro pela antiga diretoria da empresa.
A nova
fase da investigação, no entanto, indica que a Polícia Federal busca esclarecer
se integrantes do grupo controlador e outros investigados tinham conhecimento
das supostas manipulações contábeis relacionadas às operações de risco sacado e
às verbas de propaganda cooperada, conhecidas como VPC. Esses mecanismos,
segundo a investigação, teriam sido utilizados para ocultar a real situação
financeira da varejista.
A
fraude nas Americanas se tornou um dos maiores escândalos corporativos da
história recente do país. O caso veio à tona em janeiro de 2023, quando a
companhia revelou inconsistências contábeis bilionárias, provocando forte abalo
no mercado financeiro, perda de valor da empresa, disputas judiciais com
credores e uma profunda crise de governança.
Desde
então, investigadores tentam reconstruir a cadeia de responsabilidades dentro
da companhia. A principal questão é saber se as irregularidades ficaram
restritas à antiga diretoria executiva ou se chegaram ao conhecimento de
conselheiros, acionistas de referência e instituições financeiras envolvidas em
operações com a empresa.
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Mito de eficiência
A
inclusão de Sicupira entre os alvos da nova fase da Operação Disclosure amplia
a dimensão política e econômica do caso. O empresário sempre esteve associado
ao grupo de controle da Americanas e a um modelo de gestão empresarial
apresentado por décadas como símbolo de eficiência, disciplina de custos e
criação de valor. Agora, a investigação busca determinar se esse núcleo tinha
ou não ciência das práticas que levaram a varejista a uma das maiores crises de
sua história.
Até o
momento, a apuração segue em andamento, e a eventual responsabilidade criminal
dos investigados dependerá da análise das provas reunidas pela Polícia Federal
e pelo Ministério Público Federal. Sicupira não foi denunciado na ação penal
apresentada em março de 2025, mas passou a figurar no centro das diligências da
nova fase da investigação.
• Operação da PF contra Lemann e Sicupira
apura manipulação de mercado e associação criminosa
A
Polícia Federal avançou em mais uma fase da investigação sobre o caso das Lojas
Americanas, com foco na apuração dos crimes de manipulação de mercado e
associação criminosa relacionados a um esquema contábil estimado em R$ 54
bilhões. Entre os alvos da operação estão o empresário Carlos Alberto Sicupira
e Paulo Alberto Lemann, filho do empresário Jorge Paulo Lemann.
A nova
etapa da Operação Disclosure cumpre mandados de busca e apreensão no Rio de
Janeiro e em São Paulo, autorizados pela 10ª Vara Federal Criminal do Rio de
Janeiro. A investigação também envolve a análise da atuação de acionistas,
executivos e instituições financeiras no suposto esquema contábil.
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Operação amplia escopo da investigação
A ação
da PF dá continuidade às apurações sobre supostas irregularidades contábeis que
teriam impactado os balanços da companhia ao longo de anos. O foco da
investigação agora inclui a possível participação de diferentes agentes
econômicos, ampliando o alcance da apuração sobre responsabilidades no caso.
Segundo
a Polícia Federal, há indícios, em tese, dos crimes de manipulação de mercado e
associação criminosa. "Os suspeitos teriam conhecimento de supostas
fraudes contábeis praticadas ao longo de anos, relacionadas a operações de
risco sacado e a contratos de verba de propaganda cooperada (VPC) supostamente
contabilizados sem lastro econômico”.
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Como funcionariam os mecanismos investigados
O risco
sacado é uma operação comum no setor varejista, na qual dívidas com
fornecedores são transferidas para instituições financeiras, que passam a
realizar os pagamentos imediatos e recebem posteriormente da empresa.
A
investigação aponta suspeitas de que essas operações teriam sido retiradas dos
balanços sem a devida transparência, o que poderia ter alterado a percepção
sobre o endividamento real da companhia.
Já as
verbas de propaganda cooperada (VPCs) são incentivos comerciais entre
varejistas e fornecedores. Segundo a apuração, valores inexistentes ou inflados
teriam sido registrados nos demonstrativos financeiros.
De
acordo com a investigação, a suposta manipulação de dados contábeis teria
permitido a divulgação de resultados artificiais, com impacto em bônus de
executivos e na valorização das ações da empresa.
• Instituto Empresa mira controladores da
Americanas após operação
O
Instituto Empresa voltou a mirar os controladores da Americanas após a nova
fase da Operação Disclosure, que, segundo a entidade, reforça a tese de
responsabilização por uma fraude contábil estimada em R$ 54 bilhões. A apuração
criminal amplia o alcance do caso e fortalece o argumento de que os prejuízos
não devem recair apenas sobre ex-diretores da companhia.
A
segunda etapa da Operação Disclosure, conduzida pela Polícia Federal (PF) e
pelo Ministério Público Federal (MPF) tem como um dos alvos o empresário Carlos
Alberto da Veiga Sicupira, acionista de referência das Americanas.
De
acordo com o Instituto Empresa, as investigações confirmam que o caso
Americanas envolve falhas de governança mais amplas. A entidade afirma que
sempre sustentou, desde o início da arbitragem em defesa de acionistas
minoritários, que os acionistas controladores e outros agentes com dever legal
de supervisão também precisam responder pelos danos causados aos investidores.
A
investigação avança sobre o esquema de fraudes contábeis que levou a Americanas
à recuperação judicial e abalou o mercado de capitais brasileiro. Laudos
técnicos periciais citados pela entidade apontam um rombo de R$ 54 bilhões. A
apuração mira crimes como manipulação de mercado, uso de informação
privilegiada, lavagem de dinheiro e associação criminosa.
Para o
Instituto Empresa, a dimensão e a duração das irregularidades afastam a tese de
que apenas executivos da antiga diretoria teriam conduzido a fraude. A entidade
sustenta que o poder de controle impõe deveres fiduciários, além de
responsabilidades de fiscalização e acompanhamento da administração da
companhia.
"A
posição do Instituto sempre foi muito clara. Uma fraude dessa magnitude, que
perdurou por tantos anos, não pode ser explicada apenas pela atuação de alguns
diretores. Defendemos que os controladores também devem responder pelos deveres
fiduciários inerentes ao poder de controle e pela supervisão da
companhia", afirma Eduardo Silva, presidente do Instituto Empresa.
O
Instituto também relaciona o avanço das investigações criminais à necessidade
de responsabilização na esfera societária. A entidade representa centenas de
investidores minoritários em procedimentos arbitrais que buscam reconhecer a
responsabilidade da Americanas e de seus acionistas de referência pelos
prejuízos causados a quem comprou ações com base em demonstrações financeiras
que a companhia depois reconheceu como fraudulentas.
A
arbitragem ganhou peso após a própria Americanas divulgar a existência desses
procedimentos. Para o Instituto Empresa, a frente societária deve caminhar
junto com as investigações criminais, já que os minoritários sofreram perdas
relevantes após a revelação das inconsistências contábeis e a crise de
confiança que atingiu a empresa.
Outro
elemento citado pela entidade envolve a atuação da B3. Antes do avanço da nova
etapa da Operação Disclosure, a bolsa já havia concluído, em processo de
enforcement, que integrantes do Conselho de Administração e do Comitê de
Auditoria descumpriram deveres de diligência e fiscalização. A B3 aplicou
multas que chegaram a R$ 395 mil por conselheiro.
"A
própria B3 rejeitou a tese de que a companhia era apenas vítima de alguns
executivos. Ao responsabilizar conselheiros e membros do Comitê de Auditoria,
deixou claro que houve falhas relevantes nos mecanismos de supervisão. Sempre
defendemos que essa lógica também precisa alcançar quem exercia o controle da
companhia", afirma Silva.
Na
avaliação do Instituto Empresa, essa decisão da B3 já indicava que a crise não
se restringia à diretoria executiva. A entidade vê nas sanções administrativas
um sinal de que os mecanismos internos de fiscalização falharam em diferentes
níveis da estrutura corporativa.
O
Instituto também destaca que os efeitos econômicos da recuperação judicial
atingiram fornecedores, trabalhadores e acionistas minoritários. Esses grupos,
segundo a entidade, suportaram parte relevante do impacto financeiro provocado
pelo colapso contábil da Americanas.
A
entidade afirma ainda que o papel dos bancos no caso começa a ganhar espaço nas
investigações e pode abrir uma nova frente de responsabilização. Para o
Instituto, eventual participação ou falha de instituições financeiras ligadas
às operações contestadas precisa receber apuração adequada.
Fonte:
Diálogos do Sul Global/Brasil 247

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