As
conquistas importantes dependem de conhecer o terreno, as adversidades e se
impor sobre os adversários
Agora é
para valer. A partir de hoje, contra a equipe do Japão, a seleção brasileira
decidirá, partida por partida, seu destino na Copa do Mundo. Se perder uma,
estará fora. Tomara que a má impressão das duas primeiras rodadas tenha ficado
definitivamente no passado e que o time treinado por Carlo Ancelotti confirme
daqui por diante a evolução demonstrada no jogo contra a seleção da Escócia. E
que pratique um futebol capaz de devolver ao torcedor o direito de sonhar com o
título. Um sonho que, com toda sinceridade, tem sido impossível nos últimos
mundiais.
Isso
mesmo. O torcedor brasileiro, nas Copas mais recentes, às vezes até se deixa
iludir pelo esforço marqueteiro em torno de jogadores que parecem mais
preocupados com o corte de cabelo do que com a aplicação em campo. A verdade,
porém, é que o respeito que alguns adversários ainda demonstram pela seleção
brasileira se deve mais ao que o time já foi do que naquilo que ele ainda é. As
possibilidades de vitória se sustentam apenas na tradição e nas glórias do
passado — sem qualquer conexão com a realidade de um time que se mostra
realmente preparado para vencer.
Isso
mesmo. Os jogadores da seleção até demonstram vontade de triunfar. Eles até
parecem desejar, com sinceridade, levantar o troféu e serem novamente aclamados
como os melhores do mundo. Infelizmente, essa não tem sido a realidade. Nas
Copas passadas, o time brasileiro não fez por merecer qualquer conquista. Na
verdade, nem a CBF nem as forças que influenciam a convocação e a escolha dos
11 jogadores que entram em campo de camisas amarelas para representar o Brasil
têm se mostrado capazes de trazer dos mundiais algo que vá além das colocações
secundárias, alcançadas após a conquista do pentacampeonato, em 2002.
Tomara
que, sob comando de Ancelotti, a história tenha um desfecho diferente do que
teve sob o comando de Carlos Alberto Parreira, em 2006, de Dunga, em 2010, de
Felipão, em 2014, e de Tite, em 2018 e 2022 — treinadores que se mostraram
incapazes de compreender o que se passava sob seus narizes. Em que pese a
insistência do italiano em pôr em campo jogadores que dividem a opinião da
torcida, o fato é que o time já demonstrou, na última partida da fase de
classificação, contra o time da Escócia, uma aplicação tática que reduz a
dependência crônica que o time brasileiro parece ter do talento individual dos
principais craques.
É bom
deixar claro o seguinte: contar com craques capazes de desequilibrar uma
partida é um trunfo — e a equipe brasileira nunca deixou de ter atletas
excepcionalmente talentosos entre os convocados. Mas os talentos individuais
têm se mostrado insuficientes para assegurar conquistas contra adversários que,
além de talentosos, se preparam para o jogo coletivo com afinco e determinação.
De
amanhã em diante, não haverá mais desculpas. Uma derrota significará deixar
escapar entre os dedos a possibilidade do título que marcaria o fim a uma
espera que já está se prolongando além do necessário. Seja como for, esse
período de jejum prolongado já deixou pelo menos uma lição: nenhum trabalho
jamais dará certo se for executado com base apenas no desejo de sucesso. Querer
ganhar é importante, mas não é suficiente para garantir a vitória.
Como
vem sendo neste espaço nas últimas semanas, a primeira condição da vitória é
conhecer em profundidade o terreno em que se pisa e saber exatamente quais são
os pontos fortes e os pontos fracos de cada adversário. Nas circunstâncias que
têm cercado o time do Brasil, algumas soluções, ainda que sejam vendidas como
ideais, jamais produzirão resultados satisfatórios.
Algumas
delas, ao contrário, trazem o risco de, ao invés de solucionar uma pendência,
gerar uma confusão maior do que as que se propunham a resolver. Isso
simplesmente porque se baseiam em situações que dependem mais do improviso e do
voluntarismo do que das condições efetivas para se chegar a um bom resultado.
Isso
vale para o futebol e para situações muito mais sensíveis. Nas últimas semanas,
esta coluna tem explorado as razões profundas que explicam o fracasso crônico
das políticas ocidentais no Oriente Médio. A insistência em exportar o modelo
europeu de Estado-nação para uma região de sociologia estritamente tribal gerou
o caos em países artificiais como a Síria e o Iraque. Também foi dito que a
única solução pragmática e viável para a região passa por respeitar essa mesma
sociologia. E pela adoção do modelo de sucesso das monarquias do Golfo: a
criação de emirados-cidades independentes, onde a fronteira política coincide
com a autoridade orgânica dos clãs locais.
GOLPE
SANGRENTO
Hoje, é
preciso dar um passo adiante e enfrentar o elefante na sala, aquele dogma
intocável que domina as resoluções da ONU, os discursos diplomáticos e as
redações de quase toda a imprensa ocidental: a chamada "solução de dois
Estados". A premissa central desta ideia é que Gaza e a Cisjordânia podem,
e devem, unir-se para formar um Estado palestino soberano, viável e pacífico. A
realidade nua e crua, no entanto, sustentada pela análise implacável do doutor
Mordechai Kedar e pela própria história recente, é muito mais dura: Gaza e a
Cisjordânia jamais poderão constituir um país.
A
"nação palestina", nos moldes em que o Ocidente a imagina, é uma
ficção política, sociológica e geográfica. Para compreender esta
impossibilidade estrutural, precisamos primeiro olhar para o mapa. Não com os
olhos de um burocrata em Genebra, mas com o pragmatismo de quem entende de
logística e soberania. Gaza e a Cisjordânia são dois territórios separados por
dezenas de quilômetros de território soberano israelense. Não há contiguidade
territorial.
Tentar
unir essas duas massas de terra num único Estado funcional exigiria a criação
de corredores extraterritoriais, pontes ou túneis gigantescos cortando Israel
ao meio — uma vulnerabilidade de segurança que nenhum país do mundo, muito
menos um que vive sob ameaça existencial constante, jamais aceitaria. Mas a
geografia é apenas o menor dos problemas. A verdadeira fratura é sociológica e
política.
Gaza e
a Cisjordânia são, na prática, dois universos distintos, habitados por
populações com dinâmicas tribais diferentes e governados por entidades que se
odeiam mortalmente. Em 2007, o mundo assistiu a uma demonstração brutal dessa
incompatibilidade. Após a retirada unilateral de Israel de Gaza em 2005 — um
teste prático da fórmula "terra por paz" que resultou num fracasso
espetacular —, o grupo terrorista Hamas tomou o poder na Faixa de Gaza através
de um golpe sangrento.
Militantes
do Fatah, o partido que domina a Autoridade Palestina na Cisjordânia, foram
atirados dos telhados dos edifícios mais altos de Gaza. Desde então, a divisão
é absoluta. O Hamas governa Gaza com mão de ferro, sob uma ideologia islâmica
radical, enquanto a Autoridade Palestina, liderada por Mahmoud Abbas, governa
partes da Cisjordânia de forma corrupta, ineficiente e sustentada apenas pelas
baionetas israelenses que impedem o Hamas de fazer em Ramallah o que fez em
Gaza.
MÁFIAS
CONCORRENTES
Negar
essa realidade, mais do que negar a história, é acreditar numa possibilidade
sem a menor chance de sucesso. Quem acompanha a situação no Oriente Médio e
tenta compará-la à realidade brasileira — onde parece não haver conciliação
possível entre a esquerda petista e a direita bolsonarista — não tem noção do
que é uma cisão profunda entre grupos que não têm a mínima condição de
coexistir no mesmo espaço.
Tentar
fundir o Hamas e o Fatah num único governo nacional é uma ilusão que beira o
delírio. São duas máfias políticas concorrentes, com patrocinadores
internacionais diferentes (o Irã financia o Hamas; o Ocidente financia a
Autoridade Palestina) e visões de mundo incompatíveis. A única coisa que os une
é a retórica anti-Israel, mas, na prática, a guerra civil latente entre eles é
muito mais real do que qualquer projeto de construção nacional. Aprofundando a
análise sociológica, como nos ensina o doutor Kedar, esbarramos na própria
gênese da identidade palestina.
A
narrativa de um povo palestino ancestral, com raízes milenares e uma identidade
nacional coesa, não resiste ao escrutínio histórico e demográfico. A sociedade
árabe na região é, fundamentalmente, uma sociedade tribal. A lealdade primária
de um indivíduo em Hebron é ao clã Jabari ou Qawasmeh; em Nablus, ao clã Masri.
A identidade "palestina" foi, em grande medida, uma construção
política reativa, forjada no século XX como ferramenta de oposição ao sionismo,
e não como um projeto nacional orgânico.
A prova
mais evidente desta construção artificial está nos próprios sobrenomes de
muitas famílias palestinas, que revelam as suas origens recentes em outros
países árabes. Nomes como Al-Masri (o egípcio), Al-Horani (da Síria), Al-Hijazi
(da Arábia Saudita) ou Al-Mughrabi (do Magrebe/Marrocos) contam a história de
uma imigração maciça. No final do século XIX e início do século XX, o
formidável desenvolvimento econômico, agrícola e infraestrutural gerado pelos
pioneiros judeus atraiu dezenas de milhares de trabalhadores árabes de toda a
região. Eles vieram em busca de emprego e prosperidade, não para fundar um
Estado.
Quando
a Autoridade Palestina foi criada nos anos 90, o Ocidente cometeu o erro crasso
de importar lideranças estrangeiras para governar essa população tribal. Yasser
Arafat, nascido no Cairo, e a sua cúpula da OLP, que vivia exilada em Túnis,
foram parachutados na Cisjordânia e em Gaza. Para os clãs locais, eles eram, e
continuam a ser, forasteiros corruptos. Mahmoud Abbas, o atual presidente, cujo
mandato expirou há mais de uma década, não tem qualquer legitimidade orgânica
fora do seu complexo fortificado em Ramallah.
ABOMINAÇÃO
INACEITÁVEL
Um
Estado construído sobre alicerces tão frágeis, sem coesão tribal e liderado por
elites rejeitadas pela própria população, é um Estado falido antes mesmo de
nascer. Seria apenas mais um Iraque ou uma Síria, condenado à guerra civil
permanente. Há ainda o vetor teológico, que torna a equação da "solução de
dois Estados" insolúvel. Para o Ocidente secular, um Estado palestino ao
lado de Israel seria o fim do conflito. Para a teologia islâmica radical que
domina grupos como o Hamas e a Jihad Islâmica, e que permeia profundamente a
sociedade palestina, a própria existência de um Estado judeu soberano em terras
consideradas islâmicas (Dar al-Islam) é uma abominação inaceitável.
Nesta
visão de mundo, o judaísmo é uma religião invalidada (Din Batil), e os judeus
não têm direito à autodeterminação nacional. Qualquer acordo de paz, qualquer
concessão territorial, é visto apenas através da lente da "Paz de
Hudaybiyyah" — uma trégua tática e temporária, a ser rompida assim que
houver força suficiente para aniquilar o inimigo. Portanto, a criação de um
Estado palestino soberano, com controle de fronteiras, espaço aéreo e
capacidade de importar armamento pesado, não seria o fim do conflito, mas sim a
criação de uma plataforma de lançamento formidável para a próxima guerra de
aniquilação contra Israel.
O dia 7
de outubro de 2023, quando o Hamas transformou Gaza numa base militar
terrorista para massacrar civis israelenses, foi a prova definitiva e sangrenta
de que a soberania, nas mãos erradas, é apenas o prelúdio para o genocídio. A
comunidade internacional, presa às suas próprias ilusões e à necessidade de
manter viva a indústria bilionária do "processo de paz", recusa-se a
aceitar esta realidade. Continua a financiar a Autoridade Palestina, continua a
perpetuar a farsa dos refugiados hereditários através da UNRWA — a agência das
Nações Unidas para refugiados palestinos —, e continua a exigir que Israel faça
concessões suicidas em nome de um Estado palestino que, sociológica, geográfica
e teologicamente, é uma impossibilidade absoluta.
Há um
aspecto econômico nesta equação que não pode ser ignorado, especialmente por
quem está habituado a analisar a viabilidade de grandes projetos. A Autoridade
Palestina e o Hamas operam, na prática, como modelos de negócio baseados na
vitimização e na extração de rendas internacionais. Se um Estado palestino
soberano fosse efetivamente criado e a paz fosse alcançada, a razão de ser
dessas organizações desapareceria da noite para o dia. Os bilhões de dólares em
ajuda humanitária, fundos de desenvolvimento europeus e doações de países
árabes secariam.
MAPA
DAS UTOPIAS
O
"processo de paz" tornou-se um fim em si mesmo, uma indústria
altamente lucrativa que sustenta burocratas, ONGs e lideranças corruptas que
desviam fundos para contas na Suíça ou para a construção de túneis de terror.
Para a elite política palestina, a resolução do conflito seria um desastre
financeiro. O incentivo estrutural não é para construir um país viável, mas
para manter o status quo de conflito latente e dependência crônica. Além disso,
a viabilidade econômica de um Estado palestino unindo Gaza e Cisjordânia é
nula. Sem a infraestrutura, a tecnologia e o mercado de trabalho israelense, a
economia palestina colapsaria em semanas.
A
dependência de Israel para o fornecimento de água, eletricidade, combustível e
arrecadação de impostos alfandegários é total. Um Estado soberano exige
autonomia econômica, algo que nem Gaza nem a Cisjordânia possuem ou têm
capacidade de desenvolver a curto ou médio prazo, especialmente sob lideranças
focadas na guerra e não no desenvolvimento. A ideia de que a simples declaração
de independência na ONU transformaria magicamente esses territórios numa
economia funcional é de uma ingenuidade atroz. No mundo dos negócios, quando um
projeto se revela estruturalmente inviável, com premissas falsas, incentivos
perversos e um histórico de fracassos sucessivos, a única decisão racional é
cancelar o projeto, assumir as perdas e procurar uma alternativa pragmática.
Na
geopolítica do Oriente Médio, a "solução de dois Estados" é esse
projeto falido. Tentar unir Gaza e a Cisjordânia num país funcional é como
tentar fundir água e azeite por resolução da ONU. A verdadeira paz e
estabilidade para as populações árabes da região não virá da criação de mais um
Estado artificial e disfuncional, governado por cleptocratas ou terroristas.
Virá, como argumentamos no artigo anterior, da descentralização radical. Virá
da "Solução dos Emirados", devolvendo o poder aos clãs locais nas
cidades-estados da Cisjordânia, respeitando a sociologia orgânica e aceitando a
realpolitik da dissuasão.
Enquanto
o Ocidente continuar a ler o Oriente Médio com o mapa das suas próprias
utopias, o sangue continuará a manchar a areia. É hora de arquivar a ilusão do
Estado palestino e começar a lidar com a realidade como ela é: tribal,
implacável e imune a resoluções de papel.
Fonte:
Por Nuno Vasconcellos, em O Dia

Nenhum comentário:
Postar um comentário