segunda-feira, 29 de junho de 2026

A casa de Flávio Bolsonaro caiu e virou um grande barraco

No dia 24 de junho, quando dois terremotos de 7,2 e 7,5 graus na escala Ritcher destruíram Caracas e várias cidades da Venezuela, com mais de mil mortes, o abalo sísmico não se estendeu apenas ao Círculo do Fogo do Pacífico, atingindo a costa oeste americana, partes do Japão, e do Sudeste da Ásia. A acomodação das placas teutônicas abalou ainda mais a crise da candidatura do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) à Presidência, quando a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro divulgou vídeos acusando duramente o enteado, filho 01 de Jair Bolsonaro.

A ex-primeira-dama, presidente do PL Mulher, era cotada para compor, como vice, a chapa da direita que seria encabeçada pelo governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP), que despontava como o mais forte adversário de Lula. Mas, em novembro do ano passado, o ex-presidente Jair Bolsonaro indicou o filho primogênito como candidato do PL. Jair só confia em um nome da família Bolsonaro como capaz de lhe dar indulto e abreviar ou extinguir a pena de 27 anos de prisão.

Em dezembro, Michelle, na condição de presidente do PL-Mulher, atuou em dezembro, no Ceará, para condenar o apoio do PL à candidatura de Ciro Gomes ao governo do Estado. Na ocasião, o senador, que se aliou a Ciro, criticou a madrasta, reservadamente, por articular o lançamento da vereadora Priscila Costa a candidata ao Senado pelo PL-CE. Mas os ressentimentos começaram a vazar, quando Tarcísio de Freitas optou, em fins de abril, pela reeleição em São Paulo, e cortou os trunfos de Michelle. E sua calculada explosão, em vídeo muito bem produzido e postado nas redes sociais, coincidiu com o dia em que a saída de Jaques Wagner da liderança do PT no Senado parecia fazer refluir a crise de credibilidade do filho 01 por suas tratativas secretas com Daniel Vorcaro, o ex-dono do Banco Master.

Segundo Michelle, “ele (Flávio) foi muito ríspido, me desrespeitou e me maltratou no telefone. Eu não tinha feito nada contra ele. Ele disse que seria melhor ficar fora das decisões do partido. Disse que eu havia chegado ontem e não entendia nada de política”. A senadora Damares Alves (Republicanos-DF), apoiadora da candidatura da ex-primeira-dama ao senado pelo PL-DF, disse que as declarações “caíram como uma bomba” na campanha de Flávio, justamente no dia do jogo do Brasil com a Escócia.

O senador tentou se desdizer e usou a mulher, a dentista Fernanda Bolsonaro, e a paternidade de meninas, para criar uma imagem menos agressiva do marido junto ao eleitorado feminino (mais de 52% do Colégio Eleitoral) e evangélico (cerca de 30%) nos quais Michelle exerce grande influência. Mas o estrago estava feito. O vídeo de 27m de Michelle teve 11 milhões de visualizações em apenas quatro horas.

Na sexta-feira, temendo novas quedas nas pesquisas, Flávio distribuiu mensagem contraditória que abria dizendo: "Em nenhum momento ofendi ou tive a intenção de ofender a Michelle. Se o fiz em algum momento, mais uma vez, peço desculpas". Primeiro nega, depois admite. Fez o mesmo quando o repórter do “Intercept Brasil” o indagou, em Brasília, sobre o teor da conversa com Vorcaro: “É mentira”; para, em seguida, acusar o repórter de “militante” e fugir. Quando a notícia virou manchete na imprensa, tentou se explicar à tarde do mesmo dia, e se contradisse a cada fala.

<><> Obsessão do clã é tirar PT do poder

Passados quase 50 dias das revelações do envolvimento de Flávio Bolsonaro com o dono do Banco Master, cuja autorização para funcionar foi concedida pelo ex-presidente do Banco Central no governo Bolsonaro, Roberto Campos Neto, e a menos de 100 dias do primeiro turno da eleição, em 4 de outubro, chama a atenção a falta de ideias da campanha de Flávio Bolsonaro para o Brasil.

Embora os membros do clã Bolsonaro repitam, como realejo, o desejo de “voltar ao poder”, não apresentam qualquer plano para o país. O mantra dos Bolsonaro, que apostam na eleição de Flávio Bolsonaro para tirar o pai da cadeia com indulto aos golpistas, é tão somente de que “é preciso tirar o PT do poder”. No vídeo que distribuiu em resposta pública a Michelle, Flávio disparou em sincericídio: “Eu, Michelle, você, que está me assistindo, a gente tem o mesmo objetivo, que é o melhor pro nosso país e livrar o Brasil das mãos sujas do PT”.

Se alguém tem dúvida dos objetivos de autoproteção do clã, bastam algumas frases do experiente presidente do PL, o deputado federal Valdemar da Costa Neto, que estava em Miami (EUA) e disse, em entrevista à jornalista da “Rádio Gaúcha” Kelly Matos, que decidiu antecipar a viagem a São Paulo por considerar o episódio “muito sério”.

"Eu tenho que conversar com a Michelle, chegando, e com o Flávio. Nós temos que acertar isso aí, porque, se não acertar isso aí, nós já vamos sair perdendo a eleição em casa. Vamos ter que acertar”,  afirmou. Ele acrescentou que se não conseguir apagar o incêndio no seio da campanha, “quem vai pagar o preço, com mais dez anos, é o Bolsonaro”. Ou seja, em vez do lema “Deus, Pátria e Família”, para os Bolsonaro, a família está em primeiro lugar.

Quem resumiu, de forma universal, os problemas das famílias, foi o grande escritor russo Liev Tolstói: “Todas as famílias felizes são parecidas, mas cada família infeliz é infeliz à sua própria maneira”. Tolstói não conheceu os Bolsonaro. Pior para o Brasil.

<><> Flávio abre planos aos EUA

Aqui um reparo ao que escrevi antes. Flávio Bolsonaro não apresentou nenhum plano novo para o Brasil. Além de pedir que “as forças armadas americanas afundassem barcos transportando drogas na Baía de Guanabara”, tentou evitar desgaste pelos ataques aos gastos sociais do governo Lula, prometendo apoiar a manutenção do Bolsa Família, atacado no início do governo do pai, juntamente com o Farmácia Popular e o Mais Médicos, entre outros programas sociais.

Como não adiantou, e seu barco estava afundando após novas ameaças de tarifaços do governo Trump ao Brasil, enviou carta ao secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rúbio, solicitando que não se imponham tarifas ao Brasil, que defendeu em junho de 2025, quando Trump usou a chantagem das tarifas para interromper o julgamento de Jair Bolsonaro pelo Supremo Tribunal Federal.

Imprudente e servil – motivo pelo qual o Ministério das Relações Exteriores, o Itamaraty, o classificou de entreguista e traidor da Pátria – ofereceu a Rubio (conforme post do economista Paulo Figueiredo, que trama contra o Brasil nos EUA com o filho 03, Eduardo Bolsonaro) criar uma “equipe de transição” para atender os interesses americanos. Antes precisa ganhar a eleição. Depois, abdicar da soberania brasileira. De todo modo, para acentuar seu despreparo para vir a ser presidente da República, a oferta sobre o Pix foi de pronto descartada por Rúbio. Por não ser tema da sua alçada: compete mais ao secretário do Tesouro, Scott Bessent e à USTR, o Escritório de Comércio americano.

Na campanha eleitoral, a partir da metade de agosto, não poderá repetir o desmaio ao vivo de dez anos atrás, em debate na TV Bandeirantes. Em agosto de 2016, concorria à Prefeitura do Rio de Janeiro pelo PSC. Na hora de responder, ficou pálido e desfaleceu. Foi amparado pelos candidatos Carlos Osório (PSDB) e Jandira Feghali (PcdoB), que é médica. Mas o pai, o então deputado federal Jair Bolsonaro, foi ríspido, não admitindo que “uma comunista” socorresse o filho (Jandira é médica). Por sinal, a família fraqueja nos momentos de tensão, pois Jair Bolsonaro apresentou novo surto de soluços, com a crise recente entre a mulher e o filho mais velho...

<><> Sinais trocados

O clã Bolsonaro e as lideranças do PL, como o deputado-pastor Sóstenes Cavalcanti (PL-RJ), vivem insinuando ligações do PT com o crime organizado – após ser obrigado pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal e vice-presidente do Tribunal Superior Eleitoral, a retirar postagem na qual apontava “suspeitas nos Estados Unidos sobre o financiamento do PCC ao PT”, o deputado disse que vai cobrar a confirmação do embaixador americano no Brasil. Mas, a realidade é que, quem está envolvido com o PCC e o Comando Vermelho, considerados “organizações terroristas” pelo governo Trump, são os aliados do PL em São Paulo e no Rio de Janeiro. Duas manchetes desta semana mostram o contrário e apontam para o próprio arraial bolsonarista como interlocutor do PCC.

“Sócio de empresa ligada à produtora do filme de Bolsonaro integra o PCC, diz MP”. A manchete se refere a Alex Leandro Bispo dos Santos, sócio da empresa subcontratada por ONG ligada à produtora do filme “Dark Horse” sobre Jair Bolsonaro. Alex, preso por feminicídio, é citado como membro do PCC pelo Ministério Público paulista. O filme, que recebeu R$ 61 milhões de Vorcaro, a pedido de Flávio (que ainda não explicou todo o caso), voltou à cena com as apurações sobre a rede de empresas ligada à Go Up.

É que o MP-SP identificou Alex Bispo dos Santos, sócio da Favela Conectada Serviço e Tecnologia Ltda., como integrante do PCC. A empresa foi subcontratada pelo Instituto Conhecer Brasil, ONG presidida por Karina Ferreira da Gama, dona da Go Up, produtora do longa bolsonarista. O Instituto Conhecer Brasil ganhou licitação, sem concorrentes, de R$ 800 milhões da Prefeitura de São Paulo, comandada por Ricardo Nunes (MDB-SP), para instalar, a preços elevados, rede de wi-fi na periferia da capital.

No Rio de Janeiro, veio à tona esta semana um escândalo ainda maior no governo Cláudio Castro (PL-RJ), apeado do poder por fraudes em sua reeleição em 2022, o aliado de Flávio Bolsonaro, que mantinha aliança política com o ex-presidente da Alerj, Rodrigo Bacellar, preso por ligação com o Comando Vermelho. A manchete na imprensa foi “Empresa investigada por ligação com PCC tem contrato de R$ 168,8 milhões para abastecer frota da PM do RJ”. O caso aponta que a Rede Sol Fuel Distribuidora, alvo da “Operação Carbono Oculto” - que flagrou fraudes em combustíveis no grupo Refit, com intermediação de redes de postos de combustíveis para lavar dinheiro -, por suspeita de envolvimento com o PCC, segue fornecendo combustível às viaturas da PM-RJ, após quase um ano de investigação.

Em junho de 2025, na entrega de duas centenas de veículos à PM-RJ, abastecidas de combustíveis por empresas-laranja do PCC, o senador fez questão de posar com o então aliado governador Cláudio Castro e o secretário de Estado da Polícia Militar, coronel Marcelo Menezes.

•        Mendonça só precisa explicar por que não há operação contra Flávio Bolsonaro e seus R$ 61 milhões. Por Henrique Rodrigues

A 9ª fase da Operação Compliance Zero, deflagrada pela Polícia Federal nesta quinta-feira (18), joga luz sobre o que há de mais sofisticado e, ao mesmo tempo, de mais degradante na simetria do poder em Brasília. Investigar fraudes bilionárias, o uso espúrio do parlamento para favorecer interesses de banqueiros e o trânsito de vantagens indevidas é o papel constitucional das instituições. O que não se justifica, e clama por uma crítica severa, é a gritante disparidade com que o ministro-relator do caso no Supremo Tribunal Federal, o “terrivelmente evangélico” e bolsonarista André Mendonça, maneja a balança da Justiça. Onde há o rigor implacável da caneta para uns, há um silêncio sepulcral e uma pasmante inércia para outros.

O escândalo em torno do extinto Banco Master e de seu ex-controlador, Daniel Vorcaro, redesenhou o mapa das relações promíscuas entre o sistema financeiro e o Congresso Nacional. Diante do colapso de uma estrutura acusada de fraudar o Fundo Garantidor de Crédito (FGC), a Polícia Federal e o STF começaram a puxar os fios de uma extensa rede de influência política. No entanto, o desenho final dessa malha de suspeitos, sob a tutela de Mendonça, revela uma seletividade que afronta a lógica do interesse público e evoca fantasmas de blindagem partidária e ideológica.

O escândalo em torno do extinto Banco Master e de seu ex-controlador, Daniel Vorcaro, redesenhou o mapa das relações promíscuas entre o sistema financeiro e o Congresso Nacional. Diante do colapso de uma estrutura acusada de fraudar o Fundo Garantidor de Crédito (FGC), a Polícia Federal e o STF começaram a puxar os fios de uma extensa rede de influência política. No entanto, o desenho final dessa malha de suspeitos, sob a tutela de Mendonça, revela uma seletividade que afronta a lógica do interesse público e evoca fantasmas de blindagem partidária e ideológica.

De um lado do espectro, a condução do ministro foi ágil em expor as franjas do centrão e da esquerda. O senador Ciro Nogueira (PP-PI), há muito tempo habituado aos meandros do pragmatismo fisiológico, foi deixado em mar aberto no curso das investigações. Os relatórios da PF, liberados pelo relator, detalham com requintes de ostentação jantares nababescos em Courchevel, nos Alpes Franceses, viagens de luxo pagas por Vorcaro e repasses mensais de R$ 300 mil que totalizaram ao menos R$ 6 milhões. Para Ciro, o peso das provas e a desidratação de sua blindagem política tornaram sua situação insustentável.

O mesmo rigor de Mendonça justificou a autorização para a investida contra o senador Jaques Wagner (PT-BA). Líder do governo Lula no Senado e pilar histórico do petismo, Wagner viu seus endereços em Salvador e Brasília serem vasculhados por agentes federais. A PF apura se o parlamentar baiano atuou diretamente no Congresso para inflar o teto de cobertura do FGC e facilitar regras de crédito consignado de interesse do banco, supostamente operando por meio de uma pessoa que seria do seu convívio, o banqueiro Augusto Lima, o “Guga”. Trata-se de uma suspeita grave que envolve um suposto imóvel de R$ 2,5 milhões e que exige, por óbvio, apuração rigorosa. Mas o que espanta não é o avanço sobre Wagner ou Ciro; é o tamanho do abismo que separa essas ações do tratamento dispensado ao filho do ex-presidente da República Jair Bolsonaro, o também senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ).

Enquanto Jaques Wagner é alvo de buscas por uma suposta interlocução em solo nacional e Ciro Nogueira é exposto por suas viagens, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) permanece intocado, em uma zona de aparente imunidade processual infinitamente mais grave, e envolvendo montantes muito maiores, que desafia qualquer princípio de equidade e lógica.

As investigações jornalísticas do The Intercept Brasil expuseram ao país planilhas, contratos, comprovantes bancários do sistema SWIFT e registros de mensagens diretas que comprovam que Daniel Vorcaro transferiu cerca de US$ 10,6 milhões, o equivalente a impressionantes R$ 61 milhões, para um suposto financiamento de Dark Horse, um filme biográfico de cariz bizarro sobre Jair Bolsonaro. Flávio não apenas negociou os valores de forma direta e incisiva com o banqueiro, como o próprio áudio vazado revelou a urgência e a proximidade da cobrança, consolidada em frases de explícito compromisso mútuo.

O roteiro financeiro do dinheiro do tal filme é escabroso: os recursos foram remetidos para o exterior, irrigando as contas do Havengate Development Fund LP, no Texas, um fundo controlado por Paulo Calixto, advogado de Eduardo Bolsonaro. Diante de uma triangulação internacional dessa magnitude, que envolve indícios robustos de evasão de divisas, lavagem de dinheiro através da fachada de fomento cultural e uma produtora de cinema que nunca produziu nada na área audiovisual, repleta de incongruências, a reação de André Mendonça foi o absoluto nada. Até onde se sabe, Flávio Bolsonaro sequer foi alvo de uma busca e apreensão ou de medidas cautelares similares às que atingiram seus colegas de Senado.

Argumentar que o caso de Flávio se difere por se tratar de “investimento privado em obra cultural” ou pela “lentidão burocrática dos mecanismos de cooperação jurídica internacional” é um exercício de cinismo técnico. A robustez documental apresentada no caso dos R$ 61 milhões supera, em materialidade inicial, muitos dos indícios que justificaram o arrombamento de portas de outros investigados, todos também senadores. A diferença real e incontornável não está nos autos, mas na biografia de quem assina as ordens no STF.

André Mendonça chegou ao Supremo por uma escolha pessoal e declarada de Jair Bolsonaro, ungido sob a promessa de ser seu representante “terrivelmente evangélico” nos interesses daquela gestão no Tribunal. Ver o mesmo magistrado atuar hoje como o juiz que calibra o tempo, a intensidade e o sigilo de uma investigação que sufoca a oposição e blinda o filho do seu padrinho político é um insulto à neutralidade que se espera da magistratura.

A condução da Operação Compliance Zero sob a batuta de Mendonça desenha uma justiça de duas velocidades e dois pesos. Para os adversários ou aliados descartáveis do sistema, aplica-se o rito sumário da espetacularização, das buscas ao amanhecer e do confisco de passaportes. Para o herdeiro do bolsonarismo, que operou repasses milionários nas sombras de offshores norte-americanas com um banqueiro fraudador, concede-se o benefício do tempo, da dúvida e da eterna “fase de verificação”. Se o papel do STF é garantir a estabilidade democrática e a aplicação cega da lei, a postura de André Mendonça neste caso atesta o contrário: a balança pendeu, e a venda da justiça foi estrategicamente levantada sobre um dos olhos para poupar os seus.

 

Fonte: Por Gilberto Menezes Côrtes, no JB/Fórum

 

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