Como
ferramentas digitais influenciam a saúde mental de adultos
O uso
de ferramentas digitais de comunicação pode influenciar a saúde mental de
adultos mais velhos de formas diferentes, segundo um estudo publicado nesta
quarta-feira (24/06), na revista científica PLOS Global Public Health. A
pesquisa, liderada por Hossam Ali-Hassan, da Universidade de York, no Canadá,
analisou dados de cerca de 13 mil pessoas com 55 anos ou mais e identificou que
o uso de e-mail está associado a uma melhor percepção da saúde mental, enquanto
o uso de redes sociais pode estar relacionado a uma avaliação mais negativa do
próprio bem-estar psicológico.
Os
pesquisadores utilizaram informações da Pesquisa Canadense de Uso da Internet
de 2022, conduzida pelo Statistics Canada. A amostra incluiu 13.536
participantes e reuniu dados sobre hábitos de comunicação on-line nos três
meses anteriores ao estudo, além de indicadores de saúde mental autodeclarada e
características sociodemográficas.
Os
resultados mostram que mais da metade dos entrevistados utilizava algum tipo de
ferramenta digital para se comunicar com outras pessoas. Após ajustes
estatísticos para fatores que poderiam influenciar os resultados, os
pesquisadores observaram uma associação positiva significativa entre o uso de
e-mail e a percepção de saúde mental. Em contrapartida, o uso de redes sociais
foi associado a uma pior avaliação do estado psicológico dos participantes.
Outras
formas de comunicação digital, como aplicativos de mensagens instantâneas,
chamadas de voz ou vídeo pela internet, plataformas de compartilhamento de
conteúdo e sites de relacionamento, não apresentaram relação significativa com
a saúde mental dos participantes.
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Envelhecimento ativo
De
acordo com Fabricia Signorelli, psiquiatra e pesquisadora da Universidade
Federal de São Paulo (Unifesp), quando empregadas como ferramentas de
comunicação direta, a tecnologia e a internet contribuem para encurtar
distâncias, reduzir o isolamento social e diminuir os índices de solidão,
influenciando positivamente a saúde mental dos idosos, como demonstrado no
estudo.
“A
literatura corrobora os achados da pesquisa ao indicar que a conectividade
digital constitui um importante instrumento para a promoção do envelhecimento
ativo, possibilitando aos idosos maior autonomia na gestão de suas rotinas e na
manutenção de vínculos afetivos significativos. Contudo, o mesmo trabalho, bem
como outras evidências científicas, apontam que o uso de redes sociais de massa
pode estar associado a impactos negativos na percepção da saúde mental”,
completou Signorelli.
Os
autores destacam que os resultados ajudam a esclarecer um debate ainda presente
na literatura científica. Embora o acesso à internet seja frequentemente
apontado como uma ferramenta para reduzir o isolamento social e a solidão entre
idosos, estudos anteriores têm apresentado conclusões divergentes sobre os
efeitos das tecnologias digitais no bem-estar psicológico dessa população.
Uma das
hipóteses levantadas pelos pesquisadores para explicar a associação negativa
observada nas redes sociais é a maior exposição a conteúdos perturbadores e à
comparação social, fatores que podem afetar a percepção de bem-estar.
Os
autores defendem que entender os efeitos específicos das redes sociais pode
ajudar a criar estratégias que visem a promoção da saúde psicológica dos
idosos. “Compreender como as ferramentas de comunicação digital estão
associadas aos resultados de saúde mental pode orientar políticas e práticas
destinadas a apoiar o bem-estar mental nessa faixa etária. As descobertas podem
contribuir para o desenvolvimento de intervenções e estratégias direcionadas ao
apoio ao bem-estar mental de adultos mais velhos.
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Orientação profissional
Para
Leandro Oliveira, psicólogo, PhD em neurologia e neurociências e professor da
Universidade Católica de Brasília (UCB), profissionais da área da saúde mental
podem orientar sobre esses hábitos digitais que precisam ser equilibrados.
“Precisamos, inclusive, nos afastar das telas por diversos momentos.”
“Os
psicólogos podem, sim, estimular o uso da tecnologia para fortalecer vínculos
sociais, para auxiliar no desenvolvimento da autonomia digital, por exemplo,
pagar uma conta. Também podem ajudar a identificar situações em que o ambiente
virtual esteja contribuindo para a ansiedade e causando outros
comprometimentos”, afirmou Oliveira.
Segundo
Marcelle Passarinho Maia, psicóloga hospitalar e coordenadora do serviço de
psicologia do Hospital Santa Lúcia Sul e Norte, em Brasília, a pesquisa reforça
uma conclusão importante da literatura internacional: “O fator protetor para a
saúde mental não é simplesmente estar conectado, mas sentir-se verdadeiramente
conectado. Ou seja, a qualidade das relações continua sendo mais importante do
que a quantidade de contatos ou o tempo gasto nas plataformas digitais.
Acredito que a principal contribuição do trabalho seja mostrar que nem todas as
formas de comunicação digital produzem os mesmos efeitos”, disse a psicóloga.
>>>> Palavra de especialista - Gustavo Omena,
psiquiatra e psicogeriatra
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Tecnologia aliada
"Há
algo que me preocupa genuinamente e que raramente aparece nessas discussões: a
solidão algorítmica. Os idosos que chegam às redes sociais muitas vezes buscam
conexão, mas o algoritmo entrega conteúdo, não conexão. Notícias, vídeos,
polêmicas. A sensação de estar "vendo o mundo" pode mascarar um
isolamento afetivo real que continua lá, intocado. Por isso, quando oriento
meus pacientes idosos sobre tecnologia, faço questão de valorizar o que o
estudo também sinalizou: as trocas diretas, pessoais e intencionais — como uma
mensagem para um amigo, uma videochamada com a família ou a participação em um
grupo com propósito — têm um impacto muito diferente do consumo passivo de
conteúdo nas redes. A tecnologia que aproxima pessoas é uma aliada da saúde
mental. Já aquela que substitui humanos por conteúdo pode ser
prejudicial."
Fonte:
Correio Braziliense

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