Nísia
Trindade: As lições da pandemia para o Brasil
No
início da pandemia de Covid-19, divulguei, nas minhas listas de contatos
pessoais do WhatsApp, páginas notáveis de Pedro Nava sobre o início da Gripe
Espanhola no Rio de Janeiro. Uma forma de nos irmanarmos com nossos
antepassados e tentar criar alguma perspectiva de sentido para um presente tão
surpreendentemente inquietante. A morte à espreita. Gestos como esse se
multiplicaram naqueles anos. Devo à Nísia Trindade Lima a apresentação desse
trecho impressionante de Chão de ferro (1976), muito antes de me tornar
especialista nas memórias do grande mineiro e renomado médico. Mal sabia o que
viveríamos e o quanto o narrado, preso nas páginas de Nava, se soltaria e se
multiplicaria em horror – com 700 mil vidas brasileiras ceifadas –, mas também
em aperfeiçoamento da ciência, solidariedade e esperança de dias melhores.
Mal
sabíamos, então, eu e Nísia, que, décadas depois, ela viria a ser protagonista
central do combate à pandemia de Covid-19. Mais: que a ela caberia estar à
frente da reconstrução, como primeira mulher a assumir o Ministério da Saúde na
nossa história, dos serviços nacionais de saúde e do Sistema Único de Saúde, o
SUS, colapsados por políticas negacionistas e de desmonte institucional
autoritário no desgoverno da pandemia e do Brasil. O único elemento que não
chega a surpreender é o seu protagonismo na Fiocruz, já que foi pavimentado por
décadas de trabalho acadêmico e de gestão, árduos e ambos de excelência. Mas
Nísia foi também a primeira mulher a presidir a centenária instituição.
Agora
estamos aqui reconhecendo que coube à Nísia, ainda por cima, escrever esse
livro fundamental sobre a pandemia de Covid-19. Sua generosidade, que, ao fim e
ao cabo, explica esse prefácio, é, porém, nossa velha conhecida.
Como
nos adverte a autora, o livro que o leitor tem em mãos é um experimento de
inovação de escrita. Dada a complexidade, multidimensionalidade e
transversalidade do assunto geral e o protagonismo a que ela foi convocada a
desempenhar, primeiro, na Fiocruz, por duas gestões seguidas (2107-2022), e,
depois, no Ministério da Saúde (2023-2025) do Governo do Presidente Luiz Inácio
Lula da Silva, não existia uma forma disponível de antemão para a tarefa.
A não
ser que o livro fosse, digamos, na pior das hipóteses, a lembrança triunfalista
de seus feitos e, na melhor, um registro dos fatos de um ponto de observação
especial, como conhecemos exemplos. Há realizações intelectuais e públicas,
além de decisões políticas, baseadas em trabalho árduo a serem celebradas na
trajetória de Nísia Trindade Lima, não há dúvida. E uma dimensão importante do
livro é mesmo a do registro contra o esquecimento que – ai de ti, sociedade
brasileira – já vai fazendo o seu trabalho. Esquecimento ainda mais perigoso
diante da gravidade do assunto e da compreensão estrutural entre saúde,
sociedade, política e meio ambiente que o livro nos apresenta.
É este
o ponto da inovação da escrita desta cientista inquieta e cidadã comprometida:
a forma do livro teve que ser, ao seu modo, reinventada para poder acomodar
tantas camadas de experiência e sensibilidade: a da sanitarista, presidente da
Fiocruz, Ministra da Saúde, com a da socióloga respeitada por seus pares. Que,
além disso, ainda é autora com A maiúsculo, dado que sempre primou por
expressar seus raciocínios complexos – porque complexos são os problemas de que
eles tratam – em narrativas claras e providas de grandes lances de beleza.
Escrever
é tão mais relevante à medida em que o mundo tal como o conhecemos vai se
desfazendo, alguém já disse. Ainda há tempo, porém, ultrapassa a importante
função de registro e luta contra o esquecimento. Ele organiza e analisa fatos,
processos, lembranças e, por que não, esquecimentos sempre parciais. Décadas
pesquisando os grandes projetos para o Brasil, Nísia teve que se fazer, ela
própria, uma espécie de intérprete do Brasil para dar conta de uma compreensão
de conjunto da sociedade em movimento a partir da tragédia da pandemia de
Covid-19. Uma obra única, portanto, abre-se aos olhos das leitoras e dos
leitores. Aproveitem.
Nísia
Trindade Lima acerta ao valorizar a multiplicidade de vozes em seu
livro-experimento. As vozes da narradora, que fala de lugares muito diferentes
da trajetória aqui reconstituída. As vozes dos seus interlocutores e também de
seus adversários políticos no combate à pandemia de Covid-19. Fenômeno
múltiplo, com grande capilaridade em todas as dimensões da vida social – da
micro dimensão do indivíduo à macro dos sistemas nacional e internacional de
saúde – e, por que não dizê-lo, também permeado por conflitos não apenas de
narrativas, mas também de interesses materiais bem palpáveis.
As
vozes dominantes do livro são, porém, as vozes dos diálogos, da democracia.
Para mim, um dos aspectos mais interessantes da narrativa é justamente a
possibilidade de surpreender a narradora, ou as narradoras como assume, em
conversação íntima consigo mesma(s), em meio aos diálogos e também aos alaridos
que a(s) confrontam.
Temos
no livro a demonstração clara de que, se são muitas as linguagens – técnica,
política, acadêmica –, a narrativa é sempre social. Um ensaio
biográfico-sociológico da pandemia de Covid-19 e um elogio necessário à ciência
e à democracia.
Nísia
acerta também ao aproximar Ainda há tempo da ideia de “livro-vingador” que
Euclides da Cunha deu ao seu clássico Os sertões (1902), um dos autores do
pensamento social brasileiro que Nísia melhor estudou. Com a diferença de que,
em Euclides, a alcunha também trazia um mea-culpa por ter compartilhado os
preconceitos da sua época contra as pessoas que se reuniram em torno de Antônio
Conselheiro no sertão da Bahia. Engenheiro militar imbuído das ideias mais
“avançadas” do seu tempo, e também hoje mais “preconceituosas” em termos
culturais, raciais, geográficos e climáticos, Euclides precisou conhecer de
perto a realidade trágica da guerra para aceitar que a República pela qual
lutara havia falhado totalmente. Um novo começo se dá com a escrita do livro,
destinado simultaneamente a registrar e a analisar o genocídio e a resistência
da gente brava do sertão.
A longa
carreira de socióloga e especialista em saúde pública deu à Nísia começos mais
honrosos do que os de Euclides, e o nosso tempo também propiciou instrumentos
intelectuais mais qualificados para compreender a sociedade brasileira, o que
estava acontecendo durante a pandemia e o que passou a acontecer depois dela.
Mas não se enganem, leitoras e leitores. Há muitos aprendizados pelo caminho,
dos quais a autora se dá conta, reconhece e justifica em função da interação e
da solidariedade que emergências, como a da pandemia de Covid-19, também
permitem criar.
Não
apenas um aprendizado individual, que existe. Ou de um grupo profissional
especializado da saúde, que existe. De dirigentes políticos, que deveria
existir mais. Mas um aprendizado social da própria sociedade brasileira, que se
expressa de tantas formas no dia a dia.
Mesmo
que as sociedades sejam difíceis de mudar, e que o aprendizado social não se
traduza diretamente em mudanças, e necessariamente em mudanças para melhor, é
preciso valorizar a experiência dos atores sociais em sua diversidade, mas
reforçar não apenas políticas de reconhecimento, como de maior equidade na
sociedade.
Desigualdades
sociais são a marca distintiva da história deste país tão diverso e que foi o
último a abolir a escravidão (apenas em 1888 e sem nenhuma reforma ou política
de reparação, ou sequer de inclusão dos libertos). Como socióloga, Nísia
Trindade Lima não apenas está atenta a esse aspecto nos processos de
construção, decisão e avaliação de políticas públicas na área da saúde, mas os
coloca no centro de sua interpretação do Brasil da pandemia de Covid-19.
Desigualdades que surpreendem por sua dinâmica e intensificação, por seus modos
de produção e recriação. Um fenômeno transversal e durável na sociedade
brasileira. Mas, justamente a saúde, em geral, e o SUS, em particular,
representa, hoje, o espaço público que, pela sua relevância, alcance e qualidade,
se mostra um dos mais estratégicos para refundar a sociedade brasileira.
“Ainda
há tempo”, Nísia não questiona, afirma.
Diz uma
conhecida máxima que nós, intelectuais, temos que cultivar forças
contraditórias: um “otimismo da vontade”, mesmo com o “pessimismo da razão”.
Não há saída, quando queremos um mundo melhor. E é diante de tragédias como a
da pandemia de Covid-19 que conhecemos a responsabilidade pública como um dever
e um valor humanitário. Que o trauma vivido seja um ponto no processo,
cumulativo, ainda que não necessariamente linear, de um aprendizado social da
sociedade brasileira e internacional.
Os
múltiplos fios que tecem essa peça simultaneamente extraordinária e cada vez
com maior probabilidade de ocorrência são aqui apresentados por meio de
categoriais, raciocínios e pensamento consistentes, além de uma narrativa
atraente e cativante. Com a objetividade de uma vida apaixonadamente dedicada à
ciência como vocação e a gestão de políticas públicas como ética republicana do
bem comum.
Estamos
convidados a conhecer essa trama e, a partir desse conhecimento, nos
transformarmos nós mesmos e a sociedade que, juntos, formamos. Um convite à
participação e à construção democrática de um novo projeto para o Brasil. Ainda
há tempo!
Fonte:
Por André Botelho, em Outra Saúde

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