segunda-feira, 29 de junho de 2026

Nísia Trindade: As lições da pandemia para o Brasil

No início da pandemia de Covid-19, divulguei, nas minhas listas de contatos pessoais do WhatsApp, páginas notáveis de Pedro Nava sobre o início da Gripe Espanhola no Rio de Janeiro. Uma forma de nos irmanarmos com nossos antepassados e tentar criar alguma perspectiva de sentido para um presente tão surpreendentemente inquietante. A morte à espreita. Gestos como esse se multiplicaram naqueles anos. Devo à Nísia Trindade Lima a apresentação desse trecho impressionante de Chão de ferro (1976), muito antes de me tornar especialista nas memórias do grande mineiro e renomado médico. Mal sabia o que viveríamos e o quanto o narrado, preso nas páginas de Nava, se soltaria e se multiplicaria em horror – com 700 mil vidas brasileiras ceifadas –, mas também em aperfeiçoamento da ciência, solidariedade e esperança de dias melhores.

Mal sabíamos, então, eu e Nísia, que, décadas depois, ela viria a ser protagonista central do combate à pandemia de Covid-19. Mais: que a ela caberia estar à frente da reconstrução, como primeira mulher a assumir o Ministério da Saúde na nossa história, dos serviços nacionais de saúde e do Sistema Único de Saúde, o SUS, colapsados por políticas negacionistas e de desmonte institucional autoritário no desgoverno da pandemia e do Brasil. O único elemento que não chega a surpreender é o seu protagonismo na Fiocruz, já que foi pavimentado por décadas de trabalho acadêmico e de gestão, árduos e ambos de excelência. Mas Nísia foi também a primeira mulher a presidir a centenária instituição.

Agora estamos aqui reconhecendo que coube à Nísia, ainda por cima, escrever esse livro fundamental sobre a pandemia de Covid-19. Sua generosidade, que, ao fim e ao cabo, explica esse prefácio, é, porém, nossa velha conhecida.

Como nos adverte a autora, o livro que o leitor tem em mãos é um experimento de inovação de escrita. Dada a complexidade, multidimensionalidade e transversalidade do assunto geral e o protagonismo a que ela foi convocada a desempenhar, primeiro, na Fiocruz, por duas gestões seguidas (2107-2022), e, depois, no Ministério da Saúde (2023-2025) do Governo do Presidente Luiz Inácio Lula da Silva, não existia uma forma disponível de antemão para a tarefa.

A não ser que o livro fosse, digamos, na pior das hipóteses, a lembrança triunfalista de seus feitos e, na melhor, um registro dos fatos de um ponto de observação especial, como conhecemos exemplos. Há realizações intelectuais e públicas, além de decisões políticas, baseadas em trabalho árduo a serem celebradas na trajetória de Nísia Trindade Lima, não há dúvida. E uma dimensão importante do livro é mesmo a do registro contra o esquecimento que – ai de ti, sociedade brasileira – já vai fazendo o seu trabalho. Esquecimento ainda mais perigoso diante da gravidade do assunto e da compreensão estrutural entre saúde, sociedade, política e meio ambiente que o livro nos apresenta.

É este o ponto da inovação da escrita desta cientista inquieta e cidadã comprometida: a forma do livro teve que ser, ao seu modo, reinventada para poder acomodar tantas camadas de experiência e sensibilidade: a da sanitarista, presidente da Fiocruz, Ministra da Saúde, com a da socióloga respeitada por seus pares. Que, além disso, ainda é autora com A maiúsculo, dado que sempre primou por expressar seus raciocínios complexos – porque complexos são os problemas de que eles tratam – em narrativas claras e providas de grandes lances de beleza.

Escrever é tão mais relevante à medida em que o mundo tal como o conhecemos vai se desfazendo, alguém já disse. Ainda há tempo, porém, ultrapassa a importante função de registro e luta contra o esquecimento. Ele organiza e analisa fatos, processos, lembranças e, por que não, esquecimentos sempre parciais. Décadas pesquisando os grandes projetos para o Brasil, Nísia teve que se fazer, ela própria, uma espécie de intérprete do Brasil para dar conta de uma compreensão de conjunto da sociedade em movimento a partir da tragédia da pandemia de Covid-19. Uma obra única, portanto, abre-se aos olhos das leitoras e dos leitores. Aproveitem.

Nísia Trindade Lima acerta ao valorizar a multiplicidade de vozes em seu livro-experimento. As vozes da narradora, que fala de lugares muito diferentes da trajetória aqui reconstituída. As vozes dos seus interlocutores e também de seus adversários políticos no combate à pandemia de Covid-19. Fenômeno múltiplo, com grande capilaridade em todas as dimensões da vida social – da micro dimensão do indivíduo à macro dos sistemas nacional e internacional de saúde – e, por que não dizê-lo, também permeado por conflitos não apenas de narrativas, mas também de interesses materiais bem palpáveis.

As vozes dominantes do livro são, porém, as vozes dos diálogos, da democracia. Para mim, um dos aspectos mais interessantes da narrativa é justamente a possibilidade de surpreender a narradora, ou as narradoras como assume, em conversação íntima consigo mesma(s), em meio aos diálogos e também aos alaridos que a(s) confrontam.

Temos no livro a demonstração clara de que, se são muitas as linguagens – técnica, política, acadêmica –, a narrativa é sempre social. Um ensaio biográfico-sociológico da pandemia de Covid-19 e um elogio necessário à ciência e à democracia.

Nísia acerta também ao aproximar Ainda há tempo da ideia de “livro-vingador” que Euclides da Cunha deu ao seu clássico Os sertões (1902), um dos autores do pensamento social brasileiro que Nísia melhor estudou. Com a diferença de que, em Euclides, a alcunha também trazia um mea-culpa por ter compartilhado os preconceitos da sua época contra as pessoas que se reuniram em torno de Antônio Conselheiro no sertão da Bahia. Engenheiro militar imbuído das ideias mais “avançadas” do seu tempo, e também hoje mais “preconceituosas” em termos culturais, raciais, geográficos e climáticos, Euclides precisou conhecer de perto a realidade trágica da guerra para aceitar que a República pela qual lutara havia falhado totalmente. Um novo começo se dá com a escrita do livro, destinado simultaneamente a registrar e a analisar o genocídio e a resistência da gente brava do sertão.

A longa carreira de socióloga e especialista em saúde pública deu à Nísia começos mais honrosos do que os de Euclides, e o nosso tempo também propiciou instrumentos intelectuais mais qualificados para compreender a sociedade brasileira, o que estava acontecendo durante a pandemia e o que passou a acontecer depois dela. Mas não se enganem, leitoras e leitores. Há muitos aprendizados pelo caminho, dos quais a autora se dá conta, reconhece e justifica em função da interação e da solidariedade que emergências, como a da pandemia de Covid-19, também permitem criar.

Não apenas um aprendizado individual, que existe. Ou de um grupo profissional especializado da saúde, que existe. De dirigentes políticos, que deveria existir mais. Mas um aprendizado social da própria sociedade brasileira, que se expressa de tantas formas no dia a dia.

Mesmo que as sociedades sejam difíceis de mudar, e que o aprendizado social não se traduza diretamente em mudanças, e necessariamente em mudanças para melhor, é preciso valorizar a experiência dos atores sociais em sua diversidade, mas reforçar não apenas políticas de reconhecimento, como de maior equidade na sociedade.

Desigualdades sociais são a marca distintiva da história deste país tão diverso e que foi o último a abolir a escravidão (apenas em 1888 e sem nenhuma reforma ou política de reparação, ou sequer de inclusão dos libertos). Como socióloga, Nísia Trindade Lima não apenas está atenta a esse aspecto nos processos de construção, decisão e avaliação de políticas públicas na área da saúde, mas os coloca no centro de sua interpretação do Brasil da pandemia de Covid-19. Desigualdades que surpreendem por sua dinâmica e intensificação, por seus modos de produção e recriação. Um fenômeno transversal e durável na sociedade brasileira. Mas, justamente a saúde, em geral, e o SUS, em particular, representa, hoje, o espaço público que, pela sua relevância, alcance e qualidade, se mostra um dos mais estratégicos para refundar a sociedade brasileira.

“Ainda há tempo”, Nísia não questiona, afirma.

Diz uma conhecida máxima que nós, intelectuais, temos que cultivar forças contraditórias: um “otimismo da vontade”, mesmo com o “pessimismo da razão”. Não há saída, quando queremos um mundo melhor. E é diante de tragédias como a da pandemia de Covid-19 que conhecemos a responsabilidade pública como um dever e um valor humanitário. Que o trauma vivido seja um ponto no processo, cumulativo, ainda que não necessariamente linear, de um aprendizado social da sociedade brasileira e internacional.

Os múltiplos fios que tecem essa peça simultaneamente extraordinária e cada vez com maior probabilidade de ocorrência são aqui apresentados por meio de categoriais, raciocínios e pensamento consistentes, além de uma narrativa atraente e cativante. Com a objetividade de uma vida apaixonadamente dedicada à ciência como vocação e a gestão de políticas públicas como ética republicana do bem comum.

Estamos convidados a conhecer essa trama e, a partir desse conhecimento, nos transformarmos nós mesmos e a sociedade que, juntos, formamos. Um convite à participação e à construção democrática de um novo projeto para o Brasil. Ainda há tempo!

 

Fonte: Por André Botelho, em Outra Saúde

 

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