Agrotóxicos
na água e a contaminação invisível dos territórios
O
lançamento, em maio de 2026, do primeiro Painel de Monitoramento de Agrotóxicos
nos Recursos Hídricos permitiu observar, em escala nacional, um problema que
durante muito tempo permaneceu disperso em estudos locais, denúncias de
comunidades e levantamentos realizados por órgãos públicos. A plataforma,
desenvolvida pelo Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima com base em
metodologia da Embrapa Meio Ambiente, reúne dados de coletas realizadas desde
2024. Sua base inicial compreende 213 amostras de diferentes bacias
hidrográficas, submetidas a mais de 10,4 mil análises, em 63 pontos de
monitoramento distribuídos pelo país. Os resultados revelaram a presença de 49
agrotóxicos nos cursos d’água avaliados.
A
criação do painel representa um avanço importante porque torna públicas
informações que antes se encontravam fragmentadas. Também permite acompanhar a
presença dessas substâncias para além das áreas diretamente cultivadas,
mostrando que os efeitos do modelo agrícola não permanecem restritos aos
limites das propriedades rurais. A água transporta resíduos, conecta
territórios e amplia o alcance da contaminação. O produto aplicado em uma
lavoura pode atingir córregos, rios, reservatórios e águas subterrâneas,
afetando organismos aquáticos e populações situadas a grandes distâncias do
local de aplicação.
Embora
represente um avanço importante, a divulgação dos dados não encerra a
discussão, pois torna mais difícil continuar tratando a contaminação como um
conjunto de ocorrências isoladas ou como resultado exclusivo do uso inadequado
de determinados produtos. O problema está relacionado à expansão de um modelo
de produção que associa grandes extensões de monoculturas ao emprego intensivo
de substâncias químicas, enquanto transfere parte de seus riscos ambientais e
sanitários para a sociedade.
• O percurso dos agrotóxicos até os rios
Depois
de aplicados, os agrotóxicos não permanecem necessariamente sobre as plantas ou
no ponto em que foram depositados. A chuva pode transportar os resíduos
presentes no solo até os cursos d’água. Algumas substâncias infiltram-se no
terreno e alcançam as águas subterrâneas, enquanto outras são carregadas pelo
vento durante ou depois da pulverização. A persistência ambiental varia de
acordo com as características químicas dos produtos, as condições climáticas, o
tipo de solo e a forma de aplicação.
Essa
dispersão faz com que a contaminação hídrica não possa ser compreendida apenas
pela quantidade total de resíduos detectados. A presença simultânea de
diferentes ingredientes ativos, mesmo quando cada um deles aparece abaixo de
determinados limites legais, também precisa ser considerada. Os parâmetros de
controle tendem a avaliar separadamente cada substância, mas os rios, os
organismos aquáticos e as pessoas podem permanecer expostos a combinações cujos
efeitos são mais difíceis de identificar.
Nas
mais de 10,4 mil análises que compõem a base inicial do painel federal, a
frequência geral de detecção de agrotóxicos foi de 7,2%.. Embora o governo
tenha classificado esse percentual como baixo em relação ao conjunto das
avaliações, a interpretação não deve desconsiderar que a plataforma ainda se
encontra em fase inicial. A atual cobertura territorial não representa toda a
diversidade das áreas agrícolas brasileiras, o número de substâncias
monitoradas deverá ser ampliado e as coletas precisam acompanhar diferentes
épocas do ano.
A
ocorrência de agrotóxicos pode variar conforme o calendário agrícola, a
intensidade das chuvas e os períodos de aplicação. Uma coleta realizada fora
desses intervalos pode não registrar substâncias que estiveram presentes
anteriormente ou que aparecerão em outro momento. Por isso, um sistema nacional
de monitoramento somente produzirá um diagnóstico mais completo quando reunir
séries históricas, ampliar o número de pontos analisados e considerar as
particularidades produtivas e ambientais de cada bacia.
• A biodiversidade exposta
A
contaminação da água costuma ser discutida principalmente por seus possíveis
efeitos sobre o abastecimento humano, mas os primeiros organismos expostos são
aqueles que vivem nos ambientes aquáticos. Peixes, anfíbios, insetos,
crustáceos, moluscos, algas e microrganismos participam de relações ecológicas
que mantêm o funcionamento dos rios e das áreas úmidas. A alteração de qualquer
um desses grupos pode afetar a disponibilidade de alimento, a reprodução das
espécies e o equilíbrio das cadeias alimentares.
Alguns
agrotóxicos são produzidos para atingir determinados insetos, plantas ou fungos
nas lavouras, mas sua ação pode alcançar organismos que não constituíam o alvo
da aplicação. Insetos aquáticos, por exemplo, possuem papel importante na
alimentação de peixes, aves e anfíbios. A redução de suas populações provoca
efeitos que se propagam pelo ecossistema, mesmo quando não ocorre uma
mortandade imediatamente visível.
A
ausência de peixes mortos na superfície de um rio, portanto, não significa
ausência de danos. Alterações reprodutivas, redução do crescimento, mudanças de
comportamento e perda gradual de diversidade podem ocorrer sem produzir cenas
capazes de mobilizar a opinião pública. Essa característica ajuda a explicar
por que a contaminação química recebe menos atenção do que outros impactos
ambientais mais facilmente perceptíveis.
Os
prejuízos também alcançam famílias que dependem da pesca, da coleta de
organismos aquáticos ou do uso direto dos rios. Quando diminui a
disponibilidade de pescado ou cresce a desconfiança sobre sua qualidade, a
perda ambiental transforma-se em insegurança alimentar e redução da renda. A
contaminação deixa de ser apenas um problema ecológico e passa a interferir nas
condições materiais de sobrevivência das comunidades.
• A desigualdade diante da água
contaminada
Embora
os rios transportem os resíduos para além das propriedades onde os produtos
foram aplicados, a exposição não se distribui igualmente. Populações rurais,
agricultores familiares, povos indígenas, comunidades quilombolas e outros
grupos tradicionais encontram-se frequentemente mais próximos das áreas
pulverizadas e dependem de pequenas nascentes, poços, córregos e sistemas
comunitários de abastecimento. Esses mananciais, em geral, são monitorados com
menor frequência do que aqueles destinados aos grandes centros urbanos.
A
desigualdade também se manifesta na capacidade de produzir provas. Identificar
agrotóxicos na água exige coleta adequada, laboratórios especializados,
equipamentos e recursos financeiros. Para muitas comunidades, a suspeita de
contaminação não se converte facilmente em evidência reconhecida pelas
instituições. Quando os efeitos não são imediatos ou quando não há registro
laboratorial, as denúncias podem ser tratadas como impressões sem comprovação.
Um
levantamento divulgado em abril pelo Laboratório de Extensão, Pesquisa e Ensino
em Geografia da Universidade Federal do Maranhão, em parceria com a Rede de
Agroecologia do Maranhão e a Federação dos Trabalhadores Rurais Agricultores e
Agricultoras Familiares do Maranhão, registrou 222 notificações de pulverização
de agrotóxicos nos três primeiros meses de 2026. As ocorrências envolveram 188
comunidades distintas, algumas delas atingidas mais de uma vez durante o
período. Mais de 75% dos registros alcançaram comunidades tradicionais,
quilombolas e indígenas, inclusive em municípios, como Brejo e Timbiras, que já
possuíam normas proibindo a pulverização aérea.
Os
impactos relatados não se limitaram às condições de saúde. Pequenos
agricultores passaram a temer a comercialização de produtos que poderiam ter
sido atingidos pela deriva das pulverizações realizadas em propriedades
vizinhas. A contaminação ou a simples suspeita de sua ocorrência afeta
plantações, criação de animais, segurança alimentar e relações comerciais
construídas pelas comunidades.
Esses
episódios demonstram que os custos da produção agrícola intensiva não recaem
apenas sobre os agentes econômicos que utilizam os produtos. Comunidades que
não participam das decisões sobre o cultivo, não recebem os benefícios
proporcionados pelas grandes cadeias de produção e, muitas vezes, adotam formas
menos dependentes de insumos químicos podem ter suas águas e plantações
atingidas.
• Da transparência à proteção efetiva
A
disponibilização de dados públicos constitui uma condição necessária para
enfrentar o problema. Sem informações acessíveis, torna-se difícil identificar
tendências, estabelecer áreas prioritárias e exigir responsabilidades. O painel
nacional pode contribuir para orientar a fiscalização, aperfeiçoar os processos
de avaliação ambiental e permitir que governos estaduais, municípios,
pesquisadores e organizações sociais acompanhem a situação das bacias
hidrográficas.
Entretanto,
a transparência somente produzirá mudanças se for acompanhada por medidas
preventivas e corretivas. Monitorar continuamente a presença de agrotóxicos sem
reduzir as condições que provocam a contaminação significaria transformar o
painel em um inventário permanente de danos. Os dados precisam orientar
restrições de uso, revisão de autorizações, proteção de áreas sensíveis,
fiscalização das pulverizações e responsabilização nos casos de contaminação.
O
problema exige ainda maior articulação entre políticas agrícolas, ambientais,
sanitárias e de recursos hídricos. O Ministério da Agricultura coordena o
registro dos produtos, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária avalia os
riscos à saúde humana e o Ibama realiza a avaliação ambiental. A divisão de
atribuições é necessária, mas pode criar respostas fragmentadas quando os
diferentes órgãos não compartilham informações, metodologias e prioridades.
Essa
integração deve alcançar os estados e municípios, responsáveis por parte
importante da vigilância ambiental, do abastecimento e da assistência às
populações atingidas. Em janeiro de 2026, o Ministério Público de Santa
Catarina apresentou um levantamento realizado nas águas que abastecem os 295
municípios do estado. O estudo identificou agrotóxicos no ambiente, inclusive
substâncias cujo uso está proibido no país, e levou a instituição a propor uma
atuação conjunta nas áreas da saúde pública, do meio ambiente e da defesa do
consumidor.
Mesmo
quando uma substância já foi proibida, seus resíduos podem permanecer no solo e
na água por períodos prolongados, continuar circulando por meios ilegais ou
aparecer como resultado de usos anteriores. Por isso, o controle não depende
apenas da existência de normas, mas também da capacidade dos órgãos públicos de
acompanhar a comercialização, a aplicação e a destinação das embalagens, além
de investigar as origens da contaminação.
• A redução precisa alcançar o modelo
produtivo
Instituído
em junho de 2025, o Programa Nacional de Redução de Agrotóxicos teve 31
iniciativas prioritárias para o biênio 2026–2027 aprovadas por seu Comitê
Gestor em fevereiro de 2026. O programa busca reduzir progressivamente o uso
dessas substâncias, especialmente das consideradas mais perigosas, ao mesmo
tempo que prevê o fortalecimento da agroecologia e da agricultura orgânica, o
monitoramento de resíduos e o incentivo à pesquisa, à produção de bioinsumos e
a outras alternativas de menor impacto para a saúde e o meio ambiente.
Organizações
sociais reconheceram a importância do programa, mas apontaram a falta de metas
quantitativas, prazos definidos e mecanismos claros de acompanhamento. Essa
crítica indica uma diferença fundamental entre declarar a intenção de reduzir
riscos e estabelecer medidas capazes de modificar a estrutura produtiva que os
gera. Sem objetivos verificáveis, responsabilidades institucionais e recursos
orçamentários, a redução pode permanecer como orientação genérica.
A
transição para uma agricultura menos dependente de agrotóxicos não pode ser
transferida exclusivamente aos produtores, sobretudo aos pequenos agricultores.
Ela requer pesquisa pública, assistência técnica, crédito, seguro rural, apoio
à comercialização e políticas de compras governamentais. Também exige
reconhecer que a agroecologia não corresponde a uma prática periférica ou
incapaz de produzir em escala, mas a um campo de conhecimento que combina
produtividade, conservação ambiental e redução da dependência de insumos
externos.
Empresas
que fabricam e comercializam agrotóxicos, grandes propriedades que os utilizam
intensivamente e cadeias empresariais beneficiadas por esse modelo de produção
não podem transferir ao poder público e às comunidades os custos do
monitoramento, da descontaminação e dos danos ambientais. A aplicação do
princípio segundo o qual o poluidor deve arcar com as consequências de sua
atividade precisa alcançar também os casos de contaminação difusa, ainda que a
identificação de sua origem seja mais complexa.
• A água como medida dos custos da
produção
O
painel lançado em 2026 contribui para retirar a contaminação por agrotóxicos de
uma zona de baixa visibilidade institucional. Seus dados iniciais ainda não
permitem dimensionar toda a extensão do problema, mas confirmam que resíduos
químicos percorrem as bacias hidrográficas e alcançam espaços que não
participam diretamente das decisões sobre o modelo agrícola.
O
conflito entre produção agrícola e proteção dos recursos hídricos surge quando
o aumento da produtividade depende da transferência dos riscos ambientais e
sanitários para a sociedade, enquanto os principais benefícios econômicos
permanecem concentrados entre grandes proprietários rurais, empresas
fornecedoras de insumos e grupos que controlam as etapas mais rentáveis das
cadeias de comercialização e exportação. Por isso, a competitividade do setor
agrícola não pode ser medida apenas pelo volume produzido, pelo valor das
exportações ou por sua participação no produto interno bruto, mas deve
considerar também a conservação dos solos, a integridade dos rios, a proteção
da biodiversidade e a segurança das populações.
Transformar
o monitoramento em proteção efetiva dependerá da ampliação dos pontos de
coleta, da atualização dos parâmetros de potabilidade, da fiscalização das
pulverizações e da definição de metas concretas para a redução dos produtos
mais perigosos. Também será necessário garantir que as comunidades expostas
tenham acesso às informações, participem das decisões e recebam apoio para
produzir provas e exigir providências.
Quando
um agrotóxico alcança um rio, seu percurso revela mais do que um problema
químico. Ele mostra como os benefícios e os prejuízos do modelo produtivo são
distribuídos pelo território. A água, ao transportar substâncias para além das
cercas das propriedades, demonstra que nenhuma atividade agrícola é
inteiramente privada quando suas consequências alcançam bens comuns. Reconhecer
essa dimensão é indispensável para que o país produza alimentos sem converter
rios, comunidades e ecossistemas em receptores silenciosos dos custos de sua
produção.
Fonte:
Por Reinaldo Dias, em EcoDebate

Nenhum comentário:
Postar um comentário