Orlando
Calheiros: Falso patriotismo da família Bolsonaro repete roteiro usado na
ditadura
Em
1852, Karl Marx publicou um pequeno livro sobre um personagem que parecia
convencido de que carregar um sobrenome ilustre era credencial suficiente para
governar uma das maiores nações da Europa. Um ano antes, em 1851, Luís
Bonaparte, sobrinho de Napoleão Bonaparte, eleito unicamente pelo prestígio de
sua família, recorria ao expediente favorito dos políticos com ambições
totalitárias para se manter no poder: o golpe de estado. E, para que ninguém
deixasse de perceber a referência nostálgica, escolheu fazê-lo, justamente, no
aniversário da coroação do próprio tio como imperador, autoproclamando-se
Napoleão III.
Foi
observando esse espetáculo que Marx formulou uma de suas frases mais conhecidas
da literatura política. A história, escreveu, parecia condenada a reprodução de
seus personagens e dramas particulares, “a primeira vez como tragédia, a
segunda como farsa”.
A
provocação era evidente: Napoleão havia sido um protagonista de uma história;
Luís Bonaparte era apenas alguém tentando reencená-la.
Nada de
novo, nada de único, quase uma estrutura atemporal da política, algo que,
inclusive, observamos com frequência no cenário brasileiro, onde o passado e a
nostalgia se tornam ativos eleitorais. Algumas vezes de forma sutil, outras de
forma explícita. Mas quase sempre de forma caricata.
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Versão do pai
Vide,
por exemplo, o que se passa com a candidatura de Flávio Bolsonaro, cujo único
trunfo eleitoral até o momento é o próprio sobrenome. Não por outro motivo
frequentemente – isto é, quase todos os dias – fale sobre como foi o escolhido
para dar continuidade a missão de seu pai.
Aceito
receber e-mails e concordo com a Política de Privacidade e os Termos de Uso.
Flávio
se vende não como um político único, com história e motivações próprias, mas
como uma versão de seu pai na esperança de replicar o acontecimento, a grande
onda conservadora, que o levou à presidência da República em 2018.
Como na
imagem que ostenta em suas redes sociais, Flávio é apenas uma sombra do
patriarca da família Bolsonaro.
E aqui
tem um detalhe muito importante, pois o próprio ex-presidente Bolsonaro, por
sua vez, também passou a vida surfando no nome de outros, mais especificamente,
nos generais da Ditadura Militar. Foi assim que vestiu a fantasia dos antigos
ditadores, prometendo levar a nação rumo aos supostos tempos de glória dos anos
de chumbo e as benesses do milagre econômico; que, diga-se de passagem, nunca
existiram fora da propaganda da caserna.
Fez
história às avessas, ao contrário de seus ídolos, conseguiu a façanha, um feito
inédito, de ser preso no Brasil por atentar contra o estado democrático de
direito.
O filho
reivindica a herança do pai que, por sua vez, reivindicava a herança dos
generais. Ambos fracassaram em seu intento.
E a
farsa se transforma em uma tradição familiar.
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Estruturas de poder
Mas a
repetição, infelizmente, não ocorre somente no plano dos personagens
caricaturais. Ela também aparece nas estruturas de poder que esses personagens
buscam reproduzir. A história não avança apenas por meio de impostores
históricos. Ela se move através de instituições, interesses econômicos e
relações de força que não apenas antecedem, como sobrevivem aos seus
protagonistas.
Por
isso, quando observamos determinados acontecimentos, é difícil não notar ecos
de estruturas mais antigas e profundas.
Uma
dessas estruturas se torna particularmente evidente quando observamos um evento
recente da política internacional: as tarifas impostas pelos EUA ao Brasil, ao
mesmo tempo em que classificam facções criminosas como entidades terroristas e
apoiam, sem muito segredo, a candidatura de Flávio Bolsonaro à presidência da
República.
Trata-se
da velha agenda intervencionista dos EUA nas Américas, em especial, aquela que
busca minar, justamente, a influência e a soberania brasileira.
Agenda
antiga, ativa, no mínimo, desde a primeira metade do século passado, quando
Washington já se mobilizava para conter (sabotar) iniciativas brasileiras de
afirmação econômica e independência diplomática.
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Alvo dos Estados Unidos
A
partir da Guerra Fria, esse impulso ganhou todo um novo fôlego: o Brasil,
encarado como o maior centro de poder da América do Sul, passou a ser
considerado um alvo prioritário dos esforços estadunidenses para que não viesse
a se tornar, nas palavras de representantes de Washington, a “China das
Américas”; ou seja, uma potência autônoma, nacionalista e fora da órbita dos
EUA, capaz de influenciar todo o restante da América Latina.
Washington
atuava em duas frentes. Na oficial usava sua influência sobre organismos
financeiros internacionais para dificultar e até interditar o acesso do Brasil
a crédito e financiamento, sempre amparado por justificativas técnicas e
cuidadosamente embaladas em uma linguagem econômica “civilizada”.
Em
paralelo, financiava a oposição conservadora a João Goulart, presidente do
Brasil, eleito em 1961. Recursos e apoio estratégico circulavam de forma
subterrânea para organizações, campanhas e lideranças empenhadas em desgastar o
governo. O caso mais emblemático foi o
do Instituto Brasileiro de Ação Democrática, o Ibad, transformado em verdadeira
central de financiamento da oposição conservadora.
Quando
a crise chegou ao limite, a discrição foi completamente abandonada.
Em
1964, por exemplo, Washington colocou navios de guerra, combustível e apoio
logístico à disposição dos articuladores do golpe militar.
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Caráter farsante
É
justamente aí que a nostalgia da ditadura revela o seu caráter farsante. Seus
admiradores e herdeiros, como Bolsonaro, vivem falando em soberania nacional e
patriotismo, enquanto tratam como mero detalhe – quando muito – o fato de que o
regime que veneram não apenas nasceu sob as bênçãos de Washington, como jamais
demonstrou qualquer interesse em constituir uma autonomia diante de seus olhos.
Mesmo que isso representasse o aumento da miséria de sua população.
Talvez
por isso a reação bolsonarista ao último tarifaço tenha sido tão reveladora.
Enquanto trabalhadores, exportadores e empresários brasileiros calculavam os
prejuízos, Eduardo Bolsonaro celebrava a pressão vinda de Washington e Flávio
Bolsonaro evitava dirigir qualquer crítica significativa à Casa Branca,
preferindo responsabilizar exclusivamente o governo Lula.
E assim
o fazem pois sabem exatamente qual papel desempenham. Como o Napoleão de Marx,
não procuram construir algo novo, apenas reencenam velhos enredos. Falam em
soberania enquanto celebram a pressão estrangeira. Invocam o patriotismo
enquanto apostam no enfraquecimento do próprio país. Como seus heróis de 64, os
golpistas.
Mas a
tragédia original já passou. O que resta é apenas a encenação.
A
farsa. Mais uma.
• "Traição no mais alto nível",
diz Elias Jabbour sobre Flávio Bolsonaro após carta de Rubio
O
professor Elias Jabbour, pré-candidato a deputado federal pelo Rio de Janeiro
pelo PCdoB, afirmou que a carta enviada pelo secretário de Estado dos Estados
Unidos, Marco Rubio, ao senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), expõe o que
classificou como ataque à soberania nacional, apoio a tarifas contra o Brasil e
“traição no mais alto nível”.
Segundo
publicação de Elias Jabbour neste sábado (27), a correspondência de Rubio será
vista, no futuro, como um documento relevante para compreender o papel da
extrema direita no período recente da história brasileira. A manifestação
ocorre após a divulgação da resposta oficial do secretário de Estado
norte-americano à carta enviada por Flávio Bolsonaro, na qual o governo do
presidente Donald Trump reafirma divergências comerciais com o Brasil e mantém
em aberto a possibilidade de novas sobretaxas contra produtos brasileiros.
“Traição
no mais alto nível. Daqui um tempo os historiadores vão lidar com uma prova
irrefutável do que significou a extrema-direita no curso recente da história do
país”, escreveu Jabbour.
Na
avaliação do professor, o episódio sintetiza características que ele atribui à
extrema direita brasileira. “Intolerância, negacionismo, corrupção no mais alto
nível, ódio aos pobres são marcas perceptíveis. A carta de Marco Rubio a Flávio
Bolsonaro será interpretada como um documento que retrata a traição nacional no
mais alto nível”, afirmou.
A
resposta de Rubio foi enviada após Flávio Bolsonaro pedir aos Estados Unidos
que não aplicassem novas tarifas comerciais contra produtos brasileiros. Apesar
do apelo, o secretário de Estado reafirmou a posição norte-americana e
mencionou a investigação conduzida pelo Escritório do Representante de Comércio
dos Estados Unidos (USTR), que pode embasar medidas tarifárias contra o Brasil.
Rubio
também citou a classificação do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando
Vermelho (CV) como organizações terroristas pelos Estados Unidos, decisão que
já havia sido agradecida por Flávio Bolsonaro em carta anterior. O tema tem
provocado reação no Brasil por envolver questões de soberania, segurança
pública e política externa.
Para
Elias Jabbour, o conteúdo da carta não se limita ao debate sobre tarifas
comerciais. O professor afirmou que o documento, em sua interpretação, também
revela uma disposição política de alinhamento com Washington em caso de vitória
eleitoral de Flávio Bolsonaro. “Não se resumiu somente a agradecer e revelar a
ajuda dos Bolsonaro no processo de execução de tarifas comerciais e ataque ao
sistema financeiro brasileiro. Foi além: demonstrou alto interesse na oferta de
entregar aos Estados Unidos o próprio governo de transição, caso eleitos”,
declarou.
Rubio
encerra a resposta mencionando o otimismo manifestado por Flávio Bolsonaro em
relação às eleições presidenciais brasileiras de outubro. A carta também
registra que o senador teria colocado à disposição uma equipe de transição caso
fosse eleito presidente da República, ponto que passou a ser explorado por
críticos do bolsonarismo como evidência de submissão política aos Estados
Unidos.
Na
avaliação de Jabbour, o episódio inaugura uma disputa política centrada na
defesa da independência nacional. Ele afirmou que o país enfrentará uma
“batalha feroz” contra pressões externas e seus aliados internos.
“O que
virá é uma batalha feroz pela reafirmação da independência nacional diante de
um inimigo externo desesperado e com aliados internos da pior espécie.
Independência ou morte nunca foi um lema jogado ao ar. É o espírito do tempo. E
devemos estar conectados a ele, politizando o debate e se negando à dispersão”,
escreveu.
Fonte:
The Intercept/Brasil 247

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