segunda-feira, 29 de junho de 2026

Orlando Calheiros: Falso patriotismo da família Bolsonaro repete roteiro usado na ditadura

Em 1852, Karl Marx publicou um pequeno livro sobre um personagem que parecia convencido de que carregar um sobrenome ilustre era credencial suficiente para governar uma das maiores nações da Europa. Um ano antes, em 1851, Luís Bonaparte, sobrinho de Napoleão Bonaparte, eleito unicamente pelo prestígio de sua família, recorria ao expediente favorito dos políticos com ambições totalitárias para se manter no poder: o golpe de estado. E, para que ninguém deixasse de perceber a referência nostálgica, escolheu fazê-lo, justamente, no aniversário da coroação do próprio tio como imperador, autoproclamando-se Napoleão III.

Foi observando esse espetáculo que Marx formulou uma de suas frases mais conhecidas da literatura política. A história, escreveu, parecia condenada a reprodução de seus personagens e dramas particulares, “a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa”.

A provocação era evidente: Napoleão havia sido um protagonista de uma história; Luís Bonaparte era apenas alguém tentando reencená-la.

Nada de novo, nada de único, quase uma estrutura atemporal da política, algo que, inclusive, observamos com frequência no cenário brasileiro, onde o passado e a nostalgia se tornam ativos eleitorais. Algumas vezes de forma sutil, outras de forma explícita. Mas quase sempre de forma caricata.

<><> Versão do pai

Vide, por exemplo, o que se passa com a candidatura de Flávio Bolsonaro, cujo único trunfo eleitoral até o momento é o próprio sobrenome. Não por outro motivo frequentemente – isto é, quase todos os dias – fale sobre como foi o escolhido para dar continuidade a missão de seu pai.

Aceito receber e-mails e concordo com a Política de Privacidade e os Termos de Uso.

Flávio se vende não como um político único, com história e motivações próprias, mas como uma versão de seu pai na esperança de replicar o acontecimento, a grande onda conservadora, que o levou à presidência da República em 2018.

Como na imagem que ostenta em suas redes sociais, Flávio é apenas uma sombra do patriarca da família Bolsonaro.

E aqui tem um detalhe muito importante, pois o próprio ex-presidente Bolsonaro, por sua vez, também passou a vida surfando no nome de outros, mais especificamente, nos generais da Ditadura Militar. Foi assim que vestiu a fantasia dos antigos ditadores, prometendo levar a nação rumo aos supostos tempos de glória dos anos de chumbo e as benesses do milagre econômico; que, diga-se de passagem, nunca existiram fora da propaganda da caserna.

Fez história às avessas, ao contrário de seus ídolos, conseguiu a façanha, um feito inédito, de ser preso no Brasil por atentar contra o estado democrático de direito.

O filho reivindica a herança do pai que, por sua vez, reivindicava a herança dos generais. Ambos fracassaram em seu intento.

E a farsa se transforma em uma tradição familiar.

<><> Estruturas de poder

Mas a repetição, infelizmente, não ocorre somente no plano dos personagens caricaturais. Ela também aparece nas estruturas de poder que esses personagens buscam reproduzir. A história não avança apenas por meio de impostores históricos. Ela se move através de instituições, interesses econômicos e relações de força que não apenas antecedem, como sobrevivem aos seus protagonistas.

Por isso, quando observamos determinados acontecimentos, é difícil não notar ecos de estruturas mais antigas e profundas.

Uma dessas estruturas se torna particularmente evidente quando observamos um evento recente da política internacional: as tarifas impostas pelos EUA ao Brasil, ao mesmo tempo em que classificam facções criminosas como entidades terroristas e apoiam, sem muito segredo, a candidatura de Flávio Bolsonaro à presidência da República.

Trata-se da velha agenda intervencionista dos EUA nas Américas, em especial, aquela que busca minar, justamente, a influência e a soberania brasileira.

Agenda antiga, ativa, no mínimo, desde a primeira metade do século passado, quando Washington já se mobilizava para conter (sabotar) iniciativas brasileiras de afirmação econômica e independência diplomática.

<><> Alvo dos Estados Unidos

A partir da Guerra Fria, esse impulso ganhou todo um novo fôlego: o Brasil, encarado como o maior centro de poder da América do Sul, passou a ser considerado um alvo prioritário dos esforços estadunidenses para que não viesse a se tornar, nas palavras de representantes de Washington, a “China das Américas”; ou seja, uma potência autônoma, nacionalista e fora da órbita dos EUA, capaz de influenciar todo o restante da América Latina.

Washington atuava em duas frentes. Na oficial usava sua influência sobre organismos financeiros internacionais para dificultar e até interditar o acesso do Brasil a crédito e financiamento, sempre amparado por justificativas técnicas e cuidadosamente embaladas em uma linguagem econômica “civilizada”.

Em paralelo, financiava a oposição conservadora a João Goulart, presidente do Brasil, eleito em 1961. Recursos e apoio estratégico circulavam de forma subterrânea para organizações, campanhas e lideranças empenhadas em desgastar o governo. O  caso mais emblemático foi o do Instituto Brasileiro de Ação Democrática, o Ibad, transformado em verdadeira central de financiamento da oposição conservadora.

Quando a crise chegou ao limite, a discrição foi completamente abandonada.

Em 1964, por exemplo, Washington colocou navios de guerra, combustível e apoio logístico à disposição dos articuladores do golpe militar.

<><> Caráter farsante

É justamente aí que a nostalgia da ditadura revela o seu caráter farsante. Seus admiradores e herdeiros, como Bolsonaro, vivem falando em soberania nacional e patriotismo, enquanto tratam como mero detalhe – quando muito – o fato de que o regime que veneram não apenas nasceu sob as bênçãos de Washington, como jamais demonstrou qualquer interesse em constituir uma autonomia diante de seus olhos. Mesmo que isso representasse o aumento da miséria de sua população.

Talvez por isso a reação bolsonarista ao último tarifaço tenha sido tão reveladora. Enquanto trabalhadores, exportadores e empresários brasileiros calculavam os prejuízos, Eduardo Bolsonaro celebrava a pressão vinda de Washington e Flávio Bolsonaro evitava dirigir qualquer crítica significativa à Casa Branca, preferindo responsabilizar exclusivamente o governo Lula.

E assim o fazem pois sabem exatamente qual papel desempenham. Como o Napoleão de Marx, não procuram construir algo novo, apenas reencenam velhos enredos. Falam em soberania enquanto celebram a pressão estrangeira. Invocam o patriotismo enquanto apostam no enfraquecimento do próprio país. Como seus heróis de 64, os golpistas.

Mas a tragédia original já passou. O que resta é apenas a encenação.

A farsa. Mais uma.

•        "Traição no mais alto nível", diz Elias Jabbour sobre Flávio Bolsonaro após carta de Rubio

O professor Elias Jabbour, pré-candidato a deputado federal pelo Rio de Janeiro pelo PCdoB, afirmou que a carta enviada pelo secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, ao senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), expõe o que classificou como ataque à soberania nacional, apoio a tarifas contra o Brasil e “traição no mais alto nível”.

Segundo publicação de Elias Jabbour neste sábado (27), a correspondência de Rubio será vista, no futuro, como um documento relevante para compreender o papel da extrema direita no período recente da história brasileira. A manifestação ocorre após a divulgação da resposta oficial do secretário de Estado norte-americano à carta enviada por Flávio Bolsonaro, na qual o governo do presidente Donald Trump reafirma divergências comerciais com o Brasil e mantém em aberto a possibilidade de novas sobretaxas contra produtos brasileiros.

“Traição no mais alto nível. Daqui um tempo os historiadores vão lidar com uma prova irrefutável do que significou a extrema-direita no curso recente da história do país”, escreveu Jabbour.

Na avaliação do professor, o episódio sintetiza características que ele atribui à extrema direita brasileira. “Intolerância, negacionismo, corrupção no mais alto nível, ódio aos pobres são marcas perceptíveis. A carta de Marco Rubio a Flávio Bolsonaro será interpretada como um documento que retrata a traição nacional no mais alto nível”, afirmou.

A resposta de Rubio foi enviada após Flávio Bolsonaro pedir aos Estados Unidos que não aplicassem novas tarifas comerciais contra produtos brasileiros. Apesar do apelo, o secretário de Estado reafirmou a posição norte-americana e mencionou a investigação conduzida pelo Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR), que pode embasar medidas tarifárias contra o Brasil.

Rubio também citou a classificação do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas pelos Estados Unidos, decisão que já havia sido agradecida por Flávio Bolsonaro em carta anterior. O tema tem provocado reação no Brasil por envolver questões de soberania, segurança pública e política externa.

Para Elias Jabbour, o conteúdo da carta não se limita ao debate sobre tarifas comerciais. O professor afirmou que o documento, em sua interpretação, também revela uma disposição política de alinhamento com Washington em caso de vitória eleitoral de Flávio Bolsonaro. “Não se resumiu somente a agradecer e revelar a ajuda dos Bolsonaro no processo de execução de tarifas comerciais e ataque ao sistema financeiro brasileiro. Foi além: demonstrou alto interesse na oferta de entregar aos Estados Unidos o próprio governo de transição, caso eleitos”, declarou.

Rubio encerra a resposta mencionando o otimismo manifestado por Flávio Bolsonaro em relação às eleições presidenciais brasileiras de outubro. A carta também registra que o senador teria colocado à disposição uma equipe de transição caso fosse eleito presidente da República, ponto que passou a ser explorado por críticos do bolsonarismo como evidência de submissão política aos Estados Unidos.

Na avaliação de Jabbour, o episódio inaugura uma disputa política centrada na defesa da independência nacional. Ele afirmou que o país enfrentará uma “batalha feroz” contra pressões externas e seus aliados internos.

“O que virá é uma batalha feroz pela reafirmação da independência nacional diante de um inimigo externo desesperado e com aliados internos da pior espécie. Independência ou morte nunca foi um lema jogado ao ar. É o espírito do tempo. E devemos estar conectados a ele, politizando o debate e se negando à dispersão”, escreveu.

 

Fonte: The Intercept/Brasil 247

 

Nenhum comentário: