DECLÍNIO:
Amargosa encerra São João sob cobranças e debate sobre esvaziamento
Conhecida
historicamente como um dos principais e mais disputados destinos do São João no
interior da Bahia, a cidade de Amargosa, no Vale do Jiquiriçá, encerra os
festejos de 2026 sob uma onda de debates e intensas cobranças de moradores,
comerciantes e turistas.
O foco
central das discussões gira em torno da percepção de esvaziamento da festa na
Praça do Bosque nesta edição, contrastando diretamente com o crescimento
expressivo de eventos em municípios vizinhos.
O
cenário de insatisfação começou a se desenhar meses antes do acendimento das
fogueiras. O principal estopim para a perda de tração do turismo local foi o
acentuado atraso na divulgação oficial da grade de atrações, por parte da
gestão do prefeito Getúlio Sampaio (PT), que só ocorreu de forma robusta no
início de maio — semanas após concorrentes diretas na preferência dos
forrozeiros, como Santo Antônio de Jesus, terem anunciado shows com grande
apelo de público.
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Impacto no comércio e turismo
Para
ambulantes, comerciantes locais e proprietários de imóveis de aluguel por
temporada, a demora na definição da programação gerou insegurança financeira e
travou negociações estratégicas.
Sem
saber o porte e o apelo das atrações, muitos turistas optaram por garantir
estada em outras praças juninas. O erro de timing gerou um efeito dominó que
culminou em uma visível redução no fluxo de visitantes nos primeiros dias de
festa.
"Ficamos
sem saber quanto investir em mercadoria. Quando a grade saiu, muitos dos
clientes que costumavam alugar casas em Amargosa já tinham fechado contratos
com outras cidades", relatou um comerciante local que preferiu anonimato.
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Cronologia da crise
Para
compreender como a principal festa do município chegou a este impasse em 2026,
é preciso analisar o cronograma político e estratégico adotado pela gestão
municipal ao longo dos últimos meses.
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Início de abril de 2026
Cresce
a ansiedade e a cobrança da população local e de redes de hotelaria pela
divulgação das atrações, enquanto cidades rivais dão início às suas campanhas
de marketing agressivas.
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09/04/2026
Ambulantes
e microempresários protestam publicamente contra a falta de respostas da
prefeitura, alegando que o atraso inviabiliza o planejamento e a captação de
investimentos.
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06/05/2026
A
prefeitura lança oficialmente a festa em Salvador. O prefeito Getúlio Sampaio
justifica a cautela e o formato da grade defendendo um teto de gastos e
criticando cidades que "quebraram o protocolo" de responsabilidade
fiscal com o Ministério Público para pagar cachês exorbitantes.
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19/06/2026
O São
João de Amargosa tem início celebrando também os 135 anos de emancipação do
município, mas sob olhares atentos de analistas sobre a ocupação real da Praça
do Bosque.
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Responsabilidade fiscal x apelo popular
A
justificativa da prefeitura para a composição da grade de 2026 — que trouxe
nomes como Thiago Aquino, Tayrone, Santanna, o Cantador, Kátia e Aduílio e Fulô
de Mandacaru — pautou-se na contenção de gastos e no cumprimento de metas
fiscais em comum acordo com a União dos Municípios da Bahia (UPB) e o
Ministério Público.
A
estratégia da gestão municipal buscou balancear o orçamento, com um
investimento estimado em R$ 9 milhões. A prefeitura optou por não competir em
uma "guerra de cifras" com gestões que contrataram os artistas mais
caros do mercado sertanejo e do piseiro no país.
Se por
um lado a decisão preserva a saúde financeira do município e valoriza as
vertentes tradicionais do forró, por outro, esbarrou na forte concorrência e na
exigência de um público habituado a grandes produções de massa.
O ápice
de público da festa concentrou-se na segunda-feira, dia 22 de junho,
registrando cerca de 70 mil pessoas na Praça do Bosque.
Apesar
do fôlego na reta final, o balanço geral do período acendeu o alerta vermelho
na cidade, já que o planejamento antecipado deve ser peça-chave se Amargosa
quiser reaver, em 2027, o protagonismo absoluto que historicamente ostenta no
São João da Bahia.
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Contraste
Um
levantamento do Ministério Público apontou salto de 204% nos gastos com a festa
junina em três anos, enquanto menos de 3% da população local, por exemplo, tem
acesso à rede de esgoto.
De um
lado, a prefeitura não tem poupado recursos para consolidar o município como um
dos principais destinos juninos do estado. De outro, os indicadores sociais e
de infraestrutura expõem carências históricas na qualidade de vida da
população.
Enquanto
a economia local se aquece com o turismo, a falta de serviços essenciais como
água tratada e esgotamento sanitário acende o alerta das autoridades de
controle.
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Painel de Transparência
Dados
do Painel de Transparência dos Festejos Juninos, mantido pelo Ministério
Público da Bahia (MP-BA), revelam que o orçamento destinado ao São João de
Amargosa saltou de 2 milhões de reais, em 2022, para 6,1 milhões de reais no
último ano.
O
crescimento expressivo de 204% no período, posicionou a cidade entre as 15 que
mais gastaram com o evento em todo o estado. Desse montante milionário, a maior
parte — cerca de 5,5 milhões de reais — saiu diretamente dos cofres do próprio
município, sendo o restante complementado por verbas estaduais para o pagamento
de 63 atrações.
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Teto de gastos
O teto
de gastos estipulado para este ano pela União dos Municípios da Bahia (UPB) e
pelo MP-BA, fixado em 700 mil reais por contratação artística, joga luz sobre
os altos cachês praticados na cidade.
No ano
passado, a apresentação da cantora Simone Mendes custou 800 mil reais aos
cofres públicos, valor que ultrapassaria o limite atual.
Outros
investimentos expressivos incluíram as apresentações das bandas Calcinha Preta,
por 490 mil reais, Iguinho e Lulinha, por 400 mil reais, além de Unha Pintada e
Léo Foguete, que receberam 350 mil reais cada.
Para a
edição de 2026, embora os valores ainda não tenham sido divulgados, a
prefeitura já confirmou nomes de peso como João Gomes, Elba Ramalho, Santanna e
Flávio Leandro, sinalizando a tendência de manutenção dos custos elevados.
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Rota de colisão
Os
investimentos no chamado "São João de luxo", contudo, colidem com a
realidade da infraestrutura urbana relatada pelo Instituto Água e Saneamento.
De acordo com a organização socioambiental, Amargosa ainda contabiliza 9.452
habitantes sem acesso à água potável.
O
panorama do esgotamento sanitário se mostra ainda mais crítico: apenas 2,1% dos
moradores são atendidos pela rede de coleta de esgoto.
O
índice local fica drasticamente abaixo da média registrada na Bahia, que é de
41,4%, e da média nacional, de 59,7%. Na prática, os dejetos de mais de 36 mil
cidadãos não recebem o tratamento adequado.
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Crise
A crise
na área de serviços básicos estende-se também à gestão ambiental de resíduos
sólidos. Recentemente, a administração municipal foi obrigada a encerrar as
atividades do lixão da cidade após uma rigorosa recomendação do Ministério
Público.
Em
vistorias anteriores, o promotor de Justiça Julimar Barreto constatou que a
situação do local colocava em risco iminente a saúde da população e o meio
ambiente, descrevendo o cenário como insalubre, marcado pela presença de
vetores e frequentado por catadores de materiais recicláveis em condições
degradantes.
Apesar
de ter assinado Termos de Ajustamento de Conduta (TAC) anteriores, fica nítido
o descumprimento sistemático das obrigações legais em relação ao lixo.
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Terceirização
Um
contrato oficial, firmado no mês de maio, delegou à empresa 'Peixe
Empreendimentos Artísticos Ltda' a missão de captar patrocínios no setor
privado.
O
serviço, contudo, vai ter um custo considerável aos cofres públicos: uma taxa
de sucesso de 20% sobre cada centavo arrecadado. O acordo estabelece um teto
ambicioso de R$ 5 milhões em captações. Caso a meta seja atingida, a empresa
embolsará R$ 1 milhão apenas em comissões.
O
arranjo causou estranheza nos bastidores políticos locais, já que o município
possui estrutura administrativa própria, com secretarias e departamentos
dedicados ao desenvolvimento e à cultura que, teoricamente, seriam aptos a
gerir a marca do São João sem a necessidade de intermediários.
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Fiscalização e blindagem jurídica
Para
blindar o acordo de questionamentos jurídicos e órgãos de controle, o termo
contratual exige a apresentação de relatórios periódicos por parte da
contratada e veda expressamente cobranças acima dos valores praticados pelo
mercado.
A
fiscalização dos repasses vai caber à Secretaria de Administração e Finanças,
que terá a tarefa de conferir se a comissão de 20% corresponde exatamente aos
depósitos efetuados via Documento de Arrecadação Municipal (DAM). A empresa
atuará sem vínculo empregatício, mantendo a autonomia do ente privado enquanto
opera no centro da arrecadação pública junina.
O
cenário consolida uma tendência que divide opiniões na região: a de que a
viabilidade das grandes festas populares depende, cada vez mais, da lógica do
comissionamento. Se a estratégia resultará em eficiência ou em desgaste
político, os próximos relatórios financeiros dirão.
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Escala de gastos
A
escalada de 204% nos gastos com o São João de Amargosa entre 2022 e 2025, o
qual passou de R$ 2 milhões para R$ 6,1 milhões, posicionou o município entre
as 15 cidades baianas com maior volume de investimentos no período junino.
O dado
que mais chama a atenção de especialistas em gestão pública é a origem dos
recursos: do total investido no último ano, R$ 5,5 milhões (mais de 90%) saíram
diretamente do tesouro municipal, com apenas R$ 600 mil oriundos de repasses
estaduais.
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Cachê acima do teto
O
volume de recursos próprios injetados na festa — que contou com 63 atrações —
levanta discussões sobre a priorização de políticas públicas.
Embora
o São João seja um motor econômico inegável para o comércio e turismo locais, o
montante é visto por críticos como desproporcional para uma cidade que ainda
enfrenta gargalos estruturais em áreas essenciais, como saúde e infraestrutura.
Para
completar, o planejamento financeiro ganhou um capítulo polêmico com a
contratação da cantora Simone Mendes por R$ 800 mil. O valor supera o teto de
R$ 700 mil estabelecido em um acordo recente entre o MP-BA e a União dos
Municípios da Bahia (UPB), criado justamente para evitar o colapso das finanças
municipais por conta de cachês astronômicos.
A
reportagem procurou o prefeito de Amargosa, Getúlio Sampaio, o qual nega o
esvaziamento da festa e garante que o município recebeu público superior ao ano
passado.
Fonte:
Por Rodrigo Tardio, em A Tarde

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