segunda-feira, 29 de junho de 2026

DECLÍNIO: Amargosa encerra São João sob cobranças e debate sobre esvaziamento

Conhecida historicamente como um dos principais e mais disputados destinos do São João no interior da Bahia, a cidade de Amargosa, no Vale do Jiquiriçá, encerra os festejos de 2026 sob uma onda de debates e intensas cobranças de moradores, comerciantes e turistas.

O foco central das discussões gira em torno da percepção de esvaziamento da festa na Praça do Bosque nesta edição, contrastando diretamente com o crescimento expressivo de eventos em municípios vizinhos.

O cenário de insatisfação começou a se desenhar meses antes do acendimento das fogueiras. O principal estopim para a perda de tração do turismo local foi o acentuado atraso na divulgação oficial da grade de atrações, por parte da gestão do prefeito Getúlio Sampaio (PT), que só ocorreu de forma robusta no início de maio — semanas após concorrentes diretas na preferência dos forrozeiros, como Santo Antônio de Jesus, terem anunciado shows com grande apelo de público.

<><> Impacto no comércio e turismo

Para ambulantes, comerciantes locais e proprietários de imóveis de aluguel por temporada, a demora na definição da programação gerou insegurança financeira e travou negociações estratégicas.

Sem saber o porte e o apelo das atrações, muitos turistas optaram por garantir estada em outras praças juninas. O erro de timing gerou um efeito dominó que culminou em uma visível redução no fluxo de visitantes nos primeiros dias de festa.

"Ficamos sem saber quanto investir em mercadoria. Quando a grade saiu, muitos dos clientes que costumavam alugar casas em Amargosa já tinham fechado contratos com outras cidades", relatou um comerciante local que preferiu anonimato.

<><> Cronologia da crise

Para compreender como a principal festa do município chegou a este impasse em 2026, é preciso analisar o cronograma político e estratégico adotado pela gestão municipal ao longo dos últimos meses.

>> Início de abril de 2026

Cresce a ansiedade e a cobrança da população local e de redes de hotelaria pela divulgação das atrações, enquanto cidades rivais dão início às suas campanhas de marketing agressivas.

>> 09/04/2026

Ambulantes e microempresários protestam publicamente contra a falta de respostas da prefeitura, alegando que o atraso inviabiliza o planejamento e a captação de investimentos.

>> 06/05/2026

A prefeitura lança oficialmente a festa em Salvador. O prefeito Getúlio Sampaio justifica a cautela e o formato da grade defendendo um teto de gastos e criticando cidades que "quebraram o protocolo" de responsabilidade fiscal com o Ministério Público para pagar cachês exorbitantes.

>> 19/06/2026

O São João de Amargosa tem início celebrando também os 135 anos de emancipação do município, mas sob olhares atentos de analistas sobre a ocupação real da Praça do Bosque.

<><> Responsabilidade fiscal x apelo popular

A justificativa da prefeitura para a composição da grade de 2026 — que trouxe nomes como Thiago Aquino, Tayrone, Santanna, o Cantador, Kátia e Aduílio e Fulô de Mandacaru — pautou-se na contenção de gastos e no cumprimento de metas fiscais em comum acordo com a União dos Municípios da Bahia (UPB) e o Ministério Público.

A estratégia da gestão municipal buscou balancear o orçamento, com um investimento estimado em R$ 9 milhões. A prefeitura optou por não competir em uma "guerra de cifras" com gestões que contrataram os artistas mais caros do mercado sertanejo e do piseiro no país.

Se por um lado a decisão preserva a saúde financeira do município e valoriza as vertentes tradicionais do forró, por outro, esbarrou na forte concorrência e na exigência de um público habituado a grandes produções de massa.

O ápice de público da festa concentrou-se na segunda-feira, dia 22 de junho, registrando cerca de 70 mil pessoas na Praça do Bosque.

Apesar do fôlego na reta final, o balanço geral do período acendeu o alerta vermelho na cidade, já que o planejamento antecipado deve ser peça-chave se Amargosa quiser reaver, em 2027, o protagonismo absoluto que historicamente ostenta no São João da Bahia.

<><> Contraste

Um levantamento do Ministério Público apontou salto de 204% nos gastos com a festa junina em três anos, enquanto menos de 3% da população local, por exemplo, tem acesso à rede de esgoto.

De um lado, a prefeitura não tem poupado recursos para consolidar o município como um dos principais destinos juninos do estado. De outro, os indicadores sociais e de infraestrutura expõem carências históricas na qualidade de vida da população.

Enquanto a economia local se aquece com o turismo, a falta de serviços essenciais como água tratada e esgotamento sanitário acende o alerta das autoridades de controle.

<><> Painel de Transparência

Dados do Painel de Transparência dos Festejos Juninos, mantido pelo Ministério Público da Bahia (MP-BA), revelam que o orçamento destinado ao São João de Amargosa saltou de 2 milhões de reais, em 2022, para 6,1 milhões de reais no último ano.

O crescimento expressivo de 204% no período, posicionou a cidade entre as 15 que mais gastaram com o evento em todo o estado. Desse montante milionário, a maior parte — cerca de 5,5 milhões de reais — saiu diretamente dos cofres do próprio município, sendo o restante complementado por verbas estaduais para o pagamento de 63 atrações.

<><> Teto de gastos

O teto de gastos estipulado para este ano pela União dos Municípios da Bahia (UPB) e pelo MP-BA, fixado em 700 mil reais por contratação artística, joga luz sobre os altos cachês praticados na cidade.

No ano passado, a apresentação da cantora Simone Mendes custou 800 mil reais aos cofres públicos, valor que ultrapassaria o limite atual.

Outros investimentos expressivos incluíram as apresentações das bandas Calcinha Preta, por 490 mil reais, Iguinho e Lulinha, por 400 mil reais, além de Unha Pintada e Léo Foguete, que receberam 350 mil reais cada.

Para a edição de 2026, embora os valores ainda não tenham sido divulgados, a prefeitura já confirmou nomes de peso como João Gomes, Elba Ramalho, Santanna e Flávio Leandro, sinalizando a tendência de manutenção dos custos elevados.

<><> Rota de colisão

Os investimentos no chamado "São João de luxo", contudo, colidem com a realidade da infraestrutura urbana relatada pelo Instituto Água e Saneamento. De acordo com a organização socioambiental, Amargosa ainda contabiliza 9.452 habitantes sem acesso à água potável.

O panorama do esgotamento sanitário se mostra ainda mais crítico: apenas 2,1% dos moradores são atendidos pela rede de coleta de esgoto.

O índice local fica drasticamente abaixo da média registrada na Bahia, que é de 41,4%, e da média nacional, de 59,7%. Na prática, os dejetos de mais de 36 mil cidadãos não recebem o tratamento adequado.

<><> Crise

A crise na área de serviços básicos estende-se também à gestão ambiental de resíduos sólidos. Recentemente, a administração municipal foi obrigada a encerrar as atividades do lixão da cidade após uma rigorosa recomendação do Ministério Público.

Em vistorias anteriores, o promotor de Justiça Julimar Barreto constatou que a situação do local colocava em risco iminente a saúde da população e o meio ambiente, descrevendo o cenário como insalubre, marcado pela presença de vetores e frequentado por catadores de materiais recicláveis em condições degradantes.

Apesar de ter assinado Termos de Ajustamento de Conduta (TAC) anteriores, fica nítido o descumprimento sistemático das obrigações legais em relação ao lixo.

<><> Terceirização

Um contrato oficial, firmado no mês de maio, delegou à empresa 'Peixe Empreendimentos Artísticos Ltda' a missão de captar patrocínios no setor privado.

O serviço, contudo, vai ter um custo considerável aos cofres públicos: uma taxa de sucesso de 20% sobre cada centavo arrecadado. O acordo estabelece um teto ambicioso de R$ 5 milhões em captações. Caso a meta seja atingida, a empresa embolsará R$ 1 milhão apenas em comissões.

O arranjo causou estranheza nos bastidores políticos locais, já que o município possui estrutura administrativa própria, com secretarias e departamentos dedicados ao desenvolvimento e à cultura que, teoricamente, seriam aptos a gerir a marca do São João sem a necessidade de intermediários.

<><> Fiscalização e blindagem jurídica

Para blindar o acordo de questionamentos jurídicos e órgãos de controle, o termo contratual exige a apresentação de relatórios periódicos por parte da contratada e veda expressamente cobranças acima dos valores praticados pelo mercado.

A fiscalização dos repasses vai caber à Secretaria de Administração e Finanças, que terá a tarefa de conferir se a comissão de 20% corresponde exatamente aos depósitos efetuados via Documento de Arrecadação Municipal (DAM). A empresa atuará sem vínculo empregatício, mantendo a autonomia do ente privado enquanto opera no centro da arrecadação pública junina.

O cenário consolida uma tendência que divide opiniões na região: a de que a viabilidade das grandes festas populares depende, cada vez mais, da lógica do comissionamento. Se a estratégia resultará em eficiência ou em desgaste político, os próximos relatórios financeiros dirão.

<><> Escala de gastos

A escalada de 204% nos gastos com o São João de Amargosa entre 2022 e 2025, o qual passou de R$ 2 milhões para R$ 6,1 milhões, posicionou o município entre as 15 cidades baianas com maior volume de investimentos no período junino.

O dado que mais chama a atenção de especialistas em gestão pública é a origem dos recursos: do total investido no último ano, R$ 5,5 milhões (mais de 90%) saíram diretamente do tesouro municipal, com apenas R$ 600 mil oriundos de repasses estaduais.

<><> Cachê acima do teto

O volume de recursos próprios injetados na festa — que contou com 63 atrações — levanta discussões sobre a priorização de políticas públicas.

Embora o São João seja um motor econômico inegável para o comércio e turismo locais, o montante é visto por críticos como desproporcional para uma cidade que ainda enfrenta gargalos estruturais em áreas essenciais, como saúde e infraestrutura.

Para completar, o planejamento financeiro ganhou um capítulo polêmico com a contratação da cantora Simone Mendes por R$ 800 mil. O valor supera o teto de R$ 700 mil estabelecido em um acordo recente entre o MP-BA e a União dos Municípios da Bahia (UPB), criado justamente para evitar o colapso das finanças municipais por conta de cachês astronômicos.

A reportagem procurou o prefeito de Amargosa, Getúlio Sampaio, o qual nega o esvaziamento da festa e garante que o município recebeu público superior ao ano passado.

 

Fonte: Por Rodrigo Tardio, em A Tarde

 

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