segunda-feira, 29 de junho de 2026

Flávio, o terrorista do Dark Horse

A tentativa da extrema-direita de terceirizar a segurança pública brasileira para os Estados Unidos revela a fragilidade do discurso nacionalista de seus líderes. Ao defender a intervenção estrangeira, parlamentares desconsideram o risco de submeter o país a sanções econômicas e intervenções militares de potências externas.

A principal bandeira do senador da República, Flávio Bolsonaro, consiste em pressionar o governo norte-americano para classificar facções nacionais como entidades terroristas. O primeiro passo dessa estratégia seria a validação pelo Departamento de Estado em Washington para justificar ações de tutela externa sobre o território nacional, conforme já discutido nos debates sobre o alinhamento com Donald Trump.

O plano de transferir o controle da segurança interna para autoridades de Washington ignora que organizações criminosas se infiltram facilmente em estruturas privadas e governamentais. Ao permitir essa ingerência, a soberania nacional do Brasil seria severamente comprometida por decisões unilaterais da diplomacia estrangeira.

No entanto, um surpreendente desdobramento policial expôs a contradição moral daqueles que cobram a intervenção armada de Washington contra o crime organizado. As investigações da Polícia Civil de São Paulo revelaram que a entidade contratada pela prefeitura paulistana subcontratou uma empresa ligada a um suposto integrante do Primeiro Comando da Capital.

A situação se torna ainda mais grave porque a mesma produtora responsável pelo contrato de internet na periferia também financia a realização do documentário Dark Horse sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro. Esse cruzamento financeiro sob investigação policial demonstra como a retórica de combate ao crime organizado desmorona diante de interesses econômicos e eleitorais imediatos, afetando inclusive as articulações de sua própria chapa familiar.

Os problemas de segurança pública do Brasil devem ser resolvidos de forma autônoma pelo Estado brasileiro, sem a entrega de nossa independência geopolítica a governos estrangeiros. O fortalecimento das instituições nacionais e a inteligência policial são os únicos caminhos viáveis para combater o crime sem curvar a nação a interesses externos.

Contratado por produtora de Dark Horse é apontado como membro do PCC. Por Renan Porto, no Metrópoles

Investigada por desviar dinheiro da Prefeitura de São Paulo, a ONG Instituto Conhecer Brasil (ICB) subcontratou uma empresa que tem como sócio um suposto membro do Primeiro Comando da Capital (PCC) para atender a demanda da gestão municipal. Segundo autoridades do Ministério Público de São Paulo (MPSP), Alex Leandro Bispo, que representa a Favela Conectada, teria entrado para o crime organizado quando cumpriu pena em presídios dominados pela facção, como a Penitenciária 2 de Presidente Venceslau, no interior paulista.

O ICB, representado por Karina Ferreira da Gama, foi contratado por R$ 108 milhões para instalar 5 mil pontos de Wi-fi na periferia da capital. Desse valor, R$ 12 milhões teriam sido destinados à empresa de Alex Leandro para realizar o serviço. A Polícia Civil de São Paulo investiga se o dinheiro foi desviado. Uma das hipóteses é que tenha ajudado a custear o filme Dark Horse, que contará a história do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). A produtora responsável pelo longa-metragem é a Go Up Entertainment, cuja sócia é justamente Karina Gama.

O sócio da Favela Conectada tem três condenações por roubo e ficou preso em regime fechado por 13 anos. No período, passou por pelo menos 13 unidades prisionais. Entre os crimes que levaram às condenações, está o sequestro de um sobrinho do deputado estadual Eduardo Suplicy (PT). Em dezembro do ano passado, voltou a ser detido, acusado de jogar do 10º andar de um prédio a própria companheira, Maria Katiane Gomes da Silva.

Durante a investigação do caso, a polícia teve acesso a um vídeo, feito por um vizinho, em que Alex Leandro teria dito ter o “escorpião do PCC”. Segundo a investigação, o aracnídeo seria um símbolo da facção. Em depoimento, o homem chegou a ser questionado sobre o suposto vínculo com a organização criminosa, mas negou.

•        Inquérito liga suposto membro do PCC a desvios para financiar "Dark Horse"

O empresário Alex Leandro Bispo dos Santos, apontado pelo Ministério Público de São Paulo (MPSP) como integrante da facção criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC), é sócio da empresa subcontratada pelo Instituto Conhecer Brasil (ICB) para um projeto de instalação de Wi-Fi na periferia de São Paulo. O ICB é presidido por Karina Ferreira da Gama, que também é sócia da Go Up Entertainment, produtora responsável pelo filme Dark Horse, que narra a trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro.

As investigações conduzidas pela Polícia Civil paulista sobre o contrato firmado entre a Prefeitura de São Paulo e o Instituto apontam para um esquema de superfaturamento que chega a 230%. O acordo principal, orçado originalmente em R$ 108 milhões — com apurações indicando que as cifras totais podem atingir R$ 157 milhões —, previa a instalação de 5 mil pontos de internet sem fio (Wi-Fi) na capital paulista.

No entanto, a auditoria identificou uma discrepância severa nos valores: enquanto a estatal Prodam cobrava R$ 306 mensais por ponto de conexão, o ICB recebia uma taxa fixa de R$ 1.800 pelo mesmo serviço.

Além das distorções de preço, a execução do contrato apresentou graves falhas e indícios de fraude. Das 5 mil antenas contratadas, a entidade instalou apenas 3,2 mil. Em um dos episódios mais críticos detalhados pelos investigadores, o município desembolsou R$ 2,7 milhões pela manutenção de 128 pontos de conexão, pagando por 12 meses de prestação de serviço que, na realidade, durou apenas dois meses. Segundo a polícia, o custo efetivo dessa operação deveria ter sido de somente R$ 273 mil.

O rastreamento do dinheiro revelou ainda que R$ 12 milhões do montante total do contrato foram repassados à empresa Favela Conectada Serviço e Tecnologia Ltda., de propriedade de Alex Leandro. Até dezembro de 2025, a empresa já havia recebido mais de R$ 3,8 milhões desse total.

A principal hipótese com a qual a polícia trabalha é que parte dos recursos desviados dos cofres públicos paulistanos tenha sido direcionada para o financiamento e custeio da produção do filme cinematográfico Dark Horse.

<><> Perfil do suspeito

Investigado no esquema de desvios, Alex Leandro possui um extenso histórico criminal que soma mais de 60 processos judiciais. Entre seus antecedentes, constam três condenações por roubo e uma por extorsão mediante sequestro — crime que envolveu um sobrinho do político Eduardo Suplicy.

Devido a essas sentenças, ele cumpriu 13 anos de pena em regime fechado, período em que passou por penitenciárias de segurança máxima que abrigam a cúpula da facção criminosa, como a unidade de Presidente Venceslau.

A possível ligação com a organização criminosa também é reforçada por relatos de vizinhos, que gravaram um vídeo no qual Alex afirmava possuir o "escorpião do PCC", expressão apontada pelas investigações como um provável código ou símbolo do grupo.

Atualmente, Alex cumpre prisão preventiva e é réu pelo crime de feminicídio. Ele é acusado do assassinato de sua companheira, Maria Katiane Gomes da Silva, de 25 anos. O crime ocorreu em novembro de 2025, quando a jovem morreu após cair do 10º andar de um edifício residencial no bairro Vila Andrade, na zona sul de São Paulo.

De acordo com as investigações, imagens capturadas pelo sistema de segurança do prédio mostram Alex agredindo e arrastando a vítima pelo pescoço momentos antes da queda que resultou em sua morte.

<><> Manobras administrativas

As investigações também revelaram indícios de manobras administrativas para omitir a participação de Alex Leandro no negócio e blindar a empresa após o crime. Nos primeiros contratos firmados com o ICB, o suspeito assinou os documentos utilizando apenas o primeiro nome, "Alex", omitindo seu sobrenome, número de CPF ou RG.

Posteriormente, em dezembro de 2025 — logo após a repercussão da denúncia do feminicídio —, a empresa Favela Conectada passou por uma reformulação: mudou sua razão social para Urban Connect e teve seu controle transferido para o nome de Tatiane Camargo de Oliveira Fernandes, que, segundo as apurações, reside no mesmo endereço de Alex.

•        PF pode abrir até três inquéritos para investigar financiamento do filme Dark Horse

A Polícia Federal (PF) pode abrir até três inquéritos nos próximos dias para apurar suspeitas sobre o financiamento do filme “Dark Horse”, cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). A expectativa surgiu após o ministro Edson Fachin, presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), definir na quinta-feira, 25, o ministro André Mendonça como relator das investigações envolvendo repasses do ex-banqueiro Daniel Vorcaro a pedido do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ).

<><> O que aconteceu

•        A PF prevê a abertura de até três inquéritos para investigar o financiamento do filme Bolsonaro “Dark Horse”, após decisão do STF sobre a relatoria do caso.

•        As apurações focam em repasses de R$ 61 milhões do ex-banqueiro Daniel Vorcaro a Flávio Bolsonaro e a eventual destinação de parte desse dinheiro para Eduardo Bolsonaro nos EUA.

•        Outra frente investiga o direcionamento de emendas parlamentares a entidades ligadas à produtora do filme, como a Go Up e a Academia Nacional de Cultura (ANC).

O valor de R$ 61 milhões foi revelado em maio pelo site The Intercept Brasil, que obteve trocas de mensagens entre Flávio e o ex-banqueiro. O dinheiro chegou a um fundo de financiamento do filme nos EUA por meio da empresa Entre Investimentos e Participações, já suspeita de integrar o ecossistema de fraudes do Master. A PF quer confirmar o montante e apurar se os repasses ocorreram em troca de algum favor prestado pelo senador ou pelo seu grupo político. Flávio Bolsonaro nega qualquer irregularidade e afirma ter solicitado apenas um financiamento privado para o filme do pai.

A dúvida sobre a relatoria havia surgido porque o deputado Lindbergh Farias (PT-RJ) pediu que as apurações ficassem com o ministro Alexandre de Moraes, que foi relator da ação penal que condenou Eduardo Bolsonaro pelo crime de coação no curso do processo, em razão de sua atuação nos EUA. O argumento era de que parte do dinheiro de Vorcaro pode ter sido usada para financiar Eduardo Bolsonaro no país. Fachin, no entanto, manteve o caso com Mendonça, responsável pelos demais inquéritos do caso Master no tribunal.

<><> É complexa a investigação sobre Eduardo Bolsonaro?

A investigação sobre o eventual uso do dinheiro para bancar Eduardo Bolsonaro é considerada mais complexa, pois depende de cooperação com as autoridades americanas para o quebramento de sigilos nos EUA.

A terceira frente de investigação — sobre a destinação de emendas parlamentares a entidades ligadas à produtora do filme — terá como relator o ministro Flávio Dino, que desde 15 de maio já conduz uma apuração preliminar sobre o tema. Segundo policiais ouvidos pela reportagem, o caso deve evoluir para um inquérito formal.

A suspeita é que parlamentares do PL, entre eles os ex-deputados Alexandre Ramagem e Carla Zambelli e os deputados Bia Kicis (PL-DF) e Marcos Pollon (PL-MS), tenham destinado emendas a entidades da empresária Karina da Gama para financiar indiretamente o filme. O deputado Mario Frias (PL-SP), diretamente envolvido na produção da cinebiografia, também teria firmado contratos com empresas de Karina usando verbas da Câmara.

Karina da Gama é responsável pela produtora Go Up, dona de “Dark Horse”, e também comanda entidades que receberam recursos públicos — entre elas a Academia Nacional de Cultura (ANC), que recebeu R$ 2,6 milhões em emendas PIX de parlamentares do PL. Todos negam irregularidades. Além das investigações da PF, a Controladoria-Geral da União (CGU) realiza uma auditoria sobre a destinação dos recursos dessas emendas.

•        Empresa investigada por ligação com PCC tem contrato de R$ 168,8 milhões para abastecer frota da PM do RJ

Rede Sol Fuel Distribuidora, empresa investigada por suposta ligação com o Primeiro Comando da Capital (PCC), mantém um contrato de R$ 168,8 milhões com o Governo do Rio de Janeiro para abastecer a frota da Polícia Militar, assinado em março de 2025 e válido até 2027.

Questionada sobre a manutenção do vínculo com uma empresa sob investigação, a PM afirmou que o contrato é legal, mas anunciou que abrirá nova licitação. O Palácio Guanabara não respondeu aos questionamentos.

<><> Contrato milionário sob suspeita

O contrato entre o Governo do Rio de Janeiro e a Rede Sol Fuel Distribuidora foi assinado em março de 2025, na gestão do então secretário de Polícia Militar Marcelo de Menezes Nogueira, com vigência até 2027 e possibilidade de prorrogação sucessiva por até dez anos. Pelo acordo, a distribuidora deve fornecer combustível para os 70 postos internos da corporação, espalhados pelos batalhões do estado, por meio de um sistema de gerenciamento e controle de abastecimento sem intervenção humana.

O volume previsto é de quase 37 milhões de litros: 32 milhões de litros de gasolina, que respondem por R$ 147,8 milhões do valor total, e mais de 4 milhões de litros de diesel S10, correspondentes a R$ 20,9 milhões. O preço pago pelo estado não é fixo: a remuneração da distribuidora é calculada com base no preço médio de revenda ao consumidor divulgado semanalmente pela Agência Nacional do Petróleo (ANP), com desconto do ICMS e aplicação de um desconto contratual de 1,54% oferecido pela empresa.

Desde a assinatura, o contrato passou por pelo menos três alterações para incluir novas fontes de recursos orçamentários. Em julho de 2025, foram acrescentados R$ 456 mil provenientes de um convênio entre a PM e a Prefeitura de Barra do Piraí. Em outubro, outra alteração incluiu R$ 8,49 milhões do Fundo Especial da PM. Em novembro, uma terceira modificação acrescentou mais R$ 1,77 milhão da mesma fonte. O documento não especifica quantos veículos serão abastecidos; a corporação possui atualmente cerca de 5 mil veículos.

<><> As investigações e as ligações com o PCC

A Rede Sol Fuel Distribuidora é alvo de buscas na Operação Carbono Oculto, investigação que mira a estrutura financeira do Primeiro Comando da Capital. Segundo o Ministério Público de São Paulo, a Rede Sol é uma das empresas cujas notas comerciais foram adquiridas pelo Mabruk II Fundo de Investimento, no valor de R$ 30 milhões. De acordo com a Receita Federal, o Mabruk II é um dos 40 investigados como financiadores das aquisições do PCC no mercado de combustíveis, em uma operação que o Ministério Público de São Paulo classificou como “instrumentalização da lavagem de capitais”.

A investigação movimentou o mercado financeiro de São Paulo, na Avenida Faria Lima, e colocou sob escrutínio uma cadeia de empresas e fundos suspeitos de operar como fachada para a facção. O caso da Rede Sol não é isolado no histórico de relações com o poder público: em maio do ano passado, o 38º BPM, sediado em Três Rios, identificou irregularidades no combustível fornecido pela distribuidora, o que resultou na abertura de um processo judicial. A existência desse processo anterior torna ainda mais difícil sustentar que o contrato firmado em março de 2025 foi celebrado sem sinais de alerta disponíveis.

<><> Reações e desdobramentos

Quase um ano após a Operação Carbono Oculto, a Polícia Militar do Rio de Janeiro declarou, após ser questionada, que o contrato com a Rede Sol é legal e que realizará uma nova licitação para o abastecimento das viaturas. A resposta reconhece, na prática, que a situação é insustentável, mas não explica por que o vínculo foi mantido durante todo esse período nem quais critérios de verificação foram aplicados antes da assinatura do contrato. O Palácio Guanabara, por sua vez, não quis comentar o caso.

O ex-secretário Marcelo de Menezes Nogueira, que assinou o contrato em março de 2025, deixou o cargo no início deste ano para se candidatar a deputado estadual. A saída transfere para a gestão atual a responsabilidade sobre um acordo que, a cada semana que passa sem rescisão, mantém uma corporação policial financeiramente vinculada a uma empresa investigada por suspeita de financiar o principal grupo criminoso do país. A promessa de nova licitação, sem prazo definido, funciona como resposta administrativa a uma questão que é, antes de tudo, política.

 

Fonte: O Cafezinho/Correio Braziliense/IstoÉ/Fórum

 

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