Flávio,
o terrorista do Dark Horse
A
tentativa da extrema-direita de terceirizar a segurança pública brasileira para
os Estados Unidos revela a fragilidade do discurso nacionalista de seus
líderes. Ao defender a intervenção estrangeira, parlamentares desconsideram o
risco de submeter o país a sanções econômicas e intervenções militares de
potências externas.
A
principal bandeira do senador da República, Flávio Bolsonaro, consiste em
pressionar o governo norte-americano para classificar facções nacionais como
entidades terroristas. O primeiro passo dessa estratégia seria a validação pelo
Departamento de Estado em Washington para justificar ações de tutela externa
sobre o território nacional, conforme já discutido nos debates sobre o
alinhamento com Donald Trump.
O plano
de transferir o controle da segurança interna para autoridades de Washington
ignora que organizações criminosas se infiltram facilmente em estruturas
privadas e governamentais. Ao permitir essa ingerência, a soberania nacional do
Brasil seria severamente comprometida por decisões unilaterais da diplomacia
estrangeira.
No
entanto, um surpreendente desdobramento policial expôs a contradição moral
daqueles que cobram a intervenção armada de Washington contra o crime
organizado. As investigações da Polícia Civil de São Paulo revelaram que a
entidade contratada pela prefeitura paulistana subcontratou uma empresa ligada
a um suposto integrante do Primeiro Comando da Capital.
A
situação se torna ainda mais grave porque a mesma produtora responsável pelo
contrato de internet na periferia também financia a realização do documentário
Dark Horse sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro. Esse cruzamento financeiro sob
investigação policial demonstra como a retórica de combate ao crime organizado
desmorona diante de interesses econômicos e eleitorais imediatos, afetando
inclusive as articulações de sua própria chapa familiar.
Os
problemas de segurança pública do Brasil devem ser resolvidos de forma autônoma
pelo Estado brasileiro, sem a entrega de nossa independência geopolítica a
governos estrangeiros. O fortalecimento das instituições nacionais e a
inteligência policial são os únicos caminhos viáveis para combater o crime sem
curvar a nação a interesses externos.
Contratado
por produtora de Dark Horse é apontado como membro do PCC. Por Renan Porto, no
Metrópoles
Investigada
por desviar dinheiro da Prefeitura de São Paulo, a ONG Instituto Conhecer
Brasil (ICB) subcontratou uma empresa que tem como sócio um suposto membro do
Primeiro Comando da Capital (PCC) para atender a demanda da gestão municipal.
Segundo autoridades do Ministério Público de São Paulo (MPSP), Alex Leandro
Bispo, que representa a Favela Conectada, teria entrado para o crime organizado
quando cumpriu pena em presídios dominados pela facção, como a Penitenciária 2
de Presidente Venceslau, no interior paulista.
O ICB,
representado por Karina Ferreira da Gama, foi contratado por R$ 108 milhões
para instalar 5 mil pontos de Wi-fi na periferia da capital. Desse valor, R$ 12
milhões teriam sido destinados à empresa de Alex Leandro para realizar o
serviço. A Polícia Civil de São Paulo investiga se o dinheiro foi desviado. Uma
das hipóteses é que tenha ajudado a custear o filme Dark Horse, que contará a
história do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). A produtora responsável pelo
longa-metragem é a Go Up Entertainment, cuja sócia é justamente Karina Gama.
O sócio
da Favela Conectada tem três condenações por roubo e ficou preso em regime
fechado por 13 anos. No período, passou por pelo menos 13 unidades prisionais.
Entre os crimes que levaram às condenações, está o sequestro de um sobrinho do
deputado estadual Eduardo Suplicy (PT). Em dezembro do ano passado, voltou a
ser detido, acusado de jogar do 10º andar de um prédio a própria companheira,
Maria Katiane Gomes da Silva.
Durante
a investigação do caso, a polícia teve acesso a um vídeo, feito por um vizinho,
em que Alex Leandro teria dito ter o “escorpião do PCC”. Segundo a
investigação, o aracnídeo seria um símbolo da facção. Em depoimento, o homem
chegou a ser questionado sobre o suposto vínculo com a organização criminosa,
mas negou.
• Inquérito liga suposto membro do PCC a
desvios para financiar "Dark Horse"
O
empresário Alex Leandro Bispo dos Santos, apontado pelo Ministério Público de
São Paulo (MPSP) como integrante da facção criminosa Primeiro Comando da
Capital (PCC), é sócio da empresa subcontratada pelo Instituto Conhecer Brasil
(ICB) para um projeto de instalação de Wi-Fi na periferia de São Paulo. O ICB é
presidido por Karina Ferreira da Gama, que também é sócia da Go Up
Entertainment, produtora responsável pelo filme Dark Horse, que narra a
trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro.
As
investigações conduzidas pela Polícia Civil paulista sobre o contrato firmado
entre a Prefeitura de São Paulo e o Instituto apontam para um esquema de
superfaturamento que chega a 230%. O acordo principal, orçado originalmente em
R$ 108 milhões — com apurações indicando que as cifras totais podem atingir R$
157 milhões —, previa a instalação de 5 mil pontos de internet sem fio (Wi-Fi)
na capital paulista.
No
entanto, a auditoria identificou uma discrepância severa nos valores: enquanto
a estatal Prodam cobrava R$ 306 mensais por ponto de conexão, o ICB recebia uma
taxa fixa de R$ 1.800 pelo mesmo serviço.
Além
das distorções de preço, a execução do contrato apresentou graves falhas e
indícios de fraude. Das 5 mil antenas contratadas, a entidade instalou apenas
3,2 mil. Em um dos episódios mais críticos detalhados pelos investigadores, o
município desembolsou R$ 2,7 milhões pela manutenção de 128 pontos de conexão,
pagando por 12 meses de prestação de serviço que, na realidade, durou apenas
dois meses. Segundo a polícia, o custo efetivo dessa operação deveria ter sido
de somente R$ 273 mil.
O
rastreamento do dinheiro revelou ainda que R$ 12 milhões do montante total do
contrato foram repassados à empresa Favela Conectada Serviço e Tecnologia
Ltda., de propriedade de Alex Leandro. Até dezembro de 2025, a empresa já havia
recebido mais de R$ 3,8 milhões desse total.
A
principal hipótese com a qual a polícia trabalha é que parte dos recursos
desviados dos cofres públicos paulistanos tenha sido direcionada para o
financiamento e custeio da produção do filme cinematográfico Dark Horse.
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Perfil do suspeito
Investigado
no esquema de desvios, Alex Leandro possui um extenso histórico criminal que
soma mais de 60 processos judiciais. Entre seus antecedentes, constam três
condenações por roubo e uma por extorsão mediante sequestro — crime que
envolveu um sobrinho do político Eduardo Suplicy.
Devido
a essas sentenças, ele cumpriu 13 anos de pena em regime fechado, período em
que passou por penitenciárias de segurança máxima que abrigam a cúpula da
facção criminosa, como a unidade de Presidente Venceslau.
A
possível ligação com a organização criminosa também é reforçada por relatos de
vizinhos, que gravaram um vídeo no qual Alex afirmava possuir o "escorpião
do PCC", expressão apontada pelas investigações como um provável código ou
símbolo do grupo.
Atualmente,
Alex cumpre prisão preventiva e é réu pelo crime de feminicídio. Ele é acusado
do assassinato de sua companheira, Maria Katiane Gomes da Silva, de 25 anos. O
crime ocorreu em novembro de 2025, quando a jovem morreu após cair do 10º andar
de um edifício residencial no bairro Vila Andrade, na zona sul de São Paulo.
De
acordo com as investigações, imagens capturadas pelo sistema de segurança do
prédio mostram Alex agredindo e arrastando a vítima pelo pescoço momentos antes
da queda que resultou em sua morte.
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Manobras administrativas
As
investigações também revelaram indícios de manobras administrativas para omitir
a participação de Alex Leandro no negócio e blindar a empresa após o crime. Nos
primeiros contratos firmados com o ICB, o suspeito assinou os documentos
utilizando apenas o primeiro nome, "Alex", omitindo seu sobrenome,
número de CPF ou RG.
Posteriormente,
em dezembro de 2025 — logo após a repercussão da denúncia do feminicídio —, a
empresa Favela Conectada passou por uma reformulação: mudou sua razão social
para Urban Connect e teve seu controle transferido para o nome de Tatiane
Camargo de Oliveira Fernandes, que, segundo as apurações, reside no mesmo
endereço de Alex.
• PF pode abrir até três inquéritos para
investigar financiamento do filme Dark Horse
A
Polícia Federal (PF) pode abrir até três inquéritos nos próximos dias para
apurar suspeitas sobre o financiamento do filme “Dark Horse”, cinebiografia do
ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). A expectativa surgiu após o ministro Edson
Fachin, presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), definir na quinta-feira,
25, o ministro André Mendonça como relator das investigações envolvendo
repasses do ex-banqueiro Daniel Vorcaro a pedido do senador Flávio Bolsonaro
(PL-RJ).
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O que aconteceu
• A PF prevê a abertura de até três
inquéritos para investigar o financiamento do filme Bolsonaro “Dark Horse”,
após decisão do STF sobre a relatoria do caso.
• As apurações focam em repasses de R$ 61
milhões do ex-banqueiro Daniel Vorcaro a Flávio Bolsonaro e a eventual
destinação de parte desse dinheiro para Eduardo Bolsonaro nos EUA.
• Outra frente investiga o direcionamento
de emendas parlamentares a entidades ligadas à produtora do filme, como a Go Up
e a Academia Nacional de Cultura (ANC).
O valor
de R$ 61 milhões foi revelado em maio pelo site The Intercept Brasil, que
obteve trocas de mensagens entre Flávio e o ex-banqueiro. O dinheiro chegou a
um fundo de financiamento do filme nos EUA por meio da empresa Entre
Investimentos e Participações, já suspeita de integrar o ecossistema de fraudes
do Master. A PF quer confirmar o montante e apurar se os repasses ocorreram em
troca de algum favor prestado pelo senador ou pelo seu grupo político. Flávio
Bolsonaro nega qualquer irregularidade e afirma ter solicitado apenas um
financiamento privado para o filme do pai.
A
dúvida sobre a relatoria havia surgido porque o deputado Lindbergh Farias
(PT-RJ) pediu que as apurações ficassem com o ministro Alexandre de Moraes, que
foi relator da ação penal que condenou Eduardo Bolsonaro pelo crime de coação
no curso do processo, em razão de sua atuação nos EUA. O argumento era de que
parte do dinheiro de Vorcaro pode ter sido usada para financiar Eduardo
Bolsonaro no país. Fachin, no entanto, manteve o caso com Mendonça, responsável
pelos demais inquéritos do caso Master no tribunal.
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É complexa a investigação sobre Eduardo Bolsonaro?
A
investigação sobre o eventual uso do dinheiro para bancar Eduardo Bolsonaro é
considerada mais complexa, pois depende de cooperação com as autoridades
americanas para o quebramento de sigilos nos EUA.
A
terceira frente de investigação — sobre a destinação de emendas parlamentares a
entidades ligadas à produtora do filme — terá como relator o ministro Flávio
Dino, que desde 15 de maio já conduz uma apuração preliminar sobre o tema.
Segundo policiais ouvidos pela reportagem, o caso deve evoluir para um
inquérito formal.
A
suspeita é que parlamentares do PL, entre eles os ex-deputados Alexandre
Ramagem e Carla Zambelli e os deputados Bia Kicis (PL-DF) e Marcos Pollon
(PL-MS), tenham destinado emendas a entidades da empresária Karina da Gama para
financiar indiretamente o filme. O deputado Mario Frias (PL-SP), diretamente
envolvido na produção da cinebiografia, também teria firmado contratos com
empresas de Karina usando verbas da Câmara.
Karina
da Gama é responsável pela produtora Go Up, dona de “Dark Horse”, e também
comanda entidades que receberam recursos públicos — entre elas a Academia
Nacional de Cultura (ANC), que recebeu R$ 2,6 milhões em emendas PIX de
parlamentares do PL. Todos negam irregularidades. Além das investigações da PF,
a Controladoria-Geral da União (CGU) realiza uma auditoria sobre a destinação
dos recursos dessas emendas.
• Empresa investigada por ligação com PCC
tem contrato de R$ 168,8 milhões para abastecer frota da PM do RJ
Rede
Sol Fuel Distribuidora, empresa investigada por suposta ligação com o Primeiro
Comando da Capital (PCC), mantém um contrato de R$ 168,8 milhões com o Governo
do Rio de Janeiro para abastecer a frota da Polícia Militar, assinado em março
de 2025 e válido até 2027.
Questionada
sobre a manutenção do vínculo com uma empresa sob investigação, a PM afirmou
que o contrato é legal, mas anunciou que abrirá nova licitação. O Palácio
Guanabara não respondeu aos questionamentos.
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Contrato milionário sob suspeita
O
contrato entre o Governo do Rio de Janeiro e a Rede Sol Fuel Distribuidora foi
assinado em março de 2025, na gestão do então secretário de Polícia Militar
Marcelo de Menezes Nogueira, com vigência até 2027 e possibilidade de
prorrogação sucessiva por até dez anos. Pelo acordo, a distribuidora deve
fornecer combustível para os 70 postos internos da corporação, espalhados pelos
batalhões do estado, por meio de um sistema de gerenciamento e controle de
abastecimento sem intervenção humana.
O
volume previsto é de quase 37 milhões de litros: 32 milhões de litros de
gasolina, que respondem por R$ 147,8 milhões do valor total, e mais de 4
milhões de litros de diesel S10, correspondentes a R$ 20,9 milhões. O preço
pago pelo estado não é fixo: a remuneração da distribuidora é calculada com
base no preço médio de revenda ao consumidor divulgado semanalmente pela
Agência Nacional do Petróleo (ANP), com desconto do ICMS e aplicação de um
desconto contratual de 1,54% oferecido pela empresa.
Desde a
assinatura, o contrato passou por pelo menos três alterações para incluir novas
fontes de recursos orçamentários. Em julho de 2025, foram acrescentados R$ 456
mil provenientes de um convênio entre a PM e a Prefeitura de Barra do Piraí. Em
outubro, outra alteração incluiu R$ 8,49 milhões do Fundo Especial da PM. Em
novembro, uma terceira modificação acrescentou mais R$ 1,77 milhão da mesma
fonte. O documento não especifica quantos veículos serão abastecidos; a
corporação possui atualmente cerca de 5 mil veículos.
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As investigações e as ligações com o PCC
A Rede
Sol Fuel Distribuidora é alvo de buscas na Operação Carbono Oculto,
investigação que mira a estrutura financeira do Primeiro Comando da Capital.
Segundo o Ministério Público de São Paulo, a Rede Sol é uma das empresas cujas
notas comerciais foram adquiridas pelo Mabruk II Fundo de Investimento, no
valor de R$ 30 milhões. De acordo com a Receita Federal, o Mabruk II é um dos
40 investigados como financiadores das aquisições do PCC no mercado de
combustíveis, em uma operação que o Ministério Público de São Paulo classificou
como “instrumentalização da lavagem de capitais”.
A
investigação movimentou o mercado financeiro de São Paulo, na Avenida Faria
Lima, e colocou sob escrutínio uma cadeia de empresas e fundos suspeitos de
operar como fachada para a facção. O caso da Rede Sol não é isolado no
histórico de relações com o poder público: em maio do ano passado, o 38º BPM,
sediado em Três Rios, identificou irregularidades no combustível fornecido pela
distribuidora, o que resultou na abertura de um processo judicial. A existência
desse processo anterior torna ainda mais difícil sustentar que o contrato
firmado em março de 2025 foi celebrado sem sinais de alerta disponíveis.
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Reações e desdobramentos
Quase
um ano após a Operação Carbono Oculto, a Polícia Militar do Rio de Janeiro
declarou, após ser questionada, que o contrato com a Rede Sol é legal e que
realizará uma nova licitação para o abastecimento das viaturas. A resposta
reconhece, na prática, que a situação é insustentável, mas não explica por que
o vínculo foi mantido durante todo esse período nem quais critérios de
verificação foram aplicados antes da assinatura do contrato. O Palácio
Guanabara, por sua vez, não quis comentar o caso.
O
ex-secretário Marcelo de Menezes Nogueira, que assinou o contrato em março de
2025, deixou o cargo no início deste ano para se candidatar a deputado
estadual. A saída transfere para a gestão atual a responsabilidade sobre um
acordo que, a cada semana que passa sem rescisão, mantém uma corporação
policial financeiramente vinculada a uma empresa investigada por suspeita de
financiar o principal grupo criminoso do país. A promessa de nova licitação,
sem prazo definido, funciona como resposta administrativa a uma questão que é,
antes de tudo, política.
Fonte:
O Cafezinho/Correio Braziliense/IstoÉ/Fórum

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