Ditadura brasileira infiltrou 6 agentes em
países vizinhos e ajudou plano para depor Allende
No dia 10 de setembro de 1973, militares sob
as ordens do Centro de Informações do Exército (CIE) finalizaram uma das mais
ousadas ações clandestinas realizadas pela ditadura brasileira até ali: levaram
ao sul do Chile, por meio da fronteira contra a Argentina, Eduardo Díaz Herrera
e Pablo Rodríguez. Os dois eram líderes do Patria y Libertad, grupo paramilitar
de extrema direita que teve papel central no golpe que derrubaria o governo do
socialista Salvador Allende no dia seguinte.
A infiltração dos dirigentes do Patria y
Libertad em território chileno foi o clímax da Operação Temuco, uma das seis
criadas pela seção de contrainformação do CIE, sob o comando direto do coronel
Cyro Etchegoyen, para infiltrar agentes duplos em países do Cone Sul – além do
Chile, os infiltrados também atuaram na Argentina e no Uruguai.
As informações sobre os agentes duplos no
exterior fazem parte de um dos documentos do coronel Cyro Etchegoyen que estão
sendo publicados no projeto “Bandidos de farda”, do ICL Notícias, produzido nos
últimos sete meses com uma série de reportagens e um documentário que estreará
no dia 17 de maio. O projeto revela os crimes que o coronel Cyro escondeu em um
imenso arquivo mantido por ele até sua morte. São 23 pastas e 3 mil páginas de
documentos públicos inéditos, que pertenciam ao acervo do Exército brasileiro,
mas que foram levados ilegalmente pelo coronel Cyro e que ficaram guardados com
um outro militar após a sua morte. Em outubro do ano passado, uma fonte, que
terá sua identidade mantida em sigilo por segurança, entregou uma primeira
parte ao Instituto Fernando Santa Cruz, idealizado pelo ex-presidente da Ordem
dos Advogados do Brasil, Felipe Santa Cruz. Fernando era militante da Ação
Popular (AP), está desaparecido desde 23 de fevereiro de 1974 e Felipe é seu
filho. Uma segunda parte foi entregue pela mesma fonte em fevereiro deste ano à
jornalista Juliana Dal Piva, repórter do ICL Notícias.
Os detalhes sobre a infiltração de agentes no
exterior estão em um relatório elaborado por Cyro Etchegoyen e outros oficiais
do CIE em 1974, no início do governo Ernesto Geisel, como uma espécie de
prestação de contas das atividades clandestinas realizadas sob a presidência de
Emílio Garrastazu Médici.
O relatório tinha o objetivo de explicar os
métodos de trabalho desenvolvidos pelo CIE para aniquilar a luta armada no
país. Entre esses métodos, estava a cooptação de integrantes de organizações
opositoras para transformá-los em agentes duplos infiltrados. É nesse contexto
que são mencionados os agentes atuando em solo estrangeiro.
Outra peça desse quebra-cabeças vem de um
caderno utilizado pelo coronel Cyro Etchegoyen para a contabilidade das ações
do CIE entre 1969 e 1974. A caderneta registra pagamentos de passagens para
Buenos Aires em setembro de 1973 e despesas com compra de revólveres para
chilenos em fevereiro de 1974.
As ações de infiltração cooptaram desde
autoridades de órgãos de repressão dos países vizinhos a imigrantes
indocumentados. A colaboração com esses agentes no exterior tinha alguns
objetivos básicos: monitorar as atividades de exilados brasileiros nos países
vizinhos, obter informações sobre a política local e trocar informações com
órgãos de repressão sobre militantes estrangeiros no Brasil.
Nesse sentido, o Chile era considerado a
prioridade máxima pela cúpula do regime militar. E uma mudança de regime era
considerada essencial para que a ditadura brasileira pudesse se vingar de uma
das maiores derrotas impostas pelas organizações de esquerda que passaram à
luta armada.
<><> Apoio ao golpe no Chile
No auge da Guerra Fria, o governo Salvador
Allende era um enclave socialista em uma América do Sul dominada por ditaduras
militares de extrema direita. Allende assumiu o governo chileno em novembro de
1970 após ser um dos poucos líderes socialistas eleitos por via democrática
naquele período.
Mais do que uma arma retórica para sustentar
que o fantasma do comunismo rondava o Brasil, o Chile de Allende virou um
abrigo para exilados brasileiros. Por isso, ao perceber que um golpe militar
era uma possibilidade real, o CIE acelerou os gastos com operações que pudessem
auxiliar para que a deposição de Allende fosse bem-sucedida. Nos 70 dias que
antecederam o golpe no Chile, os agentes sob o comando de Cyro Etchegoyen
gastaram o equivalente a R$ 50 mil em contatos com Temuco e outros infiltrados
que possuíam informações sobre o Chile.
Allende entrou de vez na mira da ditadura
brasileira em dezembro de 1970. A Vanguarda Popular Revolucionária (VPR)
sequestrou o embaixador da Suíça no Brasil, Giovanni Bucher, em plena Zona Sul
do Rio de Janeiro. O sequestro durou 40 dias e só foi encerrado após a ditadura
ceder. Em troca da libertação do diplomata, a VPR exigiu que 70 presos
políticos fossem libertados. Eles foram abrigados no Chile de Allende em
janeiro de 1971 e, de lá, passaram a articular ações no Brasil.
A deposição de Allende passou a ser vista
como fundamental pela repressão no Brasil. Em um relatório da seção de
contrainformação, liderada por Etchegoyen à época, há uma espécie de balanço
das atividades do CIE com informantes infiltrados. O documento de 68 páginas inclui informações
até 15 de março de 1974 – momento crucial na integração dos aparatos de
repressão de Brasil, Argentina, Chile e Uruguai, todos sob a tutela de
ditaduras militares a partir dos anos 1970. Esse período também é o início do
governo do presidente-ditador Ernesto Geisel.
O documento exaltou os resultados da Operação
Temuco:
“No ano de 1973, destaca-se ainda a Operação
TEMUCO, na qual tivemos a participação de elementos do partido clandestino
chileno “PATRIA E LIBERTAD” nas atividades pré-revolucionárias que redundaram
na queda de ALLENDE”, escreve Etchegoyen.
O relatório não nomeia os militantes do grupo
fascista chileno que foram auxiliados, mas destaca a posição de comando do
infiltrado Temuco e observa que ele era integrante do comando nacional do
Patria y Libertad. O grupo chileno tinha três principais lideranças: Roberto
Thieme e os já citados Pablo Rodríguez e Eduardo Díaz Herrera.
O nome da operação escolhida pelos agentes do
CIE chama atenção: Temuco é uma cidade no sul do Chile e, dos três líderes do
Patria y Libertad, somente Díaz Herrera mantinha vínculos com o lugar. Ele
morava na região e iniciou sua atuação política em Temuco.
O portal Interferência, do Chile, contou
trechos desse episódio. Após atravessarem a fronteira chilena com o auxílio do
CIE, Díaz Herrera e Rodríguez foram levados por um helicóptero das Forças
Armadas do Chile, operado por setores que apoiavam o golpe contra Allende, até
a cidade de Temuco.
No relatório inédito do CIE de Etchegoyen é
relatado que o auxílio aos dirigentes do grupo chileno já vinham acontecendo há
tempos e renderam frutos importantes para a ditadura brasileira após Pinochet
chegar ao poder.
“Estes elementos receberam treinamento na
S/103/CIE; foram atravessados na fronteira por uma equipe de segurança e
passaram a remeter informações sobre subversivos brasileiros no CHILE,
culminando com um convite para a ida de nossos agentes a SANTIAGO, logo após a
revolução, para identificação de estrangeiros presos no Estádio Nacional e
outras prisões”.
No livro “O Brasil contra a democracia: A
ditadura, o golpe no Chile e a Guerra Fria na América do Sul”, do jornalista
Roberto Simon, publicado pela Companhia das Letras, o autor também menciona
detalhadamente o papel dos chilenos do Patria y Libertad com os militares do CIE. Ao longo dos anos,
Eduardo Díaz Herrera está com 82 anos e tornou-se um crítico do neoliberalismo
e defensor da causa Mapuche. Há alguns anos integrou a Frente Ampla,
demonstrando apoio a líderes como o ex-presidente chileno Gabriel Boric. O ICL
Notícias procurou Herrera, mas ele não quis retornar. Os demais dirigentes do
Pátria y Libertad já morreram.
Como o ICL Notícias contou em outra
reportagem da série “Bandidos de Farda”, semanas depois do golpe dois oficiais
do CIE desembarcaram em Santiago: o major Victor de Castro Gomes, número 2 de
Etchegoyen na seção de contrainformação, e o capitão Paulo Barreira
participaram de interrogatórios de brasileiros e pessoas de outras
nacionalidades que estavam presas no Estádio Nacional do Chile.
Além de fornecer informações sobre militantes
brasileiros em solo chileno, Temuco fez a ponte entre o CIE e a repressão
chilena, segundo o relatório.
Esse contato resultou em outra operação no
Chile: os militares tiveram como outro informante uma pessoa batizada com o
sugestivo codinome de Amistad (amizade em espanhol). De acordo com os registros
de Etchegoyen, ele tinha uma posição de chefia no Serviço de Contrainformações
do Ministério da Defesa do Chile.
<><> Ações na Argentina
O acervo de Etchegoyen revela os primeiros
momentos da integração dos serviços de repressão das ditaduras do Cone Sul,
ainda no início da década de 1970.
Se no caso dos chilenos Temuco e Amistad a
motivação para colaborar com os militares brasileiras era classificada como
“político-ideológica”, no caso de Lobo –um integrante de nível superior da
Polícia Civil do Uruguai– ela era descrita como “financeira” –uma forma polida
de descrever um suborno.
A ficha de Lobo deixa claro que ele recebia
por mês um pagamento equivalente a cerca de R$ 2583,33.
O documento, no entanto, não os identifica
com os verdadeiros nomes nenhum dos agentes no exterior.
Assim como fez no Chile, o CIE também manteve
contatos com agentes de repressão e militantes de extrema direita na Argentina.
Uma das operações foi batizada de Gênese II e envolveu o uso de residentes
indocumentados em Buenos Aires para conseguir informações sobre o cenário
político argentino.
No momento em que o documento foi
confeccionado, a operação Gênese II ainda estava em fase de implantação. Para
criar uma fachada para seu agente duplo, os militares do CIE disponibilizaram
uma nova identidade, conseguiram um emprego em uma multinacional e criaram até
mesmo um esquema clandestino para comunicações e transporte de material
sigiloso desde Buenos Aires. Embora ainda em estado preliminar, a ação já
começava a render frutos.
“Resultados obtidos até a presente data:
Primeiros contatos com elementos de esquerda”, definiu o coronel na ficha de
Gênese II.
Outro agente em Buenos Aires foi batizado de
San Martin –provavelmente uma referência ao revolucionário José de San Martín,
um dos patronos da independência argentina. Assim como ocorrera no Chile, era
um dirigente de grupo político local..
Tratava-se de um dos fundadores do grupo
Patria Libre. O agente duplo auxiliava, entre outras funções, na cobertura de
outros agentes da ditadura brasileira na Argentina. Segundo Etchegoyen, o
contato já havia rendido informações sobre “movimentos terroristas argentinos”.
O agente também teria fornecido informações
sobre estado de saúde do presidente Juan Domingo Perón –que acabaria morrendo
em julho de 1974– e sobre a influência que o último ditador argentino até ali,
o general Alejandro Agustín Lanusse, mantinha sobre o exército portenho.
Em 1974, a Argentina vivia um curto hiato de
governos civis ligados ao peronismo em meio aos ditadores militares que se
revezavam no comando do país desde 1966.
Com a morte de Perón, sua esposa e vice,
Isabelita Perón, assumiu a presidência. Ela seria deposta pelos militares pouco
depois, em março de 1976. A segunda fase da ditadura argentina durou até 1983 e
terminou com um saldo de aproximadamente 30 mil mortos e desaparecidos.
Fonte: ICL Notícias

Nenhum comentário:
Postar um comentário