Nuno
Vasconcellos: Washington é aqui?
A
política brasileira tem produzido cenas tão fora de propósito que algumas vezes
é até embaraçoso falar delas. Veja, por exemplo, um episódio que aconteceu na
semana passada — quando quatro deputados federais, todos da bancada governista,
viajaram até Washington para, conforme anunciaram, conversar com autoridades
americanas e tentar convencê-las a agir em defesa da soberania do Brasil, além
de “mostrar aos Estados Unidos quem é o vagabundo do Flávio Bolsonaro”,
conforme vociferou em vídeo, com seu linguajar característico, o deputado André
Janones (REDE/MG) que se comportou como líder do grupo.
Além do
parlamentar mineiro — que sempre se faz presente quando o que está em causa são
atitudes grotescas e destemperadas —, a comitiva foi integrada por Pedro Uczai
(SC), líder do PT na Câmara, Jandira Feghali (PCdoB/RJ) e Pedro Campos
(PSB/PE). Com base no que disseram os parlamentares nas redes sociais e em uma
ou outra reportagem publicada, a visita foi de uma inutilidade evidente.
Eles
teriam tentado se reunir com funcionários do Departamento de Estado, mas não
tiveram espaço nas agendas nem do quarto escalão. Estiveram no Capitólio, a
sede do Legislativo americano, e o máximo que conseguiram foi ser recebidos
pelo deputado Jim McGovern, do partido Democrata de Massachusetts, a quem,
segundo o quarteto, entregaram documentos com denúncias e posicionamento sobre
problemas do Brasil.
A
caravana, segundo Jandira Feghali, teria concentrado as atenções em três
pontos. O primeiro, reafirmar a soberania brasileira em sua economia,
democracia e política; o segundo, entregar documentos a parlamentares e
instituições americanas. Finalmente, Suas Excelências pretendiam discutir as
tarifas impostas ao Brasil e a intervenção sobre o Pix que, conforme os
parlamentares, “não possuem base técnica jurídica”. Conforme a parlamentar
comunista, “a questão foi abordada com a declaração de que não será aceita
qualquer intervenção que inviabilize, fragilize ou dificulte o uso do Pix,
considerado uma soberania financeira do povo brasileiro”.
A
inutilidade e a falta de propósito da iniciativa ficam evidentes na própria
pauta apresentada pelos parlamentares. Até onde se sabe, nenhuma tarifa foi
imposta ao Brasil até o momento. O que houve foi uma sugestão nesse sentido,
apresentada pelo Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos
(USTR, na sigla em inglês), sobre a qual não haverá qualquer decisão pelo menos
até o próximo dia 15.
Além do
mais, ninguém em Washington fez, ou insinuou que fará, qualquer exigência em
relação ao Pix. E se os pontos de divergência entre os dois países na pauta
comercial evoluírem para alguma medida punitiva, a questão deve ser tratada nos
canais diplomáticos competentes — e não num vídeo histriônico gravado em frente
ao Capitólio, que é a sede do Legislativo dos Estados Unidos.
AGRÉMENT
Não se
sabe exatamente quanto a brincadeira custou. Suas Excelências têm até 90 dias
para prestar contas dos gastos de seus gabinetes, que correm por conta da
Câmara, por meio da Cota para Exercício da Atividade Parlamentar (CEAP). O que
se sabe foi que, além da tentativa de alavancar a própria popularidade com essa
iniciativa inútil, desnecessária e ridícula, os parlamentares nada tinham a
fazer em Washington.
Tanto
assim que o deputado McGovern, conhecido pela oposição ferrenha ao governo do
presidente Donald Trump e por ter sido o autor do texto original da Lei
Magnitsky, foi claro. O parlamento americano, segundo ele, não tem poder para
abrir investigações sobre os fatos denunciados. Além disso, no que diz respeito
à política, os problemas do Brasil devem ser resolvidos pelo Brasil. Ponto
final.
A
peregrinação sem propósito, bancada com o dinheiro do povo, foi naturalmente
estimulada pelos acontecimentos recentes que envolvem a Casa Branca e o Palácio
do Planalto — que vêm ganhando temperatura nas últimas semanas. No início do
mês, o relacionamento bilateral ganhou destaque com a visita que o presidente
Lula fez a Trump, no início do mês passado. Menos de duas semanas depois, foi a
vez do senador Flávio Bolsonaro, a convite da Casa Branca, ser recebido no
Salão Oval.
Nos
movimentos seguintes, assuntos que sempre fizeram parte da agenda comum entre
os dois governos ganharam relevância na agenda da relação entre os dois países.
O tema continuou em pauta depois da decisão da Secretaria de Estado comandada
por Marco Rubio, ter enquadrado as megaquadrilhas brasileiras do narcotráfico
como organizações terroristas. E prosseguiu com a indicação do político
republicano Daniel Perez — deputado estadual pela Flórida — como embaixador dos
Estados Unidos no Brasil.
O posto
estava vago desde que a embaixadora Elizabeth Frawley Bagley, nomeada por Joe
Biden, entregou o cargo às vésperas da posse de Trump e voltou para os Estados
Unidos. O alinhamento da ex-embaixadora com o Partido Democrata era explícito e
ela nunca fez segredo de sua atuação como arrecadadora de fundos para as
campanhas de Joe Biden e outros políticos. Essa militância jamais incomodou o
Itamaraty.
Mas
bastou que Trump indicasse um republicano para a vaga para que políticos
ligados ao PT passassem a defender que Lula negasse o “agrément” — que é a
autorização para diplomatas estrangeiros atuarem no país. Já pensou no que
aconteceria se o governo desse a Perez o mesmo tratamento que deu a Dali Dagan,
indicado para ocupar a embaixada de Israel em Brasília e recusado pelo governo
brasileiro? Ainda bem que o bom senso imperou e o governo já deu a entender que
aceitará o indicado por Trump.
TRABALHO
FORÇADO
Seja
como for, o fato é que qualquer proposta feita por Washington tem gerado
debates acalorados no Brasil. E qualquer decisão tomada pela Casa Branca ajuda
a reforçar entre a direita e a esquerda uma polarização que aumenta na medida
em as próximas eleições presidenciais se aproximam. Isso nunca havia
acontecido. Isso mesmo: nunca antes na história deste país a questão
internacional esteve mais presente na pauta eleitoral do que está neste
momento.
Nesse
ambiente, a sugestão do USTR feita na semana passada, de impor uma tarifa de
25% sobre as exportações brasileiras ao mercado americano com base na Seção 301
da Lei de Comércio dos Estados Unidos tem dado o que falar. Mesmo se tratando
de uma proposta que pode nem entrar em vigor, o relatório foi incluído no mesmo
balaio da medida que, dias antes, havia classificado as facções do narcotráfico
do Brasil como organizações terroristas transnacionais. Ou seja, como uma
afronta à soberania nacional.
O texto
afirma que várias políticas adotadas pelo Brasil seriam "irracionais ou
discriminatórias" e prejudicariam empresas americanas. Isso justificaria a
punição. E não é só: uma outra investigação do USTR concluiu que o Brasil está
entre 54 economias do mundo que “não conseguiram impor nem aplicar eficazmente
uma proibição à importação de bens produzidos com trabalho forçado”. O texto,
que foi produzido pelo USTR numa investigação que nada tem a ver com a do
primeiro relatório, propõe mais 12,5% de tarifas sobre produtos brasileiros.
A soma
das duas punições geraria uma tarifa de 37,5% e inviabilizaria o comércio do
Brasil com os Estados Unidos. Eis o problema: impressão que se tem é a de que,
ao invés de causar indignação por seus impactos comerciais negativos, a ideia
vem sendo tratada como uma contribuição do governo americano ao esforço
eleitoral de Lula.
Tem
sido assim nos últimos dias. Toda decisão que o governo Trump toma em relação
ao Brasil tem alimentado o discurso dos políticos governistas — que incluíram
as movimentações da família Bolsonaro nos Estados Unidos e as decisões da Casa
Branca em relação ao Brasil entre suas principais bandeiras eleitorais. A
reação ao tarifaço baixado por Trump no ano passado é vista como a principal
causa da recuperação da popularidade do presidente (que andava ladeira abaixo
naquele momento) e, desde então, passou a ser considerada vital para a
estratégia que dará a Lula mais quatro anos de mandato.
Dias
atrás, por exemplo, o senador Flávio Bolsonaro foi acusado pela esquerda de
estar por trás da decisão do Secretário de Estado Marco Rubio (a quem o
presidente Lula se referiu como “um tal de Marco Rubio”) de enquadrar as
facções criminosas brasileiras como Organizações Terroristas. A pergunta é:
será que o senador é tão persuasivo assim e que Rubio não mede esforços para
agradá-lo? É provável que não.
É
evidente que existe uma afinidade acentuada entre o senador e pré-candidato do
PL à presidência Flávio, seu irmão, o ex-deputado Eduardo, e seu aliado, o
jornalista Paulo Figueiredo, e integrantes graduados do governo americano — e o
convite para a visita a Trump no mês passado é a prova disso. Mas é pouco
provável que essa afinidade tenha sido determinante para a decisão anunciada
por Rubio de equiparar os cartéis brasileiros a organizações terroristas. A
decisão já estava tomada. O que Flávio ofereceu foi uma oportunidade.
Seja
como for, a equiparação passou a vigorar oficialmente na sexta-feira passada,
dia 5, e até hoje o Palácio do Planalto exige que ela seja revogada, O
argumento, como não poderia deixar de ser, é que essa classificação é uma
afronta à soberania brasileira. E que os Estados Unidos podem se valer dessa
equiparação para justificar uma intervenção no Brasil — inclusive com o uso da
força militar. Isso jamais foi cogitado.
QUESTÃO
DE SOBERANIA
O
governo americano, por enquanto, não tomou qualquer atitude concreta em relação
ao Brasil. Apenas apresentou uma série de críticas superficiais e recorrentes
para recomendar a aplicação das tarifas. A maioria dessas críticas, por sinal,
não tem o menor cabimento. O relatório se limita a repetir as acusações que já
tinham sido feitas pelo órgão no momento em que propôs a aplicação a
investigações, no dia 15 de julho do ano passado, sem que qualquer fato novo
tenha sido acrescentado depois de quase um ano de investigações.
O texto
é amplo e genérico demais para ser considerado mais do que o ponto de partida
para um debate. Ele menciona, por exemplo, a existência de mercados informais e
a livre circulação de mercadorias pirateadas na Rua 25 de Março, em São Paulo,
e em outros pontos de comércio popular nas cidades brasileiras. Fala de casos
de corrupção e critica a falta de eficácia no combate ao desmatamento no
Brasil. E dá um jeito de incluir o Pix na discussão. Isso mesmo: a ferramenta
digital que facilita a circulação de moeda, e reuniu 170 milhões de usuários no
país desde que foi criada, no governo Bolsonaro, em fevereiro de 2020, foi
incluída no texto e acabou caindo no centro do debate eleitoral.
De um
modo geral, as acusações feitas do USTR parecem descoladas da realidade e não
fazem o menor sentido. A questão do suposto apoio do Brasil ao trabalho forçado
é algo absolutamente fora de propósito e chama mais atenção pelo exagero do que
por ter alguma ligação com a realidade. Quanto à pirataria, o problema de fato
existe, mas está longe de ser uma exclusividade brasileira. Muitas cidades no
mundo, inclusive nos Estados Unidos — como são os casos de Nova York e San
Francisco — contam com centros comerciais que comercializam bugigangas
fabricadas no Oriente. Se for para punir alguém com base nessa situação, não
haverá país de fora da lista.
E os
casos de corrupção? Bem... os exemplos descritos no relatório do USTR são
conhecidos — e o principal deles se refere ao perdão à empreiteira Odebrecht. O
grupo havia admitido sua falha depois de ser investigada pela Operação Lava
Jato e fez um acordo de leniência anulado pelo ministro Dias Toffoli. A decisão
levou à anulação de dezenas de outras condenações. Segundo o relatório, “o
Brasil tem falhado em manter um nível sustentável de aplicação de leis contra o
suborno e a corrupção”. Na visão do USTR, isso prejudica empresas americanas.
Outro
ponto mencionado é o das queimadas na Amazônia, e do “desmatamento ilegal”.
Trata-se de outro problema antigo, que o próprio PT contribuiu para aumentar
com sua postura histórica em relação à questão ambiental e ao insistir em dar
ao problema das queimadas nos governos de Jair Bolsonaro e de Michel Temer uma
dimensão maior do que tinha. Só que o partido voltou ao poder, com Lula, e o
problema, ao invés de diminuir, aumentou. E, agora, é incluído num relatório
que pede punição ao Brasil.
O PIX
DA DISCÓRDIA
Do
ponto de vista ambiental, não existe comparação possível entre as condições da
exploração agrícola no Brasil e nos Estados Unidos. No Brasil, qualquer
propriedade rural é obrigada a manter uma faixa de reserva da vegetação nativa
— que varia de 20% da propriedade, no Sudeste, a 80% em algumas áreas da
Amazônia. Nos Estados Unidos, isso não existe e se o fazendeiro quiser por
abaixo toda a cobertura natural de sua propriedade para plantar lavouras de
soja ou de milho no lugar, ele não cometerá qualquer ilegalidade. Já no Brasil,
se ele for flagrado violando a lei ambiental, estará na mira dos órgãos de
preservação. Sob o ponto de vista ambiental, portanto, as críticas mais pesadas
devem ser dirigidas ao agronegócio americano, não ao Brasileiro.
E o
Pix? O governo americano, de fato, se queixa da modalidade de transferência
direta de recursos entre contas bancárias e entende que prejudica operadoras
americanas de cartão de crédito — que viram seu movimento cair desde que a
ferramenta foi criada. Mas, de forma alguma, o incômodo americano tem a
dimensão que o governo brasileiro pretende dar a ele. Quem reparar direito
notará que mesmo antes do USTR divulgar seu relatório, o governo do Brasil, sob
inspiração do marqueteiro Sidônio Palmeira — que foi posto no ministro da
Comunicação Social com o objetivo explícito de trabalhar pela reeleição do
presidente Lula — faz o que está a seu alcance para manter o assunto em
evidência e apontar uma suposta ameaça à ferramenta no centro do debate.
No dia
2 de abril deste ano — há pouco mais de dois meses, portanto — enquanto Lula
discursava num evento de inauguração de uma linha do VLT, em Salvador, a voz de
Palmeira foi captada pelos microfones passando instruções sobre o Pix. “Não se
esqueça de falar sobre o Pix”, disse. “Fale que o Pix é nosso”. Minutos depois,
Lula fez exatamente o que ele sugeriu.
Na
semana passada, o ministro da Fazenda Dario Durigan, novamente sob inspiração
de Palmeira, mencionou o Pix que, segundo ele, “é uma infraestrutura soberana
do Brasil". Até o ex-ministro da Casa Civil Rui Costa, que disputará uma
vaga pelo senado pela Bahia, tentou embarcar nessa mesma canoa e esbravejar
contra a suposta ameaça americana ao Pix. Se isso dará certo e se ajudará a
garantir a permanência do presidente no Planalto são outros quinhentos. A
verdade, porém, é que o Pix está longe de ser um dos maiores problemas do
Brasil — que vão sendo deixados de lado na medida em que as eleições se
aproximam.
Fonte:
O Dia

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