O
amor não envelhece, apenas amadurece
Aquela
velha imagem que a sociedade costumava pintar para quem passava dos 50 anos,
que envolvia vestir um pijama confortável, comprar uma cadeira de balanço
estilosa e passar as tardes tricotando ou olhando o movimento da rua enquanto
espera o tempo passar, ficou para trás. Hoje, homens e mulheres que cruzaram a
fronteira da chamada "meia-idade" ou da terceira idade estão se
arrumando para ir a encontros, namorar e até subir ao altar com tudo o que têm
direito.
O amor
na maturidade deixou de ser uma tentativa de preencher carências ou uma
obrigação social e virou o que sempre deveria ter sido: uma escolha livre e
consciente. O que estamos vendo na prática é uma verdadeira revolução, na qual
as pessoas passaram a priorizar o afeto real, a parceria e a liberdade. Na
maturidade, o parceiro amoroso não é mais o centro de sobrevivência de ninguém,
mas, sim, alguém que chega para somar em uma vida que já é rica e estruturada
por si só.
A
história da pedagoga aposentada Izolina dos Santos, 76 anos, é uma verdadeira
quebra de clichê. Isso porque, até pouco tempo atrás, Izolina nunca havia
namorado ou casado. "Sempre sonhei em ser esposa e mãe, desde a idade
juvenil, mas nunca tinha deixado nenhum homem me tocar. Recebi várias propostas
de casamento desde a juventude até os dias de hoje, mas eu nunca me senti
totalmente segura com essas propostas. Por não acreditar de verdade nos
sentimentos dos pretendentes, me faltava coragem para assumir qualquer
relacionamento amoroso."
Esse
medo de sofrer funcionava como uma espécie de escudo protetor para Izolina. Ela
conta, com muito bom humor, que já estava conformada com a solitude e pensando
em só se acomodar de vez. Só que em março de 2026, os planos mudaram
radicalmente: ela foi pedida em namoro por Isac Lourenço.
"Foi
a melhor coisa que me aconteceu na vida", garante a pedagoga. Com muita
paciência, carinho e um cuidado extremo, Isac foi ajudando Izolina a destravar
suas barreiras emocionais aos poucos. Como ela nunca teve outros namorados,
explica que não tem como comparar o amor de ontem com o de hoje, mas tem uma
certeza absoluta batendo no peito: "É um amor seguro; ele me faz sentir e
crer nisso."
Como
Izolina não tem filhos, a família inteira, de ambos os lados, acabou virando
uma espécie de "cupido", incentivando para que ela aceitasse Isac
logo como marido, já que os dois têm absolutamente tudo em comum. E o romance
evoluiu com a maturidade que o momento pedia. O casamento civil já está com
data e local marcados para o final de setembro de 2026, e a celebração
religiosa vai ocorrer logo em seguida, em outubro. "Ele colabora muito com
essa maturidade, e isso me desperta o desejo de melhorar cada vez mais como
pessoa", conclui a noiva.
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Amar outra vez
A
servidora pública Denise Cavalcante, 49, carrega uma bagagem de vida
completamente diferente. Mãe de uma jovem de 25 anos, Denise se casou pela
primeira vez em 2004. O matrimônio, infelizmente, foi muito conturbado. Quando
ela finalmente conseguiu se divorciar, disse a si mesma que não se casaria
mais. "Eu me fechei completamente para possíveis novos relacionamentos e
me tornei uma pessoa extremamente inacessível. Tive que fazer muita terapia
para digerir tudo, curar as minhas feridas e aprender a voltar a me enxergar e
a me sentir como mulher", conta.
A
grande virada de chave aconteceu quando Denise entendeu que o seu passado
doloroso não precisava ser uma sentença para o resto da vida. Bem resolvida e
com as dores tratadas nas sessões de psicoterapia, ela resolveu deixar a
defensiva de lado e se permitiu viver um novo amor. Hoje, ela vive o que
define, com orgulho, um "relacionamento épico". O novo casamento foi
tão especial que aconteceu de surpresa em uma praia paradisíaca do Nordeste,
tudo planejado em segredo pelo noivo, Henrique Alves, com a filha de Denise,
Ana Luiza.
Para
ela, a diferença entre o amor dos 20 anos e o amor dos 50 é brutal e
indiscutível. "Aos 20 anos, a gente é muito emocionada, tudo é vivido com
muita intensidade, mas com um descontrole emocional enorme. Quando mais velho,
tudo é mais firme, maduro, com muito mais espaço para conversas e menos
discussões bobas. A gente já viveu o suficiente para entender o que pode ou não
tirar a nossa paz e o que de fato tem importância real", reflete. Denise
resume a importância do companheirismo nessa fase com uma frase simples:
"Meu marido me dá aquilo o que o dinheiro não compra. Porque o que o
dinheiro compra, eu mesma trabalho duro, ganho o meu e pago".
E sobre
o medo de envelhecer, Denise é categórica ao dizer que o casamento não mudou
sua visão sobre o tempo. "Eu sempre amei muito a minha própria companhia.
Então, a chegada do meu atual marido só veio para acrescentar na minha vida. Se
ele não tivesse aparecido, eu ia envelhecer superbem e feliz da mesma
forma."
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O que muda no coração maduro?
Para a
psicóloga clínica Renata Santana, a maturidade emocional de um casal não tem a
ver apenas com o número que está na carteira de identidade, mas, sim, com a
real abertura interna para aprender com os desafios e os erros do passado.
Na
juventude, é comum que os relacionamentos sejam guiados por impulsos,
idealizações de cinema e aquela ansiedade de "precisar" ter alguém a
todo custo. Na maturidade, o amor deixa de ser essa urgência passional e
dramática e passa a ser uma escolha consciente e muito mais estável.
De
acordo com Renata, amar nessa fase envolve algumas mudanças emocionais.
"Não há mais tempo nem disposição para joguinhos de desinteresse,
mistérios bobos ou manipulações emocionais, por exemplo." Ela destaca
também maior autonomia e menos dependência um no outro. "As pessoas já têm
suas vidas, suas contas e suas rotinas estabelecidas, o que diminui
drasticamente a dependência emocional do outro", resume.
Mas nem
tudo é um mar de rosas. Entrar em uma nova relação quando se é mais velho traz
desafios bem específicos. O principal deles é o medo de se machucar de novo.
Quem carrega traumas de divórcios complicados ou a dor profunda de uma viuvez
costuma criar uma "blindagem defensiva".
A
psicóloga aponta uma diferença importante: "O divórcio quebra a confiança
no outro; a viuvez quebra a confiança no futuro". Muitas vezes, para
evitar o risco de sofrer o luto da perda ou a dor da rejeição novamente, a
pessoa madura começa a se sabotar de forma silenciosa, disfarçando o medo sob o
nome de "prudência" ou "autoestima". É aquela velha mania
de ficar caçando defeitos no parceiro ou arrumando brigas por motivos fúteis só
para criar uma distância segura e não se permitir ficar vulnerável.
Outro
obstáculo prático é a rigidez de hábitos. Depois de passar anos morando sozinho
ou ditando as próprias regras, negociar a rotina cotidiana e abrir mão de
pequenas manias pelo outro exige um esforço bem maior.
Uma das
maiores libertações que a maturidade traz para as mulheres é a demissão do
papel de "mulher perfeita" nos encontros. A psicóloga clínica e
sexóloga Alessandra Araújo, da Clínica Via Vitae, explica que, historicamente,
as mulheres foram muito educadas e treinadas para serem o "coração da
casa" e as pacificadoras oficiais das relações.
Esse
comportamento cultural se traduz nos encontros amorosos como uma armadilha que
ela chama de "acolhimento obrigatório". "Muitas vezes, as
mulheres vão para um encontro não para conhecer alguém, mas para passar em uma
prova na qual elas não sabem as perguntas. Elas buscam desesperadamente a
validação externa. O interesse do homem vira uma espécie de 'atestado de
valor'", analisa Alessandra.
A
maturidade e a psicoterapia trazem a inversão completa desse filtro. A mulher
madura deixa de ser a candidata ansiosa que quer ser aprovada na entrevista e
assume o papel de recrutadora da própria vida. "Se o encontro esfriar ou
houver silêncio, ela simplesmente entende que o outro pode ser desinteressante
ou que os dois não têm nada a ver, sem assumir a culpa pelo fracasso",
explica a especialista.
Fonte:
Correio Braziliense

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