segunda-feira, 8 de junho de 2026

O pelego universitário

Por conta da nossa epistemologia – a Poíesis crítica –, sabemos que a indústria da cultura constitui o fetiche do neoliberalismo, o qual, por sua vez, é a ideologia do capital financeiro. Importa reconhecer o neoliberalismo e o seu fetiche – a indústria da cultura (quase sempre de matriz ianque-estadunidense) – como estruturas ideológicas que determinam a consciência das pessoas em quase toda a sociedade. Indústria da cultura e identitarismo (o pilar que sustenta a New Left) são o ópio do povo estendido, pois instauram a alienação e a coisificação onde a religião não logrou se entranhar.

Assim, religião (o braço direito), indústria da cultura (o fetiche) e identitarismo (o braço esquerdo) formam a Santíssima Trindade do neoliberalismo, sob as bênçãos do capital financeiro. Ainda que por vias argumentativas distintas, crentes e identitários têm se mostrado igualmente inimigos da universidade pública, pois compartilham um mesmo enquadramento ideológico: ambos operam, em última instância, dentro do neoliberalismo.

Há uma animosidade generalizada contra a academia – aqui entendida no sentido platônico: uma instituição voltada à formação do pensamento crítico e à promoção do conhecimento em prol do bem comum. Essa animosidade já se eleva a um antagonismo aberto: as nossas melhores instituições – as universidades públicas brasileiras, federais e estaduais – passam a ser vistas pela ideologia dominante como entraves à acumulação do capital.

De fato, a lógica do capital financeiro tende a se sobrepor a todas as demais. Com a política desumanizada do neoliberalismo – redutiva a um único projeto: a privatização de todos os setores –, torna-se evidente a ameaça às universidades públicas e gratuitas – ameaça essa, sim, à sua sobrevivência, reiterada a todo instante pela mais respeitável imprensa. Os recentes editoriais da Folha de S. Paulo atingiram uma agressividade extrema contra a USP, servindo-se da greve dos estudantes como pretexto para se concluir – ainda que de modo deturpado e leviano – que a instituição é “insustentável financeiramente”.

Para a alegria da imprensa neoliberal, os crentes e demais reacionários atacam a universidade pública a partir de templos e ambientes digitais de extrema direita – com informações deturpadas ou mesmo totalmente infundadas, para difamar as nossas instituições –, e os identitários particularistas a atacam não apenas de fora, mas também a partir de seu interior. Cabe lembrar: todo identitário é um pelego neoliberal.

Dado que o neoliberalismo tende a neutralizar os conteúdos críticos, muitos sequer conhecem o termo pelego na política; convém, portanto, retomá-lo. Originalmente, pelego era uma peça de lã colocada sobre a sela, entre o cavaleiro e o cavalo, tornando a cavalgada mais confortável. Em meados do século XX, o termo adquiriu sentido metafórico, passando a designar o líder sindical alinhado aos interesses do poder econômico, frequentemente visto como traidor dos trabalhadores.

Ao falarmos do pelego universitário, referimo-nos àquele que, embora aparente representar os interesses estudantis, atua de modo ambíguo, servindo, na prática, a interesses contrários à instituição. Muitas vezes, contribui para desgastar a sua imagem, reforçando argumentos favoráveis à privatização. O universitário pelego – ainda que formalmente vinculado à universidade – configura, assim, uma figura de representação simulada.

Há falsos universitários – ainda que superconhecidos e difundidos – como o sertanejo universitário, que não é sertanejo nem universitário, mas um produto (o country) oriundo da indústria da cultura ianque-estadunidense. Há também falsos universitários entre os próprios universitários. Em recentes mobilizações aqui no interior, por exemplo, observam-se participantes sem vínculo institucional (sem número USP) ou com vínculos deslocados do campus da capital.

Sejam verdadeiros ou falsos, o fato é que emerge uma nova categoria: o pelego universitário. A sua origem neoliberal remonta à citada New Left – atrelada ao Partido Democrata dos EUA e a outras instituições daquele país (como a CIA e a Ford Foundation, entre outras). Na cartilha do pelego universitário figuram pautas identitárias plenamente inseridas no marketing das empresas, nas plataformas da indústria da cultura e nas campanhas publicitárias (dos bancos às cervejas fakes).

Nesse contexto, lutas imprescindíveis – contra o racismo, a xenofobia, o patriarcado, a misoginia e a homofobia – tendem a ser esvaziadas, convertendo-se em simulacros de diversidade. Iludida por essa dinâmica, a pseudoesquerda neoliberal revela-se passiva diante do poder financeiro – como no caso dos juros bancários ou do garimpo em terras indígenas na Amazônia –, mas agressiva em relação à universidade pública.

Sem potencial transformador nem crítico nas questões da economia política e da linguagem, o identitário neoliberal – em geral, avesso às artes e à filosofia – já há muito esqueceu os conceitos fundamentais da esquerda histórica: a luta de classes, a coisificação, a alienação, a exploração, o aumento e a acumulação do capital. A defesa da natureza também foi esquecida. A tal New Left, originária dos EUA, alastrou-se com a indústria da cultura daquele país.

A estratégia reacionária e colonialista deu certo: não apenas dividiu, como desmantelou a esquerda em todo o mundo. Um dos efeitos visíveis é o surgimento desse novo perfil do universitário pelego, cuja atuação lembra os vândalos de 8 de janeiro de 2023 e não deve jamais ser confundida com as lutas históricas de resistência, como aquelas travadas pelos quadros da esquerda que enfrentaram a ditadura militar-burguesa instaurada em 1964, quando cerca de 10% dos mortos e desaparecidos tinham número USP.

Alguns colegas professores da USP dizem que esses estudantes grevistas de agora estão desinformados ou mesmo são inocentes úteis. Outros até lamentam que os estudantes sejam de tal modo manipulados que se tornem bucha de canhão. Entretanto, tal como os vândalos de 8 de janeiro de 2023 não devem ser anistiados, o pelego universitário neoliberal sabe muito bem o que faz.

A postura do pelego, nesse quadro universitário, revela-se desrespeitosa e, por vezes, violenta. Aparentemente, reivindica melhorias nas condições de estudo, mas, na essência, procura destruir a reputação da universidade pública perante a opinião pública – a quem mais interessa a destruição da imagem da USP, senão àqueles que almejam a sua privatização? As agressões internas e demais formas de truculência por parte de alguns estudantes na USP representam um verdadeiro tiro no pé da instituição.

Na última reunião da Congregação da Filô, a nossa unidade da USP, manifestamos nosso desagravo em favor de nossa diretora, a Profa. Christie Ramos Andrade Leite-Panissi, pelas agressões pessoais e institucionais sofridas. Somos testemunhas de todo o esforço promovido pela diretora para viabilizar um diálogo produtivo com os estudantes.

Do mesmo modo, manifestamos também nosso desagravo em favor do reitor da USP, o professor Aluisio Augusto Cotrim Segurado. Em todos os momentos abertos ao diálogo, com respeito e consideração em relação aos estudantes, os nossos dirigentes não receberam, infelizmente, a devida reciprocidade. O diálogo institucional é a base da dignidade que deve vigorar não apenas na academia, mas em toda a sociedade civilizada.

O pelego universitário, entretanto, parece antes focado em ações destrutivas. Importa perguntarmos sobre os bastidores das relações no mundo em que vivemos: de onde vem? A quem serve? A quem interessa? Quem lucra com isso? Essas questões procuram desvendar a ideologia dominante. Por certo, é o privatismo neoliberal que está por trás do pelego universitário.

Ipsis litteris, tal como os crentes, o pelego universitário atua sob a ética (neo)pentecostal e o espírito do neoliberalismo: a única lógica que reconhece é a da prosperidade compulsória. Há todo um fetiche carreirista – prevalece o sentido mais drástico, ainda que falso, da dicotomia sucesso ou fracasso – que nada tem a ver com o cuidado em torno do crescimento crítico-intelectual nem profissional.

Com desprezo pela noção de hierarquia, o pelego universitário já não vê mais o professor com respeito pela sua experiência de vida ou pelo seu conhecimento na matéria. O professor já não é mais quem vai contribuir para a formação do estudante voltada ao pensamento crítico e emancipado. Pelo contrário, passa a ser visto como um suposto obstáculo à carreira ou representante de um tal sistema – na cabeça do pelego identitário, reitera-se o lema bolsonarista de “ser contra tudo que está aí” –, ainda que não se defina o alvo da crítica nem haja qualquer ação concreta visando a uma mudança efetiva.

O pelego universitário tem ainda outro fetiche: o da nota na avaliação da disciplina. Qualquer nota recebida que não seja um 10 acaba gerando protesto e, não raramente, leva à denúncia do professor na ouvidoria – geralmente reforçada por alguma calúnia infundada. A prosperidade compulsória conduz a uma postura tosca e mesmo desinteressada diante do conhecimento; assim, tudo se reduz a uma mesquinharia extrínseca à natureza da academia.

Tristes e sombrios são os nossos tempos neoliberais, capazes de gerar esse novo perfil do pelego universitário – nunca antes visto na história.

 

Fonte: Por Rubens Russomanno Ricciardi, em A Terra é Redonda

 

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