O
pelego universitário
Por
conta da nossa epistemologia – a Poíesis crítica –, sabemos que a indústria da
cultura constitui o fetiche do neoliberalismo, o qual, por sua vez, é a
ideologia do capital financeiro. Importa reconhecer o neoliberalismo e o seu
fetiche – a indústria da cultura (quase sempre de matriz ianque-estadunidense)
– como estruturas ideológicas que determinam a consciência das pessoas em quase
toda a sociedade. Indústria da cultura e identitarismo (o pilar que sustenta a
New Left) são o ópio do povo estendido, pois instauram a alienação e a
coisificação onde a religião não logrou se entranhar.
Assim,
religião (o braço direito), indústria da cultura (o fetiche) e identitarismo (o
braço esquerdo) formam a Santíssima Trindade do neoliberalismo, sob as bênçãos
do capital financeiro. Ainda que por vias argumentativas distintas, crentes e
identitários têm se mostrado igualmente inimigos da universidade pública, pois
compartilham um mesmo enquadramento ideológico: ambos operam, em última
instância, dentro do neoliberalismo.
Há uma
animosidade generalizada contra a academia – aqui entendida no sentido
platônico: uma instituição voltada à formação do pensamento crítico e à
promoção do conhecimento em prol do bem comum. Essa animosidade já se eleva a
um antagonismo aberto: as nossas melhores instituições – as universidades
públicas brasileiras, federais e estaduais – passam a ser vistas pela ideologia
dominante como entraves à acumulação do capital.
De
fato, a lógica do capital financeiro tende a se sobrepor a todas as demais. Com
a política desumanizada do neoliberalismo – redutiva a um único projeto: a
privatização de todos os setores –, torna-se evidente a ameaça às universidades
públicas e gratuitas – ameaça essa, sim, à sua sobrevivência, reiterada a todo
instante pela mais respeitável imprensa. Os recentes editoriais da Folha de S.
Paulo atingiram uma agressividade extrema contra a USP, servindo-se da greve
dos estudantes como pretexto para se concluir – ainda que de modo deturpado e
leviano – que a instituição é “insustentável financeiramente”.
Para a
alegria da imprensa neoliberal, os crentes e demais reacionários atacam a
universidade pública a partir de templos e ambientes digitais de extrema
direita – com informações deturpadas ou mesmo totalmente infundadas, para
difamar as nossas instituições –, e os identitários particularistas a atacam
não apenas de fora, mas também a partir de seu interior. Cabe lembrar: todo
identitário é um pelego neoliberal.
Dado
que o neoliberalismo tende a neutralizar os conteúdos críticos, muitos sequer
conhecem o termo pelego na política; convém, portanto, retomá-lo.
Originalmente, pelego era uma peça de lã colocada sobre a sela, entre o
cavaleiro e o cavalo, tornando a cavalgada mais confortável. Em meados do
século XX, o termo adquiriu sentido metafórico, passando a designar o líder
sindical alinhado aos interesses do poder econômico, frequentemente visto como
traidor dos trabalhadores.
Ao
falarmos do pelego universitário, referimo-nos àquele que, embora aparente
representar os interesses estudantis, atua de modo ambíguo, servindo, na
prática, a interesses contrários à instituição. Muitas vezes, contribui para
desgastar a sua imagem, reforçando argumentos favoráveis à privatização. O
universitário pelego – ainda que formalmente vinculado à universidade –
configura, assim, uma figura de representação simulada.
Há
falsos universitários – ainda que superconhecidos e difundidos – como o
sertanejo universitário, que não é sertanejo nem universitário, mas um produto
(o country) oriundo da indústria da cultura ianque-estadunidense. Há também
falsos universitários entre os próprios universitários. Em recentes
mobilizações aqui no interior, por exemplo, observam-se participantes sem
vínculo institucional (sem número USP) ou com vínculos deslocados do campus da
capital.
Sejam
verdadeiros ou falsos, o fato é que emerge uma nova categoria: o pelego
universitário. A sua origem neoliberal remonta à citada New Left – atrelada ao
Partido Democrata dos EUA e a outras instituições daquele país (como a CIA e a
Ford Foundation, entre outras). Na cartilha do pelego universitário figuram
pautas identitárias plenamente inseridas no marketing das empresas, nas
plataformas da indústria da cultura e nas campanhas publicitárias (dos bancos
às cervejas fakes).
Nesse
contexto, lutas imprescindíveis – contra o racismo, a xenofobia, o patriarcado,
a misoginia e a homofobia – tendem a ser esvaziadas, convertendo-se em
simulacros de diversidade. Iludida por essa dinâmica, a pseudoesquerda
neoliberal revela-se passiva diante do poder financeiro – como no caso dos
juros bancários ou do garimpo em terras indígenas na Amazônia –, mas agressiva
em relação à universidade pública.
Sem
potencial transformador nem crítico nas questões da economia política e da
linguagem, o identitário neoliberal – em geral, avesso às artes e à filosofia –
já há muito esqueceu os conceitos fundamentais da esquerda histórica: a luta de
classes, a coisificação, a alienação, a exploração, o aumento e a acumulação do
capital. A defesa da natureza também foi esquecida. A tal New Left, originária
dos EUA, alastrou-se com a indústria da cultura daquele país.
A
estratégia reacionária e colonialista deu certo: não apenas dividiu, como
desmantelou a esquerda em todo o mundo. Um dos efeitos visíveis é o surgimento
desse novo perfil do universitário pelego, cuja atuação lembra os vândalos de 8
de janeiro de 2023 e não deve jamais ser confundida com as lutas históricas de
resistência, como aquelas travadas pelos quadros da esquerda que enfrentaram a
ditadura militar-burguesa instaurada em 1964, quando cerca de 10% dos mortos e
desaparecidos tinham número USP.
Alguns
colegas professores da USP dizem que esses estudantes grevistas de agora estão
desinformados ou mesmo são inocentes úteis. Outros até lamentam que os
estudantes sejam de tal modo manipulados que se tornem bucha de canhão.
Entretanto, tal como os vândalos de 8 de janeiro de 2023 não devem ser
anistiados, o pelego universitário neoliberal sabe muito bem o que faz.
A
postura do pelego, nesse quadro universitário, revela-se desrespeitosa e, por
vezes, violenta. Aparentemente, reivindica melhorias nas condições de estudo,
mas, na essência, procura destruir a reputação da universidade pública perante
a opinião pública – a quem mais interessa a destruição da imagem da USP, senão
àqueles que almejam a sua privatização? As agressões internas e demais formas
de truculência por parte de alguns estudantes na USP representam um verdadeiro
tiro no pé da instituição.
Na
última reunião da Congregação da Filô, a nossa unidade da USP, manifestamos
nosso desagravo em favor de nossa diretora, a Profa. Christie Ramos Andrade
Leite-Panissi, pelas agressões pessoais e institucionais sofridas. Somos
testemunhas de todo o esforço promovido pela diretora para viabilizar um
diálogo produtivo com os estudantes.
Do
mesmo modo, manifestamos também nosso desagravo em favor do reitor da USP, o
professor Aluisio Augusto Cotrim Segurado. Em todos os momentos abertos ao
diálogo, com respeito e consideração em relação aos estudantes, os nossos
dirigentes não receberam, infelizmente, a devida reciprocidade. O diálogo
institucional é a base da dignidade que deve vigorar não apenas na academia,
mas em toda a sociedade civilizada.
O
pelego universitário, entretanto, parece antes focado em ações destrutivas.
Importa perguntarmos sobre os bastidores das relações no mundo em que vivemos:
de onde vem? A quem serve? A quem interessa? Quem lucra com isso? Essas
questões procuram desvendar a ideologia dominante. Por certo, é o privatismo
neoliberal que está por trás do pelego universitário.
Ipsis
litteris, tal como os crentes, o pelego universitário atua sob a ética
(neo)pentecostal e o espírito do neoliberalismo: a única lógica que reconhece é
a da prosperidade compulsória. Há todo um fetiche carreirista – prevalece o
sentido mais drástico, ainda que falso, da dicotomia sucesso ou fracasso – que
nada tem a ver com o cuidado em torno do crescimento crítico-intelectual nem
profissional.
Com
desprezo pela noção de hierarquia, o pelego universitário já não vê mais o
professor com respeito pela sua experiência de vida ou pelo seu conhecimento na
matéria. O professor já não é mais quem vai contribuir para a formação do
estudante voltada ao pensamento crítico e emancipado. Pelo contrário, passa a
ser visto como um suposto obstáculo à carreira ou representante de um tal
sistema – na cabeça do pelego identitário, reitera-se o lema bolsonarista de
“ser contra tudo que está aí” –, ainda que não se defina o alvo da crítica nem
haja qualquer ação concreta visando a uma mudança efetiva.
O
pelego universitário tem ainda outro fetiche: o da nota na avaliação da
disciplina. Qualquer nota recebida que não seja um 10 acaba gerando protesto e,
não raramente, leva à denúncia do professor na ouvidoria – geralmente reforçada
por alguma calúnia infundada. A prosperidade compulsória conduz a uma postura
tosca e mesmo desinteressada diante do conhecimento; assim, tudo se reduz a uma
mesquinharia extrínseca à natureza da academia.
Tristes
e sombrios são os nossos tempos neoliberais, capazes de gerar esse novo perfil
do pelego universitário – nunca antes visto na história.
Fonte:
Por Rubens Russomanno Ricciardi, em A Terra é Redonda

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