segunda-feira, 8 de junho de 2026

Documento revela opositores mortos após delação de cabo Anselmo e trabalho do espião

Um relatório de balanço da situação da seção de Contrainformações do Exército, em 15 de março de 1974, identifica, de modo inédito, os nomes de, ao menos, dez pessoas que foram capturadas em 1971 após terem sido delatadas por José Anselmo dos Santos, mais conhecido como Cabo Anselmo, o mais famoso agente duplo da ditadura militar brasileira. Desses, três são considerados desaparecidos políticos até hoje. O documento ainda revela detalhes de todo o percurso de Anselmo ao se transformar em agente do Centro de Informações do Exército (CIE) até o massacre da Chácara São Bento, no Recife, em 1973, sua última ação antes de ser descoberto como infiltrado. No relatório fica descrita ainda a escala dessas operações: ao longo de quatro anos, equipes de segurança consumiram cerca de 80 mil munições de calibre .45, 30 mil de 9 mm e mil de 7,62 mm.

Os dados integram o conjunto de documentos do arquivo secreto do coronel Cyro Etchegoyen que estão sendo publicados no projeto “Bandidos de farda”, do ICL Notícias, produzido nos últimos sete meses com uma série de reportagens e um documentário que estreará no dia 17 de maio. O projeto revela os crimes que o coronel Cyro escondeu em um imenso arquivo mantido por ele até sua morte. São 23 pastas e 3 mil páginas de documentos públicos inéditos, que pertenciam ao acervo do Exército brasileiro, mas que foram levados ilegalmente pelo coronel Cyro e que ficaram guardados com um outro militar após a sua morte. Em outubro do ano passado, uma fonte, que terá sua identidade mantida em sigilo por segurança, entregou uma primeira parte ao Instituto Fernando Santa Cruz, idealizado pelo ex-presidente da Ordem dos Advogados do Brasil, Felipe Santa Cruz. Fernando era militante da Ação Popular (AP), está desaparecido desde 23 de fevereiro de 1973 e Felipe é seu filho. Uma segunda parte foi entregue, pela mesma fonte, em fevereiro deste ano à jornalista Juliana Dal Piva, repórter do ICL Notícias.

De acordo com o relatório, após ser submetido a uma “intensa pressão psicológica pelo delegado Fleury e sua equipe”, nos primeiros meses de 1971, Anselmo “concordou” em trabalhar para os órgãos de informação, sendo então colocado em liberdade vigiada para iniciar sua atuação como infiltrado. A partir desse momento, o CIE assumiu o controle direto de suas atividades. Segundo o documento do CIE, ao iniciar seu trabalho como infiltrado, Anselmo estabeleceu contatos com a Vanguarda Popular Revolucionária (VPR) e ampliou seu relacionamento com militantes da esquerda, chegando a estabelecer vínculos também com integrantes da Ação Libertadora Nacional (ALN), organização que contou com a participação do político, escritor e guerrilheiro comunista Carlos Marighella.

“É o primeiro documento oficial do  Exército brasileiro que assume de forma expressa a morte de pessoas que estão desaparecidas. O CIE matou essas pessoas por meio das ações dos seus agentes”, observou, indignada, Suzana Lisboa, ex-integrante da Comissão Especial de Mortos e Desaparecidos ao analisar a documentação.

“Sugiro que a atual Comissão faça cópia dos documentos referente a mortos e desaparecidos e uma requisição para o MPF investigar. Nós sempre dissemos que os arquivos existem, mas tivemos pouco apoio para essa localização”, completa. “Esses são alguns dos documentos mais importantes que eu já vi em 50 anos de luta e mostram a crueldade e a determinação do estado brasileiro em matar. A ordem do Exército era matar”, desabafa.

<><> Espião após a prisão

Ao fazer o balanço dos trabalhos até março de 1974, o relatório aponta o início do trabalho para obter agentes infiltrados e as dificuldades. O documento cita que o primeiro agente que atuou para o CIE é o soldado Victor Luiz Papandreu, que ficou conhecido entre eles como “Operação Morro Velho”. Nas palavras do coronel, uma verdadeira “mina de ouro”. O codinome é uma referência a um complexo de minas de ouro localizado próximo à cidade de Nova Lima, em Minas Gerais.

O longo trecho em que é descrito o trabalho de Anselmo para a repressão o define  como um dos “mais importantes trabalhos já realizados neste setor”. O relatório descreve que “o ex-cabo José Anselmo dos Santos, chegado há pouco ao Brasil após ter realizado curso de guerrilhas em Cuba”, junto com seu colega Edgar de Aquino, foi preso pelo DOPS, em São Paulo, no início de 1971.

Edgar havia abrigado Anselmo em seu apartamento, na Rua Martins Fontes, no centro de São Paulo, logo após seu retorno de Cuba. Os dois foram presos em 30 de maio de 1971, após serem seguidos por agentes da repressão. Segundo o livro O Massacre da Granja São Bento, do jornalista Luiz Felipe Campos, a prisão ocorreu depois que Anselmo chamou a atenção ao parar, no caminho de volta para casa, para cumprimentar integrantes da delegação cubana de basquete feminino que estavam próximas ao local. Em seguida, já sob vigilância, os dois foram detidos assim que entraram no apartamento.

Em conversa com a reportagem, o ex-militante e pesquisador Ivan Seixas, que foi preso e torturado aos 16 anos, junto com o pai, a “forte pressão psicológica” mencionada nos documentos é, na prática, uma referência à tortura — procedimento amplamente utilizado pelos órgãos de repressão. “Eles evitavam falar a palavra tortura, mas todos que eram presos, eram torturados”, afirma. Seixas estava preso no DOPS na mesma ocasião em que Anselmo foi detido. “Vimos ele ser carregado”, relata.

Uma vez que Anselmo começou o trabalho como “cachorro” ele passa a se reaproximar dos antigos companheiros. O documento registra a primeira “queda” provocada por sua atuação como infiltrado — termo usado pelos próprios militares para se referir a mortes ou prisões de militantes. Trata-se de Luiz Almeida de Araújo, conhecido pelo codinome “Rui”. De acordo com o relatório, ele havia feito curso de guerrilha em Cuba e integrava o chamado “III Exército da ALN”.

Até agora, segundo registros da plataforma Memória da Ditadura, Rui era considerado um desaparecido político desde 24 de junho de 1971. Conforme a plataforma, ele desapareceu após conduzir Paulo de Tarso Celestino da Silva, então dirigente nacional da ALN, para um encontro com um agente infiltrado, o cabo Anselmo, nas imediações da Avenida Angélica, em São Paulo. Três dias depois, em 27 de junho, a mãe de Luiz foi informada do desaparecimento por meio de um telefonema anônimo.

O documento inédito revelado pelo ICL Notícias agora confirma que Rui foi morto no contexto da operação articulada por Anselmo, tornando pública, pela primeira vez, a circunstância de sua morte. De acordo com o relatório, Anselmo, enquanto infiltrado, conseguiu assumir o setor de imprensa e documentação da VPR após estabelecer contatos com o ex-sargento da Marinha e um dos dirigentes da organização, José Raimundo da Costa, o “Moisés”, passando a ter acesso direto a documentos internos.

O esquema, segundo o relatório, funcionava da seguinte forma: Anselmo recebia documentos verdadeiros dos próprios militantes para a confecção de versões falsas. Esse material original era então repassado ao DOPS de São Paulo ou ao CIE, que produziam os documentos falsificados e os devolviam à organização. Com isso, os órgãos de repressão passaram a reunir registros completos sobre uma parte significativa dos integrantes da VPR.

No documento, cabo Anselmo é identificado pelo codinome “Kymball”. O apelido citado no documento, segundo a pesquisa de O Massacre da Granja São Bento, faz referência ao personagem Dr. Richard Kimble, da série norte-americana O Fugitivo, e foi adaptado pelos agentes da repressão para identificar o infiltrado. O relatório do arquivo do coronel Etchegoyen registra que os militantes contatados por Anselmo eram seguidos, fotografados e filmados, com o objetivo de serem identificados pelos órgãos de repressão.

O documento confirma que esse procedimento desencadeou uma “série vertiginosa de mortes e prisões entre militantes da VPR e ALN”. Entre os nomes citados estão: Valter Ribeiro Novaes, o “Jonas”; Paulo de Tarso Celestino da Silva, o “Mário”; Inês Etienne Romeu, a “Maristela”; Eleni Ferreira Telles Guariba, a “Helenira”; Afonso Bezerra da Silva, o “Nilo”; José Raimundo da Costa, o “Moisés”; Zenaide Machado, a “Raquel”; Lúcia Maurício Veloso, a “Mônica”; e Carlos Alberto do Carmo, o “Rubens”.

Inês Etienne Romeu relatou às autoridades, após ser libertada, que ouviu a tortura de Valter, Paulo e Eleni, em julho de 1971, enquanto ela estava presa na “Casa da Morte” de Petrópolis. Os três são considerados, até agora, desaparecidos políticos. Inês, Zenaide e Lúcia sobreviveram. José Raimundo foi assassinado e seu corpo apareceu em Pilares, na Zona Norte do Rio, em 5 de agosto de 1971. Não há informações sobre Afonso Bezerra da Silva e Carlos Alberto do Carmo.

Algumas das vítimas fatais após a delação de Anselmo

De acordo com o relatório, à medida que as operações avançavam, começavam a surgir, entre os militantes da esquerda, suspeitas sobre a existência de um agente infiltrado nas fileiras da VPR — desconfianças que passaram a ser diretamente associadas a Anselmo.

O documento relata que, em julho de 1971, a rádio de Havana divulgou a informação de que um integrante da VPR teria sido preso e posteriormente solto para colaborar com a repressão. A notícia também chegou a Santiago do Chile, provocando forte repercussão entre exilados e banidos brasileiros, especialmente entre integrantes da própria organização.

O relatório da seção do CIE revela ainda as informações sobre a possível atuação de um infiltrado teriam partido de Edgar de Aquino, o colega de Anselmo preso junto com ele. Mesmo detido, ele teria conseguido repassar ao exterior notícias sobre a prisão e suposta morte.

<><> No Chile

O documento destaca que diante da circulação dessas informações, formaram-se duas correntes de opinião entre os exilados no Chile. De um lado, um grupo liderado pelo dirigente da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR) e ex-sargento do Exército, Onofre Pinto, defendia Anselmo, sustentando que as acusações não passavam de uma tentativa de desmoralizar a VPR no exterior, já que, segundo eles, sua trajetória e militância tornariam improvável uma colaboração com a repressão.

De outro, uma corrente liderada pela socióloga e também dirigente da VPR Maria do Carmo Brito, a “Lia”, morta em 2025, aos 83 anos, passou a acusá-lo de forma veemente, responsabilizando-o pelas “quedas” de militantes no Rio de Janeiro e em São Paulo.

De acordo com o relatório, nesta ocasião, em meio às suspeitas sobre a existência de um infiltrado, Lia precisou procurar a embaixada brasileira no Chile para obter um documento. O movimento dela, no entanto, foi imediatamente comunicado pelo “adido militar” às autoridades no Brasil, que passaram a monitorá-la. Segundo o relatório, a direção da operação, que coordenava o trabalho de Anselmo, decidiu explorar o episódio: sob falsos pretextos, orientou que Lia fosse incentivada a retornar diversas vezes à embaixada, com a promessa de receber o documento solicitado. O procedimento foi mantido por semanas até que, ao final, o material foi entregue na casa dela.

O objetivo, de acordo com o relatório, era levantar suspeitas sobre Lia dentro da própria organização. A estratégia teria funcionado: suas idas frequentes à embaixada passaram a ser vistas com desconfiança por outros militantes, contribuindo para desmoralizar as acusações que vinham sendo feitas contra Anselmo.

Nesse período, segundo o documento, a VPR já se encontrava desarticulada em São Paulo e no Rio de Janeiro, em consequência das “quedas” atribuídas à atividade do infiltrado.

De acordo com o relatório, outra organização de resistência ao regime, a Ação Libertadora Nacional (ALN), de Carlos Marighela, considerada pelos militares como mais estruturada no campo da inteligência, passou a afirmar em documentos enviados ao exterior, que não havia mais dúvidas sobre a atuação de Anselmo como agente da repressão.

Ainda assim, segundo o documento, a organização optou por não executá-lo por razões políticas, uma vez que ele pertencia formalmente a outro grupo. Ao mesmo tempo, seus integrantes deixaram de manter contatos e de cobrir pontos previamente estabelecidos com ele.

<><> Preparação para o ataque

Diante do cenário de desconfiança, o relatório aponta que um “estudo de situação” levou a chefia da operação a deslocar Anselmo para o Nordeste. Na região, ele passou a atuar a partir de contatos previamente indicados por José Raimundo da Costa, o “Moisés”, incluindo ligações com o ex-cabo da Marinha e integrante da organização, José Manoel da Silva, o “Cirino”.

De acordo com o relatório, já em Recife, Anselmo estabeleceu contato com Cirino. A partir dessa aproximação, passou a receber novos pontos de encontro com militantes da VPR, ampliando sua área de atuação na região.

Segundo o documento, diante do avanço das suspeitas sobre sua atuação como infiltrado, especialmente entre militantes no exterior, Anselmo foi enviado a Santiago, no Chile. A missão tinha dois objetivos: estruturar um esquema de fuga para militantes perseguidos no Brasil e, ao mesmo tempo, tentar neutralizar as acusações de que estaria colaborando com a repressão.

O relatório descreve que, no Chile, Anselmo retomou contatos com lideranças como Lia e Onofre Pinto, conseguindo restabelecer a confiança em torno de sua atuação. Como resultado, foram articuladas medidas para a reorganização da VPR no Brasil, incluindo o envio de militantes treinados em Cuba, com entrada prevista pelo Nordeste.

O documento destaca que, para viabilizar essa estrutura, Anselmo recebeu recursos específicos, comprometendo-se a montar um novo “aparelho”, e adquirir um sítio em Recife, que serviria de base para as operações. O relatório, no entanto, não revela o valor empregado.

Ao retornar ao Brasil, segundo o documento, Anselmo passou a implementar as medidas previamente articuladas, ao mesmo tempo em que ampliava sua rede de contatos. Nesse período, chegou ao país Soledad Barrett Viedma, conhecida como “Sol”, militante paraguaia com trajetória familiar na esquerda. Ela passou a viver com Anselmo. No documento, o coronel a classifica como “amante”, enquanto os militantes a tratavam como “companheira” de Anselmo, uma diferença de linguagem que demonstra o olhar hierarquizante e misógino presente no registro militar.

Anselmo, então, deu sequência à estruturação da operação, organizando o esquema de recepção para militantes que viriam do Chile.

Paralelamente à estruturação da operação no Recife, a direção da operação decidiu avançar sobre os militantes identificados a partir de ligações de Anselmo com grupos de esquerda em São Paulo. Segundo o documento, a ação resultou na prisão de cinco integrantes da Organização de Combate Marxista-Leninista – Política Operária (OCML-PO) e de outros 11 militantes da Fração Bolchevique Trotskista (FBT), organizações que haviam sido mapeadas a partir desses contatos.

<><> A preparação para o massacre

No início de agosto, chegou ao Brasil, vindo do Chile, Eudaldo Gomes da Silva, identificado pela VPR como Assessor nº 1, ou “A-1”. Segundo o documento, ele passou imediatamente a conduzir uma série de interrogatórios com o objetivo de esclarecer as suspeitas que recaíam sobre Anselmo tendo obtido resultados considerados satisfatórios.

Eudaldo era militante da VPR, com origem no movimento estudantil. Preso pela ditadura, foi banido do país e passou pelo exílio na Argélia e seguiu para Cuba, onde recebeu treinamento de guerrilha, antes de retornar ao Brasil e se estabelecer no Recife.

Na sequência, segundo o relatório, também vindo do exterior, chegou Evaldo Luiz Ferreira de Souza, denominado Assessor nº 2, ou “A-2”. Ele era ex-marinheiro e militante da VPR, com atuação desde as mobilizações na Marinha antes de 1964. Preso após o golpe e posteriormente expulso da corporação, passou pelo exílio em Cuba, onde recebeu treinamento de guerrilha. Ao retornar ao Brasil, integrou o processo de reorganização da VPR no Nordeste.

De acordo com o relatório, mesmo diante das desconfianças, Anselmo manteve correspondência com Onofre Pinto, que, a partir do Chile, continuava a defendê-lo das acusações de traição, as quais seguiam circulando entre diferentes grupos, especialmente na ALN.

De acordo com o relatório, paralelamente às ações de infiltração, foram intensificados os trabalhos de investigação, com o objetivo de mapear completamente as atividades, os endereços e os deslocamentos dos militantes, preparando o que os militares chamam de “encerramento da operação”.

No documento, é descrito que para viabilizar esse monitoramento, os militares empregaram recursos técnicos e operacionais para a instalação de uma “estação repetidora de sinais de rádio”, um “equipamento completo de telefotografia” e “a utilização de helicópteros para a investigação das áreas rurais”.

De acordo com o relatório, também chegou ao Brasil, vinda do Chile, Pauline Reichstul, de nacionalidade tcheco-eslovaca e companheira de Eudaldo Gomes da Silva, o “A-1”. Segundo o documento, ela trazia consigo 72 microfilmes com informações sobre as Forças Armadas, além de material de propaganda.

Pauline era militante da VPR, nascida em Praga, filha de judeus poloneses sobreviventes da Segunda Guerra Mundial. Criada entre a Europa e o Brasil, formou-se em psicologia na Suíça e integrou redes de resistência no exterior contra a ditadura brasileira antes de ingressar na luta armada. Ela também recebeu treinamento em Cuba.

Diante da possibilidade da chegada de novos militantes vindos do exterior, a decisão de encerrar a operação foi adiada pela subseção de contra-espionagem.

Só que, em dezembro de 1972, a situação de Anselmo se agravou. Segundo o documento, havia dificuldades de apoio financeiro por parte da organização por causa da falta de apoio externo, poucos resultados práticos das ações da VPR em Recife e o que o relatório chama de “problemas afetivos” entre Anselmo e Soledad.

A situação teria se agravado a tal ponto, na avaliação dos militares, que Anselmo chegou a ser detido pelos próprios companheiros da VPR, sob a responsabilidade de Eudaldo, havendo indícios de que ele poderia ser “justiçado pela organização”.

Diante do “agravamento da situação”, a chefia da operação de infiltração decidiu pelo seu “encerramento”. Para isso, foi elaborada uma lista de prioridades e mobilizadas oito equipes: cinco do CIE, duas do DOPS de São Paulo e uma do DOI do IV Exército, com a suposta missão de prender cerca de 18 militantes.

Segundo o documento, a operação foi deflagrada em 8 de janeiro de 1973. Em vez das prisões, o que ocorreu foi o assassinato de seis militantes: Eudaldo Gomes da Silva, o “A-1”; Soledad Barrett Viedma, a “Sol”; Pauline Reichstul, a “Silvana”; Jarbas Pereira Marques, o “Jarbas”; e José Manoel da Silva, o “Cirino”. No dia seguinte, foi morto também Evaldo Luiz Ferreira de Souza, o “A-2”.

O documento descreve ainda que nos dias 8 e 9 também foram presos outros oito militantes e apreendido suposto “material e armamento”, além de “códigos e cifras” que permitiram “decifrar documentos apreendidos”. O relatório também destaca que o “acontecimento” foi publicado pela imprensa brasileira e do exterior, “confirmando as suspeitas sobre a atuação de Anselmo como infiltrado”.

As mortes foram noticiadas à época sob a ótica da narrativa oficial da ditadura militar, dando conta de que militantes da VPR morreram em um tiroteio com agentes da repressão, liderados pelo delegado Fleury. Posteriormente, o caso ficou amplamente conhecido como o “Massacre da Chácara de São Bento”.

De acordo com o relatório, após a operação que resultou nas mortes dos seis militantes, Anselmo foi retirado do Nordeste e transferido para São Paulo porque estaria “profundamente chocado pela morte de sua Sol”. Foi então que ele recebeu nova documentação com identidade falsa, foi submetido a uma cirurgia plástica que alterou sua fisionomia e teve sua reinserção garantida por meio de um emprego, “reorganizando sua vida legal”.

Anselmo, no chamado “Relatório de Paquera” — documento produzido por ele para abastecer a repressão com informações sobre militantes no exterior —, menciona Soledad ao fazer um pedido sobre seu destino. Segundo o livro O Massacre da Granja São Bento, ele registrou: “Se possível, desejar que a sua solução final fosse a expulsão do Brasil, ou pelo menos não fosse extrema”.

Por fim, o relatório descreve que, após a operação em Recife, ou seja, o massacre dos seis militantes, Anselmo continuou colaborando com o CIE, dando aulas para a formação de novos agentes.

<><> Infiltrado midiático

Diferente de Etchegoyen, reservado e avesso à imprensa, o cabo Anselmo cultivava uma imagem pública e se deixava levar pelo próprio ego. Nunca passou de soldado, a patente de cabo foi atribuída erroneamente pela imprensa, que confundiu as marcas em seu uniforme da Marinha, erro que acabaria se consolidando. Ainda jovem, destacou-se como um dos principais líderes da Revolta dos Marinheiros, estopim para o golpe de 1964.

Preso pela primeira vez naquele contexto, conseguiu fugir e passou a integrar organizações de resistência ao regime militar, como a Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), além de ter passagem pelo Movimento Nacionalista Revolucionário (MNR), no exílio. Anos depois, em 1971, de volta ao Brasil após um período de treinamento em Cuba, foi novamente capturado, desta vez pela ditadura militar que, na ocasião, estava sob a presidência do general Emílio Garrastazu Médici. Anselmo, após ter sido preso, trocou de lado, traiu os seus companheiros de luta e acabou se tornando um dos mais conhecidos informantes da repressão.

Segundo relatos de ex-companheiros de militância reunidos no documentário Em Busca de Anselmo, o cabo também chegou a conceder entrevistas a jornais durante sua passagem por Cuba. Após trair os grupos de esquerda e atuar como infiltrado — entregando militantes à repressão, o que resultou em prisões e mortes, incluindo colegas do tempo da Marinha e sua própria companheira, Soledad Barrett Viedma —, recebeu salário pelo trabalho como infiltrado, foi submetido a uma cirurgia plástica custeada pelo regime e passou a usar documentos falsos, o que lhe permitiu seguir a vida sob nova identidade.

Com o fim da ditadura, voltou a dar entrevistas e apresentou versões distintas sobre sua atuação: em uma delas, afirmava ter se oferecido voluntariamente ao regime; em outra, corroborada por documentos mantidos por Cyro Etchegoyen e por depoimentos de ex-presos políticos, indicava que passou a trabalhar para a repressão após ser preso e torturado pela equipe do delegado Sérgio Paranhos Fleury, um dos principais nomes da repressão política em São Paulo, associado a práticas de tortura e execução de opositores do regime. Nascido em Itaporanga d’Ajuda, em Sergipe, Anselmo morreu, em 2022, aos 80 anos, em um hospital de Jundiaí, em decorrência de uma infecção renal.

 

Fonte: ICL Notícias

 

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