Documento
revela opositores mortos após delação de cabo Anselmo e trabalho do espião
Um
relatório de balanço da situação da seção de Contrainformações do Exército, em
15 de março de 1974, identifica, de modo inédito, os nomes de, ao menos, dez
pessoas que foram capturadas em 1971 após terem sido delatadas por José Anselmo
dos Santos, mais conhecido como Cabo Anselmo, o mais famoso agente duplo da
ditadura militar brasileira. Desses, três são considerados desaparecidos
políticos até hoje. O documento ainda revela detalhes de todo o percurso de
Anselmo ao se transformar em agente do Centro de Informações do Exército (CIE)
até o massacre da Chácara São Bento, no Recife, em 1973, sua última ação antes
de ser descoberto como infiltrado. No relatório fica descrita ainda a escala
dessas operações: ao longo de quatro anos, equipes de segurança consumiram
cerca de 80 mil munições de calibre .45, 30 mil de 9 mm e mil de 7,62 mm.
Os
dados integram o conjunto de documentos do arquivo secreto do coronel Cyro
Etchegoyen que estão sendo publicados no projeto “Bandidos de farda”, do ICL
Notícias, produzido nos últimos sete meses com uma série de reportagens e um
documentário que estreará no dia 17 de maio. O projeto revela os crimes que o
coronel Cyro escondeu em um imenso arquivo mantido por ele até sua morte. São
23 pastas e 3 mil páginas de documentos públicos inéditos, que pertenciam ao
acervo do Exército brasileiro, mas que foram levados ilegalmente pelo coronel
Cyro e que ficaram guardados com um outro militar após a sua morte. Em outubro
do ano passado, uma fonte, que terá sua identidade mantida em sigilo por
segurança, entregou uma primeira parte ao Instituto Fernando Santa Cruz,
idealizado pelo ex-presidente da Ordem dos Advogados do Brasil, Felipe Santa
Cruz. Fernando era militante da Ação Popular (AP), está desaparecido desde 23
de fevereiro de 1973 e Felipe é seu filho. Uma segunda parte foi entregue, pela
mesma fonte, em fevereiro deste ano à jornalista Juliana Dal Piva, repórter do
ICL Notícias.
De
acordo com o relatório, após ser submetido a uma “intensa pressão psicológica
pelo delegado Fleury e sua equipe”, nos primeiros meses de 1971, Anselmo
“concordou” em trabalhar para os órgãos de informação, sendo então colocado em
liberdade vigiada para iniciar sua atuação como infiltrado. A partir desse
momento, o CIE assumiu o controle direto de suas atividades. Segundo o
documento do CIE, ao iniciar seu trabalho como infiltrado, Anselmo estabeleceu
contatos com a Vanguarda Popular Revolucionária (VPR) e ampliou seu
relacionamento com militantes da esquerda, chegando a estabelecer vínculos
também com integrantes da Ação Libertadora Nacional (ALN), organização que
contou com a participação do político, escritor e guerrilheiro comunista Carlos
Marighella.
“É o
primeiro documento oficial do Exército
brasileiro que assume de forma expressa a morte de pessoas que estão
desaparecidas. O CIE matou essas pessoas por meio das ações dos seus agentes”,
observou, indignada, Suzana Lisboa, ex-integrante da Comissão Especial de
Mortos e Desaparecidos ao analisar a documentação.
“Sugiro
que a atual Comissão faça cópia dos documentos referente a mortos e
desaparecidos e uma requisição para o MPF investigar. Nós sempre dissemos que
os arquivos existem, mas tivemos pouco apoio para essa localização”, completa.
“Esses são alguns dos documentos mais importantes que eu já vi em 50 anos de
luta e mostram a crueldade e a determinação do estado brasileiro em matar. A
ordem do Exército era matar”, desabafa.
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Espião após a prisão
Ao
fazer o balanço dos trabalhos até março de 1974, o relatório aponta o início do
trabalho para obter agentes infiltrados e as dificuldades. O documento cita que
o primeiro agente que atuou para o CIE é o soldado Victor Luiz Papandreu, que
ficou conhecido entre eles como “Operação Morro Velho”. Nas palavras do
coronel, uma verdadeira “mina de ouro”. O codinome é uma referência a um
complexo de minas de ouro localizado próximo à cidade de Nova Lima, em Minas
Gerais.
O longo
trecho em que é descrito o trabalho de Anselmo para a repressão o define como um dos “mais importantes trabalhos já
realizados neste setor”. O relatório descreve que “o ex-cabo José Anselmo dos
Santos, chegado há pouco ao Brasil após ter realizado curso de guerrilhas em
Cuba”, junto com seu colega Edgar de Aquino, foi preso pelo DOPS, em São Paulo,
no início de 1971.
Edgar
havia abrigado Anselmo em seu apartamento, na Rua Martins Fontes, no centro de
São Paulo, logo após seu retorno de Cuba. Os dois foram presos em 30 de maio de
1971, após serem seguidos por agentes da repressão. Segundo o livro O Massacre
da Granja São Bento, do jornalista Luiz Felipe Campos, a prisão ocorreu depois
que Anselmo chamou a atenção ao parar, no caminho de volta para casa, para
cumprimentar integrantes da delegação cubana de basquete feminino que estavam
próximas ao local. Em seguida, já sob vigilância, os dois foram detidos assim
que entraram no apartamento.
Em
conversa com a reportagem, o ex-militante e pesquisador Ivan Seixas, que foi
preso e torturado aos 16 anos, junto com o pai, a “forte pressão psicológica”
mencionada nos documentos é, na prática, uma referência à tortura —
procedimento amplamente utilizado pelos órgãos de repressão. “Eles evitavam
falar a palavra tortura, mas todos que eram presos, eram torturados”, afirma.
Seixas estava preso no DOPS na mesma ocasião em que Anselmo foi detido. “Vimos
ele ser carregado”, relata.
Uma vez
que Anselmo começou o trabalho como “cachorro” ele passa a se reaproximar dos
antigos companheiros. O documento registra a primeira “queda” provocada por sua
atuação como infiltrado — termo usado pelos próprios militares para se referir
a mortes ou prisões de militantes. Trata-se de Luiz Almeida de Araújo,
conhecido pelo codinome “Rui”. De acordo com o relatório, ele havia feito curso
de guerrilha em Cuba e integrava o chamado “III Exército da ALN”.
Até
agora, segundo registros da plataforma Memória da Ditadura, Rui era considerado
um desaparecido político desde 24 de junho de 1971. Conforme a plataforma, ele
desapareceu após conduzir Paulo de Tarso Celestino da Silva, então dirigente
nacional da ALN, para um encontro com um agente infiltrado, o cabo Anselmo, nas
imediações da Avenida Angélica, em São Paulo. Três dias depois, em 27 de junho,
a mãe de Luiz foi informada do desaparecimento por meio de um telefonema
anônimo.
O
documento inédito revelado pelo ICL Notícias agora confirma que Rui foi morto
no contexto da operação articulada por Anselmo, tornando pública, pela primeira
vez, a circunstância de sua morte. De acordo com o relatório, Anselmo, enquanto
infiltrado, conseguiu assumir o setor de imprensa e documentação da VPR após
estabelecer contatos com o ex-sargento da Marinha e um dos dirigentes da
organização, José Raimundo da Costa, o “Moisés”, passando a ter acesso direto a
documentos internos.
O
esquema, segundo o relatório, funcionava da seguinte forma: Anselmo recebia
documentos verdadeiros dos próprios militantes para a confecção de versões
falsas. Esse material original era então repassado ao DOPS de São Paulo ou ao
CIE, que produziam os documentos falsificados e os devolviam à organização. Com
isso, os órgãos de repressão passaram a reunir registros completos sobre uma
parte significativa dos integrantes da VPR.
No
documento, cabo Anselmo é identificado pelo codinome “Kymball”. O apelido
citado no documento, segundo a pesquisa de O Massacre da Granja São Bento, faz
referência ao personagem Dr. Richard Kimble, da série norte-americana O
Fugitivo, e foi adaptado pelos agentes da repressão para identificar o
infiltrado. O relatório do arquivo do coronel Etchegoyen registra que os
militantes contatados por Anselmo eram seguidos, fotografados e filmados, com o
objetivo de serem identificados pelos órgãos de repressão.
O
documento confirma que esse procedimento desencadeou uma “série vertiginosa de
mortes e prisões entre militantes da VPR e ALN”. Entre os nomes citados estão:
Valter Ribeiro Novaes, o “Jonas”; Paulo de Tarso Celestino da Silva, o “Mário”;
Inês Etienne Romeu, a “Maristela”; Eleni Ferreira Telles Guariba, a “Helenira”;
Afonso Bezerra da Silva, o “Nilo”; José Raimundo da Costa, o “Moisés”; Zenaide
Machado, a “Raquel”; Lúcia Maurício Veloso, a “Mônica”; e Carlos Alberto do
Carmo, o “Rubens”.
Inês
Etienne Romeu relatou às autoridades, após ser libertada, que ouviu a tortura
de Valter, Paulo e Eleni, em julho de 1971, enquanto ela estava presa na “Casa
da Morte” de Petrópolis. Os três são considerados, até agora, desaparecidos
políticos. Inês, Zenaide e Lúcia sobreviveram. José Raimundo foi assassinado e
seu corpo apareceu em Pilares, na Zona Norte do Rio, em 5 de agosto de 1971.
Não há informações sobre Afonso Bezerra da Silva e Carlos Alberto do Carmo.
Algumas
das vítimas fatais após a delação de Anselmo
De
acordo com o relatório, à medida que as operações avançavam, começavam a
surgir, entre os militantes da esquerda, suspeitas sobre a existência de um
agente infiltrado nas fileiras da VPR — desconfianças que passaram a ser
diretamente associadas a Anselmo.
O
documento relata que, em julho de 1971, a rádio de Havana divulgou a informação
de que um integrante da VPR teria sido preso e posteriormente solto para
colaborar com a repressão. A notícia também chegou a Santiago do Chile,
provocando forte repercussão entre exilados e banidos brasileiros,
especialmente entre integrantes da própria organização.
O
relatório da seção do CIE revela ainda as informações sobre a possível atuação
de um infiltrado teriam partido de Edgar de Aquino, o colega de Anselmo preso
junto com ele. Mesmo detido, ele teria conseguido repassar ao exterior notícias
sobre a prisão e suposta morte.
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No Chile
O
documento destaca que diante da circulação dessas informações, formaram-se duas
correntes de opinião entre os exilados no Chile. De um lado, um grupo liderado
pelo dirigente da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR) e ex-sargento do
Exército, Onofre Pinto, defendia Anselmo, sustentando que as acusações não
passavam de uma tentativa de desmoralizar a VPR no exterior, já que, segundo
eles, sua trajetória e militância tornariam improvável uma colaboração com a
repressão.
De
outro, uma corrente liderada pela socióloga e também dirigente da VPR Maria do
Carmo Brito, a “Lia”, morta em 2025, aos 83 anos, passou a acusá-lo de forma
veemente, responsabilizando-o pelas “quedas” de militantes no Rio de Janeiro e
em São Paulo.
De
acordo com o relatório, nesta ocasião, em meio às suspeitas sobre a existência
de um infiltrado, Lia precisou procurar a embaixada brasileira no Chile para
obter um documento. O movimento dela, no entanto, foi imediatamente comunicado
pelo “adido militar” às autoridades no Brasil, que passaram a monitorá-la.
Segundo o relatório, a direção da operação, que coordenava o trabalho de
Anselmo, decidiu explorar o episódio: sob falsos pretextos, orientou que Lia
fosse incentivada a retornar diversas vezes à embaixada, com a promessa de
receber o documento solicitado. O procedimento foi mantido por semanas até que,
ao final, o material foi entregue na casa dela.
O
objetivo, de acordo com o relatório, era levantar suspeitas sobre Lia dentro da
própria organização. A estratégia teria funcionado: suas idas frequentes à
embaixada passaram a ser vistas com desconfiança por outros militantes,
contribuindo para desmoralizar as acusações que vinham sendo feitas contra
Anselmo.
Nesse
período, segundo o documento, a VPR já se encontrava desarticulada em São Paulo
e no Rio de Janeiro, em consequência das “quedas” atribuídas à atividade do
infiltrado.
De
acordo com o relatório, outra organização de resistência ao regime, a Ação
Libertadora Nacional (ALN), de Carlos Marighela, considerada pelos militares
como mais estruturada no campo da inteligência, passou a afirmar em documentos
enviados ao exterior, que não havia mais dúvidas sobre a atuação de Anselmo
como agente da repressão.
Ainda
assim, segundo o documento, a organização optou por não executá-lo por razões
políticas, uma vez que ele pertencia formalmente a outro grupo. Ao mesmo tempo,
seus integrantes deixaram de manter contatos e de cobrir pontos previamente
estabelecidos com ele.
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Preparação para o ataque
Diante
do cenário de desconfiança, o relatório aponta que um “estudo de situação”
levou a chefia da operação a deslocar Anselmo para o Nordeste. Na região, ele
passou a atuar a partir de contatos previamente indicados por José Raimundo da
Costa, o “Moisés”, incluindo ligações com o ex-cabo da Marinha e integrante da
organização, José Manoel da Silva, o “Cirino”.
De
acordo com o relatório, já em Recife, Anselmo estabeleceu contato com Cirino. A
partir dessa aproximação, passou a receber novos pontos de encontro com
militantes da VPR, ampliando sua área de atuação na região.
Segundo
o documento, diante do avanço das suspeitas sobre sua atuação como infiltrado,
especialmente entre militantes no exterior, Anselmo foi enviado a Santiago, no
Chile. A missão tinha dois objetivos: estruturar um esquema de fuga para
militantes perseguidos no Brasil e, ao mesmo tempo, tentar neutralizar as
acusações de que estaria colaborando com a repressão.
O
relatório descreve que, no Chile, Anselmo retomou contatos com lideranças como
Lia e Onofre Pinto, conseguindo restabelecer a confiança em torno de sua
atuação. Como resultado, foram articuladas medidas para a reorganização da VPR
no Brasil, incluindo o envio de militantes treinados em Cuba, com entrada
prevista pelo Nordeste.
O
documento destaca que, para viabilizar essa estrutura, Anselmo recebeu recursos
específicos, comprometendo-se a montar um novo “aparelho”, e adquirir um sítio
em Recife, que serviria de base para as operações. O relatório, no entanto, não
revela o valor empregado.
Ao
retornar ao Brasil, segundo o documento, Anselmo passou a implementar as
medidas previamente articuladas, ao mesmo tempo em que ampliava sua rede de
contatos. Nesse período, chegou ao país Soledad Barrett Viedma, conhecida como
“Sol”, militante paraguaia com trajetória familiar na esquerda. Ela passou a
viver com Anselmo. No documento, o coronel a classifica como “amante”, enquanto
os militantes a tratavam como “companheira” de Anselmo, uma diferença de
linguagem que demonstra o olhar hierarquizante e misógino presente no registro
militar.
Anselmo,
então, deu sequência à estruturação da operação, organizando o esquema de
recepção para militantes que viriam do Chile.
Paralelamente
à estruturação da operação no Recife, a direção da operação decidiu avançar
sobre os militantes identificados a partir de ligações de Anselmo com grupos de
esquerda em São Paulo. Segundo o documento, a ação resultou na prisão de cinco
integrantes da Organização de Combate Marxista-Leninista – Política Operária
(OCML-PO) e de outros 11 militantes da Fração Bolchevique Trotskista (FBT),
organizações que haviam sido mapeadas a partir desses contatos.
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A preparação para o massacre
No
início de agosto, chegou ao Brasil, vindo do Chile, Eudaldo Gomes da Silva,
identificado pela VPR como Assessor nº 1, ou “A-1”. Segundo o documento, ele
passou imediatamente a conduzir uma série de interrogatórios com o objetivo de
esclarecer as suspeitas que recaíam sobre Anselmo tendo obtido resultados
considerados satisfatórios.
Eudaldo
era militante da VPR, com origem no movimento estudantil. Preso pela ditadura,
foi banido do país e passou pelo exílio na Argélia e seguiu para Cuba, onde
recebeu treinamento de guerrilha, antes de retornar ao Brasil e se estabelecer
no Recife.
Na
sequência, segundo o relatório, também vindo do exterior, chegou Evaldo Luiz
Ferreira de Souza, denominado Assessor nº 2, ou “A-2”. Ele era ex-marinheiro e
militante da VPR, com atuação desde as mobilizações na Marinha antes de 1964.
Preso após o golpe e posteriormente expulso da corporação, passou pelo exílio
em Cuba, onde recebeu treinamento de guerrilha. Ao retornar ao Brasil, integrou
o processo de reorganização da VPR no Nordeste.
De
acordo com o relatório, mesmo diante das desconfianças, Anselmo manteve
correspondência com Onofre Pinto, que, a partir do Chile, continuava a
defendê-lo das acusações de traição, as quais seguiam circulando entre
diferentes grupos, especialmente na ALN.
De
acordo com o relatório, paralelamente às ações de infiltração, foram
intensificados os trabalhos de investigação, com o objetivo de mapear
completamente as atividades, os endereços e os deslocamentos dos militantes,
preparando o que os militares chamam de “encerramento da operação”.
No
documento, é descrito que para viabilizar esse monitoramento, os militares
empregaram recursos técnicos e operacionais para a instalação de uma “estação
repetidora de sinais de rádio”, um “equipamento completo de telefotografia” e
“a utilização de helicópteros para a investigação das áreas rurais”.
De
acordo com o relatório, também chegou ao Brasil, vinda do Chile, Pauline
Reichstul, de nacionalidade tcheco-eslovaca e companheira de Eudaldo Gomes da
Silva, o “A-1”. Segundo o documento, ela trazia consigo 72 microfilmes com
informações sobre as Forças Armadas, além de material de propaganda.
Pauline
era militante da VPR, nascida em Praga, filha de judeus poloneses sobreviventes
da Segunda Guerra Mundial. Criada entre a Europa e o Brasil, formou-se em
psicologia na Suíça e integrou redes de resistência no exterior contra a
ditadura brasileira antes de ingressar na luta armada. Ela também recebeu
treinamento em Cuba.
Diante
da possibilidade da chegada de novos militantes vindos do exterior, a decisão
de encerrar a operação foi adiada pela subseção de contra-espionagem.
Só que,
em dezembro de 1972, a situação de Anselmo se agravou. Segundo o documento,
havia dificuldades de apoio financeiro por parte da organização por causa da
falta de apoio externo, poucos resultados práticos das ações da VPR em Recife e
o que o relatório chama de “problemas afetivos” entre Anselmo e Soledad.
A
situação teria se agravado a tal ponto, na avaliação dos militares, que Anselmo
chegou a ser detido pelos próprios companheiros da VPR, sob a responsabilidade
de Eudaldo, havendo indícios de que ele poderia ser “justiçado pela
organização”.
Diante
do “agravamento da situação”, a chefia da operação de infiltração decidiu pelo
seu “encerramento”. Para isso, foi elaborada uma lista de prioridades e
mobilizadas oito equipes: cinco do CIE, duas do DOPS de São Paulo e uma do DOI
do IV Exército, com a suposta missão de prender cerca de 18 militantes.
Segundo
o documento, a operação foi deflagrada em 8 de janeiro de 1973. Em vez das
prisões, o que ocorreu foi o assassinato de seis militantes: Eudaldo Gomes da
Silva, o “A-1”; Soledad Barrett Viedma, a “Sol”; Pauline Reichstul, a
“Silvana”; Jarbas Pereira Marques, o “Jarbas”; e José Manoel da Silva, o
“Cirino”. No dia seguinte, foi morto também Evaldo Luiz Ferreira de Souza, o
“A-2”.
O
documento descreve ainda que nos dias 8 e 9 também foram presos outros oito
militantes e apreendido suposto “material e armamento”, além de “códigos e
cifras” que permitiram “decifrar documentos apreendidos”. O relatório também
destaca que o “acontecimento” foi publicado pela imprensa brasileira e do
exterior, “confirmando as suspeitas sobre a atuação de Anselmo como
infiltrado”.
As
mortes foram noticiadas à época sob a ótica da narrativa oficial da ditadura
militar, dando conta de que militantes da VPR morreram em um tiroteio com
agentes da repressão, liderados pelo delegado Fleury. Posteriormente, o caso
ficou amplamente conhecido como o “Massacre da Chácara de São Bento”.
De
acordo com o relatório, após a operação que resultou nas mortes dos seis
militantes, Anselmo foi retirado do Nordeste e transferido para São Paulo
porque estaria “profundamente chocado pela morte de sua Sol”. Foi então que ele
recebeu nova documentação com identidade falsa, foi submetido a uma cirurgia
plástica que alterou sua fisionomia e teve sua reinserção garantida por meio de
um emprego, “reorganizando sua vida legal”.
Anselmo,
no chamado “Relatório de Paquera” — documento produzido por ele para abastecer
a repressão com informações sobre militantes no exterior —, menciona Soledad ao
fazer um pedido sobre seu destino. Segundo o livro O Massacre da Granja São
Bento, ele registrou: “Se possível, desejar que a sua solução final fosse a
expulsão do Brasil, ou pelo menos não fosse extrema”.
Por
fim, o relatório descreve que, após a operação em Recife, ou seja, o massacre
dos seis militantes, Anselmo continuou colaborando com o CIE, dando aulas para
a formação de novos agentes.
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Infiltrado midiático
Diferente
de Etchegoyen, reservado e avesso à imprensa, o cabo Anselmo cultivava uma
imagem pública e se deixava levar pelo próprio ego. Nunca passou de soldado, a
patente de cabo foi atribuída erroneamente pela imprensa, que confundiu as
marcas em seu uniforme da Marinha, erro que acabaria se consolidando. Ainda
jovem, destacou-se como um dos principais líderes da Revolta dos Marinheiros,
estopim para o golpe de 1964.
Preso
pela primeira vez naquele contexto, conseguiu fugir e passou a integrar
organizações de resistência ao regime militar, como a Vanguarda Popular
Revolucionária (VPR), além de ter passagem pelo Movimento Nacionalista
Revolucionário (MNR), no exílio. Anos depois, em 1971, de volta ao Brasil após
um período de treinamento em Cuba, foi novamente capturado, desta vez pela
ditadura militar que, na ocasião, estava sob a presidência do general Emílio
Garrastazu Médici. Anselmo, após ter sido preso, trocou de lado, traiu os seus
companheiros de luta e acabou se tornando um dos mais conhecidos informantes da
repressão.
Segundo
relatos de ex-companheiros de militância reunidos no documentário Em Busca de
Anselmo, o cabo também chegou a conceder entrevistas a jornais durante sua
passagem por Cuba. Após trair os grupos de esquerda e atuar como infiltrado —
entregando militantes à repressão, o que resultou em prisões e mortes,
incluindo colegas do tempo da Marinha e sua própria companheira, Soledad
Barrett Viedma —, recebeu salário pelo trabalho como infiltrado, foi submetido
a uma cirurgia plástica custeada pelo regime e passou a usar documentos falsos,
o que lhe permitiu seguir a vida sob nova identidade.
Com o
fim da ditadura, voltou a dar entrevistas e apresentou versões distintas sobre
sua atuação: em uma delas, afirmava ter se oferecido voluntariamente ao regime;
em outra, corroborada por documentos mantidos por Cyro Etchegoyen e por
depoimentos de ex-presos políticos, indicava que passou a trabalhar para a
repressão após ser preso e torturado pela equipe do delegado Sérgio Paranhos
Fleury, um dos principais nomes da repressão política em São Paulo, associado a
práticas de tortura e execução de opositores do regime. Nascido em Itaporanga
d’Ajuda, em Sergipe, Anselmo morreu, em 2022, aos 80 anos, em um hospital de
Jundiaí, em decorrência de uma infecção renal.
Fonte:
ICL Notícias

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