O
alerta de especialistas em calor sobre proibição de garrafas de água nos jogos
da Copa
A Fifa
foi alertada por especialistas em calor de que está colocando a saúde dos
torcedores em risco ao proibir garrafas nos estádios da Copa do Mundo 2026, que
será realizada nos Estados Unidos, Canadá e México a partir de 11 de junho.
Os
torcedores não poderão levar garrafas reutilizáveis de água para os estádios
por questões de segurança, informou a Fifa em uma alteração recente de sua
política.
O
código de conduta oficial dos estádios afirmava anteriormente: "Para
evitar dúvidas, garrafas plásticas vazias, transparentes e reutilizáveis, com
capacidade de até 1 litro, podem ser levadas ao estádio."
Mas,
sete dias antes do início do torneio, garrafas — juntamente com copos, potes e
latas — foram proibidas, com a Fifa dizendo que isso reduzirá o risco de
ferimentos causados por torcedores que atirem objetos.
"A
Fifa está comprometida em proteger a saúde e a segurança de todos os jogadores,
árbitros, torcedores, voluntários e funcionários", disse o órgão dirigente
mundial do futebol em um comunicado.
Os
torcedores poderão comprar água dentro do estádio, e a Fifa prometeu não cobrar
acima dos preços habituais do local.
Mas
especialistas em calor criticaram a mudança.
"Esta
decisão claramente aumentará o risco de incidentes de saúde relacionados ao
calor", declarou Ollie Jay, professor de calor e saúde na Universidade de
Sydney, na Austrália.
Em
maio, cientistas enviaram uma carta para Fifa afirmando que as medidas de
segurança contra o calor para o torneio são "inadequadas", já que as
temperaturas em 14 das 16 cidades-sede devem ultrapassar níveis perigosos.
Em
comunicado, a Fifa disse que "trabalha em estreita colaboração com cada
comitê de cidade-sede e autoridades locais em fatores de mitigação do calor
para torcedores que se deslocam ao estádio, o que pode incluir recursos como
estações de nebulização [que emite vapor ou uma fina névoa de água para
refrescar o ambiente], ventiladores, pontos de hidratação, tendas de
resfriamento e outros ao redor do perímetro do estádio."
"Dentro
do perímetro do estádio, os preços das garrafas de água para a Copa do Mundo
FIFA 2026 permanecerão consistentes com outros eventos realizados em cada
estádio."
A
mudança de política ocorre em meio a reclamações de que os torcedores estão
sendo afetados por preços de ingressos "extorsivos" e tarifas de trem
inflacionadas.
Os
torcedores também foram impedidos de levar garrafas aos estádios na última Copa
do Mundo, no Catar, em 2022.
O grupo
de torcedores ingleses Free Lions classificou a medida como uma "mudança
estranha e tardia".
Em um
comunicado publicado na plataforma X, acrescentou: "Em todas as nossas
discussões, a disponibilidade de água gratuita nos estádios era um ponto-chave
e recebemos garantias da Fifa de que esse seria o caso e de que os torcedores
teriam a possibilidade de levar sua própria garrafa de água."
"Naturalmente,
o pensamento imediato dos torcedores é que isso é apenas mais uma forma de
arrecadar dinheiro. Com o calor que haverá nos estádios, muitos ao ar livre,
deixem os torcedores levarem uma garrafa se quiserem", segue o comunicado.
"Esperamos
que os bebedouros nos estádios continuem sendo gratuito."
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'Defesa básica contra os riscos do calor extremo'
A Fifa
respondeu às preocupações com a segurança de jogadores no calor introduzindo um
intervalo de hidratação de três minutos em cada tempo para todos os jogos do
torneio.
Mas
Ollie Jay, da Universidade de Sydney, na Austrália, diz estar mais preocupado
com o bem-estar dos espectadores do que com o dos jogadores.
"Se
você observar os atletas, todos são muito condicionados fisicamente", diz
Jay.
"Já
se você pensar nos espectadores, há uma ampla gama de pessoas que estarão
presentes, desde crianças pequenas até idosos, pessoas com doenças crônicas,
pessoas que tomam diferentes tipos de medicamentos — tudo isso resulta em
diferentes níveis de sensibilidade ao calor."
"O
espectador médio provavelmente será menos resiliente ao calor do que esses
atletas profissionais altamente preparados", completa Jay.
O
pesquisador alerta que o estresse térmico pode se acumular progressivamente à
medida que os torcedores são expostos ao calor em seu trajeto até o jogo,
correndo o risco de chegar ao estádio já em estado de desidratação.
Não é
apenas a temperatura que deve preocupar, acrescenta Jay.
"Se
você pensar no espectador médio sentado em uma área confinada, cercado por
muitas outras pessoas, ele estará sob luz solar direta. Pode estar úmido. O
fluxo de ar pode ser limitado", afirma.
"E,
portanto, a quantidade de estresse térmico que o corpo terá de suportar pode
ser bastante significativa."
Em
maio, Jay foi um dos 20 especialistas que assinaram a carta aberta à Fifa
alertando que as diretrizes deixavam os jogadores em risco de danos graves.
Planos
de sistemas de nebulização e áreas sombreadas foram considerados
"inadequados" — e Jay afirma que a proibição de garrafas agrava ainda
mais o risco para os torcedores.
O
cientista climático Theodore Keeping, do Imperial College London, autor de um
estudo do grupo de pesquisa World Weather Attribution sobre segurança térmica
no torneio, destacou a importância do acesso à água.
"Permitir
acesso justo e equitativo à hidratação é uma primeira defesa básica contra os
riscos do calor extremo que a mudança climática está trazendo para esta Copa do
Mundo", disse Keeping.
Andrew
Simms, do centro de pesquisas New Weather Institute, lembrou que a Copa de 2026
tem a petroleira saudita Saudi Aramco entre seus patrocinadores, ao criticar a
postura da Fifa.
"A
Fifa já está realizando a Copa do Mundo mais poluente de todos os tempos,
patrocinada por uma das petroleiras mais poluidoras do mundo, e possui
protocolos de segurança contra o calor duramente criticados por especialistas
em saúde", diz Simms.
"Agora,
tornar ainda mais difícil para os torcedores se manterem seguros em uma
competição vulnerável ao aquecimento global parece ser uma rejeição imprudente
do dever de cuidado da Fifa."
Fonte:
BBC Sports

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