Vladimir
Mendoza Manjón: A revolta boliviana pode abrir caminhos
Rodrigo
Paz assumiu o Poder Executivo no final de 2025, após vencer o segundo turno com
54% dos votos contra Tuto Quiroga, o candidato das elites econômicas e da
grande mídia. Essa façanha eleitoral foi possível porque Paz e seu candidato a
vice-presidente receberam o apoio de setores populares que antes se
concentravam “em bloco” no outrora poderoso Movimento ao Socialismo (MAS).
Paz vem
de uma tradição em que a acumulação de poder é o único propósito da política,
então seu instinto o impeliu a adotar posições de centro. Ele elaborou
cuidadosamente cada slogan de campanha para se diferenciar das narrativas da
extrema-direita e se esforçou para se conectar com o senso comum da classe
trabalhadora. Ele aproveitou essa oportunidade excepcional para chegar ao
Palácio Presidencial e se tornou uma alternativa para as massas trabalhadoras e
camponesas para bloquear o caminho da extrema-direita.
<><>
Rodrigo Paz e a agenda de Trump
Aintervenção
militar e o sequestro do presidente da Venezuela, as agressões contínuas contra
Cuba, as intervenções flagrantes no processo eleitoral de Honduras e os
resgates financeiros ao governo subserviente da Argentina posicionam o governo
dos EUA como um fator determinante na atual conjuntura latino-americana.
A
intervenção da Casa Branca na política boliviana tornou-se pública desde meados
de 2025, quando foram organizadas amplas reuniões entre instituições
financeiras internacionais, empresários do setor privado, operadores políticos
de extrema-direita e todos os candidatos de centro-direita, incluindo Rodrigo
Paz, para chegar a um acordo sobre uma nova agenda de governo.
Logo
que assumiu o cargo, Paz formou um gabinete com quadros neoliberais dos
partidos tradicionais, destituiu seu vice-presidente (suspeito de ter certa
sensibilidade em relação aos setores populares) com regulamentações
inconstitucionais, distanciou-se dos presidentes progressistas da região e
juntou-se, ao lado de Milei e Bukele, ao grupo de governos dispostos a
viabilizar a Estratégia de Segurança Nacional de Donald Trump no continente.
Em
dezembro, o governo iniciou seu mandato com um Decreto Supremo que, além de
instaurar um “gasolinazo” — um aumento de 100% nos preços dos
combustíveis —, promoveu reformas tributárias regressivas e transferências
“expressas” de recursos naturais para empresas transnacionais. Isso representou
uma mudança completa na política econômica que, na prática, modificou
disposições constitucionais.
A
Central Obrera Boliviana (COB) respondeu imediatamente, lançando uma
mobilização que durou até meados de janeiro de 2026, expondo com sucesso o
caráter antinacional do decreto governamental. A incorporação das comunidades
camponesas na luta, utilizando seu método de bloqueio de estradas, acabou por
inclinar a balança a favor do movimento popular, forçando Rodrigo Paz a revogar
seu decreto, com exceção do aumento do preço dos combustíveis.
Após
essa derrota política, as táticas de Paz permaneceram inalteradas. Ele redobrou
seus esforços para consolidar as forças disponíveis e garantir sua capacidade
de governar. Aprofundou sua subserviência a Trump ao assinar um memorando para
a transferência de lítio e minerais de terras raras e abrir caminho para as
operações da Administração de Repressão às Drogas (DEA); iniciou um processo
compulsivo de endividamento (em seis meses de seu governo, a dívida aumentou de
6 para 14 bilhões de dólares) para garantir a submissão do Estado às políticas
econômicas de organizações supranacionais dependentes do imperialismo. Paz e
toda a direita boliviana têm fé cega de que o alinhamento absoluto com os EUA
lhes proporcionará a relativa governabilidade de que desfrutavam nas décadas de
1980 e 1990. Simultaneamente, o governo busca alcançar uma maioria parlamentar
estabelecendo uma coalizão de fato com outros partidos de direita, sem ainda
ter conseguido aprovar quaisquer reformas significativas. Eles conseguiram dar mais
um sinal de boa vontade para com os interesses dos grupos empresariais,
aprovando a Lei 1720, um mecanismo legal para promover a desapropriação de
pequenas propriedades agrícolas de famílias camponesas e a maior acumulação em
favor dos latifundiários.
Esses
eventos explicam em grande parte a revolta popular que atualmente assola o
país. O Estado Plurinacional da Bolívia, estabelecido em 2009, representa
principalmente um Estado que apropria-se do excedente produzido e distribui a
riqueza social; também implica a participação dos povos indígenas por meio de
sua própria representação nas instituições. Ambas as conquistas, obtidas por
meio de grandes lutas que marcaram pontos de virada na história do país, estão
agora ameaçadas de serem apagadas pelo governo Paz.
<><>
Crise de Estado
A Bolívia
era conhecida há muito tempo por sua instabilidade política crônica. Seu
aparato estatal, longe de desempenhar um papel na união da sociedade como um
todo, funcionava como instrumento de uma das facções envolvidas em conflitos
perpétuos. Em sua história de levantes populares e golpes militares, apenas o
período de 2005 a 2019 pode ser considerado uma relativa exceção. É claro que
houve conflitos, gerados não por movimentos de massa, mas pelas classes com
poder econômico e midiático — ou seja, as minorias sociais. Indicadores de
estabilidade política surgiram com o estabelecimento de um novo regime, o
Estado Plurinacional, baseado em dois pilares fundamentais: a participação
direta do movimento indígena-camponês no poder político e a expansão dos direitos
sociais graças às receitas do gás.
As
eleições de 2025 resultaram na vitória de um governo cujo programa visa
desmantelar os dois pilares do Estado. A participação indígena tem sido
proibida e ridicularizada de diversas maneiras, inclusive nas recentes eleições
subnacionais, nas quais o candidato do partido governista foi declarado
“vencedor” na disputa pelo governo de La Paz sem segundo turno.
Simultaneamente, a agenda do governo de Rodrigo Paz mina aspectos sensíveis da
legitimidade do Estado: corta projetos de desenvolvimento rural e deteriora
rapidamente a qualidade de vida da grande maioria da população. Em suma, as
políticas do governo representam uma contrarreforma oligárquica e antipopular
do Estado.
Por sua
vez, o levante popular em curso busca deter a agenda neoliberal do trumpismo
boliviano, daí sua forma de greve política em massa. Rosa Luxemburgo usou esse
termo para descrever explosões sociais que combinam demandas econômicas e
políticas. O slogan “Fora Rodrigo Paz”, entoado em bloqueios camponeses e
manifestações operárias, propõe uma solução política para a crise por meio da
convocação de novas eleições nacionais e está ligado a uma forte rejeição ao
programa de isenções fiscais e privatizações do governo atual.
A
exigência da renúncia do presidente e a rejeição do programa econômico de
direita são os dois pilares do movimento social. Há, contudo, uma clara
desconexão entre eles. Afinal, a aversão das massas à agenda neoliberal ainda
não se traduziu em um programa alternativo enraizado em suas organizações.
Somente uma combinação de ambos os fatores — representação política emanada das
massas com uma agenda econômica de reformas progressistas — poderia constituir
uma alternativa política viável que, caso sucedesse a direita no governo, teria
uma governabilidade plausível.
<><>
Perspectivas de revolta popular
As
mobilizações populares começaram no final de abril e, na última semana de maio,
demonstram grande vigor. Suas linhas de frente são os bloqueios de estradas,
combinados com incursões maciças de pessoas que inundam a cidade de La Paz e
frustram qualquer tentativa de repressão por parte da polícia e das forças
armadas. Nos últimos dias, a luta se espalhou para além de La Paz, atingindo
áreas rurais de outros departamentos, como Potosí, Cochabamba, Chuquisaca e
Santa Cruz. Atualmente, existem sessenta bloqueios de estradas, a maioria deles
localizada nos Andes ocidentais do país.
Ainda
assim, a luta não ganhou força suficiente para derrubar o governo de Paz e
forçar sua renúncia. Sua fragilidade fundamental reside nas cidades. Apenas El
Alto, a capital aimará, contribuiu com contingentes significativos de bairros
operários e populares para reforçar a pressão; sindicatos e organizações
comunitárias em outras grandes cidades, como Cochabamba e Santa Cruz, ainda não
aderiram ao movimento. A direita reacionária está explorando essa fragilidade
para organizar pequenos protestos contra os bloqueios de estradas, exigindo a
repressão sangrenta dos manifestantes pelo governo, e sua voz é amplificada por
seu aparato midiático. Preso entre a pressão da extrema direita e a luta
popular, o governo de Rodrigo Paz optou, em grande parte, por esperar que os
bloqueios se dissipem, confiando que os objetivos maximalistas da mobilização
social só poderão ser alcançados se a revolta se transformar em um furacão que
varra tudo. Caso contrário, acredita o governo, os combatentes serão forçados a
recuar e enfrentarão uma possível desmoralização.
O
governo se apega a uma possibilidade realista: em contextos tão tensos quanto o
da Bolívia, convulsões abruptas e imprevisíveis podem ocorrer, desencadeadas
por situações contingentes. Esse, porém, não é o seu maior problema. Não há
melhor exemplo da ruína do pragmatismo político do que o atual governo
boliviano. Todo o seu modus operandi, da campanha eleitoral até o presente,
colocou o governo de Rodrigo Paz em um campo minado. Ele é incapaz de chegar a
acordos que apaziguem a mobilização social, pois isso o forçaria a assumir
compromissos estratégicos (como não emendar a Constituição e abster-se de
privatizar empresas e recursos, por exemplo). A natureza política do presidente
o levaria a assinar tais compromissos apenas para desrespeitá-los no dia seguinte,
como vem fazendo: ele continuaria consumindo a pouca credibilidade que lhe
resta em tempo recorde e correndo o risco de enfrentar novamente a fúria das
barricadas. O governo se colocou em uma situação em que cumprir suas obrigações
para com aqueles que o levaram ao poder significa decepcionar a oligarquia e
Trump, e vice-versa.
O
desafio para o movimento popular reside em superar o desenvolvimento desigual
de sua subjetividade política. Nele coexistem posições muito diversas: dos
radicais, que se recusam a fazer concessões até a renúncia do presidente; aos
que aceitariam compromissos intermediários; setores que, rejeitando a
mobilização “política”, aceitam uma que levante demandas “econômicas”; e,
finalmente, um amplo segmento que, apesar do descontentamento com o governo e a
situação do país, atualmente não tem intenção de se juntar à luta. Esse
desenvolvimento desigual ocorre em meio a contradições e tensões internas nas
organizações de base. Superar essas tensões para construir uma perspectiva
política nacional é uma tarefa incontornável (como ocorreu durante o ciclo de
lutas de 2000 a 2005, quando se forjou a chamada “Agenda de Outubro”, cujos
princípios centrais eram a nacionalização do gás e a convocação de uma
Assembleia Constituinte). Nessa tarefa, o papel da esquerda e dos ativistas
sociais é crucial.
¨
Trump entra na disputa eleitoral colombiana e Petro
rebate: “não somos colônia”
O
presidente da Colômbia, Gustavo Petro, respondeu de forma
enérgica nesta terça-feira (2) às ingerências e provocações de Donald Trump
contra a candidatura do senador Iván Cepeda, do Pacto Histórico
e da Aliança pela Vida, e em favor do milionário advogado de narcotraficantes
Abelardo de la Espriella.
“Quando
um país interfere nas decisões de outro, a liberdade morre. Convido toda a
Colômbia a votar livremente e a não se tornar escrava ou colônia de ninguém”,
afirmou Petro, recordando toda uma geração de jovens homens e mulheres que
lutou ao lado de Simón Bolívar e Antonio Nariño “para nos dar liberdade e
soberania”. “Se o coração do mundo perder sua liberdade e soberania, a
esperança do mundo e da Colômbia se extinguirá”, enfatizou.
O
vice-ministro das Relações Exteriores para Assuntos Multilaterais, Mauricio
Jaramillo Jassir, considerou a declaração de Trump “um ataque à Colômbia”. De
acordo com Jassir, o anúncio também representa uma agressão “às instituições,
ao povo e à soberania”.
Rechaçando
tamanha desfaçatez da extrema-direita, Cepeda tem condenado o intervencionismo
estrangeiro e frisado que “a Colômbia não é protetorado nem colônia”. Daí,
ressaltou o candidato das forças nacionalistas e progressistas, a importância
de estarmos unidos e mobilizados para derrotar o uribismo fascista, encarnado
em figuras abjetas como de la Espriella, que “representa a justificativa dos
piores crimes que foram perpetrados nas últimas décadas, não só o massacre de
jovens, a perseguição dos povos indígenas e o desprezo aos pobres, mas também
as políticas neoliberais que empobreceram milhões e, igualmente, a
criminalização dos diálogos de paz”.
“CEPEDA
TEM HISTÓRICO LIMPO E NACIONALISTA”, AFIRMOU EX-PRESIDENTE SAMPER
O
ex-presidente Ernesto Samper (1994-1998)
ridicularizou o respaldo de Trump à “imoral candidatura” de Abelardo de la
Espriella como “vulgar e inaceitável intervenção nos assuntos internos do
país”.
Integrante
da Aliança pela Vida, Samper recordou que “essa agressiva intromissão na
democracia colombiana, já repetida em diversos países da América Latina, deve
ser rejeitada por todos os colombianos nas próximas eleições, votando na defesa
da nossa soberania liderada por Iván Cepeda e seu histórico limpo e
nacionalista”.
Além da
interferência pública e notória no sistema midiático — seja através dos grandes
meios de comunicação ou da manipulação de fake news nas redes
sociais —, como comprovado pelo Hondurasgate, Trump desta vez decidiu dar os
“parabéns” a “El Tigre” (O Tigre), como se empenha em publicizar a figura de
Abelardo de la Espriella, “por sua vitória decisiva no primeiro turno das
eleições presidenciais colombianas”.
Segundo
Trump, reconhecido por sua imensa capacidade intelectual, “Abelardo é um líder
inteligente, forte e determinado”, que “luta incansavelmente por seu grande
país e seu povo”. Como presidente, disse, “teria enorme sucesso em liderar a
Colômbia rumo ao crescimento econômico, à criação de empregos, à promoção do
comércio, ao combate à imigração ilegal, à repressão ao crime e às drogas e à
restauração da lei e da ordem!”. De forma inédita, seria o primeiro advogado de
narcotraficantes que combateria seu próprio negócio e priorizaria seu país e
sua gente.
TRUMP:
“HONRADO EM CONCEDER APOIO TOTAL E IRRESTRITO A ABELARDO”
Em tom
alucinado, o chefe da Casa Branca alertou que “Abelardo enfrentará um marxista
de esquerda radical no segundo turno, em 21 de junho” e chantageou a todos,
lembrando que “os resultados desta eleição são muito importantes para o futuro
da Colômbia e para sua relação com os Estados Unidos”. “Devido às suas enormes
realizações na vida e ao seu apoio político pessoal” — o milionário é um
histórico colaborador do Partido Republicano, de Trump, além de cidadão
estadunidense —, “é uma honra conceder a Abelardo meu apoio total e
irrestrito”.
À la
Bolsonaro, o fantoche colombiano agradeceu emocionado nesta quarta-feira (3)
tão desinteressada manifestação, assegurando que “nos uniremos ao Escudo das
Américas” — coalizão militar e policial conjunta liderada pelos Estados Unidos
para frear a migração irregular, o suposto “tráfico” e a influência da China no
continente.
“Em
você, reconheço um líder de resolução inabalável, que não cede a modismos
ideológicos nem aos inimigos da liberdade”, escreveu de la Espriella — em
espanhol e inglês —, que tem nacionalidade estadunidense por ter morado 15 anos
no país. Conforme o candidato a títere, com Trump “compartilhamos a sagrada
defesa da propriedade privada e do livre comércio”.
“Defendemos
a liberdade, formamos uma frente unida contra o comunismo que busca envenenar
nossas repúblicas e nos uniremos à Aliança do Escudo das Américas para que a
estrela da liberdade jamais se apague neste hemisfério”, declarou em uma
mensagem acompanhada da imagem de um tigre ao lado de uma águia, símbolo do
imperialismo.
POPULAÇÃO
DESAPROVA INTROMISSÃO DOS ESTADOS UNIDOS
Nas
ruas de Bogotá, várias pessoas ouvidas pela reportagem criticaram duramente a
“intromissão de Trump”, por considerarem que “este é um papel que não lhe cabe,
principalmente pelo histórico de invasões e saques promovidos pelo país do
norte”. Como assinalou Luis Carlos Florez Oliveira, trabalhador da Ecopetrol,
“os Estados Unidos são um país estrangeiro que deve respeitar a soberania
colombiana e a dos demais”. “O que Trump quer é invadir países para roubar seu
petróleo e seu ouro, e isso não podemos permitir”, disse.
Para a
empresária hoteleira Diana Patricia Rojas, “Trump está fazendo uma pressão
política pelo candidato que mais lhe interessa”. “Por tudo o que já se conhece
de seu passado, Abelardo de la Espriella não é um sujeito em quem se possa
confiar. Não há por que Trump se imiscuir em algo que diz respeito somente ao
povo colombiano”, assinalou.
“A
soberania está no nosso marco constitucional e precisa ser respeitada.
Defendemos alianças, mas que tenham regras para melhorar a vida dos povos. O
que Trump fez na Venezuela ou as sanções adotadas há décadas contra Cuba deixam
claro que não estão pensando no que é melhor para a Colômbia, mas para suas
próprias empresas”, advertiu José Luis Galiodo, trabalhador de subsolo.
Para
Jhon Garrido Barros, servidor de entidades públicas de saúde, “a intromissão de
Trump é permanente em quase todos os países do mundo, porque sua economia está
em bancarrota e eles estão desesperados”. “A Colômbia é um país rico em água,
carvão e biodiversidade e, com Iván Cepeda, assim como foi com Petro, não
admitirá a ingerência em sua soberania. Por que Trump não vai à Rússia ou à
China questionar o modelo eleitoral deles? Porque sabe que são potências com
capacidade de reação política, econômica e militar”, respondeu.
Fonte: Tradução
Pedro Silva, para Jacobin Brasil/Diálogos do Sul Global

Nenhum comentário:
Postar um comentário