sábado, 6 de junho de 2026

Carlos Wagner: Lula marcou Flávio “na paleta” como traidor da pátria

Entre o fim da semana que passou e o início da atual não li, vi ou ouvi tudo que se publicou sobre a ida do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), 45 anos, à Casa Branca, a residência oficial do presidente dos Estados Unidos. Mas o que tomei conhecimento traz nas entrelinhas a mensagem que o senador pode ter problemas com eleitores e aliados nacionalistas. Pelo motivo que o governo marcou Flávio “na paleta”, um dito popular gaúcho que significa não deixar esquecer quem é responsável por uma situação. A história é a seguinte. O senador é pré-candidato a presidente da República e o seu principal adversário é o atual presidente, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), 80 anos, que concorre à reeleição. Os dois estavam empatados na disputa. Mas Flávio perdeu cinco pontos nas pesquisas eleitorais depois que o site The Intercept Brasil revelou o conteúdo de uma conversa telefônica dele com o ex-dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, 42 anos. Nela, o senador pede dinheiro a Vorcaro para financiar o filme Dark Horse, o Azarão, sobre a carreira política do seu pai, o ex-presidente da República Jair Bolsonaro (PL), 70 anos, que cumpre pena de 27 anos de prisão por seu envolvimento com uma tentativa de golpe de estado. Vorcaro está preso por fraudes financeiras que deram um prejuízo de R$ 50 bilhões ao sistema bancário nacional. Sobre as prisões há matérias na internet.

Eleitores e aliados políticos do senador não gostaram da sua ligação com o ex-banqueiro e começaram a se afastar, daí a sua queda nas pesquisas. Para estancá-la, os estrategistas da campanha de Flávio apontaram como solução pedir o apoio do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump (republicano), 79 anos, que tem simpatias pela família Bolsonaro. O senador conseguiu um encontro de cinco minutos e uma foto com Trump. Mas teve mais sucesso na reunião com o secretário de Estado, Marco Rubio, 55 anos, e com o vice-presidente, J.D. Vance, 41 anos. Eles anunciaram que no próximo dia 5 de junho as facções Primeiro Comando da Capital (PCC), nascida em São Paulo, e Comando Vermelho (CV), no Rio Janeiro, serão classificadas pelo governo americano como organizações terroristas internacionais. Quando assumiu o seu segundo mandato, em 20 de janeiro de 2025, Trump já havia falado sobre essa possibilidade. Estava só esperando uma oportunidade. Quando a oportunidade foi oferecida por Flávio, o governo americano aproveitou. Lula é contra porque considera que as duas organizações fazem parte do crime organizado e devem ser combatidas pela polícia. A classificação do PCC e CV como terroristas significa que instituições e empresas brasileiras, principalmente bancos, podem sofrer sanções econômicas e até que tropas americanas possam invadir o território brasileiro para realizar operações militares contra as duas facções – há abundância de matérias disponíveis na internet. Aqui é o seguinte. Um significativo contingente de eleitores bolsonaristas é formado por soldados, graduados e oficiais reformados das Forças Armadas, além de policiais civis e militares. Entre eles existem nacionalistas que não querem nem ouvir falar em invasão do território nacional por tropas estrangeiras ou coisa parecida. E ainda há a questão do agronegócio, onde a base eleitoral do bolsonarismo é imensa, dedicada e tem recursos financeiros. Não é segredo para ninguém que Brasil e Estados Unidos são duas potências no fornecimento de produtos agropecuários. E que existe uma competição muito acirrada entre os dois, especialmente para fornecer grãos e carnes para o maior comprador do mundo, a China. Andei ligando para entidades e fontes que tenho no agronegócio, muitas feitas durante a cobertura de conflitos agrários e na série de livros O Brasil de Bombachas, sobre o povoamento das fronteiras agrícolas pelos gaúchos e seus descendentes. O que ouvi deles é que estão temerosos sobre o que irá acontecer caso os Estados Unidos resolvam usar a história para se beneficiar na disputa pelos mercados agrícolas. Os produtores rurais americanos são um forte reduto eleitoral dos republicanos.

A maioria das reportagens e colunas políticas da imprensa vem focando no setor financeiro as suas avaliações sobre as consequências do enquadramento do PCC e do CV como organizações terroristas. Resumindo as avaliações: até o Pix pode ser prejudicado. Há mais um fato. A estratégia de Lula é fixar a imagem de Flávio como “traidor da pátria”. Enquanto Flávio procura se apresentar como o homem que resolveu um problema de segurança pública que o seu adversário não conseguiu em três mandatos. Procurei e encontrei umas poucas linhas sobre o que os grandes empresários, especialmente do varejo, estão pensando sobre o assunto. Vou lembrar aqui o que aprendemos sobre como funciona a cabeça do ex-presidente Bolsonaro durante o seu mandato (2019 – 2022). Bolsonaro não planeja nenhuma ação, ele age observando como as coisas estão acontecendo ao seu redor na hora de tomar a decisão. Tenho escrito que o ex-presidente não é um gênio na articulação política. Mas é muito bom na arte de sobreviver na disputa eleitoral. A maioria dos comentaristas políticos tem dito e escrito que o objetivo maior do ex-presidente nas próximas eleições é fazer uma grande bancada no Congresso e preservar o nome da família como referência de oposição. O bom desempenho de Flávio contra Lula nas pesquisas de intenção de voto ressuscitou o entusiasmo nos bolsonaristas de que podem chegar lá. O senador sobreviveu ao caso das suas ligações com Vorcaro. Como seus eleitores vão se comportar na história do enquadramento do PCC e CV como organizações terroristas pelo governo americano saberemos nas próximas pesquisas. Lula pretende encerrar sua carreira política com chave de ouro se elegendo presidente da República pela quarta vez. Já conversei com ele uma vez no interior de Ronda Alta, pequeno município agrícola do Rio de Grande do Sul. Atualmente, tenho amigos e colegas que trabalham próximos ao presidente. Lula é muito bom em resumir situações em poucas palavras, como a história de “traidor da pátria”.

Para arrematar a nossa conversa. Quem vai bater o martelo nessa questão é Trump. E não tem como prever o que ele fará. Pode inclusive “congelar a situação”. O governo Lula está trabalhando com a hipótese de que confirmará o enquadramento do PCC e do CV como organizações terroristas. E já colocou os seus negociadores em campo. Do lado de Flávio, as próximas pesquisas vão orientar o seu comportamento nessa questão. A imprensa está acompanhando a história online.

•        Traição, soberania e eleições. Por Paulo Cannabrava Filho

Flávio Bolsonaro declarou que solicitou ao presidente Donald Trump uma intervenção contra o Brasil durante visita realizada aos Estados Unidos na semana passada. A reação foi imediata. Em nota, o presidente Lula classificou como deplorável a articulação bolsonarista e afirmou que a soberania nacional é inegociável.

O episódio repercutiu como um escândalo político e ajudou a aquecer o debate sucessório a poucos meses das eleições gerais. Mais do que uma disputa entre governo e oposição, o caso recoloca uma questão fundamental: será que a população brasileira compreende plenamente o significado da soberania nacional? E mais: onde termina a divergência política legítima e começa aquilo que muitos interpretam como uma afronta aos interesses do próprio país?

A controvérsia ganhou força depois que Donald Trump classificou o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho como organizações terroristas. A medida abre espaço para a adoção de mecanismos normalmente utilizados pelos Estados Unidos contra grupos considerados ameaças à sua segurança nacional. Historicamente, a classificação de organizações como terroristas tem servido de fundamento para sanções econômicas, bloqueios financeiros, operações internacionais e outras formas de intervenção além das fronteiras estadunidenses.

Não se trata de uma hipótese abstrata. Com esse mesmo pretexto de combate ao terrorismo e ao narcotráfico, os Estados Unidos intervieram na Venezuela, capturando o presidente Nicolás Maduro e sua esposa, Cilia Flores, transferidos à força para território estadunidense para responder a acusações de narcoterrorismo. Sob justificativa semelhante, Washington vem realizando operações militares no Caribe e no Pacífico, incluindo ataques e afundamento de embarcações apontadas como ligadas ao tráfico internacional. Para seus críticos, trata-se de ações que extrapolam a cooperação internacional e colocam em xeque a soberania dos países envolvidos.

É justamente nesse ponto que surge a questão central. PCC e Comando Vermelho são organizações mafiosas transnacionais voltadas para atividades criminosas e para a obtenção de lucro. Seu objetivo é econômico. Não buscam conquistar o poder político nem promover ações de caráter ideológico ou religioso, elementos tradicionalmente associados ao terrorismo. O Brasil possui legislação específica para combater o terrorismo, e essas organizações não se enquadram nessa definição, uma vez que sua finalidade é essencialmente econômica.

Isso não significa minimizar a gravidade do problema. O crime organizado expandiu-se para além das fronteiras nacionais, atua em mais de 20 países e movimenta recursos que rivalizam com o poder econômico de muitos Estados. Mas, justamente por isso, o enfrentamento exige cooperação internacional entre Estados soberanos, troca de informações de inteligência, coordenação policial e acordos multilaterais, e não ameaças ou intervenções unilaterais.

Se os Estados Unidos estão realmente preocupados com o avanço dessas organizações, o caminho adequado é a cooperação com o Brasil. Também seria oportuno enfrentar problemas que alimentam o crime organizado em escala global, como o tráfico internacional de drogas, armas e recursos financeiros. Combater o crime é uma necessidade comum; colocar em xeque a soberania de outro país é uma questão inteiramente diferente.

No Brasil, quem frequentemente impõe o terror cotidiano sobre comunidades inteiras são as milícias, organizações que exercem controle territorial armado e submetem populações à violência permanente. Ainda assim, trata-se de um problema cuja solução cabe às instituições brasileiras.

O aspecto mais importante dessa controvérsia talvez seja outro. Ela recolocou na agenda nacional uma discussão que há muito tempo deixou de ocupar lugar central no debate público: a soberania.

Soberania não é um conceito abstrato nem uma palavra vazia utilizada em discursos oficiais. Ela aparece inúmeras vezes na Constituição e se manifesta na capacidade do Estado de proteger seu território, suas riquezas e sua população. Manifesta-se na soberania alimentar, na soberania energética, na soberania cultural, científica e tecnológica. Manifesta-se, sobretudo, na capacidade de decidir autonomamente os rumos da política econômica nacional.

Falar em soberania também significa discutir a capacidade de o país definir seu projeto de desenvolvimento sem subordinação a interesses externos ou à ditadura do pensamento único imposta pelo capital financeiro globalizado.

Ao comentar o episódio, Lula afirmou: “Não tem vergonha na cara de trair a nossa pátria e ir aos Estados Unidos pedir intervenção americana no Brasil”.

A lembrança histórica é inevitável. Joaquim Silvério dos Reis ficou conhecido por denunciar os participantes da Inconfidência Mineira, movimento independentista do final do século 18. Seu nome atravessou os séculos como símbolo da traição aos ideais de autonomia nacional. A comparação, evidentemente, faz parte da disputa política contemporânea, mas demonstra a força simbólica que o tema da soberania ainda possui no imaginário brasileiro.

Lula também destacou a aprovação da lei de combate às facções criminosas e defendeu a aprovação da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) da Segurança Pública como instrumento para fortalecer o enfrentamento ao crime organizado.

Em contraste, os governadores e pré-candidatos presidenciais Ronaldo Caiado e Romeu Zema manifestaram apoio à posição de Trump, evidenciando que o tema deverá ocupar espaço relevante na disputa eleitoral.

O debate está aberto. E isso é positivo. Independentemente das posições partidárias, o país precisa voltar a discutir seriamente o significado da soberania nacional.

Mas a soberania não se limita à defesa das fronteiras ou à rejeição de ingerências estrangeiras. Uma nação soberana é aquela que tem capacidade de decidir seu próprio destino econômico, controlar seus recursos estratégicos, desenvolver sua ciência e tecnologia, garantir a segurança alimentar de seu povo e definir, sem tutela externa, os rumos do seu desenvolvimento.

O verdadeiro desafio brasileiro vai além da disputa eleitoral de momento. Trata-se de construir um projeto nacional capaz de libertar o país da dependência financeira, reduzir desigualdades, fortalecer a produção, gerar emprego de qualidade e assegurar autonomia diante das pressões das grandes potências e dos interesses do capital financeiro internacional.

A soberania, em última instância, é o direito de um povo escolher seu próprio caminho. E essa é uma discussão que o Brasil já adiou por tempo demais.

•        Trump usa os Bolsonaros para atacar o Pix e pressionar a soberania financeira do Brasil

Quando o governo Donald Trump decidiu incluir o Pix entre os alvos de sua investigação comercial contra o Brasil, muita gente se perguntou por que um sistema de pagamentos criado pelo Banco Central brasileiro despertaria tamanho interesse em Washington.

A resposta passa por dinheiro, tecnologia, poder e política.

Oficialmente, os Estados Unidos alegam que o Pix representa uma prática comercial desleal porque é um sistema desenvolvido e operado pelo Estado brasileiro. Na visão do Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR), o governo estaria promovendo um serviço público que competiria com empresas privadas do setor de pagamentos.

Mas especialistas ouvidos pela BBC e por diversos veículos internacionais afirmam que o verdadeiro problema é outro: o Pix se tornou uma das experiências mais bem-sucedidas do mundo em pagamentos digitais e passou a ameaçar modelos de negócios extremamente lucrativos dominados por empresas estadunidenses.

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Lançado em 2020 pelo Banco Central, o Pix rapidamente se transformou no principal meio de pagamento do país. Hoje, mais de 160 milhões de brasileiros utilizam o sistema. Bilhões de transações são realizadas todos os meses sem cobrança de tarifas para pessoas físicas e com custos muito inferiores aos praticados por cartões de crédito, cartões de débito e intermediários financeiros tradicionais.

O sucesso do Pix mudou radicalmente o mercado.

Antes dele, cada pagamento eletrônico dependia de uma cadeia de intermediários formada por bancos, bandeiras de cartão, adquirentes e empresas de processamento. Cada etapa gerava taxas e receitas.

O Pix reduziu drasticamente esse custo.

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Na prática, ele demonstrou que é possível criar uma infraestrutura pública de pagamentos eficiente, instantânea e praticamente gratuita.

É justamente isso que incomoda.

Empresas estadunidenses como Apple Pay, Google Pay, PayPal e WhatsApp Pay operam modelos baseados na intermediação financeira. Embora continuem atuando livremente no Brasil, passaram a disputar espaço com um sistema estatal que oferece uma alternativa mais barata e acessível.

O Pix não proibiu a concorrência. Não expulsou empresas estrangeiras. Não criou reserva de mercado.

Mas mudou as regras do jogo.

Para especialistas em economia digital, o caso lembra o que ocorreu em outros setores quando governos criaram infraestruturas públicas capazes de competir com monopólios privados. O problema para essas empresas não é a existência do Pix. O problema é o sucesso do Pix.

A questão se torna ainda mais relevante porque o Banco Central pretende ampliar o sistema.

O chamado Pix Automático permitirá pagamentos recorrentes sem necessidade de cartão de crédito. Já o Pix por aproximação concorrerá diretamente com sistemas como Apple Pay e Google Pay.

Além disso, o Brasil avança em projetos ligados ao Open Finance e à digitalização do sistema financeiro, consolidando um modelo que reduz a dependência das grandes plataformas internacionais.

Para gigantes do Vale do Silício, o risco é que o exemplo brasileiro seja copiado por outros países.

Se governos passarem a desenvolver sistemas públicos de pagamento eficientes, baratos e interoperáveis, uma parcela importante das receitas hoje concentradas em empresas privadas poderá desaparecer.

A acusação formal fala em concorrência desleal.

A disputa real parece envolver a defesa dos interesses econômicos de empresas que perderam espaço diante de uma inovação pública brasileira.

Mas a ofensiva contra o Pix ocorre em um momento em que o grupo político de Flávio Bolsonaro intensificou sua aproximação com o governo Trump e passou a defender abertamente ações americanas contra o Brasil.

Já Eduardo Bolsonaro tornou-se uma das principais vozes da campanha internacional contra as instituições brasileiras. Nos últimos meses, ele passou a defender sanções contra ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) e a buscar apoio político junto ao governo republicano.

Em uma das declarações que mais repercutiram, Eduardo afirmou que estava disposto a fazer do Brasil “terra arrasada” caso isso contribuísse para atingir seus objetivos políticos.

É justamente por isso que a disputa em torno do Pix deixou de ser apenas uma discussão técnica sobre meios de pagamento. Ela passou a simbolizar um conflito maior.

De um lado, um governo estrangeiro que busca defender interesses geopolíticos e corporativos de empresas estadunidenses.

Do outro, um sistema brasileiro que se tornou referência mundial em inovação financeira.

E, no meio dessa batalha, uma família política que aposta na pressão de Washington contra o próprio país como instrumento de luta interna.

 

Fonte: Observatório da Imprensa/Diálogos do Sul Global/DCM

 

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