Carlos
Wagner: Lula marcou Flávio “na paleta” como traidor da pátria
Entre o
fim da semana que passou e o início da atual não li, vi ou ouvi tudo que se
publicou sobre a ida do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), 45 anos, à Casa
Branca, a residência oficial do presidente dos Estados Unidos. Mas o que tomei
conhecimento traz nas entrelinhas a mensagem que o senador pode ter problemas
com eleitores e aliados nacionalistas. Pelo motivo que o governo marcou Flávio
“na paleta”, um dito popular gaúcho que significa não deixar esquecer quem é
responsável por uma situação. A história é a seguinte. O senador é
pré-candidato a presidente da República e o seu principal adversário é o atual
presidente, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), 80 anos, que concorre à reeleição.
Os dois estavam empatados na disputa. Mas Flávio perdeu cinco pontos nas
pesquisas eleitorais depois que o site The Intercept Brasil revelou o conteúdo
de uma conversa telefônica dele com o ex-dono do Banco Master, Daniel Vorcaro,
42 anos. Nela, o senador pede dinheiro a Vorcaro para financiar o filme Dark
Horse, o Azarão, sobre a carreira política do seu pai, o ex-presidente da
República Jair Bolsonaro (PL), 70 anos, que cumpre pena de 27 anos de prisão
por seu envolvimento com uma tentativa de golpe de estado. Vorcaro está preso
por fraudes financeiras que deram um prejuízo de R$ 50 bilhões ao sistema
bancário nacional. Sobre as prisões há matérias na internet.
Eleitores
e aliados políticos do senador não gostaram da sua ligação com o ex-banqueiro e
começaram a se afastar, daí a sua queda nas pesquisas. Para estancá-la, os
estrategistas da campanha de Flávio apontaram como solução pedir o apoio do
presidente dos Estados Unidos, Donald Trump (republicano), 79 anos, que tem
simpatias pela família Bolsonaro. O senador conseguiu um encontro de cinco
minutos e uma foto com Trump. Mas teve mais sucesso na reunião com o secretário
de Estado, Marco Rubio, 55 anos, e com o vice-presidente, J.D. Vance, 41 anos.
Eles anunciaram que no próximo dia 5 de junho as facções Primeiro Comando da
Capital (PCC), nascida em São Paulo, e Comando Vermelho (CV), no Rio Janeiro,
serão classificadas pelo governo americano como organizações terroristas
internacionais. Quando assumiu o seu segundo mandato, em 20 de janeiro de 2025,
Trump já havia falado sobre essa possibilidade. Estava só esperando uma
oportunidade. Quando a oportunidade foi oferecida por Flávio, o governo
americano aproveitou. Lula é contra porque considera que as duas organizações
fazem parte do crime organizado e devem ser combatidas pela polícia. A
classificação do PCC e CV como terroristas significa que instituições e
empresas brasileiras, principalmente bancos, podem sofrer sanções econômicas e
até que tropas americanas possam invadir o território brasileiro para realizar
operações militares contra as duas facções – há abundância de matérias
disponíveis na internet. Aqui é o seguinte. Um significativo contingente de eleitores
bolsonaristas é formado por soldados, graduados e oficiais reformados das
Forças Armadas, além de policiais civis e militares. Entre eles existem
nacionalistas que não querem nem ouvir falar em invasão do território nacional
por tropas estrangeiras ou coisa parecida. E ainda há a questão do agronegócio,
onde a base eleitoral do bolsonarismo é imensa, dedicada e tem recursos
financeiros. Não é segredo para ninguém que Brasil e Estados Unidos são duas
potências no fornecimento de produtos agropecuários. E que existe uma
competição muito acirrada entre os dois, especialmente para fornecer grãos e
carnes para o maior comprador do mundo, a China. Andei ligando para entidades e
fontes que tenho no agronegócio, muitas feitas durante a cobertura de conflitos
agrários e na série de livros O Brasil de Bombachas, sobre o povoamento das
fronteiras agrícolas pelos gaúchos e seus descendentes. O que ouvi deles é que
estão temerosos sobre o que irá acontecer caso os Estados Unidos resolvam usar
a história para se beneficiar na disputa pelos mercados agrícolas. Os
produtores rurais americanos são um forte reduto eleitoral dos republicanos.
A
maioria das reportagens e colunas políticas da imprensa vem focando no setor
financeiro as suas avaliações sobre as consequências do enquadramento do PCC e
do CV como organizações terroristas. Resumindo as avaliações: até o Pix pode
ser prejudicado. Há mais um fato. A estratégia de Lula é fixar a imagem de
Flávio como “traidor da pátria”. Enquanto Flávio procura se apresentar como o
homem que resolveu um problema de segurança pública que o seu adversário não
conseguiu em três mandatos. Procurei e encontrei umas poucas linhas sobre o que
os grandes empresários, especialmente do varejo, estão pensando sobre o
assunto. Vou lembrar aqui o que aprendemos sobre como funciona a cabeça do
ex-presidente Bolsonaro durante o seu mandato (2019 – 2022). Bolsonaro não
planeja nenhuma ação, ele age observando como as coisas estão acontecendo ao
seu redor na hora de tomar a decisão. Tenho escrito que o ex-presidente não é
um gênio na articulação política. Mas é muito bom na arte de sobreviver na
disputa eleitoral. A maioria dos comentaristas políticos tem dito e escrito que
o objetivo maior do ex-presidente nas próximas eleições é fazer uma grande
bancada no Congresso e preservar o nome da família como referência de oposição.
O bom desempenho de Flávio contra Lula nas pesquisas de intenção de voto
ressuscitou o entusiasmo nos bolsonaristas de que podem chegar lá. O senador
sobreviveu ao caso das suas ligações com Vorcaro. Como seus eleitores vão se
comportar na história do enquadramento do PCC e CV como organizações terroristas
pelo governo americano saberemos nas próximas pesquisas. Lula pretende encerrar
sua carreira política com chave de ouro se elegendo presidente da República
pela quarta vez. Já conversei com ele uma vez no interior de Ronda Alta,
pequeno município agrícola do Rio de Grande do Sul. Atualmente, tenho amigos e
colegas que trabalham próximos ao presidente. Lula é muito bom em resumir
situações em poucas palavras, como a história de “traidor da pátria”.
Para
arrematar a nossa conversa. Quem vai bater o martelo nessa questão é Trump. E
não tem como prever o que ele fará. Pode inclusive “congelar a situação”. O
governo Lula está trabalhando com a hipótese de que confirmará o enquadramento
do PCC e do CV como organizações terroristas. E já colocou os seus negociadores
em campo. Do lado de Flávio, as próximas pesquisas vão orientar o seu
comportamento nessa questão. A imprensa está acompanhando a história online.
• Traição, soberania e eleições. Por Paulo
Cannabrava Filho
Flávio
Bolsonaro declarou que solicitou ao presidente Donald Trump uma intervenção
contra o Brasil durante visita realizada aos Estados Unidos na semana passada.
A reação foi imediata. Em nota, o presidente Lula classificou como deplorável a
articulação bolsonarista e afirmou que a soberania nacional é inegociável.
O
episódio repercutiu como um escândalo político e ajudou a aquecer o debate
sucessório a poucos meses das eleições gerais. Mais do que uma disputa entre
governo e oposição, o caso recoloca uma questão fundamental: será que a
população brasileira compreende plenamente o significado da soberania nacional?
E mais: onde termina a divergência política legítima e começa aquilo que muitos
interpretam como uma afronta aos interesses do próprio país?
A
controvérsia ganhou força depois que Donald Trump classificou o Primeiro
Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho como organizações terroristas. A
medida abre espaço para a adoção de mecanismos normalmente utilizados pelos
Estados Unidos contra grupos considerados ameaças à sua segurança nacional.
Historicamente, a classificação de organizações como terroristas tem servido de
fundamento para sanções econômicas, bloqueios financeiros, operações
internacionais e outras formas de intervenção além das fronteiras
estadunidenses.
Não se
trata de uma hipótese abstrata. Com esse mesmo pretexto de combate ao
terrorismo e ao narcotráfico, os Estados Unidos intervieram na Venezuela,
capturando o presidente Nicolás Maduro e sua esposa, Cilia Flores, transferidos
à força para território estadunidense para responder a acusações de
narcoterrorismo. Sob justificativa semelhante, Washington vem realizando
operações militares no Caribe e no Pacífico, incluindo ataques e afundamento de
embarcações apontadas como ligadas ao tráfico internacional. Para seus
críticos, trata-se de ações que extrapolam a cooperação internacional e colocam
em xeque a soberania dos países envolvidos.
É
justamente nesse ponto que surge a questão central. PCC e Comando Vermelho são
organizações mafiosas transnacionais voltadas para atividades criminosas e para
a obtenção de lucro. Seu objetivo é econômico. Não buscam conquistar o poder
político nem promover ações de caráter ideológico ou religioso, elementos
tradicionalmente associados ao terrorismo. O Brasil possui legislação
específica para combater o terrorismo, e essas organizações não se enquadram
nessa definição, uma vez que sua finalidade é essencialmente econômica.
Isso
não significa minimizar a gravidade do problema. O crime organizado expandiu-se
para além das fronteiras nacionais, atua em mais de 20 países e movimenta
recursos que rivalizam com o poder econômico de muitos Estados. Mas, justamente
por isso, o enfrentamento exige cooperação internacional entre Estados
soberanos, troca de informações de inteligência, coordenação policial e acordos
multilaterais, e não ameaças ou intervenções unilaterais.
Se os
Estados Unidos estão realmente preocupados com o avanço dessas organizações, o
caminho adequado é a cooperação com o Brasil. Também seria oportuno enfrentar
problemas que alimentam o crime organizado em escala global, como o tráfico
internacional de drogas, armas e recursos financeiros. Combater o crime é uma
necessidade comum; colocar em xeque a soberania de outro país é uma questão
inteiramente diferente.
No
Brasil, quem frequentemente impõe o terror cotidiano sobre comunidades inteiras
são as milícias, organizações que exercem controle territorial armado e
submetem populações à violência permanente. Ainda assim, trata-se de um
problema cuja solução cabe às instituições brasileiras.
O
aspecto mais importante dessa controvérsia talvez seja outro. Ela recolocou na
agenda nacional uma discussão que há muito tempo deixou de ocupar lugar central
no debate público: a soberania.
Soberania
não é um conceito abstrato nem uma palavra vazia utilizada em discursos
oficiais. Ela aparece inúmeras vezes na Constituição e se manifesta na
capacidade do Estado de proteger seu território, suas riquezas e sua população.
Manifesta-se na soberania alimentar, na soberania energética, na soberania
cultural, científica e tecnológica. Manifesta-se, sobretudo, na capacidade de
decidir autonomamente os rumos da política econômica nacional.
Falar
em soberania também significa discutir a capacidade de o país definir seu
projeto de desenvolvimento sem subordinação a interesses externos ou à ditadura
do pensamento único imposta pelo capital financeiro globalizado.
Ao
comentar o episódio, Lula afirmou: “Não tem vergonha na cara de trair a nossa
pátria e ir aos Estados Unidos pedir intervenção americana no Brasil”.
A
lembrança histórica é inevitável. Joaquim Silvério dos Reis ficou conhecido por
denunciar os participantes da Inconfidência Mineira, movimento independentista
do final do século 18. Seu nome atravessou os séculos como símbolo da traição
aos ideais de autonomia nacional. A comparação, evidentemente, faz parte da
disputa política contemporânea, mas demonstra a força simbólica que o tema da
soberania ainda possui no imaginário brasileiro.
Lula
também destacou a aprovação da lei de combate às facções criminosas e defendeu
a aprovação da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) da Segurança Pública
como instrumento para fortalecer o enfrentamento ao crime organizado.
Em
contraste, os governadores e pré-candidatos presidenciais Ronaldo Caiado e
Romeu Zema manifestaram apoio à posição de Trump, evidenciando que o tema
deverá ocupar espaço relevante na disputa eleitoral.
O
debate está aberto. E isso é positivo. Independentemente das posições
partidárias, o país precisa voltar a discutir seriamente o significado da
soberania nacional.
Mas a
soberania não se limita à defesa das fronteiras ou à rejeição de ingerências
estrangeiras. Uma nação soberana é aquela que tem capacidade de decidir seu
próprio destino econômico, controlar seus recursos estratégicos, desenvolver
sua ciência e tecnologia, garantir a segurança alimentar de seu povo e definir,
sem tutela externa, os rumos do seu desenvolvimento.
O
verdadeiro desafio brasileiro vai além da disputa eleitoral de momento.
Trata-se de construir um projeto nacional capaz de libertar o país da
dependência financeira, reduzir desigualdades, fortalecer a produção, gerar
emprego de qualidade e assegurar autonomia diante das pressões das grandes
potências e dos interesses do capital financeiro internacional.
A
soberania, em última instância, é o direito de um povo escolher seu próprio
caminho. E essa é uma discussão que o Brasil já adiou por tempo demais.
• Trump usa os Bolsonaros para atacar o
Pix e pressionar a soberania financeira do Brasil
Quando
o governo Donald Trump decidiu incluir o Pix entre os alvos de sua investigação
comercial contra o Brasil, muita gente se perguntou por que um sistema de
pagamentos criado pelo Banco Central brasileiro despertaria tamanho interesse
em Washington.
A
resposta passa por dinheiro, tecnologia, poder e política.
Oficialmente,
os Estados Unidos alegam que o Pix representa uma prática comercial desleal
porque é um sistema desenvolvido e operado pelo Estado brasileiro. Na visão do
Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR), o governo
estaria promovendo um serviço público que competiria com empresas privadas do
setor de pagamentos.
Mas
especialistas ouvidos pela BBC e por diversos veículos internacionais afirmam
que o verdadeiro problema é outro: o Pix se tornou uma das experiências mais
bem-sucedidas do mundo em pagamentos digitais e passou a ameaçar modelos de
negócios extremamente lucrativos dominados por empresas estadunidenses.
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Lançado
em 2020 pelo Banco Central, o Pix rapidamente se transformou no principal meio
de pagamento do país. Hoje, mais de 160 milhões de brasileiros utilizam o
sistema. Bilhões de transações são realizadas todos os meses sem cobrança de
tarifas para pessoas físicas e com custos muito inferiores aos praticados por
cartões de crédito, cartões de débito e intermediários financeiros
tradicionais.
O
sucesso do Pix mudou radicalmente o mercado.
Antes
dele, cada pagamento eletrônico dependia de uma cadeia de intermediários
formada por bancos, bandeiras de cartão, adquirentes e empresas de
processamento. Cada etapa gerava taxas e receitas.
O Pix
reduziu drasticamente esse custo.
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Na
prática, ele demonstrou que é possível criar uma infraestrutura pública de
pagamentos eficiente, instantânea e praticamente gratuita.
É
justamente isso que incomoda.
Empresas
estadunidenses como Apple Pay, Google Pay, PayPal e WhatsApp Pay operam modelos
baseados na intermediação financeira. Embora continuem atuando livremente no
Brasil, passaram a disputar espaço com um sistema estatal que oferece uma
alternativa mais barata e acessível.
O Pix
não proibiu a concorrência. Não expulsou empresas estrangeiras. Não criou
reserva de mercado.
Mas
mudou as regras do jogo.
Para
especialistas em economia digital, o caso lembra o que ocorreu em outros
setores quando governos criaram infraestruturas públicas capazes de competir
com monopólios privados. O problema para essas empresas não é a existência do
Pix. O problema é o sucesso do Pix.
A
questão se torna ainda mais relevante porque o Banco Central pretende ampliar o
sistema.
O
chamado Pix Automático permitirá pagamentos recorrentes sem necessidade de
cartão de crédito. Já o Pix por aproximação concorrerá diretamente com sistemas
como Apple Pay e Google Pay.
Além
disso, o Brasil avança em projetos ligados ao Open Finance e à digitalização do
sistema financeiro, consolidando um modelo que reduz a dependência das grandes
plataformas internacionais.
Para
gigantes do Vale do Silício, o risco é que o exemplo brasileiro seja copiado
por outros países.
Se
governos passarem a desenvolver sistemas públicos de pagamento eficientes,
baratos e interoperáveis, uma parcela importante das receitas hoje concentradas
em empresas privadas poderá desaparecer.
A
acusação formal fala em concorrência desleal.
A
disputa real parece envolver a defesa dos interesses econômicos de empresas que
perderam espaço diante de uma inovação pública brasileira.
Mas a
ofensiva contra o Pix ocorre em um momento em que o grupo político de Flávio
Bolsonaro intensificou sua aproximação com o governo Trump e passou a defender
abertamente ações americanas contra o Brasil.
Já
Eduardo Bolsonaro tornou-se uma das principais vozes da campanha internacional
contra as instituições brasileiras. Nos últimos meses, ele passou a defender
sanções contra ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) e a buscar apoio
político junto ao governo republicano.
Em uma
das declarações que mais repercutiram, Eduardo afirmou que estava disposto a
fazer do Brasil “terra arrasada” caso isso contribuísse para atingir seus
objetivos políticos.
É
justamente por isso que a disputa em torno do Pix deixou de ser apenas uma
discussão técnica sobre meios de pagamento. Ela passou a simbolizar um conflito
maior.
De um
lado, um governo estrangeiro que busca defender interesses geopolíticos e
corporativos de empresas estadunidenses.
Do
outro, um sistema brasileiro que se tornou referência mundial em inovação
financeira.
E, no
meio dessa batalha, uma família política que aposta na pressão de Washington
contra o próprio país como instrumento de luta interna.
Fonte:
Observatório da Imprensa/Diálogos do Sul Global/DCM

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