Quem
lê tanta notícia?
Enquanto
caminhava iluminado pelo sol de quase dezembro, sem lenço e sem documento,
Caetano Veloso perguntou: “Quem lê tanta notícia?” A música Alegria, Alegria
foi apresentada em 1967, algumas décadas antes da existência das tecnologias de
produção e reprodução instantânea de informação, ou (de)sinformação. Apesar de
os anos 1960 parecerem tão distantes, a profusão de informação na época já era
suficiente para simultaneamente gerar alegria e preguiça.
Em
Capitalismo parasitário, publicado em 2010, o sociólogo Zygmunt Bauman afirma
que “a arte de viver num mundo hipersaturado de informação ainda não foi
aprendida”; enquanto Richard Wurman conclui que a desconexão entre o enorme
volume de dados disponíveis e a nossa capacidade real de compreender o que tudo
isso significa é geradora de “ansiedade de informação” (Ansiedade de
informação: como transformar informação em compreensão, 1999).
O
impacto desta situação fez a Organização Mundial da Saúde (OMS) definir “o
fenômeno da hiperinformação, como infodemia, caracterizada pelo aumento
exponencial no volume de informações acerca de um assunto, que pode levar as
pessoas a sentirem-se ansiosas, deprimidas, sobrecarregadas, emocionalmente
exaustas”. (OPAS, 2020).
Distante
de nos ajudar a compreender, essa sobrecarga cognitiva gerada pelo excesso de
estímulos digitais pode agir para limitar a capacidade do cérebro de filtrar,
refletir e consolidar conhecimentos. Para o filósofo Byung-Chul, essa
hiperconexão “destrói a distância reflexiva necessária para a contemplação e
prejudica profundamente a formação de um pensamento crítico autônomo”. (No
Enxame, perspectiva do digital, 2018)
Neste
exato momento, a sociedade brasileira está sendo submetida a um bom exemplo
desta saturação de informações, envolvendo o mais recente caso de corrupção, no
qual o Banco Master e líderes da extrema-direita ocupam o centro. Mesmo que as
investigações estejam apenas começando, o volume de informações disponíveis ao
público envolve tantas ramificações políticas e econômicas que será preciso
algum tempo para que a sociedade possa assimilar e compreender a dimensão do
ocorrido.
Além
dos personagens envolvidos, precisamos desvendar os mecanismos que tornaram
possível que um banco com menos de 5% do mercado fosse capaz de dar um rombo de
mais de 50% dos recursos do Fundo Garantidor de Crédito (FGC). Isso ocorreu sem
que os órgãos de controle, como o Banco Central, tenham feito o que se esperava
deles. A situação fica ainda mais grave se levarmos em conta que mais de uma
centena de regimes de previdência e fundos de pensão estaduais e/ou municipais
(como o Rioprevidência) aplicaram bilhões em papéis sabidamente pobres.
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Escandalização, sem compreensão
Os
relatórios, as conversas e áudios disponíveis não demoram para dominar o debate
público, e os institutos de pesquisa de opinião imediatamente colocam seus
pesquisadores para auferir o impacto na percepção da sociedade. Uma profusão de
mesas de debates, memes e avaliações sobre o ânimo dos agentes políticos,
econômicos, policiais e da justiça é realizada. Tudo é discutido, menos o fio
condutor presente em todos esses recorrentes escândalos de corrupção.
É
perceptível o esforço meticuloso feito pela mídia hegemônica para manter o
debate restrito aos aspectos morais, que, a despeito da sua importância, tendem
a tratar as festas nababescas e os pornográficos gastos de dinheiro – as
mansões de luxo compradas sem fonte de recursos conhecida, as frotas privadas
de aviões, a extorsão de um conhecido criminoso feita por um pretendente à
presidência da república, a degustação de whisky e charutos em Nova Iorque,
paga pelo mesmo meliante para o ex-governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro
(PL), e para o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos),
além do onipresente Ciro Nogueira (Progressistas) – como restritos a desvios
éticos individuais.
Cada um
dos casos é tratado de forma isolada, sem apresentar ao debate público a
conexão com outras fraudes bilionárias recentes – Lojas Americanas, Roubo dos
Aposentados, Refit, etc. O máximo que avançam é identificar as “maçãs podres” e
criticar a sua ganância desmedida.
Como
não faltam patifes moralmente podres e dispostos a assaltar tudo e todos,
inclusive os idosos que dependem da sua aposentadoria do INSS, não falta
assunto nos noticiários. Falta apenas tornar compreensível a estrutura de poder
que permitiu que essas coisas acontecessem.
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Capital fictício, corrupção real
A
ostentação desses personagens cumpre a função de simular prosperidade e um
lastro material que não possuem. Essa visibilidade serve para atrair fundos de
investimentos, institutos previdenciários e bancos a injetarem bilhões em
papéis podres. Esse mecanismo de extração predatória de riqueza de tudo e de
todos é, desde sempre, uma característica do capitalismo, como Marx desvendou
ao tratar das “letras que descontam para cobrir outra letra antes do seu
vencimento e, assim, criar capital fictício por meio da emissão de simples
meios de circulação”. (MARX, Karl. O capital: crítica da economia política).
Longe
de ser uma disfunção, a impossibilidade de identificar “qual parte provém de
transações efetivas, por exemplo, de compras e vendas efetivas, e qual parte é
artificialmente criada (fictitious) e consiste apenas em letras sem lastro” é
constitutiva das relações capitalistas.
Neste
capitalismo parasitário, o dinheiro parece gerar mais dinheiro por si mesmo,
ganhando autonomia do processo produtivo por meio de dinâmicas especulativas
complexas. “No capital portador de juros, a relação capitalista atinge sua
forma mais exteriorizada e fetichista (…). O capital aparece como fonte
misteriosa e autogovernada de seu próprio aumento.” Para Marx, o fetiche serve
para mascarar as relações sociais entre pessoas, para que elas apareçam como
relações entre coisas. Nele, os objetos são vistos como se tivessem “vida
própria” e independentes daqueles que os produziram.
O golpe
estrutural do crédito consignado fraudulento contra os aposentados do INSS e a
dilapidação planejada de Regimes Próprios de Previdência Social (RPPS) estão
intimamente conectados com o Banco Master e são expressão do parasitismo
predatório. Para ser praticado, ele precisa contar com o “auxílio luxuoso” do
braço político do crime organizado, que capturou parte da extrema direita.
Notadamente
nos governos de Michel Temer e Jair Bolsonaro, muitos ocupantes de postos
estratégicos, como Ciro Nogueira, comprovadamente agiram de acordo com os
interesses de Daniel Vorcaro. Ver artigo “O Príncipe do submundo” .
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O trabalho do braço político do crime
O caso
do roubo do INSS serve como exemplo lapidar do “trabalho” desse braço político
do crime. Eles consideraram os aposentados como alvos perfeitos para a extração
de riqueza, pois eles contam com uma renda mensal garantida e previsível.
Utilizando-se de suas posições privilegiadas no estado, os criminosos
trabalharam para que os mecanismos de controle fossem sistematicamente
afrouxados para viabilizar descontos fraudulentos na folha de pagamento do
INSS.
Neste
esforço, houve até mesmo a modificação de Medidas Provisórias e a edição de
normas internas que pavimentaram o caminho para a realização da pilhagem;
vejamos:
(i) O fim da revalidação anual obrigatória,
permitindo que uma autorização gerasse descontos vitalícios e automáticos;
(ii) Utilização de “jabutis” em três Medidas
Provisórias editadas entre 2019 e 2022, que alteraram regras de controle,
mostrando a disposição de viabilizar a fraude de forma sorrateira;
(iii) Essas alterações facilitaram o repasse de
verbas e a concessão de Acordos de Cooperação Técnica (ACT) com o INSS, que
passou a aceitar convênios sem considerar a integridade dessas associações.
(iv)
Mais de 70% dessas entidades não dispunham de toda a documentação necessária
para validar seu convênio. Uma delas, a ANBEC (Associação Nacional de
Benefícios e Assistência aos Idosos), tinha apenas três filiados quando foi
autorizada a operar junto ao INSS. Em pouco tempo já dispunha de 600.000
filiados, sem chamar a atenção das autoridades ao longo do governo Bolsonaro.
(Revista Piauí, jun/2025)
Esse
exemplo é suficiente para mostrar que a infiltração do crime nas estruturas do
Estado atua firmemente para a (des)construção de normas e legislação que sirvam
para dar forma “legal” e “normatizar” suas fraudes e beneficiar a corrupção.
Para
que a democracia brasileira consiga enfrentar esse projeto de poder do crime
organizado, é preciso demonstrar que não há uma polarização política no país.
Esse discurso não passa de uma tentativa de esconder o verdadeiro projeto da
extrema direita: servir-se das liberdades democráticas para golpear a própria
democracia e impor um estado criminoso, como já tentou recentemente. Tratar a
disputa em curso como polarização política dá ao setor hegemonizado pelo braço
político do crime uma equivalência totalmente falsa com o campo político da
democracia.
Essa
equivalência é uma tentativa ardilosa de manter os cidadãos confinados às
narrativas que escondem os mecanismos de corrupção e o fio condutor que conecta
o Banco Master, o desmonte do INSS, a dilapidação do Rioprevidência, as
privatizações, etc. É preciso deixar claro que a extrema-direita não é
portadora de um projeto político nacional, preocupado com a qualidade de vida
da nação. Derrotar este plano de pilhagem das nossas riquezas e de entrega da
soberania do país é uma questão de segurança nacional, de defesa da soberania e
da democracia.
Fonte:
Por Gerson Almeida, em A Terra é Redonda

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