sábado, 6 de junho de 2026

Estudo alerta que pequena porção de ultraprocessados pode levar a demência

Aumentar o consumo diário de alimentos ultraprocessados em 10% — basicamente o equivalente a um pacote pequeno de batatas fritas — pode elevar o risco de demência, mesmo que você mantenha uma dieta saudável rica em vegetais, de acordo com um novo estudo.

Os alimentos ultraprocessados, ou AUPs, representam cerca de 53% de todas as calorias consumidas por adultos nos Estados Unidos, segundo os dados mais recentes do Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC). Entre as crianças americanas, esse índice chega a quase 62%.

"Nosso estudo mostrou que o consumo de AUPs está associado a uma piora na atenção e a um maior risco de demência em adultos de meia-idade e idosos", afirmou a autora principal Barbara Cardoso, professora sênior de nutrição e dietética na Universidade Monash, em Melbourne, Austrália.

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O estudo pôde mostrar apenas uma associação, não uma relação direta de causa e efeito. No entanto, "essa associação não mudou com a adesão à dieta mediterrânea, indicando que o elo está no processamento dos alimentos, e não simplesmente na substituição de comidas saudáveis", disse Cardoso em um e-mail.

A pesquisa é uma "adição importante" ao crescente conjunto de evidências que mostram os danos potenciais dos ultraprocessados ao cérebro, afirmou o Dr. W. Taylor Kimberly, professor de neurologia na Harvard Medical School, que não participou do estudo.

Ele foi o autor sênior de um estudo semelhante publicado em janeiro, que descobriu que aumentar a ingestão de ultraprocessados em 10% elevava o risco de comprometimento cognitivo em 16%, mesmo em pessoas que comiam majoritariamente vegetais.

"Juntos, esses estudos destacam que o maior consumo de AUPs está consistentemente associado a um pior desempenho cognitivo", disse Kimberly.

<><> Alimento real versus "pré-digerido"

A premiada dieta mediterrânea — que prioriza grãos integrais, frutas, vegetais, grãos, sementes, nozes e azeite de oliva extravirgem — já demonstrou reduzir o risco de câncer, diabetes, doenças cardíacas e demência.

Outras dietas respeitadas, como a DASH e a MIND, também focam em alimentos integrais e na limitação de açúcares e carnes vermelhas.

Já os ultraprocessados contêm pouco ou nenhum alimento integral. Em vez disso, os ingredientes são desmontados em moléculas que, com a ajuda de corantes artificiais, aromatizantes e emulsificantes, são aquecidos e moldados em qualquer produto que a indústria deseje criar.

Especialistas afirmam que esses alimentos "pré-digeridos", repletos de açúcar, sal e gordura, carecem de nutrientes críticos para o corpo e o cérebro.

<><> Atenção e risco de demência

O novo estudo, publicado na revista Alzheimer’s & Dementia, analisou mais de 2.100 australianos entre 40 e 70 anos.

"Para cada aumento de 10% nos ultraprocessados, vimos uma queda distinta na capacidade de foco", explicou Cardoso.

Embora não tenha sido encontrada uma ligação direta imediata com a memória, o estudo estimou o declínio mental geral usando uma ferramenta que prevê o risco de demência em 20 anos. Cada aumento de 10% no consumo diário foi associado a um incremento de 0,24 pontos no risco de demência (em uma escala de 0 a 7).

Remover esses alimentos da dieta pode reduzir o risco, especialmente se feito antes que complicações neurológicas se instalem. "A meia-idade é uma fase que oferece uma oportunidade fundamental para lidar com fatores de risco modificáveis", concluiu Cardoso.

•        Restringir açúcar no início da vida reduz risco cardiovascular no futuro

A restrição do consumo de açúcar nos primeiros mil dias de vida pode proteger contra vários problemas cardiovasculares, como infarto, insuficiência cardíaca e acidente vascular cerebral (AVC), além de atrasar o aparecimento dessas doenças.

Os dados são de um estudo publicado recentemente no British Journal of Medicine.

Já se sabe que o período que vai da concepção até por volta dos 2 anos de idade (que soma os primeiros mil dias de vida) é uma janela capaz de modelar o risco cardiometabólico futuro. Para avaliar o impacto do açúcar nessa fase, os autores se basearam em uma política de racionamento do ingrediente doce vigente no Reino Unido entre 1942 e 1953, como parte de um programa para prevenir a escassez de

Para isso, selecionaram 63.433 participantes do levantamento britânico UK Biobank, nascidos entre outubro de 1951 e março de 1956. Eles foram separados em dois grupos, a fim de comparar os indivíduos expostos ao racionamento ainda no útero e aqueles nascidos após o fim da política.

A análise revelou que, quanto maior a duração da restrição de açúcar, maior a proteção cardiovascular. Para se ter uma ideia, aqueles menos expostos ao ingrediente tiveram uma queda de 25% no risco de infarto e de 31% na chance de um AVC na idade adulta. Além disso, desenvolveram doenças cardiovasculares mais tardiamente, cerca de dois anos depois que os demais.

No entanto, o trabalho tem algumas limitações metodológicas. Por ser um estudo observacional, baseado em dados históricos, não se pode afirmar que existe uma relação de causa e efeito entre o consumo de açúcar e essas doenças.

“O fim do racionamento também coincide com uma maior disponibilidade de outros alimentos, como gorduras, e mudanças no estilo de vida da população, que são fatores que podem confundir os resultados”, avalia a cardiologista Juliana Soares, do Einstein Hospital Israelita.

Ainda assim, os achados sugerem que a restrição precoce de açúcar contribui para a formação de um metabolismo mais saudável.

“Apesar das ressalvas, [o estudo] aponta de forma clara que a recomendação de reduzir açúcar para gestantes e crianças pequenas pode ser benéfica para a saúde em geral, favorecendo uma programação metabólica que reduz risco de doenças como diabetes e hipertensão”, observa Soares. “A mensagem central é que os primeiros mil dias são um período muito importante, uma oportunidade de prevenir doenças cardiovasculares na vida adulta.

A SBP (Sociedade Brasileira de Pediatria) não recomenda a oferta de açúcar e doces para crianças menores de 2 anos. A orientação faz parte das diretrizes de alimentação saudável na infância e se baseia em evidências de que o consumo precoce do ingrediente está associado a maior risco de obesidade, cáries, alterações metabólicas e formação de preferências alimentares voltadas para produtos ultraprocessados. Mesmo após essa idade, a ingestão deve ser eventual e moderada.

 

Fonte: CNN Brasil

 

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