Oliveiros
Marques: O leite como apito de cachorro
Quando
Flávio Bolsonaro, Ronaldo Caiado e Romeu Zema ergueram copos de leite em um
brinde durante um encontro político recente, não estavam apenas fazendo uma
escolha de bebida. Estavam emitindo um sinal. Um sinal codificado, deliberado e
reconhecível por quem precisa reconhecê-lo: as células neonazistas, os grupos
de supremacia branca, os extremistas de diversos matizes que habitam as sombras
e os grupos de WhatsApp do Brasil profundo. O gesto pode parecer banal a quem
não conhece o código. Mas a comunicação política raramente é acidental, e esses
três candidatos sabiam exatamente o que estavam fazendo.
O
leite, como símbolo político da extrema-direita, não nasceu ontem. Suas raízes
estão fincadas no próprio solo do nazismo histórico. O Terceiro Reich cultivava
uma estética obsessiva da pureza — racial, alimentar, moral. O leite branco
encaixava-se como uma luva nessa iconografia: alimento "ariano" por
excelência, ligado à terra, ao campo, ao ideal germânico do Blut und Boden —
"Sangue e Solo". O regime de Hitler promovia ativamente o consumo de
leite entre as crianças alemãs como forma de fortalecer a chamada raça.
Alimento puro para gente pura, na lógica doentia da época.
Esse
simbolismo foi ressuscitado e reapropriado pelo movimento supremacista
norte-americano, em particular a partir de 2016, quando grupos neonazistas
começaram a usar o leite como emblema identitário nas redes sociais. Exatamente
quando a gênese do bolsonarismo começou a ganhar tração no Brasil. O argumento
pseudocientífico: europeus tolerariam melhor a lactose — a persistência da
enzima lactase na idade adulta — do que outras populações, o que seria
"prova biológica" da superioridade racial branca. A ciência,
naturalmente, desfaz essa fraude: a persistência da lactase é uma mutação
genética surgida de forma independente em diversas populações, inclusive
africanas e do Oriente Médio. Mas a extrema-direita nunca se importou muito com
ciência. O leite virou meme, tornou-se "apito de cachorro" — o tipo
de mensagem que o dono ouve e o vizinho não.
No
Brasil, esse código chegou junto com o crescimento do bolsonarismo e da
alt-right brasileira. Células neonazistas identificadas em Santa Catarina, Rio
Grande do Sul e São Paulo fazem uso da mesma simbologia circulante no universo
da extrema-direita global. Esses grupos conhecem o repertório. Quando viram
três candidatos à Presidência da República — um senador filho do ex-presidente
presidiário e dois ex-governadores — erguendo copos de leite diante das
câmeras, a mensagem foi recebida com clareza.
Não há
como relativizar o contexto do evento em que o brinde ocorreu. Tratava-se de um
encontro calculado de articulação política da direita brasileira, com palanque,
audiência e cobertura jornalística. Não foi uma confraternização privada, não
foi coincidência, não foi ingenuidade. Foi performance política em espaço
público.
A
comunicação política é feita também, e com muito mais força, por símbolos. Um
aperto de mão, uma cor de camisa, uma saudação, um gesto — tudo carrega
significado no campo simbólico da política. O brinde com leite desses três
candidatos — que mais parece um três-em-um — deu o seu recado. Escancarou, de
forma objetiva e calculada, o seu modo de ver o mundo e, em especial, a
humanidade: quem pertence e quem não pertence, quem é bem-vindo e quem deve ser
temido. Para os que conhecem o código, a mensagem foi alta e clara. Para os
demais, fica o alerta: quando a política fala por símbolos, é preciso saber
decodificá-los.
• A política do "pega ladrão" e
o jogo da distração. Por Francisco Calmon
Existe
uma velha tática conhecida: o ladrão corre da polícia no meio da multidão e
começa a gritar “pega ladrão”. A confusão serve justamente para inverter os
papéis, criar fumaça e desviar a atenção de quem realmente deveria estar sendo
investigado. Na política brasileira, esse método parece cada vez mais familiar.
O que
setores ligados ao bolsonarismo fazem hoje é exatamente isso: tentam
transformar adversários em ameaça enquanto escondem suas próprias contradições,
suas conexões históricas com estruturas criminosas e suas práticas
antirrepublicanas. Não se trata apenas de disputa política ou divergência
ideológica. Trata-se da tentativa permanente de confundir a opinião pública,
embaralhar responsabilidades e atacar instituições democráticas sempre que seus
interesses entram em risco.
As
relações entre figuras da família Bolsonaro e personagens ligados às milícias
já foram amplamente noticiadas e investigadas ao longo dos últimos anos. O
debate público não surgiu do nada. Ele aparece a partir de episódios concretos,
homenagens, vínculos políticos, circulação de aliados e proximidade com grupos
que operam em territórios dominados pela violência e pelo controle armado da
população. O problema central não é apenas moral: é político e institucional.
Enquanto
isso, parte da extrema-direita tenta se apresentar como defensora da ordem, da
pátria e do combate ao crime. Mas o discurso entra em contradição quando
setores desse mesmo campo político relativizam ataques às instituições,
questionam o resultado das urnas, flertam com aventuras golpistas e recorrem a
governos estrangeiros para pressionar autoridades brasileiras, como é o caso do
clã bolsonaro junto aos Estados Unidos.
O caso
recente envolvendo Flávio Bolsonaro e outros integrantes do campo bolsonarista
expõe justamente essa lógica. Ao buscar apoio político externo para interferir
em disputas internas do Brasil, constrói-se uma postura incompatível com
qualquer noção séria de patriotismo. A soberania nacional não pode ser
defendida apenas quando convém eleitoralmente e abandonada quando os interesses
de um grupo político estão em jogo.
Não por
acaso, o ministro Gilmar Mendes classificou como um “ato de lesa-pátria” a
atitude de Eduardo Bolsonaro, que deixou o país para difundir acusações contra
o Supremo Tribunal Federal e buscar apoio internacional contra instituições
brasileiras. A expressão é forte porque toca num ponto essencial: divergências
políticas devem ser resolvidas dentro das instituições nacionais, e não por
meio da internacionalização de conflitos internos em busca de pressão
estrangeira.
De
acordo com a Legislação brasileira:
Atentado
à soberania (Art. 359-I): Negociar com governo ou grupo estrangeiro com o fim
de provocar atos de guerra contra o Brasil ou invadi-lo.
Atentado
à integridade nacional (Art. 359-J): Praticar ato de violência ou grave ameaça
para submeter o território nacional, ou parte dele, ao domínio de nação
estrangeira.
Espionagem
(Art. 359-K): Entregar ou fornecer a governo estrangeiro, a seus agentes ou a
organização criminosa, documentos ou informações secretas cuja revelação possa
colocar em perigo a segurança da sociedade e do Estado.
Flávio
Rachadinha é o candidato ideal do lumpen da bandidagem do crime e da corrupção.
Com mais um agravante: é agente sabujo dos USA. Sua meta é transformar o Brasil
num satélite do Trumpismo. Para isso, foi ao pretenso imperador do mundo
oferecer nossas terras raras e obediência sem contestação aos USA.
Até o
meio de pagamento de maior sucesso do Brasil, o PIX, estando, inclusive, em
fase de cópia de outros países, e incomoda às empresas de cartões como o Visa e
Mastercard, Trump está combatendo e os irmãos Bolsonaro passaram a defender os
interesse alienígenas. É muita
sem-vergonhice.
O
governo brasileiro, gostem ou não seus adversários, foi eleito pelo voto
popular e pela soberania do sufrágio universal. Em uma democracia, divergências
se resolvem dentro das instituições nacionais, não por meio de chantagem
diplomática, sanções externas ou tentativas de transformar disputas domésticas
em instrumentos de intervenção internacional.
Também
chama atenção a disposição de determinados setores em tratar recursos
estratégicos do país, como as terras raras e outras riquezas minerais, como
moeda de troca para estreitar alianças políticas externas. O debate sobre o
aproveitamento desses recursos deve ser conduzido a partir dos interesses
nacionais, da soberania econômica e do desenvolvimento do país, jamais como
instrumento de subordinação a projetos geopolíticos estrangeiros.
Ao
mesmo tempo, permanece legítimo o debate público sobre a construção patrimonial
e política da família Bolsonaro ao longo das últimas décadas. Uma família que
se fez na política institucional, acumulou patrimônio e influência de maneira
que frequentemente desperta questionamentos, investigações e cobranças por
transparência.
Em uma
democracia, figuras públicas devem estar sujeitas ao escrutínio público,
especialmente quando ocupam posições de grande poder, conforme os princípios
constitucionais da Administração Pública.
Soberania
não se exerce com bravata. Exerce-se com firmeza institucional, posição
diplomática clara e capacidade de construir alianças estratégicas capazes de
garantir autonomia nacional. Nesse cenário, fortalecer relações econômicas e
políticas diversificadas e ampliar a multipolaridade das relações exteriores
aparece como parte de uma estratégia de independência frente à tutela histórica
exercida por grandes potências.
O que
está em disputa não é apenas uma eleição ou um grupo político específico. É a
capacidade do Brasil de defender suas instituições sem se tornar refém de
setores que utilizam patriotismo como marketing político enquanto atuam, na
prática, para fragilizar a própria independência nacional.
Flávio
Rachadinha é alcaguete de Trump e mercador das riquezas do Brasil. Um indivíduo
como ele merece muitos escrachos aonde for.
Trumpismo
e bolsonarismo têm uma aliança para fins fascistas. Um manda e o outro obedece.
No fim,
a tática continua a mesma: gritar “pega ladrão” para esconder quem realmente
está correndo da verdade.
• Ricardo Amaral: Lula decide trucar a
carta gringa dos Bolsonaros
Cinismo,
hipocrisia, arrogância e outras categorias morais (no caso, imorais) não bastam
para enquadrar objetivamente a sequência de ataques à economia e à soberania do
Brasil nos dias recentes. No reino das coisas concretas, estamos lidando com
bandidos e vigaristas políticos da pior espécie, enfrentando poderosos
interesses econômicos globalizados e a estratégia geopolítica agressiva do
governo Donald Trump. Essa é a crua realidade que o presidente Lula decidiu
desafiar.
Pela
maneira desabrida e vigorosa com que tem se manifestado, Lula sinaliza ter
entrado em modo de combate, na defesa do país e de seu patrimônio político. Ele
expressa a justa indignação nacional com a ingerência dos EUA na legislação
interna de segurança pública do Brasil e com as novas declarações de guerra
tarifária contra o país. Denuncia a traição dos Bolsonaros, sem disfarçar a
decepção pessoal de quem investiu no diálogo com Trump e acreditou na
razoabilidade de negociações comerciais e diplomáticas.
Ninguém
tem o direito de ficar surpreso por ver a carta gringa lançada no jogo
eleitoral brasileiro com a algazarra de uma partida de truco. Foi o que os
Bolsonaros pediram e é o que a plutocracia e a extrema-direita estadunidense
sempre quiseram. As razões e sem-razões para enquadrar PCC e CV na abusiva
legislação de alcance transnacional dos EUA, sempre metidos a “polícia do
mundo”, estavam definidas desde dezembro passado, na nova estratégia de
segurança nacional de Trump. Submissão política da América Latina ao
imperialismo renovado, sob a ameaça do “big stick”, a velha porrada que caiu na
cabeça de Maduro.
Quanto
às expectativas em torno de uma negociação comercial equilibrada, estas
entraram em choque com o objetivo mais amplo do processo na tal Seção 301:
nunca foi somente o Brasil, é a tentativa de conter a crescente presença da
China em toda a região. Trump preserva importações imprescindíveis para os
consumidores estadunidenses (café, laranja, aços) e aperta o garrote sobre o
Pix, o sistema circulatório da economia popular brasileira. E vem agora a
notícia de que também querem sobretaxar o Brasil e mais uma penca de países por
suposta leniência com “trabalhos forçados”. Vá perguntar aos colhedores de
laranjas na Califórnia se algum dia o governo se preocupou com seus direitos.
Nada
que se justifique, mas nada por acaso. A ideia é pressionar o Brasil para
fragilizar as políticas soberanas sobre comércio, terras raras, big techs,
energia e, não menos importante, alterar a rota de nossa política externa; as
relações com a China, a presença nos BRICS e a defesa do multilateralismo. Uma
guinada completa para a subserviência, que Flávio Bolsonaro se ofereceu
sofregamente para “negociar” com o governo Trump, sem ter mandato para nada,
repetindo Guaidó, o desaparecido “presidente autoproclamado” da Venezuela.
Fanfarronices
à parte, existe uma lógica implacável, econômica, geopolítica e de
sobrevivência política interna, nos recentes movimentos de Trump. E há,
evidentemente, a conexão com os vigaristas da família Bolsonaro, no projeto de
expansão regional da extrema-direita.
Lula
sabe que são escassos os instrumentos de que o Brasil dispõe, isoladamente,
para enfrentar a guerra tarifária contra um governo que não hesitou em
comprometer a estabilidade da economia global, juntando-se a Israel num ataque
insano ao Irã. É na disputa eleitoral contra os Bolsonaros que Lula encontra o
terreno mais favorável para resistir às ameaças de hoje e posicionar o Brasil
para os próximos anos no tabuleiro mais largo da geopolítica. E é nessa disputa
que Lula e o Brasil podem e precisam derrotar a cartada gringa.
Digam
os que disserem as oniscientes pesquisas, foi a inteligência política de Lula
que o levou a trucar, no ato, o lance dos adversários. Ele não esperou pelos
efeitos práticos da ofensiva antinacional para denunciar os traidores da
pátria. Antecipou-se ao que ainda pode vir, seja na forma de sanções ilegais ou
na destruição de empregos, para responsabilizar diretamente os Bolsonaros por
qualquer prejuízo ao Brasil.
A
veemência de Lula levou Flávio Bolsonaro a um primeiro e constrangedor recuo.
Afinal, se ele é assim tão brother do Marco Rubio, teria de ter pedido antes
para não mexerem com nosso Pix, e não na cartinha, pretenciosa e farsesca, que
divulgou depois de perceber o estrago sobre sua imagem e candidatura. Se “ama
muito Brasil”, no dizer de Trump, não deveria ter saudado o primeiro tarifaço
nem implorado pelo segundo.
A
resposta de Lula foi estrategicamente certeira, mesmo se houver uma improvável
inflexão na ofensiva antinacional, que os Bolsonaros tentariam manipular a seu
favor. A trucada de Lula e a durabilidade dessa resposta ainda serão testadas
no correr da disputa presidencial, com todos os sortilégios que ela ainda nos
reserva. O que a carta gringa deixou mais evidente é que derrotar a
extrema-direita no Brasil é mais que um desafio para Lula e o campo democrático
popular que ele lidera. É missão.
Fonte:
Brasil 247

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