sábado, 6 de junho de 2026

Oliveiros Marques: O leite como apito de cachorro

Quando Flávio Bolsonaro, Ronaldo Caiado e Romeu Zema ergueram copos de leite em um brinde durante um encontro político recente, não estavam apenas fazendo uma escolha de bebida. Estavam emitindo um sinal. Um sinal codificado, deliberado e reconhecível por quem precisa reconhecê-lo: as células neonazistas, os grupos de supremacia branca, os extremistas de diversos matizes que habitam as sombras e os grupos de WhatsApp do Brasil profundo. O gesto pode parecer banal a quem não conhece o código. Mas a comunicação política raramente é acidental, e esses três candidatos sabiam exatamente o que estavam fazendo.

O leite, como símbolo político da extrema-direita, não nasceu ontem. Suas raízes estão fincadas no próprio solo do nazismo histórico. O Terceiro Reich cultivava uma estética obsessiva da pureza — racial, alimentar, moral. O leite branco encaixava-se como uma luva nessa iconografia: alimento "ariano" por excelência, ligado à terra, ao campo, ao ideal germânico do Blut und Boden — "Sangue e Solo". O regime de Hitler promovia ativamente o consumo de leite entre as crianças alemãs como forma de fortalecer a chamada raça. Alimento puro para gente pura, na lógica doentia da época.

Esse simbolismo foi ressuscitado e reapropriado pelo movimento supremacista norte-americano, em particular a partir de 2016, quando grupos neonazistas começaram a usar o leite como emblema identitário nas redes sociais. Exatamente quando a gênese do bolsonarismo começou a ganhar tração no Brasil. O argumento pseudocientífico: europeus tolerariam melhor a lactose — a persistência da enzima lactase na idade adulta — do que outras populações, o que seria "prova biológica" da superioridade racial branca. A ciência, naturalmente, desfaz essa fraude: a persistência da lactase é uma mutação genética surgida de forma independente em diversas populações, inclusive africanas e do Oriente Médio. Mas a extrema-direita nunca se importou muito com ciência. O leite virou meme, tornou-se "apito de cachorro" — o tipo de mensagem que o dono ouve e o vizinho não.

No Brasil, esse código chegou junto com o crescimento do bolsonarismo e da alt-right brasileira. Células neonazistas identificadas em Santa Catarina, Rio Grande do Sul e São Paulo fazem uso da mesma simbologia circulante no universo da extrema-direita global. Esses grupos conhecem o repertório. Quando viram três candidatos à Presidência da República — um senador filho do ex-presidente presidiário e dois ex-governadores — erguendo copos de leite diante das câmeras, a mensagem foi recebida com clareza.

Não há como relativizar o contexto do evento em que o brinde ocorreu. Tratava-se de um encontro calculado de articulação política da direita brasileira, com palanque, audiência e cobertura jornalística. Não foi uma confraternização privada, não foi coincidência, não foi ingenuidade. Foi performance política em espaço público.

A comunicação política é feita também, e com muito mais força, por símbolos. Um aperto de mão, uma cor de camisa, uma saudação, um gesto — tudo carrega significado no campo simbólico da política. O brinde com leite desses três candidatos — que mais parece um três-em-um — deu o seu recado. Escancarou, de forma objetiva e calculada, o seu modo de ver o mundo e, em especial, a humanidade: quem pertence e quem não pertence, quem é bem-vindo e quem deve ser temido. Para os que conhecem o código, a mensagem foi alta e clara. Para os demais, fica o alerta: quando a política fala por símbolos, é preciso saber decodificá-los.

•        A política do "pega ladrão" e o jogo da distração. Por Francisco Calmon

Existe uma velha tática conhecida: o ladrão corre da polícia no meio da multidão e começa a gritar “pega ladrão”. A confusão serve justamente para inverter os papéis, criar fumaça e desviar a atenção de quem realmente deveria estar sendo investigado. Na política brasileira, esse método parece cada vez mais familiar.

O que setores ligados ao bolsonarismo fazem hoje é exatamente isso: tentam transformar adversários em ameaça enquanto escondem suas próprias contradições, suas conexões históricas com estruturas criminosas e suas práticas antirrepublicanas. Não se trata apenas de disputa política ou divergência ideológica. Trata-se da tentativa permanente de confundir a opinião pública, embaralhar responsabilidades e atacar instituições democráticas sempre que seus interesses entram em risco.

As relações entre figuras da família Bolsonaro e personagens ligados às milícias já foram amplamente noticiadas e investigadas ao longo dos últimos anos. O debate público não surgiu do nada. Ele aparece a partir de episódios concretos, homenagens, vínculos políticos, circulação de aliados e proximidade com grupos que operam em territórios dominados pela violência e pelo controle armado da população. O problema central não é apenas moral: é político e institucional.

Enquanto isso, parte da extrema-direita tenta se apresentar como defensora da ordem, da pátria e do combate ao crime. Mas o discurso entra em contradição quando setores desse mesmo campo político relativizam ataques às instituições, questionam o resultado das urnas, flertam com aventuras golpistas e recorrem a governos estrangeiros para pressionar autoridades brasileiras, como é o caso do clã bolsonaro junto aos Estados Unidos. 

O caso recente envolvendo Flávio Bolsonaro e outros integrantes do campo bolsonarista expõe justamente essa lógica. Ao buscar apoio político externo para interferir em disputas internas do Brasil, constrói-se uma postura incompatível com qualquer noção séria de patriotismo. A soberania nacional não pode ser defendida apenas quando convém eleitoralmente e abandonada quando os interesses de um grupo político estão em jogo.

Não por acaso, o ministro Gilmar Mendes classificou como um “ato de lesa-pátria” a atitude de Eduardo Bolsonaro, que deixou o país para difundir acusações contra o Supremo Tribunal Federal e buscar apoio internacional contra instituições brasileiras. A expressão é forte porque toca num ponto essencial: divergências políticas devem ser resolvidas dentro das instituições nacionais, e não por meio da internacionalização de conflitos internos em busca de pressão estrangeira.

De acordo com a Legislação brasileira:

Atentado à soberania (Art. 359-I): Negociar com governo ou grupo estrangeiro com o fim de provocar atos de guerra contra o Brasil ou invadi-lo.

Atentado à integridade nacional (Art. 359-J): Praticar ato de violência ou grave ameaça para submeter o território nacional, ou parte dele, ao domínio de nação estrangeira.

Espionagem (Art. 359-K): Entregar ou fornecer a governo estrangeiro, a seus agentes ou a organização criminosa, documentos ou informações secretas cuja revelação possa colocar em perigo a segurança da sociedade e do Estado.

Flávio Rachadinha é o candidato ideal do lumpen da bandidagem do crime e da corrupção. Com mais um agravante: é agente sabujo dos USA. Sua meta é transformar o Brasil num satélite do Trumpismo. Para isso, foi ao pretenso imperador do mundo oferecer nossas terras raras e obediência sem contestação aos USA.

Até o meio de pagamento de maior sucesso do Brasil, o PIX, estando, inclusive, em fase de cópia de outros países, e incomoda às empresas de cartões como o Visa e Mastercard, Trump está combatendo e os irmãos Bolsonaro passaram a defender os interesse alienígenas.  É muita sem-vergonhice.

O governo brasileiro, gostem ou não seus adversários, foi eleito pelo voto popular e pela soberania do sufrágio universal. Em uma democracia, divergências se resolvem dentro das instituições nacionais, não por meio de chantagem diplomática, sanções externas ou tentativas de transformar disputas domésticas em instrumentos de intervenção internacional.

Também chama atenção a disposição de determinados setores em tratar recursos estratégicos do país, como as terras raras e outras riquezas minerais, como moeda de troca para estreitar alianças políticas externas. O debate sobre o aproveitamento desses recursos deve ser conduzido a partir dos interesses nacionais, da soberania econômica e do desenvolvimento do país, jamais como instrumento de subordinação a projetos geopolíticos estrangeiros.

Ao mesmo tempo, permanece legítimo o debate público sobre a construção patrimonial e política da família Bolsonaro ao longo das últimas décadas. Uma família que se fez na política institucional, acumulou patrimônio e influência de maneira que frequentemente desperta questionamentos, investigações e cobranças por transparência.

Em uma democracia, figuras públicas devem estar sujeitas ao escrutínio público, especialmente quando ocupam posições de grande poder, conforme os princípios constitucionais da Administração Pública.

Soberania não se exerce com bravata. Exerce-se com firmeza institucional, posição diplomática clara e capacidade de construir alianças estratégicas capazes de garantir autonomia nacional. Nesse cenário, fortalecer relações econômicas e políticas diversificadas e ampliar a multipolaridade das relações exteriores aparece como parte de uma estratégia de independência frente à tutela histórica exercida por grandes potências.

O que está em disputa não é apenas uma eleição ou um grupo político específico. É a capacidade do Brasil de defender suas instituições sem se tornar refém de setores que utilizam patriotismo como marketing político enquanto atuam, na prática, para fragilizar a própria independência nacional.

Flávio Rachadinha é alcaguete de Trump e mercador das riquezas do Brasil. Um indivíduo como ele merece muitos escrachos aonde for.

Trumpismo e bolsonarismo têm uma aliança para fins fascistas.  Um manda e o outro obedece.

No fim, a tática continua a mesma: gritar “pega ladrão” para esconder quem realmente está correndo da verdade.

•        Ricardo Amaral: Lula decide trucar a carta gringa dos Bolsonaros

Cinismo, hipocrisia, arrogância e outras categorias morais (no caso, imorais) não bastam para enquadrar objetivamente a sequência de ataques à economia e à soberania do Brasil nos dias recentes. No reino das coisas concretas, estamos lidando com bandidos e vigaristas políticos da pior espécie, enfrentando poderosos interesses econômicos globalizados e a estratégia geopolítica agressiva do governo Donald Trump. Essa é a crua realidade que o presidente Lula decidiu desafiar.

Pela maneira desabrida e vigorosa com que tem se manifestado, Lula sinaliza ter entrado em modo de combate, na defesa do país e de seu patrimônio político. Ele expressa a justa indignação nacional com a ingerência dos EUA na legislação interna de segurança pública do Brasil e com as novas declarações de guerra tarifária contra o país. Denuncia a traição dos Bolsonaros, sem disfarçar a decepção pessoal de quem investiu no diálogo com Trump e acreditou na razoabilidade de negociações comerciais e diplomáticas.

Ninguém tem o direito de ficar surpreso por ver a carta gringa lançada no jogo eleitoral brasileiro com a algazarra de uma partida de truco. Foi o que os Bolsonaros pediram e é o que a plutocracia e a extrema-direita estadunidense sempre quiseram. As razões e sem-razões para enquadrar PCC e CV na abusiva legislação de alcance transnacional dos EUA, sempre metidos a “polícia do mundo”, estavam definidas desde dezembro passado, na nova estratégia de segurança nacional de Trump. Submissão política da América Latina ao imperialismo renovado, sob a ameaça do “big stick”, a velha porrada que caiu na cabeça de Maduro.

Quanto às expectativas em torno de uma negociação comercial equilibrada, estas entraram em choque com o objetivo mais amplo do processo na tal Seção 301: nunca foi somente o Brasil, é a tentativa de conter a crescente presença da China em toda a região. Trump preserva importações imprescindíveis para os consumidores estadunidenses (café, laranja, aços) e aperta o garrote sobre o Pix, o sistema circulatório da economia popular brasileira. E vem agora a notícia de que também querem sobretaxar o Brasil e mais uma penca de países por suposta leniência com “trabalhos forçados”. Vá perguntar aos colhedores de laranjas na Califórnia se algum dia o governo se preocupou com seus direitos.

Nada que se justifique, mas nada por acaso. A ideia é pressionar o Brasil para fragilizar as políticas soberanas sobre comércio, terras raras, big techs, energia e, não menos importante, alterar a rota de nossa política externa; as relações com a China, a presença nos BRICS e a defesa do multilateralismo. Uma guinada completa para a subserviência, que Flávio Bolsonaro se ofereceu sofregamente para “negociar” com o governo Trump, sem ter mandato para nada, repetindo Guaidó, o desaparecido “presidente autoproclamado” da Venezuela.

Fanfarronices à parte, existe uma lógica implacável, econômica, geopolítica e de sobrevivência política interna, nos recentes movimentos de Trump. E há, evidentemente, a conexão com os vigaristas da família Bolsonaro, no projeto de expansão regional da extrema-direita.

Lula sabe que são escassos os instrumentos de que o Brasil dispõe, isoladamente, para enfrentar a guerra tarifária contra um governo que não hesitou em comprometer a estabilidade da economia global, juntando-se a Israel num ataque insano ao Irã. É na disputa eleitoral contra os Bolsonaros que Lula encontra o terreno mais favorável para resistir às ameaças de hoje e posicionar o Brasil para os próximos anos no tabuleiro mais largo da geopolítica. E é nessa disputa que Lula e o Brasil podem e precisam derrotar a cartada gringa.

Digam os que disserem as oniscientes pesquisas, foi a inteligência política de Lula que o levou a trucar, no ato, o lance dos adversários. Ele não esperou pelos efeitos práticos da ofensiva antinacional para denunciar os traidores da pátria. Antecipou-se ao que ainda pode vir, seja na forma de sanções ilegais ou na destruição de empregos, para responsabilizar diretamente os Bolsonaros por qualquer prejuízo ao Brasil.

A veemência de Lula levou Flávio Bolsonaro a um primeiro e constrangedor recuo. Afinal, se ele é assim tão brother do Marco Rubio, teria de ter pedido antes para não mexerem com nosso Pix, e não na cartinha, pretenciosa e farsesca, que divulgou depois de perceber o estrago sobre sua imagem e candidatura. Se “ama muito Brasil”, no dizer de Trump, não deveria ter saudado o primeiro tarifaço nem implorado pelo segundo.

A resposta de Lula foi estrategicamente certeira, mesmo se houver uma improvável inflexão na ofensiva antinacional, que os Bolsonaros tentariam manipular a seu favor. A trucada de Lula e a durabilidade dessa resposta ainda serão testadas no correr da disputa presidencial, com todos os sortilégios que ela ainda nos reserva. O que a carta gringa deixou mais evidente é que derrotar a extrema-direita no Brasil é mais que um desafio para Lula e o campo democrático popular que ele lidera. É missão.

 

Fonte: Brasil 247

 

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