Do
crime da Braskem à ameaça em Craíbas: a mineração avança sobre Alagoas
Alagoas
carrega uma ferida aberta que ainda marca a vida de milhares de famílias: o
crime provocado pela exploração mineral da Braskem em Maceió. Bairros inteiros
foram condenados, comunidades expulsas de seus territórios, memórias apagadas e
vidas atravessadas pela insegurança, pelo medo e pelo abandono.
O crime
socioambiental provocado pela mineração da Braskem em Maceió começou a se
tornar visível em março de 2018, quando moradores dos bairros Pinheiro,
Mutange, Bebedouro, Bom Parto e parte do Farol passaram a registrar tremores de
terra, rachaduras em casas, ruas afundando e o comprometimento de estruturas
inteiras.
Em
2019, um laudo do Serviço Geológico do Brasil (CPRM) confirmou que o
afundamento do solo estava diretamente ligado à exploração de sal-gema
realizada pela empresa durante décadas. Desde então, mais de 60 mil pessoas
foram expulsas de seus territórios e mais de 14 mil imóveis foram condenados,
transformando bairros inteiros em verdadeiras cidades fantasmas.
O
desastre causado pela mineradora não destruiu somente as casas e as ruas, ele
destruiu a vida, as histórias, os vínculos comunitários, os modos de vida e a
dinâmica de bairros históricos na cidade de Maceió. A saúde física e mental da
população atingida pelo crime é relativizada pela falsa noção de “progresso”,
onde o desenvolvimento econômico é colocado como prioridade e a natureza e seus
povos sendo desrespeitados e exterminados.
Mesmo
diante desse desastre, a lógica da destruição segue avançando em Alagoas. Em
Craíbas, no agreste do estado, a exploração mineral conduzida pela Vale acende
um alerta para os impactos ambientais, sociais e econômicos que podem atingir
as comunidades circunvizinhas.
Com
isso, surge o questionamento: quantos crimes serão necessários para que a vida
esteja acima do lucro?
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O que são as terras raras e quais seus impactos na sociedade?
As
terras raras são um conjunto de elementos químicos encontrados na natureza que
são considerados estratégicos para a indústria tecnológica moderna. O problema
é que a extração das terras raras costuma provocar enormes impactos ambientais
e sociais.
A
extração desses minérios exige grande volume de água, gera resíduos tóxicos,
contamina o solo e os rios e ameaça diretamente os povos que vivem nos
territórios explorados. Em Maceió, por exemplo, o crime provocado pela Braskem
também atingiu profundamente a Laguna Mundaú, um dos principais símbolos
culturais, ambientais e econômicos de Maceió. A contaminação e o avanço da
instabilidade na região impactaram diretamente a vida das comunidades
tradicionais que dependem da lagoa para sobreviver, especialmente as
marisqueiras e os pescadores.
O
sururu, alimento que carrega a identidade popular alagoana e sustenta milhares
de famílias há gerações, teve sua produção afetada pela degradação ambiental e
pelo abandono dos territórios próximos às áreas atingidas e com isso, muitas
famílias perderam sua principal fonte de renda.
Portanto,
o problema não está apenas no minério que é extraído, mas principalmente no
modelo que organiza essa exploração. É um modelo que em nome do lucro e da
falsa ideia de “progresso”, sacrifica rios, territórios e seus povos. Ele
ignora o meio ambiente, a produção de alimentos, e principalmente a saúde
física e mental da população dos territórios explorados.
E mesmo
diante de diversos impactos de saúde física e mental da população atingida, no
meio ambiente e na dinâmica de toda uma cidade, em Alagoas, essa lógica se
repete. O Estado, que já vive as consequências do crime da Braskem, agora
presencia o avanço de novos interesses minerários que ameaçam aprofundar ainda
mais a destruição ambiental e social.
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Craíbas: um desastre anunciado
O
município de Craíbas, no Agreste alagoano, vive hoje a tensão provocada pelo
avanço da mineração. O que chega embalado como promessa de emprego e
crescimento econômico traz consigo inúmeros impactos já conhecidos em
diferentes regiões do país: degradação ambiental, contaminação, concentração de
riqueza, conflitos territoriais e ameaça às comunidades locais.
A Vale,
já conhecida por seus históricos de crimes ambientais, como em Brumadinho e
Mariana, continua recebendo autorização para expandir seus projetos de
destruição em nome do lucro.
Desde
2021, moradores denunciam tremores constantes provocados pelas explosões
realizadas na mineração, além de rachaduras em centenas de residências, poeira
intensa, poluição sonora, adoecimento da população e prejuízos à agricultura
familiar. Já existem relatos de famílias que abandonaram suas casas por medo de
desabamento e comunidades rurais denunciando o impacto da água salinizada nas
suas produções.
Mesmo
diante de tantas evidências e do histórico recente de crimes ambientais ligados
à mineração no Brasil, o projeto segue avançando em nome de um suposto
desenvolvimento econômico que sacrificam comunidades inteiras, pois enquanto as
grandes empresas ficam com o lucro, o povo fica com a destruição, a poeira, o
adoecimento e o apagamento de suas histórias.
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Não existe mineração sustentável dentro da lógica do capital
A
destruição ambiental não é um acidente. Ela faz parte de um projeto político e
econômico que concentra terra, renda e poder nas mãos de poucos, enquanto
expulsa comunidades camponesas, indígenas, quilombolas e periféricas de seus
territórios.
A
exploração de minérios está profundamente ligada ao agronegócio. Ambos
compartilham da mesma lógica: transformar a natureza, a água e a biodiversidade
em mercadoria e lucro. Nesse sentido, a luta em defesa da natureza não pode ser
separada da luta contra o agronegócio e contra a mineração predatória.
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A Reforma Agrária Popular denuncia a exploração gerando vida
Diante
desse cenário, a luta por Reforma Agrária Popular surge como um projeto
concreto em defesa da vida e da natureza.
Enquanto
o agronegócio e a mineração aprofundam a destruição, os povos do campo
organizados, além de fazer o enfrentamento direto a estas grandes empresas de
exploração, produzem alimentos saudáveis, preservam sementes crioulas,
recuperam nascentes, reflorestam áreas degradadas e constroem relações de
cuidado com a terra.
A
Reforma Agrária Popular é a construção de um outro modelo de sociedade, baseado
principalmente na soberania alimentar, na agroecologia, na preservação
ambiental e na valorização dos territórios e dos povos, com suas diversas
especificidades e culturas.
E na
Jornada Nacional em Defesa da Natureza e dos Povos, realizada em todo o país
até o próximo domingo (7), reafirmamos que não existe saída para a crise
ambiental sem enfrentar os grandes responsáveis pela destruição dos
territórios. O avanço da mineração e do agronegócio ameaça a vida em todas as
suas dimensões. Por isso, defender a natureza é também defender os povos que
historicamente cuidam dela.
Alagoas
já conhece as consequências de colocar os interesses das empresas acima da
vida. O crime da Braskem segue deixando marcas profundas em Maceió. Não podemos
permitir que novos desastres avancem sobre outros territórios.
• CMPC: as artérias da exploração que
ligam a oligarquia chilena ao sul do Brasil
A
Companhia Manufatureira de Papéis e Cartões (CMPC), apresentada como símbolo de
progresso e desenvolvimento, é, na realidade, parte de uma longa engrenagem
histórica de exploração, concentração fundiária e devastação ambiental na
América Latina. Controlada pela oligarquia chilena da família Matte, a empresa
carrega consigo uma herança construída ao longo dos séculos XIX, XX e XXI sobre
a apropriação violenta da terra, a expropriação de povos indígenas e a
destruição sistemática da natureza.
Seus
tentáculos atravessam fronteiras e suas artérias de dominação avançam sem
limites e sem escrúpulos.
No
Chile, a família Matte consolidou um vasto império territorial de milhões de
hectares, muitos deles sobre territórios historicamente pertencentes ao povo
Mapuche. A expansão das empresas florestais chilenas intensificou-se
especialmente durante a ditadura de Augusto Pinochet, quando políticas
públicas, incentivos fiscais e subsídios estatais favoreceram a concentração
fundiária e fortaleceram grandes conglomerados privados ligados ao setor de
celulose e papel.
Foi
nesse período que monoculturas extensivas de pinus e eucalipto avançaram sobre
territórios ancestrais, reduzindo florestas nativas, comprometendo cursos
d’água e aprofundando os conflitos territoriais. O povo Mapuche passou a
denunciar, cada vez mais intensamente, a violência estrutural promovida pelas
corporações florestais e pelo Estado chileno.
No
Paraguai e no Brasil, os grupos ligados à exploração da erva-mate instalaram-se
ainda no início do século passado, submetendo povos indígenas Guarani – Avá e
Kaiowá – a condições brutais de exploração, expulsão territorial e
escravização. A história econômica da região sul da América Latina está
profundamente marcada pela apropriação das terras indígenas e pela
transformação dos povos originários em mão de obra precarizada a serviço dos
grandes empreendimentos privados.
Para
ampliar seus lucros e alimentar uma ambição sem freios, esses grupos econômicos
associaram-se a outros setores igualmente comprometidos com a degradação da
terra, da água e da vida. O itinerário é conhecido: mineração predatória,
monoculturas extensivas, concentração de riquezas e destruição ambiental.
Hoje,
constituem conglomerados poderosos, articulados às grandes cadeias globais de
produção de celulose, papel e exportação de commodities, controlando extensos
territórios em diferentes países da América Latina.
No Rio
Grande do Sul, a multinacional chilena CMPC já atua há décadas e controla
centenas de milhares de hectares de terras ocupadas por monoculturas de
eucalipto. Agora, pretende ampliar ainda mais sua capacidade produtiva,
instalando uma nova fábrica de papel em Barra do Ribeiro, próximo à Região
Metropolitana de Porto Alegre. Segundo reportagem publicada pela Agência
Pública, o chamado “Projeto Natureza”, é o maior investimento privado da
história do Rio Grande do Sul, e deve custar R$ 25 bilhões à empresa.
O
potencial econômico do empreendimento é gigantesco. Gigantescos também serão os
impactos.
A
expansão das monoculturas ameaça a biodiversidade, compromete as águas do
Guaíba, afeta nascentes, empobrece o solo, destrói campos nativos do Pampa e
sufoca comunidades inteiras. Pescadores artesanais, agricultores familiares,
povos indígenas e comunidades tradicionais convivem diretamente com os efeitos
sociais e ambientais desse modelo econômico concentrador.
As
monoculturas de árvores, chamadas por movimentos populares e pesquisadores de
“desertos verdes”, não podem ser confundidas com florestas. São plantações
industriais voltadas exclusivamente ao abastecimento das cadeias globais de
produção. Produzem riqueza concentrada e deixam pobreza social e degradação
ambiental nos territórios atingidos.
Com
desfaçatez, as corporações apresentam-se como defensoras da natureza.
Apropriam-se do discurso ambiental enquanto expandem monoculturas homogêneas
sobre extensas áreas de terra. Vendem-se como benfeitoras do Estado, amigas das
florestas, promotoras da sustentabilidade e portadoras da esperança para
regiões empobrecidas do Rio Grande do Sul.
Nas
propagandas e redes sociais, surgem como pacificadoras, criadoras de empregos,
distribuidoras de renda e representantes do progresso econômico. São projetadas
como novos messias do desenvolvimento, mas basta que sejam contrariadas para
revelar sua verdadeira face.
Atacam
críticos, perseguem opositores, desqualificam movimentos sociais e tentam
silenciar aqueles que ousam questionar seus empreendimentos e suas práticas
predatórias. Depois recorrem à chantagem econômica: ameaçam partir, retirar
investimentos e abandonar o Estado como se fossem proprietárias do destino
coletivo.
Que
partam em definitivo e parem de vender ilusões embaladas em marketing verde.
Porque as riquezas produzidas não permanecem nos territórios. O que fica são os
passivos ambientais, os conflitos sociais, a concentração da terra, a
contaminação das águas e as cicatrizes abertas nas comunidades atingidas.
Nenhum
projeto baseado na devastação pode ser chamado de desenvolvimento. Nenhuma
monocultura pode substituir os modos de ser e viver dos povos. Nenhuma
propaganda sustentável apagará os rastros históricos de destruição deixados
pelas artérias do capital sobre os territórios originários da América Latina.
O que
se apresenta como modernização é, muitas vezes, apenas a continuidade
sofisticada das velhas estruturas coloniais de exploração. Mudam-se os
discursos, refinam-se as propagandas, multiplicam-se os selos verdes e os
relatórios de sustentabilidade, mas permanece intacta a lógica da expropriação:
retirar da terra o máximo possível, concentrar riqueza e socializar destruição.
A
América Latina conhece profundamente essas artérias de exploração. Elas
atravessam séculos. E continuam abertas.
Fonte:
Página do MST/Cimi Regional Sul

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