sábado, 6 de junho de 2026

Do crime da Braskem à ameaça em Craíbas: a mineração avança sobre Alagoas

Alagoas carrega uma ferida aberta que ainda marca a vida de milhares de famílias: o crime provocado pela exploração mineral da Braskem em Maceió. Bairros inteiros foram condenados, comunidades expulsas de seus territórios, memórias apagadas e vidas atravessadas pela insegurança, pelo medo e pelo abandono.

O crime socioambiental provocado pela mineração da Braskem em Maceió começou a se tornar visível em março de 2018, quando moradores dos bairros Pinheiro, Mutange, Bebedouro, Bom Parto e parte do Farol passaram a registrar tremores de terra, rachaduras em casas, ruas afundando e o comprometimento de estruturas inteiras.

Em 2019, um laudo do Serviço Geológico do Brasil (CPRM) confirmou que o afundamento do solo estava diretamente ligado à exploração de sal-gema realizada pela empresa durante décadas. Desde então, mais de 60 mil pessoas foram expulsas de seus territórios e mais de 14 mil imóveis foram condenados, transformando bairros inteiros em verdadeiras cidades fantasmas.

O desastre causado pela mineradora não destruiu somente as casas e as ruas, ele destruiu a vida, as histórias, os vínculos comunitários, os modos de vida e a dinâmica de bairros históricos na cidade de Maceió. A saúde física e mental da população atingida pelo crime é relativizada pela falsa noção de “progresso”, onde o desenvolvimento econômico é colocado como prioridade e a natureza e seus povos sendo desrespeitados e exterminados.

Mesmo diante desse desastre, a lógica da destruição segue avançando em Alagoas. Em Craíbas, no agreste do estado, a exploração mineral conduzida pela Vale acende um alerta para os impactos ambientais, sociais e econômicos que podem atingir as comunidades circunvizinhas.

Com isso, surge o questionamento: quantos crimes serão necessários para que a vida esteja acima do lucro?

<><> O que são as terras raras e quais seus impactos na sociedade?

As terras raras são um conjunto de elementos químicos encontrados na natureza que são considerados estratégicos para a indústria tecnológica moderna. O problema é que a extração das terras raras costuma provocar enormes impactos ambientais e sociais.

A extração desses minérios exige grande volume de água, gera resíduos tóxicos, contamina o solo e os rios e ameaça diretamente os povos que vivem nos territórios explorados. Em Maceió, por exemplo, o crime provocado pela Braskem também atingiu profundamente a Laguna Mundaú, um dos principais símbolos culturais, ambientais e econômicos de Maceió. A contaminação e o avanço da instabilidade na região impactaram diretamente a vida das comunidades tradicionais que dependem da lagoa para sobreviver, especialmente as marisqueiras e os pescadores.

O sururu, alimento que carrega a identidade popular alagoana e sustenta milhares de famílias há gerações, teve sua produção afetada pela degradação ambiental e pelo abandono dos territórios próximos às áreas atingidas e com isso, muitas famílias perderam sua principal fonte de renda.

Portanto, o problema não está apenas no minério que é extraído, mas principalmente no modelo que organiza essa exploração. É um modelo que em nome do lucro e da falsa ideia de “progresso”, sacrifica rios, territórios e seus povos. Ele ignora o meio ambiente, a produção de alimentos, e principalmente a saúde física e mental da população dos territórios explorados.

E mesmo diante de diversos impactos de saúde física e mental da população atingida, no meio ambiente e na dinâmica de toda uma cidade, em Alagoas, essa lógica se repete. O Estado, que já vive as consequências do crime da Braskem, agora presencia o avanço de novos interesses minerários que ameaçam aprofundar ainda mais a destruição ambiental e social.

<><> Craíbas: um desastre anunciado

O município de Craíbas, no Agreste alagoano, vive hoje a tensão provocada pelo avanço da mineração. O que chega embalado como promessa de emprego e crescimento econômico traz consigo inúmeros impactos já conhecidos em diferentes regiões do país: degradação ambiental, contaminação, concentração de riqueza, conflitos territoriais e ameaça às comunidades locais.

A Vale, já conhecida por seus históricos de crimes ambientais, como em Brumadinho e Mariana, continua recebendo autorização para expandir seus projetos de destruição em nome do lucro.

Desde 2021, moradores denunciam tremores constantes provocados pelas explosões realizadas na mineração, além de rachaduras em centenas de residências, poeira intensa, poluição sonora, adoecimento da população e prejuízos à agricultura familiar. Já existem relatos de famílias que abandonaram suas casas por medo de desabamento e comunidades rurais denunciando o impacto da água salinizada nas suas produções.

Mesmo diante de tantas evidências e do histórico recente de crimes ambientais ligados à mineração no Brasil, o projeto segue avançando em nome de um suposto desenvolvimento econômico que sacrificam comunidades inteiras, pois enquanto as grandes empresas ficam com o lucro, o povo fica com a destruição, a poeira, o adoecimento e o apagamento de suas histórias.

<><> Não existe mineração sustentável dentro da lógica do capital

A destruição ambiental não é um acidente. Ela faz parte de um projeto político e econômico que concentra terra, renda e poder nas mãos de poucos, enquanto expulsa comunidades camponesas, indígenas, quilombolas e periféricas de seus territórios.

A exploração de minérios está profundamente ligada ao agronegócio. Ambos compartilham da mesma lógica: transformar a natureza, a água e a biodiversidade em mercadoria e lucro. Nesse sentido, a luta em defesa da natureza não pode ser separada da luta contra o agronegócio e contra a mineração predatória.

<><> A Reforma Agrária Popular denuncia a exploração gerando vida

Diante desse cenário, a luta por Reforma Agrária Popular surge como um projeto concreto em defesa da vida e da natureza.

Enquanto o agronegócio e a mineração aprofundam a destruição, os povos do campo organizados, além de fazer o enfrentamento direto a estas grandes empresas de exploração, produzem alimentos saudáveis, preservam sementes crioulas, recuperam nascentes, reflorestam áreas degradadas e constroem relações de cuidado com a terra.

A Reforma Agrária Popular é a construção de um outro modelo de sociedade, baseado principalmente na soberania alimentar, na agroecologia, na preservação ambiental e na valorização dos territórios e dos povos, com suas diversas especificidades e culturas.

E na Jornada Nacional em Defesa da Natureza e dos Povos, realizada em todo o país até o próximo domingo (7), reafirmamos que não existe saída para a crise ambiental sem enfrentar os grandes responsáveis pela destruição dos territórios. O avanço da mineração e do agronegócio ameaça a vida em todas as suas dimensões. Por isso, defender a natureza é também defender os povos que historicamente cuidam dela.

Alagoas já conhece as consequências de colocar os interesses das empresas acima da vida. O crime da Braskem segue deixando marcas profundas em Maceió. Não podemos permitir que novos desastres avancem sobre outros territórios.

•        CMPC: as artérias da exploração que ligam a oligarquia chilena ao sul do Brasil

A Companhia Manufatureira de Papéis e Cartões (CMPC), apresentada como símbolo de progresso e desenvolvimento, é, na realidade, parte de uma longa engrenagem histórica de exploração, concentração fundiária e devastação ambiental na América Latina. Controlada pela oligarquia chilena da família Matte, a empresa carrega consigo uma herança construída ao longo dos séculos XIX, XX e XXI sobre a apropriação violenta da terra, a expropriação de povos indígenas e a destruição sistemática da natureza.

Seus tentáculos atravessam fronteiras e suas artérias de dominação avançam sem limites e sem escrúpulos.

No Chile, a família Matte consolidou um vasto império territorial de milhões de hectares, muitos deles sobre territórios historicamente pertencentes ao povo Mapuche. A expansão das empresas florestais chilenas intensificou-se especialmente durante a ditadura de Augusto Pinochet, quando políticas públicas, incentivos fiscais e subsídios estatais favoreceram a concentração fundiária e fortaleceram grandes conglomerados privados ligados ao setor de celulose e papel.

Foi nesse período que monoculturas extensivas de pinus e eucalipto avançaram sobre territórios ancestrais, reduzindo florestas nativas, comprometendo cursos d’água e aprofundando os conflitos territoriais. O povo Mapuche passou a denunciar, cada vez mais intensamente, a violência estrutural promovida pelas corporações florestais e pelo Estado chileno.

No Paraguai e no Brasil, os grupos ligados à exploração da erva-mate instalaram-se ainda no início do século passado, submetendo povos indígenas Guarani – Avá e Kaiowá – a condições brutais de exploração, expulsão territorial e escravização. A história econômica da região sul da América Latina está profundamente marcada pela apropriação das terras indígenas e pela transformação dos povos originários em mão de obra precarizada a serviço dos grandes empreendimentos privados.

Para ampliar seus lucros e alimentar uma ambição sem freios, esses grupos econômicos associaram-se a outros setores igualmente comprometidos com a degradação da terra, da água e da vida. O itinerário é conhecido: mineração predatória, monoculturas extensivas, concentração de riquezas e destruição ambiental.

Hoje, constituem conglomerados poderosos, articulados às grandes cadeias globais de produção de celulose, papel e exportação de commodities, controlando extensos territórios em diferentes países da América Latina.

No Rio Grande do Sul, a multinacional chilena CMPC já atua há décadas e controla centenas de milhares de hectares de terras ocupadas por monoculturas de eucalipto. Agora, pretende ampliar ainda mais sua capacidade produtiva, instalando uma nova fábrica de papel em Barra do Ribeiro, próximo à Região Metropolitana de Porto Alegre. Segundo reportagem publicada pela Agência Pública, o chamado “Projeto Natureza”, é o maior investimento privado da história do Rio Grande do Sul, e deve custar R$ 25 bilhões à empresa.

O potencial econômico do empreendimento é gigantesco. Gigantescos também serão os impactos.

A expansão das monoculturas ameaça a biodiversidade, compromete as águas do Guaíba, afeta nascentes, empobrece o solo, destrói campos nativos do Pampa e sufoca comunidades inteiras. Pescadores artesanais, agricultores familiares, povos indígenas e comunidades tradicionais convivem diretamente com os efeitos sociais e ambientais desse modelo econômico concentrador.

As monoculturas de árvores, chamadas por movimentos populares e pesquisadores de “desertos verdes”, não podem ser confundidas com florestas. São plantações industriais voltadas exclusivamente ao abastecimento das cadeias globais de produção. Produzem riqueza concentrada e deixam pobreza social e degradação ambiental nos territórios atingidos.

Com desfaçatez, as corporações apresentam-se como defensoras da natureza. Apropriam-se do discurso ambiental enquanto expandem monoculturas homogêneas sobre extensas áreas de terra. Vendem-se como benfeitoras do Estado, amigas das florestas, promotoras da sustentabilidade e portadoras da esperança para regiões empobrecidas do Rio Grande do Sul.

Nas propagandas e redes sociais, surgem como pacificadoras, criadoras de empregos, distribuidoras de renda e representantes do progresso econômico. São projetadas como novos messias do desenvolvimento, mas basta que sejam contrariadas para revelar sua verdadeira face.

Atacam críticos, perseguem opositores, desqualificam movimentos sociais e tentam silenciar aqueles que ousam questionar seus empreendimentos e suas práticas predatórias. Depois recorrem à chantagem econômica: ameaçam partir, retirar investimentos e abandonar o Estado como se fossem proprietárias do destino coletivo.

Que partam em definitivo e parem de vender ilusões embaladas em marketing verde. Porque as riquezas produzidas não permanecem nos territórios. O que fica são os passivos ambientais, os conflitos sociais, a concentração da terra, a contaminação das águas e as cicatrizes abertas nas comunidades atingidas.

Nenhum projeto baseado na devastação pode ser chamado de desenvolvimento. Nenhuma monocultura pode substituir os modos de ser e viver dos povos. Nenhuma propaganda sustentável apagará os rastros históricos de destruição deixados pelas artérias do capital sobre os territórios originários da América Latina.

O que se apresenta como modernização é, muitas vezes, apenas a continuidade sofisticada das velhas estruturas coloniais de exploração. Mudam-se os discursos, refinam-se as propagandas, multiplicam-se os selos verdes e os relatórios de sustentabilidade, mas permanece intacta a lógica da expropriação: retirar da terra o máximo possível, concentrar riqueza e socializar destruição.

A América Latina conhece profundamente essas artérias de exploração. Elas atravessam séculos. E continuam abertas.

 

Fonte: Página do MST/Cimi Regional Sul

 

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