Uma
revolução produtiva para transformar a Colômbia
Em uma
de suas atividades de campanha antes das eleições de 31 de maio, o candidato à
presidência da Colômbia pelo Pacto Histórico, Iván Cepeda, discursou para um
auditório lotado em Bogotá sobre a necessidade de expandir a “revolução
produtiva” em curso na economia do país.
Segundo
Cepeda, objetivos programáticos estratégicos como a reforma agrária, a
transformação energética e a reindustrialização têm sido as forças motrizes da
nova economia que emerge na Colômbia, a qual um segundo governo progressista
continuaria a desenvolver. De acordo com o candidato, a atual administração do
presidente Gustavo Petro alcançou “resultados expressivos na transição de um
modelo extrativista e rentista para um modelo produtivo, com níveis de
crescimento econômico que beneficiaram os estratos mais pobres da sociedade
colombiana”.
Em um
relatório recente intitulado “O Modelo Econômico Está Mudando”, o think
tank Vida oferece uma análise abrangente da estratégia industrial e
produtiva implementada pelo governo do Pacto Histórico durante seus quatro anos
no poder. Os dados do relatório falam por si, demonstrando a revitalização do
setor industrial do país: as exportações não relacionadas à mineração e energia
consolidaram sua posição como o maior contribuinte para o total das exportações
(52,6%), com uma taxa de crescimento de 23% entre 2022 e 2025, e o impulso
dinâmico proporcionado pela reforma agrária também
impulsionou o crescimento das exportações agrícolas.
LEIA A
ENTREVISTA:
·
Desde a década de 1990, especialmente durante o governo
de César Gaviria, diversos setores produtivos foram enfraquecidos ou mesmo
destruídos. Poderia nos dizer quais foram os efeitos do neoliberalismo no
aparato industrial e produtivo da Colômbia?
SIMON
GÓMEZ-AZZA - O governo de César Gaviria nos disse “bem-vindos ao futuro”, e
esse foi o slogan de sua campanha e de seu governo. Era a versão colombiana do
“fim da história” de Fukuyama, em meio à derrota do socialismo real, à queda do
Muro de Berlim e ao colapso da União Soviética. A Colômbia tornou-se a “aluna
exemplar” do Consenso de Washington, a mais diligente, provavelmente junto com
o Chile. A liberalização econômica foi um choque que acelerou um processo já em
curso: a desindustrialização e a desagrarização da sociedade colombiana. Em
1974, o PIB industrial representava 23,2%. Em 2000, dez anos após a
liberalização, havia caído para 15%. Durante a década de 2010, estabilizou-se
em torno de 12%. Essa “liberalização” impactou severamente o setor produtivo
nacional, particularmente em indústrias como a de calçados, têxteis e artigos
de couro, nas quais a Colômbia era relativamente forte. O setor metalúrgico
também foi decisivamente afetado, assim como as indústrias de papel e
alimentos. Naquela época, a Colômbia passava por um incipiente processo
agroindustrial, num contexto em que o país nunca havia vivenciado as grandes
industrializações das décadas de 1950 e 60, que caracterizaram a história do
restante da América Latina. Nossa industrialização foi tardia. Não vivenciamos
os processos industriais da Argentina sob Perón ou do Brasil sob Getúlio
Vargas, mas tínhamos um modelo de substituição de importações no qual o Estado
desempenhava um papel ativo na economia — uma espécie de “versão light”
desse modelo. Nesse sentido, o neoliberalismo nos afetou decisivamente porque
nos industrializamos tardiamente e, portanto, esse processo ainda estava em
seus estágios iniciais e não consolidado quando o processo de
desindustrialização começou — e de maneira muito rápida. É preciso dizer: essa
abertura da economia ocorreu simultaneamente à intensificação do conflito
armado e ao fenômeno do narcotráfico. Na década de 1990, os narcotraficantes
paramilitares começaram a vencer a guerra contra as guerrilhas comunistas e de
esquerda no país. Isso resultou na expropriação de 7 milhões de hectares de
terras produtivas que antes eram cultivadas com algodão (principalmente em
Cesar e Córdoba).
O
fenômeno da violência na Colômbia a partir da década de 1990 deve ser
compreendido à luz do colapso das atividades produtivas que permitiu que
fazendas antes dedicadas ao cultivo de algodão ou milho se transformassem em
pastagens onde narcotraficantes e paramilitares expulsaram os camponeses e
passaram a acumular o dinheiro do narcotráfico, lavando-o por meio da
propriedade da terra e da desapropriação. Em outras palavras, o espaço livre
criado pela desindustrialização foi rapidamente cooptado militar, econômica e
politicamente por setores reacionários que, por assim dizer, nos fizeram
retroceder um pouco ao passado.
·
Por que focar na reindustrialização do país em vez de
adotar uma abordagem de vantagens comparativas?
SGA - Existe
um debate histórico que contrapõe a visão ricardiana do comércio exterior às
perspectivas clássica e marxista. Marx, naturalmente, abordou a questão, mas o
economista que me interessa destacar é Anwar Shaikh, do Paquistão, um
dos mais importantes economistas da tradição marxista contemporânea, da The New
School for Social Research. O debate fundamental gira em torno da questão de se
os países devem se especializar de acordo com suas “vantagens comparativas”. A
teoria de David Ricardo — e a de seus sucessores na ortodoxia econômica atual —
sustenta que existem mecanismos de ajuste automático que, a longo prazo,
estabilizam a balança de pagamentos e as contas correntes das nações. Sob essa
premissa, o livre mercado nos diz que a Colômbia pode sobreviver
confortavelmente exportando apenas seis ou sete produtos: café, bananas,
flores, cocaína, carvão e petróleo. O que Shaikh faz é desmantelar esse mito
das “vantagens comparativas” demonstrando que não existe ajuste “automático”:
os países ricos têm superávits crônicos, enquanto os países periféricos sofrem
déficits crônicos e permanecem presos à exportação de matérias-primas. Essa
visão nos condena a produzir bens de baixo valor agregado sob a promessa de um
mecanismo de estabilização que não existe, que nunca se materializa na
realidade. A globalização foi concebida para manter países como o nosso na
armadilha da pobreza. Acho bastante curioso como a chamam de “armadilha da
renda média”… Eu a chamaria de armadilha da improdutividade, porque se trata de
uma renda média artificial.
Nossa
elite nos condenou a depender de petróleo e gás, e nós não temos petróleo e
gás. Não somos a Venezuela, não somos o Catar, não somos a Noruega, não somos a
Rússia, não somos o Irã, não somos os Estados Unidos: somos a Colômbia. E
precisamente por essa razão, a proposta do Presidente Petro para uma transição
energética e uma transição na matriz produtiva da Colômbia é uma proposta de
imensa responsabilidade macroeconômica e uma responsabilidade para com o país.
Por que digo isso? Porque se não desenvolvermos nossas vantagens competitivas,
se a Colômbia não revitalizar seu setor industrial e adaptá-lo às realidades do
século XXI, se a Colômbia não tiver uma reforma agrária que lhe permita
modernizar sua economia, a médio prazo não seremos competitivos no cenário
mundial. A abordagem ortodoxa da vantagem comparativa tinha alguma lógica na
era das cadeias de suprimentos just–in-time e das
economias de mercado aberto. Mas não estamos mais nesse mundo. Este é um mundo
que retorna ao mercantilismo. Um mundo em guerra, um mundo cujas cadeias de
suprimentos estão se desintegrando e, portanto, se a Colômbia não desenvolver
suas vantagens competitivas, escolher determinados setores e implementar
políticas de reindustrialização, lhe faltará a autonomia estratégica de que
precisa. Por essa razão, desenvolver nossas vantagens competitivas é agora uma
questão de segurança nacional e regional.
·
A estratégia produtiva do governo do Pacto Histórico
também visa seguir princípios ecológicos e não ser uma repetição das políticas
industriais do século XX. Como pretendem fazer isso?
SGA - O
que torna o governo de Gustavo Petro um modelo diferente para superar o
neoliberalismo é que ele consegue responder a duas questões que, desde os anos
1990, a esquerda não havia conseguido solucionar. A queda do Muro de Berlim e o fracasso do
socialismo real tiveram um impacto ideológico tão grande na esquerda que certos
setores dentro dela — especialmente aqueles com maior formação universitária e
menos relacionados à luta de classes em termos concretos — começaram a
argumentar que o progresso não existia, que o desenvolvimento não era uma
categoria válida e que a história não tinha direção.
Parte
do ambientalismo e do ecologismo se baseia nessa perspectiva filosófica
pós-moderna e, a partir daí, conclui que devemos retornar a um modo de vida
ancestral impossível e fantasioso. Essa é uma visão muito perigosa, pois
acredito que, pelo menos em parte, implica uma traição flagrante ao direito
legítimo das classes trabalhadoras de aspirar a uma vida melhor. Mas também
existe uma esquerda negacionista das mudanças climáticas que presume que
podemos continuar como se nada estivesse acontecendo. O pior exemplo é a
Venezuela, que tentou construir justiça social distribuindo a receita do
petróleo — uma abordagem falha, visto que a riqueza provém da produção, não da
renda. A renda não gera riqueza social, muito menos riqueza social sustentável;
além disso, essas políticas acabaram transformando o país em um Estado
dependente de combustíveis fósseis que contribui para a destruição ambiental. Petro
defende a possibilidade de progresso e desenvolvimento e, para isso, propõe a
construção de uma “economia para a vida” que parte do princípio de que a
contradição entre capital e natureza é a principal contradição do século XXI. É
claro que isso não deve ser interpretado como se a contradição entre capital e
trabalho não existisse ou não fosse uma contradição estrutural para a luta em
cada um de nossos países. O que ele quer dizer é que o desenvolvimento e o
progresso podem existir sem deixar petróleo e carvão enterrados no subsolo.
A
Colômbia é o primeiro país da história da humanidade a congelar sua fronteira
extrativista. O que isso significa? Atualmente, metade do território colombiano
está sob concessão para exploração e aproveitamento de recursos naturais. Bem,
o que está sob concessão permanece sob concessão, pelo menos por enquanto. Mas
não concederemos mais nenhuma concessão. O governo está, portanto, propondo uma
política de reindustrialização voltada para cinco setores: saúde, produção
farmacêutica, defesa, agronegócio e energia. A Colômbia possui uma capacidade
instalada significativa na indústria militar; infelizmente, devido ao conflito
armado, isso levou a custos irrecuperáveis ou dependência de
trajetória,
resultando na falta de empresas competitivas e capacidade industrial no setor
de defesa.
A
reforma agrária democratizará ou tornará acessíveis quase um milhão de hectares
para a economia camponesa. É essa classe camponesa emergente, que antes não
possuía terras, mas agora as detém, que deve se organizar e formar
cooperativas. O papel do Estado nesse programa é implementar políticas
industriais em conjunto com eles para alcançar metas de desenvolvimento
nacional, como a soberania leiteira, o progresso rumo à soberania do milho e a
transformação produtiva de culturas agroindustriais que permitam exportações de
alto valor agregado. Na minha opinião, a Colômbia também precisa criar um fundo
soberano para a transição econômica e energética, que poderia ser financiado
com dividendos da petrolífera estatal Ecopetrol (embora fosse necessário
nacionalizá-la completamente novamente). Os royalties da mineração e do
petróleo também poderiam ser redirecionados para esse fundo soberano, que então
faria investimentos produtivos visando gerar formação bruta de capital fixo nos
setores que devem substituir o extrativismo, particularmente a bioeconomia e a
transição energética.
·
Você mencionou anteriormente o termo “Petronomics”.
Quais seriam, em sua opinião, suas principais características, conquistas e
desafios? Você acha que ela conseguiu desafiar a ortodoxia neoclássica no
pensamento econômico?
SGA - O
primeiro elemento consiste na recuperação da participação dos trabalhadores na
distribuição funcional da renda e em um impulso à demanda. Segundo cálculos
do think tank Vida, a participação dos trabalhadores na
distribuição funcional da renda, quando o novo governo assumiu o poder em 2022,
era de 38,78%. Em 2025, esse número subiu para 43,11%. Esse aumento reflete uma
maior participação dos trabalhadores na renda nacional e uma recuperação
relativa da remuneração do trabalho dentro da estrutura distributiva da
economia colombiana.
Segundo
nossos cálculos, os segmentos mais pobres da população foram os mais
beneficiados por essas políticas. Aqueles que ganham menos que o salário mínimo
viram um aumento real significativo em sua renda, em proporção aos seus ganhos,
durante este governo, em torno de 45,6%. Em outras palavras, o mito comum na
Colômbia de que o salário mínimo beneficia apenas os trabalhadores do setor
formal é completamente falso. Os dados mostram que o estímulo à demanda do
consumidor beneficiou desproporcionalmente os trabalhadores de baixa renda,
cujos rendimentos são inferiores aos dos assalariados.
O
segundo elemento é o objetivo de reduzir a dependência dos setores rentistas e
estimular os setores produtivos da economia. Este é, sem dúvida, um processo
longo e difícil, pois há muitos custos irrecuperáveis. Após trinta e cinco anos
de neoliberalismo, todo o financiamento recebido pela mineração e pelos bancos
não foi destinado à agricultura ou à indústria. Recuperar essa situação exige
os juros compostos de investimentos contínuos ao longo do tempo. Em outras
palavras, a revitalização desses setores depende fortemente de investimentos
sistemáticos e de longo prazo; não é algo que acontece da noite para o dia. No
setor agrícola, tivemos um crescimento muito significativo. Nos últimos anos,
houve períodos em que crescemos a taxas de 10%. O turismo também está em plena
expansão no país, o que obviamente apresenta seus problemas, mas atualmente se
mostra um importante gerador de empregos e divisas. Assim, o segundo ponto da “Petronomics”
é a transição de um conjunto de motores de desenvolvimento para outro. Durante
este governo, passamos de 2% para 16% de capacidade instalada de produção de
energia renovável, excluindo a energia hidrelétrica. Esta é uma parte
importante da mudança de modelo: o incentivo à energia renovável, o terceiro
ponto da “Petronomics”. Houve tentativas sucessivas de se chegar a um
acordo nacional para incentivar os setores produtivos, mas até agora não
obtiveram muito sucesso.
Em seus
quatro anos de mandato, o governo não conseguiu reverter a desindustrialização
do país. Houve avanços significativos em setores estratégicos específicos, como
metalurgia, automóveis e ônibus elétricos (com a primeira fábrica desse tipo na
América Latina, inaugurada por meio de um consórcio com a empresa chinesa BYD e
a japonesa Hino). Mas, apesar dessas conquistas específicas, a participação do
setor industrial no PIB continuou a diminuir, e precisamos entender o porquê. O
governo Petro teve que suportar a política monetária contracionista mais severa
do país desde o estabelecimento de um sistema bancário central independente.
Sofremos com uma política monetária que encareceu o crédito a tal ponto que
está dificultando o investimento produtivo. Isso ocorre porque o Banco Central
priorizou os interesses dos detentores de títulos e outros valores mobiliários
em detrimento dos interesses do setor produtivo, o que impactou, lógica e
decisivamente, a reindustrialização. Há um problema de financiamento para o
desenvolvimento em termos do custo do crédito na economia, o que dificulta o
incentivo ao investimento (investimento nos setores estratégicos que
desejamos).
É
possível ter uma política de desenvolvimento produtiva, focada na recuperação
industrial e na inovação, com um sistema monetário que penaliza
sistematicamente o investimento privado na economia? Acredito que seja
prejudicial para nossos países financiar gastos correntes por meio da emissão
de moeda. Temos os casos da Argentina e da Venezuela. Nossos países carecem de
soberania monetária. Financiar gastos correntes por meio da emissão de moeda
nos Estados Unidos é uma coisa, mas fazê-lo em nossos próprios países é bem
diferente. Isso não significa que não haja nada a ser feito: acredito que o
Banco Central deva implementar uma política de direcionamento de crédito a
juros baixos e baixo custo para setores produtivos específicos. Uma das
características definidoras do modelo chinês é sua capacidade de canalizar
recursos para o desenvolvimento de setores estratégicos. Precisamos fazer algo
semelhante na América Latina.
É
crucial também enfatizar que uma revolução agrária faz parte da política
industrial. A terra é um fator de produção, portanto, democratizar sua
propriedade e distribuição também é uma política industrial. O que precisamos
não é de menos reforma agrária, mas de mais: devemos redobrar nossos esforços
para que ela se traduza em projetos produtivos, investimento em bens públicos
rurais e crédito acessível para cooperativas agrícolas. Em todo caso, mesmo em
seu estado atual, totalmente incipiente, considero que a reforma agrária já é
uma grande vitória para a política industrial do governo Petro, porque visa não
apenas à justiça agrária, não apenas à questão ideológica do problema da terra,
mas também à democratização da sociedade como um todo.
·
De que forma o atual contexto geopolítico afeta a
estratégia de produção do governo colombiano?
SGA - Em
conjunto com a Internacional Progressista, o governo convocou um festival de
economias para a vida, um evento anual organizado pela Internacional
Progressista “em direção a uma Nova Ordem Econômica Internacional (NOEI)”.
Isso, naturalmente, deriva da discussão original sobre a NOEI, proposta pelo
Movimento Não Alinhado à Assembleia Geral das Nações Unidas em 1974. Estou
convencido de que estamos testemunhando a queda do neoliberalismo globalmente,
mas isso não significa que seu declínio abrirá caminho para algo melhor,
porque, por ora, o mundo caminha em uma direção aceleracionista e fascista. Mas
de fato está em declínio: os principais preceitos que o sustentavam já não
gozam do mesmo consenso de outrora. Como se pode falar em neoliberalismo em um
mundo que se torna cada vez mais desglobalizado e mercantilizado? Estamos de
volta a um cenário de competição entre grandes potências, como se estivéssemos
na Conferência de Berlim antes da Primeira Guerra Mundial, e acredito que a
América Latina pode ter um lugar à mesa. Mas para isso, é necessária a unidade
de ação em todo o continente, bem como a integração prática do comércio e da
produção. A integração política foi maravilhosa, a era do “não à ALCA” e do
“ALCArajo”, com Chávez, Néstor, Lula… tudo isso foi maravilhoso e lembramos com
muito carinho. Mas a Europa só começou a se unir quando chegou a um acordo
sobre aço e carvão na década de 1950. A América Latina precisa implementar
políticas comerciais que protejam nossa região, que integrem as cadeias produtivas
regionais, especialmente em tempos de extrativismo verde, em que o que ameaça
nosso continente é a substituição do carvão e do petróleo por lítio e cobre.
O
presidente Petro chegou a propor a integração de nossos sistemas de energia e
eletricidade para produzir energia coletivamente e vendê-la aos Estados Unidos.
Precisamos encontrar aliados que nos permitam desenvolver uma posição soberana
no mundo. A soberania se conquista por meio da autonomia estratégica, portanto,
a América Latina em geral, e a Colômbia em particular, devem ser capazes de
estabelecer uma relação soberana com o resto do mundo.
·
Como um governo de Iván Cepeda daria continuidade a essa
revolução produtiva? Quais seriam os principais objetivos nessa área?
SGA - Iván
Cepeda falou recentemente de uma revolução produtiva. Isso porque chegamos a
compreender que a recuperação do trabalho dentro da divisão funcional da renda,
a recuperação da renda dos trabalhadores, representa também uma oportunidade
para o setor privado e o setor produtivo nacional. Esse setor produtivo não é
composto apenas por grandes corporações, mas inclui também a economia popular e
camponesa, que já é produtiva, mas tem potencial para ser muito mais. A
proposta de política industrial de Iván Cepeda é um projeto com foco duplo: no
setor produtivo privado, mas também nas economias populares e camponesas, que
também são produtivas nos setores reais da economia. Essas duas forças
motrizes, esses dois objetos da política industrial, têm a tarefa, a curto e
médio prazo, de alcançar a recuperação da participação dos trabalhadores na
renda nacional. Existe aqui uma oportunidade para o aparato produtivo nacional
— privado, popular e camponês — aumentar e expandir sua capacidade produtiva.
Há um desafio, especialmente no que diz respeito ao financiamento e ao custo do
crédito, e uma reestruturação dos bancos de desenvolvimento será necessária
para reduzir o custo do crédito para a produção. Da mesma forma, as negociações
com o Banco Central são essenciais porque, sem essas duas iniciativas
paralelas, a política industrial enfrenta um grande obstáculo: o custo do
crédito que mencionei anteriormente. Portanto, acredito que um acordo sobre
financiamento para o desenvolvimento seja necessário, um acordo em que os
bancos e o setor financeiro devam ceder. E em que o Banco Central também deva
se concentrar no desenvolvimento e no financiamento de atividades produtivas.
Atrair
investimento estrangeiro de qualidade em setores estratégicos exige pragmatismo
e o abandono de alguns dogmas da esquerda latino-americana. Nossos países não
se desenvolvem sozinhos. Precisamos entender o modelo chinês, que atraiu grande
investimento estrangeiro, mas sob certas condições que permitiram a
transferência de tecnologia, a propriedade conjunta dos investimentos e o
fornecimento local. A Colômbia pode implementar políticas desse tipo. E nem
Abelardo de la Espriella nem Paloma Valencia vão considerar essas medidas.
Somente Iván Cepeda, com seu programa de governo focado na economia política
colombiana, tem a possibilidade de forjar uma aliança entre empresas nacionais
produtivas, economias populares e camponesas e o Estado, com o objetivo de
desenvolver as forças produtivas da Colômbia. “Para o bem de todos, os pobres
vêm em primeiro lugar”, afirma Iván Cepeda, e não se trata apenas de um slogan.
Os resultados econômicos dessa ordem de prioridades já são evidentes nestes
primeiros quatro anos de governo: a menor taxa de desemprego dos últimos 25
anos, um aumento real do salário mínimo que chegará a 36% até o final do
mandato, e uma taxa de informalidade que, embora ainda alta e um dos desafios
mais complexos a serem enfrentados, caiu de 58% para 55% nos últimos anos.
O mito
de que a melhoria das condições de trabalho leva à informalidade é falso. A
informalidade é combatida pelo desenvolvimento de métodos produtivos, não por
brechas legais, isenções fiscais ou empregos precários. E acredito que a frase
“para o bem de todos, os pobres vêm em primeiro lugar” sugere não apenas um
conjunto de prioridades que visa começar pelos mais marginalizados, mas também
uma postura firme em relação à política econômica, que compreende que a
desigualdade e a pobreza limitam as oportunidades de crescimento de uma nação.
Fonte: Entrevista
com Simón Gómez-Azza - Tradução Pedro Silva, em Jacobin Brasil

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