sábado, 6 de junho de 2026

Os que foram impedidos de sonhar

Ano de 1988. O debate sobre a constituição fertilizava o país. Mas aquilo pouco importava para um adolescente de 15 anos de idade que acabara de ingressar no mundo do trabalho formal pelas portas da construção civil. Os desejos eram ingênuos. O primeiro deles, não realizado, estava ali, no fundo do enorme galpão que abrigava o almoxarifado preenchido por tubulações, revestimentos, latas de tinta e a poeira cinza do cimento. Escanteada, com os dois pneus murchos, a velha Yamara RX 80 preta, motor 2 tempos, conhecida como oitentinha, era, em silêncio, desejada. Abandonada, aquela velha motocicleta alimentou os sonhos de um trabalhador que ocupava a base da pirâmide salarial da construção civil.

Ano de 2026. Um diálogo, extraído de um vídeo na rede social Instagram, contorce o estomago: — Qual o seu nome? — É Sharon. — Qual é o teu sonho? — Eu não tenho sonho. A jovem branca, com sua bicicleta parada na calçada, com a bag vermelha fixada nas costas, remetendo à imagem do quasímodo de Victor Hugo, não se conteve em lágrimas. Essa jovem, a despeito da tragédia familiar relatada, não está sozinha. É parte da infantaria de trabalhadores e trabalhadoras precarizados que povoam a paisagem urbana do país.

As aspirações das gerações anteriores, que desfrutavam da sociabilidade do trabalho estável e de uma diminuta porção das políticas públicas, especialmente aquelas que facilitaram a aquisição de bens duráveis, não servem de exemplo para a juventude pobre que não acredita mais nas promessas da sociedade do trabalho.

Mas há um ponto que deveria anteceder qualquer formação de juízo sobre as razões da incapacidade de sonhar desses jovens. Não estamos a tratar de julgamentos morais ou de escolhas que não tenham qualquer relação com a reprodução diária de suas vidas. Aqui o antídoto interpretativo parece ser aquele resumido em uma das Teses sobre Feuerbach (VIII), que advoga que a vida social é, essencialmente, prática (Marx & Engels, 2008). O que importa, portanto, é partir das condições reais, traduzidas pela história e inscritas no cotidiano dos jovens precarizados.

Um pouco do que Friedrich Engels fez ao renunciar ao Porto e à Champanhe para adentrar na vida das operárias e operários para compor o brilhante livro A situação da classe trabalhadora na Inglaterra. O que os indivíduos são, desejam ser ou são impedidos de sê-lo, não se explica pelas escolhas individuais situadas no tempo presente.

Encontramos esse princípio de análise em A irrupção, texto do filósofo Henri Lefebvre, publicado no calor do Maio de 1968: “A juventude operária nasce como uma ira, cega ou lúcida, contra a pressão das autoridades, contra o ´real´ existente na sua integridade. Se a geração anterior fez sobretudo reivindicações no plano econômico, se ela quis e ainda quer bens de consumo, aumento de salário, numa palavra, o fim da velha miséria, a geração nova quer outra coisa. A geladeira e o carro não seduzem mais, não a espantam mais, não a satisfazem”. (p. 130-131).

O contexto europeu, no ocaso daquilo que já foi adjetivado de Trinta Gloriosos, não se reproduziria, no Brasil, da mesma forma, nem tampouco o diagnóstico preliminar do filósofo sobre o desejo dos jovens que pincharam os muros de Paris. Aqui nunca respiramos os ganhos, traduzidos na universalização dos serviços públicos ou em empregos com remunerações dignas, para os trabalhadores da cidade e do campo. É certo que a Constituição de 1988 (Brasil, 1988) firmou uma série de pactos que ampliaram as redes protetivas públicas, a exemplo da saúde, da educação e da Previdência Social. Os pequenos avanços registrados, aos quais podemos somar as transferências de renda direta, como o Bolsa Família, ajudaram a retirar uma fração da população da indigência.

Os avanços, infelizmente, não concorreram com os retrocessos sociais resultantes das radicais mudanças no mercado de trabalho e da adesão ao programa de austeridade fiscal. Equilibramo-nos, para utilizar a metáfora do sociólogo Robert Castel (2003), em As metamorfoses da questão social, entre a zona dos “instáveis”, caminhando, a passos largos, para a zona de “desfiliação”. Nessa zona obscura, repleta de riscos, não é permitido sonhar, sequer, com a sucata de uma velha motocicleta. Uma fração significativa da juventude precarizada encontra-se nas bordas dessa zona cinzenta de desfiliação da qual, no nosso modelo de sociedade, é quase impossível sair.

Mas como, objetivamente, podemos encontrar subsídios para compreender essa impossibilidade de sonhar dos jovens trabalhadores? Será que a visão idealista de um mundo composto por indicadores macroeconômicos positivos não é produto de nossa vontade de partilhar nossas poucas conquistas com uma massa de jovens sem esperança?

 correlação dos dados macroeconômicos, desde que submetidos ao escrutínio da realidade objetiva, pode dar pistas para compreendermos a erosão dos sonhos da juventude trabalhadora. O primeiro dado, uma vez que vivemos em uma sociedade cujo motor da geração e concentração da riqueza é a venda da força de trabalho, refere-se ao desemprego. Há uma inegável euforia registrada nos últimos anos que é resultante da redução das taxas de desemprego, que faz os mais entusiastas até mesmo cogitar a hipótese de que vivemos uma situação de pleno emprego.

A taxa de desocupação geral, em 2012, atingiu 8 pontos, inferior aos 6,1 pontos registrados no ano de 2026. Ocorre que, em um país com as características do Brasil, as médias quase sempre não explicam a complexidade econômica e social do território. No ano de 2012, a taxa de desemprego entre 14 e 17 anos atingiu 24,8 pontos e entre 18 e 24 anos, 16,1 pontos. Em 2026, a taxa de desocupação entre 14 e 17 anos atingiu 25,1 e, entre 18 e 24, alcançou 13,8 pontos. O desemprego atinge, fundamentalmente, a população jovem e negra, com evidentes cortes regionais.

Segundo o IBGE (2026): “A taxa de desocupação por sexo foi de 5,1% para os homens e 7,3% para as mulheres no primeiro trimestre de 2026. Já a taxa de desocupação por cor ou raça ficou abaixo da média nacional (6,1%) para os brancos (4,9%) e acima para os pretos (7,6%) e pardos (6,8%)”. O desemprego entre os jovens é assustador. Não há porque, sem horizonte de renda resultante da estabilidade do emprego formal, imaginar que esses jovens tenham razões para sonhar. O cotidiano é mais pragmático. A ambição é conseguir pagar o aluguel e, sobrando algum dinheiro, alimentar-se com algo que não seja macarrão instantâneo.

A experiência do desemprego dos jovens, incluindo aquela do núcleo familiar, não é abstrata. Na impossibilidade de renda do emprego formal, com os benefícios, já erodidos, da CLT, a opção que resta é ingressar no heterogêneo universo do trabalho informal. No Brasil, segundo dados do IBGE (2026), 37,8% da população ocupada encontra-se na informalidade. São 38,5 milhões de trabalhadoras e trabalhadores sem qualquer expectativa de proteção laboral. Esse universo de trabalhadores informais, uma parcela significativa de jovens, ocupa, predominantemente, o setor de comércio e de serviços.

No comércio varejista das pequenas cidades, as ocupações são caracterizadas por reduzidos salários e alta carga de trabalho semanal. O trabalho de freelancer, em bares, restaurantes e lanchonetes, servindo comida ou vigiando de crianças, é a regra para uma legião de jovens das grandes cidades que se juntam aos vendedores ambulantes que inflacionam as paradas de ônibus e sinaleiros. A chamada escala 6X1 também é a regra comum na informalidade, atingindo, especialmente, os jovens, como descrito no Atlas comentado da escala 6X1 no Brasil (Arrais et al., 2025).

Os empregos, independentemente da escolarização, não oferecem, como antes, a certeza de vantagens adicionais. Dos 4.589 trabalhadores da escala 6X1 que responderam à pesquisa realizada pelo Observatório do Estado Social Brasileiro, 24,45% tinham curso superior completo e 22,29% curso superior incompleto. Aquele processo descrito por Pierre Bourdieu (2012), em A distinção, sobre a defasagem entre a escolarização e a oportunidade de empregos, é repaginado na periferia do capitalismo.

Invariavelmente, o desemprego e a informalidade sedimentam o caminho para o endividamento. O geógrafo Milton Santos, ainda na década de 1980, advertia que o SPC funcionava como uma espécie de “tribunal privado” (1987, p. 22). No Brasil, em abril de 2026, 50,8% da população adulta tinha nome negativizado. A dívida média, em janeiro de 2019, era de R$ 3.926,39, passando, em abril de 2026, para R$ 6.814,39.

Considerando o setor da inadimplência, em abril de 2026, os bancos/cartões responderam por 27,5% e o setor financeiro 19,8% das dívidas, respectivamente. Os dados fazem par com aqueles divulgados pelo DIESSE, que identificou, com base na Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor, que 80,4% das famílias estavam, em março de 2026, endividadas (DIESSE, 2026). A evolução no valor das dívidas individuais, especialmente no cartão de crédito rotativo, ilustra o drama da juventude.

As bets não inauguraram o paradigma do endividamento. A institucionalização da agiotagem antecede esse fenômeno. A listagem, disponível no site do Banco Central do Brasil, sobre as taxas de juros prefixados de cartões de crédito rotativo é indecente. Os juros anuais das 62 instituições listadas variam de 22,08% ao ano até 992,11% ao ano. Nessa modalidade, a Caixa Econômica Federal, o Banco do Brasil e o Bradesco operam com juros anuais de 297,49%, 345,5% e 392,78%, respectivamente.

A novidade, fartamente registrada pela imprensa (Piauí, 2025), é que mais da metade do endividamento via cartão de crédito tem ocorrido para aquisição de alimentos. Não se trata mais de imaginar a dívida para a aquisição de uma residência própria, de um veículo ou de uma passagem aérea para algum destino turístico no nordeste brasileiro. É apenas a sobrevivência, em modo semelhante ao registrado pela jornalista Bárbara Ehrenreich, no livro Miséria à americana – vivendo de subemprego nos Estados Unidos.

O endividamento talvez seja o processo que melhor explica o padrão de acumulação neoliberal. Sendo estrutural, pouco importa a liturgia da educação financeira que povoa os currículos escolares. Maurizio Lazzarato, em O governo do homem endividado, ofereceu a senha para interpretarmos esse processo:

A divida constitui uma nova técnica de poder. O poder de controle e de coerção sobre o devedor não vem do exterior, como nas sociedades disciplinares, mas do devedor ele mesmo. (2017, p.66)

Se adotarmos a premissa de que o primeiro ato histórico dos homens resulta, como assinalaram Marx e Engels (1998, p. 39), de sua necessidade de comer, beber, ter habitação, vestir-se, então, para os trabalhadores e trabalhadoras, a venda de sua força de trabalho para aquisição de bens de consumo continua sendo um fator decisivo para a reprodução da vida. O endividamento, por comprometer a reprodução da vida, tolhe as ambições mais diminutas dos jovens, queimando, diariamente, sua já envelhecida epiderme.

Não há dúvidas de que, por diferentes razões, a questão da participação da juventude na política partidária, nos marcos da democracia representativa, tenha despertado interesse nacional. Todos continuam a reivindicar o monopólio sobre o futuro da juventude. As diferentes matrizes políticas olham para o futuro, quase sempre, na defensiva, como se não tivessem nenhuma responsabilidade pelas decisões políticas e econômicas que favoreceram a precarização do trabalho. Parecem disputar o futuro, desvinculando-se de qualquer responsabilidade sobre o passado.

Acreditam que esses jovens operam fora de uma racionalidade política, motivo pelo qual eles não seriam capazes de reconhecer, e agradecer, os avanços sociais representados pelos indicadores macroeconômicos. Adjetivam-nos, com soberba intelectual, de “pobres de direita” (Souza, 2014). Qualificam-nos, jocosamente, de “empreendedores”. Não sabem que aquilo que une um entregador motociclista por aplicativo de São Paulo, uma operadora de caixa de um grande varejista de Recife e uma manicure de Goiânia, inscrita no MEI, é, apenas, a vontade de reproduzir suas vidas e, quem sabe, individualmente ou em família, aprender, como as gerações anteriores, a sonhar.

Enfim, 37 anos separam o desejo tímido por aquela velha moto do choro angustiante da jovem Sheron. Em 1988, ano da constituinte, os sonhos ainda tinham a capacidade, mesmo para um jovem pobre, de semear o mundo real. Para Sheron, que observa a juventude, incorporada ao suor, escorrer na pele, não sonhar pode ser a melhor forma de evitar semear a amarga realidade que aprisiona, adoece e mata os jovens pobres brasileiros.

 

Fonte: Por Tadeu Alencar Arrais, em A Terra é Redonda

 

 

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