Os
que foram impedidos de sonhar
Ano de
1988. O debate sobre a constituição fertilizava o país. Mas aquilo pouco
importava para um adolescente de 15 anos de idade que acabara de ingressar no
mundo do trabalho formal pelas portas da construção civil. Os desejos eram
ingênuos. O primeiro deles, não realizado, estava ali, no fundo do enorme
galpão que abrigava o almoxarifado preenchido por tubulações, revestimentos,
latas de tinta e a poeira cinza do cimento. Escanteada, com os dois pneus
murchos, a velha Yamara RX 80 preta, motor 2 tempos, conhecida como oitentinha,
era, em silêncio, desejada. Abandonada, aquela velha motocicleta alimentou os
sonhos de um trabalhador que ocupava a base da pirâmide salarial da construção
civil.
Ano de
2026. Um diálogo, extraído de um vídeo na rede social Instagram, contorce o
estomago: — Qual o seu nome? — É Sharon. — Qual é o teu sonho? — Eu não tenho
sonho. A jovem branca, com sua bicicleta parada na calçada, com a bag vermelha
fixada nas costas, remetendo à imagem do quasímodo de Victor Hugo, não se
conteve em lágrimas. Essa jovem, a despeito da tragédia familiar relatada, não
está sozinha. É parte da infantaria de trabalhadores e trabalhadoras
precarizados que povoam a paisagem urbana do país.
As
aspirações das gerações anteriores, que desfrutavam da sociabilidade do
trabalho estável e de uma diminuta porção das políticas públicas, especialmente
aquelas que facilitaram a aquisição de bens duráveis, não servem de exemplo
para a juventude pobre que não acredita mais nas promessas da sociedade do
trabalho.
Mas há
um ponto que deveria anteceder qualquer formação de juízo sobre as razões da
incapacidade de sonhar desses jovens. Não estamos a tratar de julgamentos
morais ou de escolhas que não tenham qualquer relação com a reprodução diária
de suas vidas. Aqui o antídoto interpretativo parece ser aquele resumido em uma
das Teses sobre Feuerbach (VIII), que advoga que a vida social é,
essencialmente, prática (Marx & Engels, 2008). O que importa, portanto, é
partir das condições reais, traduzidas pela história e inscritas no cotidiano
dos jovens precarizados.
Um
pouco do que Friedrich Engels fez ao renunciar ao Porto e à Champanhe para
adentrar na vida das operárias e operários para compor o brilhante livro A
situação da classe trabalhadora na Inglaterra. O que os indivíduos são, desejam
ser ou são impedidos de sê-lo, não se explica pelas escolhas individuais
situadas no tempo presente.
Encontramos
esse princípio de análise em A irrupção, texto do filósofo Henri Lefebvre,
publicado no calor do Maio de 1968: “A juventude operária nasce como uma ira,
cega ou lúcida, contra a pressão das autoridades, contra o ´real´ existente na
sua integridade. Se a geração anterior fez sobretudo reivindicações no plano
econômico, se ela quis e ainda quer bens de consumo, aumento de salário, numa
palavra, o fim da velha miséria, a geração nova quer outra coisa. A geladeira e
o carro não seduzem mais, não a espantam mais, não a satisfazem”. (p. 130-131).
O
contexto europeu, no ocaso daquilo que já foi adjetivado de Trinta Gloriosos,
não se reproduziria, no Brasil, da mesma forma, nem tampouco o diagnóstico
preliminar do filósofo sobre o desejo dos jovens que pincharam os muros de
Paris. Aqui nunca respiramos os ganhos, traduzidos na universalização dos
serviços públicos ou em empregos com remunerações dignas, para os trabalhadores
da cidade e do campo. É certo que a Constituição de 1988 (Brasil, 1988) firmou
uma série de pactos que ampliaram as redes protetivas públicas, a exemplo da
saúde, da educação e da Previdência Social. Os pequenos avanços registrados,
aos quais podemos somar as transferências de renda direta, como o Bolsa
Família, ajudaram a retirar uma fração da população da indigência.
Os
avanços, infelizmente, não concorreram com os retrocessos sociais resultantes
das radicais mudanças no mercado de trabalho e da adesão ao programa de
austeridade fiscal. Equilibramo-nos, para utilizar a metáfora do sociólogo
Robert Castel (2003), em As metamorfoses da questão social, entre a zona dos
“instáveis”, caminhando, a passos largos, para a zona de “desfiliação”. Nessa
zona obscura, repleta de riscos, não é permitido sonhar, sequer, com a sucata
de uma velha motocicleta. Uma fração significativa da juventude precarizada
encontra-se nas bordas dessa zona cinzenta de desfiliação da qual, no nosso
modelo de sociedade, é quase impossível sair.
Mas
como, objetivamente, podemos encontrar subsídios para compreender essa
impossibilidade de sonhar dos jovens trabalhadores? Será que a visão idealista
de um mundo composto por indicadores macroeconômicos positivos não é produto de
nossa vontade de partilhar nossas poucas conquistas com uma massa de jovens sem
esperança?
correlação dos dados macroeconômicos, desde
que submetidos ao escrutínio da realidade objetiva, pode dar pistas para
compreendermos a erosão dos sonhos da juventude trabalhadora. O primeiro dado,
uma vez que vivemos em uma sociedade cujo motor da geração e concentração da
riqueza é a venda da força de trabalho, refere-se ao desemprego. Há uma
inegável euforia registrada nos últimos anos que é resultante da redução das
taxas de desemprego, que faz os mais entusiastas até mesmo cogitar a hipótese
de que vivemos uma situação de pleno emprego.
A taxa
de desocupação geral, em 2012, atingiu 8 pontos, inferior aos 6,1 pontos
registrados no ano de 2026. Ocorre que, em um país com as características do
Brasil, as médias quase sempre não explicam a complexidade econômica e social
do território. No ano de 2012, a taxa de desemprego entre 14 e 17 anos atingiu
24,8 pontos e entre 18 e 24 anos, 16,1 pontos. Em 2026, a taxa de desocupação
entre 14 e 17 anos atingiu 25,1 e, entre 18 e 24, alcançou 13,8 pontos. O
desemprego atinge, fundamentalmente, a população jovem e negra, com evidentes
cortes regionais.
Segundo
o IBGE (2026): “A taxa de desocupação por sexo foi de 5,1% para os homens e
7,3% para as mulheres no primeiro trimestre de 2026. Já a taxa de desocupação
por cor ou raça ficou abaixo da média nacional (6,1%) para os brancos (4,9%) e
acima para os pretos (7,6%) e pardos (6,8%)”. O desemprego entre os jovens é
assustador. Não há porque, sem horizonte de renda resultante da estabilidade do
emprego formal, imaginar que esses jovens tenham razões para sonhar. O
cotidiano é mais pragmático. A ambição é conseguir pagar o aluguel e, sobrando
algum dinheiro, alimentar-se com algo que não seja macarrão instantâneo.
A
experiência do desemprego dos jovens, incluindo aquela do núcleo familiar, não
é abstrata. Na impossibilidade de renda do emprego formal, com os benefícios,
já erodidos, da CLT, a opção que resta é ingressar no heterogêneo universo do
trabalho informal. No Brasil, segundo dados do IBGE (2026), 37,8% da população
ocupada encontra-se na informalidade. São 38,5 milhões de trabalhadoras e
trabalhadores sem qualquer expectativa de proteção laboral. Esse universo de
trabalhadores informais, uma parcela significativa de jovens, ocupa,
predominantemente, o setor de comércio e de serviços.
No
comércio varejista das pequenas cidades, as ocupações são caracterizadas por
reduzidos salários e alta carga de trabalho semanal. O trabalho de freelancer,
em bares, restaurantes e lanchonetes, servindo comida ou vigiando de crianças,
é a regra para uma legião de jovens das grandes cidades que se juntam aos
vendedores ambulantes que inflacionam as paradas de ônibus e sinaleiros. A
chamada escala 6X1 também é a regra comum na informalidade, atingindo,
especialmente, os jovens, como descrito no Atlas comentado da escala 6X1 no
Brasil (Arrais et al., 2025).
Os
empregos, independentemente da escolarização, não oferecem, como antes, a
certeza de vantagens adicionais. Dos 4.589 trabalhadores da escala 6X1 que
responderam à pesquisa realizada pelo Observatório do Estado Social Brasileiro,
24,45% tinham curso superior completo e 22,29% curso superior incompleto.
Aquele processo descrito por Pierre Bourdieu (2012), em A distinção, sobre a
defasagem entre a escolarização e a oportunidade de empregos, é repaginado na
periferia do capitalismo.
Invariavelmente,
o desemprego e a informalidade sedimentam o caminho para o endividamento. O
geógrafo Milton Santos, ainda na década de 1980, advertia que o SPC funcionava
como uma espécie de “tribunal privado” (1987, p. 22). No Brasil, em abril de
2026, 50,8% da população adulta tinha nome negativizado. A dívida média, em
janeiro de 2019, era de R$ 3.926,39, passando, em abril de 2026, para R$
6.814,39.
Considerando
o setor da inadimplência, em abril de 2026, os bancos/cartões responderam por
27,5% e o setor financeiro 19,8% das dívidas, respectivamente. Os dados fazem
par com aqueles divulgados pelo DIESSE, que identificou, com base na Pesquisa
de Endividamento e Inadimplência do Consumidor, que 80,4% das famílias estavam,
em março de 2026, endividadas (DIESSE, 2026). A evolução no valor das dívidas
individuais, especialmente no cartão de crédito rotativo, ilustra o drama da
juventude.
As bets
não inauguraram o paradigma do endividamento. A institucionalização da
agiotagem antecede esse fenômeno. A listagem, disponível no site do Banco
Central do Brasil, sobre as taxas de juros prefixados de cartões de crédito
rotativo é indecente. Os juros anuais das 62 instituições listadas variam de
22,08% ao ano até 992,11% ao ano. Nessa modalidade, a Caixa Econômica Federal,
o Banco do Brasil e o Bradesco operam com juros anuais de 297,49%, 345,5% e
392,78%, respectivamente.
A
novidade, fartamente registrada pela imprensa (Piauí, 2025), é que mais da
metade do endividamento via cartão de crédito tem ocorrido para aquisição de
alimentos. Não se trata mais de imaginar a dívida para a aquisição de uma
residência própria, de um veículo ou de uma passagem aérea para algum destino
turístico no nordeste brasileiro. É apenas a sobrevivência, em modo semelhante
ao registrado pela jornalista Bárbara Ehrenreich, no livro Miséria à americana
– vivendo de subemprego nos Estados Unidos.
O
endividamento talvez seja o processo que melhor explica o padrão de acumulação
neoliberal. Sendo estrutural, pouco importa a liturgia da educação financeira
que povoa os currículos escolares. Maurizio Lazzarato, em O governo do homem
endividado, ofereceu a senha para interpretarmos esse processo:
A
divida constitui uma nova técnica de poder. O poder de controle e de coerção
sobre o devedor não vem do exterior, como nas sociedades disciplinares, mas do
devedor ele mesmo. (2017, p.66)
Se
adotarmos a premissa de que o primeiro ato histórico dos homens resulta, como
assinalaram Marx e Engels (1998, p. 39), de sua necessidade de comer, beber,
ter habitação, vestir-se, então, para os trabalhadores e trabalhadoras, a venda
de sua força de trabalho para aquisição de bens de consumo continua sendo um
fator decisivo para a reprodução da vida. O endividamento, por comprometer a
reprodução da vida, tolhe as ambições mais diminutas dos jovens, queimando,
diariamente, sua já envelhecida epiderme.
Não há
dúvidas de que, por diferentes razões, a questão da participação da juventude
na política partidária, nos marcos da democracia representativa, tenha
despertado interesse nacional. Todos continuam a reivindicar o monopólio sobre
o futuro da juventude. As diferentes matrizes políticas olham para o futuro,
quase sempre, na defensiva, como se não tivessem nenhuma responsabilidade pelas
decisões políticas e econômicas que favoreceram a precarização do trabalho.
Parecem disputar o futuro, desvinculando-se de qualquer responsabilidade sobre
o passado.
Acreditam
que esses jovens operam fora de uma racionalidade política, motivo pelo qual
eles não seriam capazes de reconhecer, e agradecer, os avanços sociais
representados pelos indicadores macroeconômicos. Adjetivam-nos, com soberba
intelectual, de “pobres de direita” (Souza, 2014). Qualificam-nos, jocosamente,
de “empreendedores”. Não sabem que aquilo que une um entregador motociclista
por aplicativo de São Paulo, uma operadora de caixa de um grande varejista de
Recife e uma manicure de Goiânia, inscrita no MEI, é, apenas, a vontade de
reproduzir suas vidas e, quem sabe, individualmente ou em família, aprender,
como as gerações anteriores, a sonhar.
Enfim,
37 anos separam o desejo tímido por aquela velha moto do choro angustiante da
jovem Sheron. Em 1988, ano da constituinte, os sonhos ainda tinham a
capacidade, mesmo para um jovem pobre, de semear o mundo real. Para Sheron, que
observa a juventude, incorporada ao suor, escorrer na pele, não sonhar pode ser
a melhor forma de evitar semear a amarga realidade que aprisiona, adoece e mata
os jovens pobres brasileiros.
Fonte:
Por Tadeu Alencar Arrais, em A Terra é Redonda

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