Vijay
Prashad aponta o caminho para frear o genocídio israelense-americano em Gaza
Não é
preciso argumentar que está em curso um genocídio israelense-americano em Gaza,
não tão violento agora como nos meses do final de 2023, mas não menos
destrutivo para a sociedade e a vida palestinas. A intensidade e as formas de
execução variam, mas o genocídio continua indiscutivelmente. Questionar se essa
ferocidade configura um “genocídio” é entrar em uma discussão com o sionismo, o
que desvia a atenção da questão fundamental: como deter esse genocídio e como
apoiar a política palestina para pôr fim à ocupação?
Em todo
o mundo, da Malásia aos Estados Unidos, as pessoas comuns estão profundamente
consternadas com a catástrofe sofrida pelos palestinos, mas encontram refúgio
na imensa força do povo palestino em resistir à ocupação e à guerra. Onde quer
que eu vá, vejo pessoas tentando demonstrar sua solidariedade — o onipresente
lenço palestino, os adesivos e cartazes –, bem como buscando maneiras de
auxiliar a luta palestina — arrecadando fundos para ajuda humanitária e
organizando campanhas para a libertação de presos políticos.
Uma
criança de oito anos compareceu a um evento que realizei em Jacarta, capital da
Indonésia, e me entregou um bilhete dizendo que estava fazendo tudo o que podia
para acabar com o genocídio; em Joanesburgo, um senhor me disse que decidiu
dedicar o resto da vida a acabar com a guerra contra os palestinos: essas são
duas das milhares de interações que tive desde 2023, quando a sensação de
ansiedade e raiva em relação aos palestinos aumentou exponencialmente entre
pessoas comuns em todo o mundo, mas particularmente no Sul Global.
Os
sistemas de mídia corporativa, no entanto, falham em captar esse sentimento
público, incapazes ou relutantes em noticiar o genocídio com honestidade e
coragem. Eles são impedidos por uma campanha internacional que busca demonizar
a luta palestina e desumanizar os palestinos, enquanto propaga o falso
argumento de que qualquer crítica a Israel equivale a antissemitismo. Quando
jornalistas de grandes empresas se manifestam em defesa da verdade, acabam nas
ruas (o New York Times forçou a renúncia de Jazmine Hughes,
a Australian Broadcasting Corporation demitiu Antoinette
Lattouf, a MSNBC demitiu Mehdi Hasan e a BBC marginalizou
seis jornalistas árabes, incluindo Nada Abdel Samad, Sally Nabil e Mahmoud
Shalib). De fato, a BBC instruiu explicitamente seus
jornalistas a não usarem a palavra “genocídio” em sua cobertura da violência
israelense em Gaza. A mídia corporativa do mundo todo depende dessas
organizações para obter notícias do Oriente Médio porque não possui repórteres
próprios no local, e, portanto, esse viés genocida se perpetua na narrativa da
mídia na África, Ásia e América Latina.
O
bloqueio à verdade
“Eu
sou antissionista. Não acredito que [os judeus] tenham o direito, após três mil
anos, de reivindicar a terra com bombas e armas ocidentais sob preceito
bíblico. Quando estive em Israel, foi como se eu estivesse no meio de “A
Próxima Vez o Fogo”.
- James Baldwin para Ida Lewis, Essence, 1970.
James
Baldwin proferiu essas palavras na Turquia. Foi atacado por elas, mas protegido
pela distância. Eram palavras corajosas para um cidadão americano em 1970.
Baldwin faz referência ao seu livro Da próxima vez, o fogo, de
1963, que contém dois ensaios contundentes sobre a centralidade de uma
estrutura racista nos Estados Unidos que age com violência contra pessoas de
ascendência africana. A forma que os descendentes de africanos são tratados nos
Estados Unidos, sugeriu Baldwin, refletia a forma como os palestinos são
tratados pelo projeto sionista.
Não
tenho certeza se essas palavras poderiam ser ditas facilmente por um escritor
daquele nível na nossa época. Pelo menos, nenhum escritor de sua fama radicado
no Ocidente – com exceção da escritora irlandesa Sally Rooney – se manifestou
tão veementemente durante o genocídio em nossa época. Outros escritores no
Ocidente disseram isso ou aquilo, mas geralmente apenas depois de condenarem os
palestinos pela violência, embora o direito internacional permita que aqueles
sob ocupação usem todos os meios possíveis para lutar por sua emancipação. A
demonização dos palestinos usando a palavra Hamas – agora
transformado em um mito, em vez de um movimento político genuíno e uma falange
militar – é central para esses escritores, que acreditam que fazer esse gesto
os imuniza contra críticas. Ao fazer isso, eles adentram diretamente a
ideologia sionista para afirmar sua própria humanidade e condenar os palestinos
à morte.
O
impacto das publicações nas redes sociais, contudo, desfez o bloqueio à
verdade. Jornalistas palestinos – tanto os que trabalham para veículos de
comunicação em língua árabe quanto os que trabalham para pequenos meios de
comunicação palestinos ou, simplesmente, aqueles que publicam conteúdo usando
seu julgamento profissional – conseguiram levar ao público global as terríveis
tragédias. Foi graças a essas reportagens feitas por palestinos corajosos que
obtivemos evidências documentadas de que Israel havia dizimado mais de 2.700
famílias em Gaza e, em muitos de seus ataques a casas de civis, matado quatro
gerações de uma mesma família de uma só vez. Israel começou a perseguir esses
jornalistas palestinos porque eles passaram a ter um grande impacto na opinião
mundial.
Em 10
de outubro de 2023, a União da Imprensa Palestina anunciou que Israel havia
assassinado quatro jornalistas. Se ainda restasse alguma dúvida sobre a
perseguição a jornalistas, ela foi dissipada em novembro de 2023, quando as
forças israelenses começaram a atacar as casas de jornalistas, matando-os e
suas famílias. A organização Repórteres Sem Fronteiras apresentou sua primeira
queixa ao Tribunal Penal Internacional em 1º de novembro de 2023. Desde então,
os ataques israelenses contra jornalistas palestinos se intensificaram, com
cerca de 270 jornalistas palestinos mortos por Israel entre outubro de 2023 e
maio de 2026. O objetivo era justamente silenciar as vozes palestinas e
reforçar o embargo de notícias vindas de Gaza (nenhum jornalista estrangeiro
foi autorizado a entrar no território ocupado, contrariando os costumes da
guerra moderna).
Grandes
manifestações tomaram as ruas do Norte Global, com parcelas significativas de
jovens radicalizados não apenas pela agenda da paz ou pela solidariedade com os
palestinos, mas também por uma compreensão aguçada da natureza do imperialismo.
Essas manifestações foram enormes e aterrorizaram as classes dominantes de seus
países, que iniciaram uma repressão contra aqueles que se opunham ao genocídio.
Nos países do Atlântico Norte, as críticas a Israel começaram a ser proibidas
por meio de leis antiterroristas (como a Lei de Terrorismo do Reino Unido de
2006), leis contra o movimento Boicote, Desinvestimento e Sanções (BDS)
a Israel (como o Projeto de Lei nº 89 da Câmara do Texas de 2017), leis contra
os discursos de ódio (como o Capítulo 7, Parágrafo 130 do Código Penal Alemão
de 1871 – emendado em 1960 – que proíbe a incitação ao ódio) e outras normas
trabalhistas e de ordem pública. As prisões de qualquer pessoa que publicasse
conteúdo crítico a Israel nas redes sociais e o uso das leis de imigração para ameaçar
pessoas tiveram um leve efeito inibidor, embora não tenham silenciado a
dissidência.
Instituições
tradicionais, como museus e universidades, começaram a perseguir curadores e
membros do corpo docente que se manifestavam contra o genocídio e contra a
cumplicidade de seus governos nesse genocídio. A acusação de antissemitismo era
usada livremente, numa tentativa de inibir qualquer divulgação do terrorismo
infligido por Israel aos palestinos. Em muitos casos, administradores
conhecidos por terem ideias pró-palestinas enfrentaram acusações fictícias de
corrupção e incompetência. Grupos de pressão e a mídia local davam destaque a
essas acusações, que então eram repassadas aos grandes veículos de comunicação
para difamar pessoas e forçar renúncias. Isso inibia qualquer tipo de
dissidência. Tornou-se difícil até mesmo para pessoas com informações sobre
Gaza relatarem o ocorrido nas redes sociais, pois suas publicações passaram a
ser filtradas manualmente ou por inteligência artificial. Carreiras estavam em
risco. O silêncio começou a se instaurar.
Os
acadêmicos nos países do Atlântico Norte enfrentaram cancelamentos de
palestras, investigações policiais, suspensões, campanhas de assédio e ameaças
à titularidade – grande parte disso devido à pressão de doadores e à
interferência política. Mencionava-se “intimidação institucional”, “pressão
disciplinar”, “censura velada” e, menos frequentemente, a completa supressão da
liberdade de expressão. Intelectuais corajosos, muitas vezes com o apoio de
estudantes e da comunidade, lutaram contra essas restrições, mas a questão da
perda do emprego pairava no ar e começou a sufocar as críticas públicas a
Israel. Era aceitável publicar artigos em periódicos acadêmicos de menor
expressão com uma linguagem relativamente impenetrável para a grande maioria –
mas muito menos seguro levantar-se em uma reunião pública e chamar Israel
diretamente de país genocida. Os poucos que o fizeram enfrentaram severas
consequências. Os demais tiveram que aplacar sua frustração com discursos
esotéricos.
Em
muitas partes do Sul Global, com algumas exceções (como Argentina e Índia), a
crítica aberta a Israel não era controlada pelos governos (muitos dos quais
apoiaram, de uma forma ou de outra, a reivindicação sul-africana à Corte
Internacional de Justiça). Mas, nesses países, o clima intelectual já havia
sido prejudicado pela privatização de faculdades e universidades, por uma
cultura de sobrecarga de trabalho para professores mal remunerados, mesmo em
instituições públicas, e pela destruição do aparato da cultura intelectual
(incluindo periódicos acadêmicos e intelectuais, espaços públicos para
discussão e debate e a relação entre intelectuais acadêmicos e a mídia).
Intelectuais em grande parte do Sul Global expressavam sua frustração nas redes
sociais, em cartas aos editores e em quaisquer webinars que
conseguissem realizar para públicos relativamente pequenos. O espaço público no
Sul Global já havia sido reduzido a uma mercadoria neoliberal.
Rompendo
o bloqueio à verdade
“Você, parado à
porta, entre
E tome conosco nosso café árabe
Pois talvez sinta que é humano como nós.” - Mahmoud Darwish, Estado
de Sítio, 2002.
Mas
essas restrições, de um tipo ou de outro, geraram imensa frustração entre as
pessoas que haviam começado a acumular informações sobre a devastação, mas
encontravam dificuldades em amplificar o genocídio por razões de emprego,
reputação ou falta de um meio de expressão. O que as impeliu a querer falar,
apesar das limitações ideológicas e da atmosfera repressiva imposta pelo poder
israelense-estadual no cenário global, foi sua humanidade e a frustração com a
própria incapacidade de se expressar com clareza. Seria impossível discordar da
afirmação de que os intelectuais têm a responsabilidade moral de se manifestar
veementemente em momentos de sofrimento humano. Após o Holocausto e durante a
era da descolonização, muitos intelectuais concluíram que o silêncio diante da
atrocidade era, em si, uma forma de cumplicidade. A Carta de Fundação da Organização
das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO), em 1945,
capturou essa reflexão do pós-guerra com a declaração:
“Que
uma vez que as guerras se iniciam nas mentes dos homens, é nas mentes dos
homens que devem ser construídas as defesas da paz”
A ideia
era que o fascismo, o genocídio e a violência colonial foram possibilitados não
apenas pelos exércitos, mas também pela propaganda, pelo racismo, por
instituições submissas e pela falha da resistência intelectual.
Mas
essas restrições, de um tipo ou de outro, geraram imensa frustração entre as
pessoas que haviam começado a acumular informações sobre a devastação, mas
encontravam dificuldades em amplificar o genocídio por razões de emprego,
reputação ou falta de um meio de expressão. O que as impeliu a querer falar,
apesar das limitações ideológicas e da atmosfera repressiva imposta pelo poder
israelense-estadual no cenário global, foi sua humanidade e a frustração com a
própria incapacidade de se expressar com clareza. Seria impossível discordar da
afirmação de que os intelectuais têm a responsabilidade moral de se manifestar
veementemente em momentos de sofrimento humano.
Após o
Holocausto e durante a era da descolonização, muitos intelectuais concluíram
que o silêncio diante da atrocidade era, em si, uma forma de cumplicidade. A
carta de fundação da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e
a Cultura (Unesco), em 1945, capturou essa reflexão do pós-guerra com a
declaração: “Como as guerras começam na mente dos homens, é na mente dos homens
que as defesas da paz devem ser construídas”. A ideia era que o fascismo, o
genocídio e a violência colonial foram possibilitados não apenas pelos
exércitos, mas também pela propaganda, pelo racismo, por instituições submissas
e pela falha da resistência intelectual.
Em
1947, Jean-Paul Sartre publicou O que é a literatura?, obra na qual
distinguiu entre a ideia burguesa de “liberdade” e “compromisso” do escritor; a
primeira sugeria libertinagem e irresponsabilidade, enquanto a segunda impunha
uma obrigação moral aos escritores. “A função do escritor”, escreveu Sartre, “é
agir de tal forma que ninguém possa ignorar o mundo e ninguém possa dizer que é
inocente do que ele representa”. Três anos depois, em seu Discurso sobre o colonialismo (1950), Aimé Césaire
argumentou que a violência colonial e a violência fascista emergiram da
civilização europeia e, desafiando os intelectuais europeus, escreveu: “uma
civilização que se revela incapaz de resolver os
problemas que o seu funcionamento suscita, é uma civilização decadente”. Esses
debates do pós-guerra ajudaram a estabelecer a expectativa moderna de que
acadêmicos, escritores e jornalistas têm o dever de falar com clareza sobre a
violência em massa. Para muitos intelectuais contemporâneos, portanto, o
genocídio em Gaza tornou-se um teste para verificar se essas lições ainda
possuem força moral nos dias de hoje.
Existem
milhões de acadêmicos, escritores e jornalistas que se empenharam de diversas
maneiras para dar visibilidade ao genocídio – mas seus esforços foram ínfimos e
muitos deles se desmoralizaram. Qual o sentido de detalhar os momentos de
sofrimento humano em massa em Gaza – por grandes agências multilaterais
(incluindo as Nações Unidas) e por intelectuais nos menores veículos de
comunicação – se essas declarações de indignação documentadas não surtiram
efeito? Não foram apenas as instituições que tentaram silenciar acadêmicos,
escritores e jornalistas que criaram esse fracasso, mas sim todo o conjunto de
indústrias que deformaram a cultura e criaram uma sensibilidade de indiferença
na população moderna – semeando dúvidas sobre o próprio genocídio, criando um
sentimento de futilidade diante da violência e estabelecendo uma normalidade
que permite que a vida cotidiana continue em sua forma habitual enquanto a
brutalidade persiste.
O que
isso revela não é a futilidade do trabalho intelectual ou a coragem dos
próprios intelectuais, mas a profundidade das estruturas contra as quais o
trabalho intelectual e os intelectuais lutam. A questão não é meramente que os
governos ignorem as evidências ou que as corporações de mídia distorçam a
realidade. É que o capitalismo contemporâneo produziu toda uma arquitetura de
distração, exaustão, espetáculo e sentimentos controlados que absorve até mesmo
as imagens mais horríveis na circulação ordinária da vida cotidiana.
A
atrocidade se transforma em conteúdo. A indignação torna-se episódica. O
sofrimento surge brevemente antes de desaparecer no fluxo interminável de
mercadorias, entretenimento e sobrevivência ansiosa que estrutura a existência
moderna. Em tal condição, a responsabilidade dos intelectuais não pode ser
simplesmente fornecer mais informações, já que a informação por si só não é
mais suficiente para gerar ação moral. A tarefa torna-se maior e mais difícil:
romper com os hábitos da indiferença, restaurar o significado humano do
sofrimento, defender a verdade histórica contra a falsificação organizada e
insistir que a vida palestina não pode ser tratada como descartável dentro da
ordem moral do mundo. É mais fácil dizer do que fazer? Na verdade, não.
O que
isso revela não é a futilidade do trabalho intelectual ou a coragem dos
próprios intelectuais, mas a profundidade das estruturas contra as quais o
trabalho intelectual e os intelectuais lutam. A questão não é meramente que os
governos ignorem as evidências ou que as corporações de mídia distorçam a
realidade. É que o capitalismo contemporâneo produziu toda uma arquitetura de
distração, exaustão, espetáculo e sentimentos controlados que absorve até mesmo
as imagens mais horríveis na circulação ordinária da vida cotidiana. A
atrocidade se transforma em conteúdo.
A
indignação torna-se episódica. O sofrimento surge brevemente antes de
desaparecer no fluxo interminável de mercadorias, entretenimento e
sobrevivência ansiosa que estrutura a existência moderna. Nessa condição, a
responsabilidade dos intelectuais não pode ser apenas fornecer mais
informações, já que a informação por si só não é mais suficiente para gerar
ação moral. A tarefa torna-se maior e mais difícil: romper com os hábitos da
indiferença, restaurar o significado humano do sofrimento, defender a verdade
histórica contra a falsificação organizada e insistir que a vida palestina não
pode ser tratada como descartável dentro da ordem moral do mundo. É mais fácil
dizer do que fazer? Na verdade, não.
Nós nos
mantemos informados graças ao jornalismo sério, à pesquisa histórica, a
testemunhos oculares, à literatura e à documentação sobre direitos humanos, em
vez de nos basearmos na cobertura sensacionalista dos grandes meios de
comunicação. Isso exige que construamos instituições que transmitam um
jornalismo centrado nas pessoas, não apenas sobre as pessoas, mas para as
pessoas (o que significa meios de comunicação feitos em linguagens
compreensíveis para as pessoas).
É
importante lembrar que nossos meios de comunicação devem ser cativantes e
transformadores de consciências, e não apenas transmissores de informação. É
isso que vemos em veículos como Peoples Dispatch, Pan-African
TV, Brasil de Fato e outros. Resistimos à indiferença
recusando-nos a tratar o sofrimento palestino como algo rotineiro, distante ou
inevitável. Restauramos o significado humano do sofrimento ao focarmos na
experiência vivida, incluindo a destruição da vida cotidiana e a luta pela
sobrevivência. Nossos meios de comunicação, uns para os outros, não devem
reduzir as pessoas a estatísticas, símbolos ou abstrações geopolíticas. Mesmo
quando essas intervenções parecem ineficazes no sentido imediato, elas
permanecem essenciais porque preservam a possibilidade de que a própria
humanidade ainda possa resistir à normalização da barbárie. Devemos romper o
bloqueio à realidade.
Romper
esse bloqueio à realidade exige mais do que a mera circulação de fatos. Exige
formas de trabalho político e cultural capazes de superar o isolamento, a
fragmentação e a impotência aprendida. A solidariedade com a Palestina
permanece um mero gesto, a menos que esteja diretamente ligada às lutas
internas das classes trabalhadoras locais. A solidariedade não é uma via de mão
única, onde os privilegiados expressam solidariedade com aqueles que são vistos
como desprovidos de poder.
A
solidariedade com a Palestina deve ser vista como crucial para o sucesso das
lutas internas. Podemos usar a solidariedade com a Palestina como uma arma para
ferir nossas classes dominantes? A imensa tarefa que temos pela frente é
reconectar o sofrimento às estruturas de poder, transformar o horror privado em
consciência coletiva e reconstruir instituições que possam sustentar a atenção
moral para além dos breves ciclos de espetáculo. Intelectuais, artistas,
educadores e movimentos devem, portanto, lutar não apenas contra a censura, mas
também contra os hábitos de passividade que permitem que a atrocidade pareça
distante, inevitável ou irreal. A defesa da verdade torna-se inseparável da
própria defesa da coletividade humana.
A ordem
moderna isola as pessoas em uma existência individual competitiva e ansiosa, ao
mesmo tempo em que dissolve as capacidades necessárias para a ação moral e
política coletiva. Contra essa decomposição, o projeto de resgatar a vida
coletiva significa reconstruir organizações populares, cultura pública,
sindicatos, movimentos camponeses, círculos de estudo e educação política
capazes de restaurar um compromisso compartilhado com a dignidade humana. É
somente por meio de tais estruturas coletivas que as sociedades podem resistir
à normalização da crueldade e superar a paralisia produzida pelo espetáculo e
pelo desespero. Nesse sentido, a solidariedade com a Palestina não é meramente
um ato de simpatia pelo sofrimento distante: ela é parte de uma luta mais
ampla, que serve para defender a própria possibilidade de um futuro humano e
coletivo.
Fonte:
Por Vijay Prashad - Tradução Hugo Albuquerque, para Jacobin Brasil

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