sábado, 6 de junho de 2026

Vijay Prashad aponta o caminho para frear o genocídio israelense-americano em Gaza

Não é preciso argumentar que está em curso um genocídio israelense-americano em Gaza, não tão violento agora como nos meses do final de 2023, mas não menos destrutivo para a sociedade e a vida palestinas. A intensidade e as formas de execução variam, mas o genocídio continua indiscutivelmente. Questionar se essa ferocidade configura um “genocídio” é entrar em uma discussão com o sionismo, o que desvia a atenção da questão fundamental: como deter esse genocídio e como apoiar a política palestina para pôr fim à ocupação?

Em todo o mundo, da Malásia aos Estados Unidos, as pessoas comuns estão profundamente consternadas com a catástrofe sofrida pelos palestinos, mas encontram refúgio na imensa força do povo palestino em resistir à ocupação e à guerra. Onde quer que eu vá, vejo pessoas tentando demonstrar sua solidariedade — o onipresente lenço palestino, os adesivos e cartazes –, bem como buscando maneiras de auxiliar a luta palestina — arrecadando fundos para ajuda humanitária e organizando campanhas para a libertação de presos políticos.

Uma criança de oito anos compareceu a um evento que realizei em Jacarta, capital da Indonésia, e me entregou um bilhete dizendo que estava fazendo tudo o que podia para acabar com o genocídio; em Joanesburgo, um senhor me disse que decidiu dedicar o resto da vida a acabar com a guerra contra os palestinos: essas são duas das milhares de interações que tive desde 2023, quando a sensação de ansiedade e raiva em relação aos palestinos aumentou exponencialmente entre pessoas comuns em todo o mundo, mas particularmente no Sul Global.

Os sistemas de mídia corporativa, no entanto, falham em captar esse sentimento público, incapazes ou relutantes em noticiar o genocídio com honestidade e coragem. Eles são impedidos por uma campanha internacional que busca demonizar a luta palestina e desumanizar os palestinos, enquanto propaga o falso argumento de que qualquer crítica a Israel equivale a antissemitismo. Quando jornalistas de grandes empresas se manifestam em defesa da verdade, acabam nas ruas (o New York Times forçou a renúncia de Jazmine Hughes, a Australian Broadcasting Corporation demitiu Antoinette Lattouf, a MSNBC demitiu Mehdi Hasan e a BBC marginalizou seis jornalistas árabes, incluindo Nada Abdel Samad, Sally Nabil e Mahmoud Shalib). De fato, a BBC instruiu explicitamente seus jornalistas a não usarem a palavra “genocídio” em sua cobertura da violência israelense em Gaza. A mídia corporativa do mundo todo depende dessas organizações para obter notícias do Oriente Médio porque não possui repórteres próprios no local, e, portanto, esse viés genocida se perpetua na narrativa da mídia na África, Ásia e América Latina.

O bloqueio à verdade

“Eu sou antissionista. Não acredito que [os judeus] tenham o direito, após três mil anos, de reivindicar a terra com bombas e armas ocidentais sob preceito bíblico. Quando estive em Israel, foi como se eu estivesse no meio de “A Próxima Vez o Fogo”. - James Baldwin para Ida Lewis, Essence, 1970.

James Baldwin proferiu essas palavras na Turquia. Foi atacado por elas, mas protegido pela distância. Eram palavras corajosas para um cidadão americano em 1970. Baldwin faz referência ao seu livro Da próxima vez, o fogo, de 1963, que contém dois ensaios contundentes sobre a centralidade de uma estrutura racista nos Estados Unidos que age com violência contra pessoas de ascendência africana. A forma que os descendentes de africanos são tratados nos Estados Unidos, sugeriu Baldwin, refletia a forma como os palestinos são tratados pelo projeto sionista.

Não tenho certeza se essas palavras poderiam ser ditas facilmente por um escritor daquele nível na nossa época. Pelo menos, nenhum escritor de sua fama radicado no Ocidente – com exceção da escritora irlandesa Sally Rooney – se manifestou tão veementemente durante o genocídio em nossa época. Outros escritores no Ocidente disseram isso ou aquilo, mas geralmente apenas depois de condenarem os palestinos pela violência, embora o direito internacional permita que aqueles sob ocupação usem todos os meios possíveis para lutar por sua emancipação. A demonização dos palestinos usando a palavra Hamas – agora transformado em um mito, em vez de um movimento político genuíno e uma falange militar – é central para esses escritores, que acreditam que fazer esse gesto os imuniza contra críticas. Ao fazer isso, eles adentram diretamente a ideologia sionista para afirmar sua própria humanidade e condenar os palestinos à morte.

O impacto das publicações nas redes sociais, contudo, desfez o bloqueio à verdade. Jornalistas palestinos – tanto os que trabalham para veículos de comunicação em língua árabe quanto os que trabalham para pequenos meios de comunicação palestinos ou, simplesmente, aqueles que publicam conteúdo usando seu julgamento profissional – conseguiram levar ao público global as terríveis tragédias. Foi graças a essas reportagens feitas por palestinos corajosos que obtivemos evidências documentadas de que Israel havia dizimado mais de 2.700 famílias em Gaza e, em muitos de seus ataques a casas de civis, matado quatro gerações de uma mesma família de uma só vez. Israel começou a perseguir esses jornalistas palestinos porque eles passaram a ter um grande impacto na opinião mundial.

Em 10 de outubro de 2023, a União da Imprensa Palestina anunciou que Israel havia assassinado quatro jornalistas. Se ainda restasse alguma dúvida sobre a perseguição a jornalistas, ela foi dissipada em novembro de 2023, quando as forças israelenses começaram a atacar as casas de jornalistas, matando-os e suas famílias. A organização Repórteres Sem Fronteiras apresentou sua primeira queixa ao Tribunal Penal Internacional em 1º de novembro de 2023. Desde então, os ataques israelenses contra jornalistas palestinos se intensificaram, com cerca de 270 jornalistas palestinos mortos por Israel entre outubro de 2023 e maio de 2026. O objetivo era justamente silenciar as vozes palestinas e reforçar o embargo de notícias vindas de Gaza (nenhum jornalista estrangeiro foi autorizado a entrar no território ocupado, contrariando os costumes da guerra moderna).

Grandes manifestações tomaram as ruas do Norte Global, com parcelas significativas de jovens radicalizados não apenas pela agenda da paz ou pela solidariedade com os palestinos, mas também por uma compreensão aguçada da natureza do imperialismo. Essas manifestações foram enormes e aterrorizaram as classes dominantes de seus países, que iniciaram uma repressão contra aqueles que se opunham ao genocídio. Nos países do Atlântico Norte, as críticas a Israel começaram a ser proibidas por meio de leis antiterroristas (como a Lei de Terrorismo do Reino Unido de 2006), leis contra o movimento Boicote, Desinvestimento e Sanções (BDS) a Israel (como o Projeto de Lei nº 89 da Câmara do Texas de 2017), leis contra os discursos de ódio (como o Capítulo 7, Parágrafo 130 do Código Penal Alemão de 1871 – emendado em 1960 – que proíbe a incitação ao ódio) e outras normas trabalhistas e de ordem pública. As prisões de qualquer pessoa que publicasse conteúdo crítico a Israel nas redes sociais e o uso das leis de imigração para ameaçar pessoas tiveram um leve efeito inibidor, embora não tenham silenciado a dissidência.

Instituições tradicionais, como museus e universidades, começaram a perseguir curadores e membros do corpo docente que se manifestavam contra o genocídio e contra a cumplicidade de seus governos nesse genocídio. A acusação de antissemitismo era usada livremente, numa tentativa de inibir qualquer divulgação do terrorismo infligido por Israel aos palestinos. Em muitos casos, administradores conhecidos por terem ideias pró-palestinas enfrentaram acusações fictícias de corrupção e incompetência. Grupos de pressão e a mídia local davam destaque a essas acusações, que então eram repassadas aos grandes veículos de comunicação para difamar pessoas e forçar renúncias. Isso inibia qualquer tipo de dissidência. Tornou-se difícil até mesmo para pessoas com informações sobre Gaza relatarem o ocorrido nas redes sociais, pois suas publicações passaram a ser filtradas manualmente ou por inteligência artificial. Carreiras estavam em risco. O silêncio começou a se instaurar.

Os acadêmicos nos países do Atlântico Norte enfrentaram cancelamentos de palestras, investigações policiais, suspensões, campanhas de assédio e ameaças à titularidade – grande parte disso devido à pressão de doadores e à interferência política. Mencionava-se “intimidação institucional”, “pressão disciplinar”, “censura velada” e, menos frequentemente, a completa supressão da liberdade de expressão. Intelectuais corajosos, muitas vezes com o apoio de estudantes e da comunidade, lutaram contra essas restrições, mas a questão da perda do emprego pairava no ar e começou a sufocar as críticas públicas a Israel. Era aceitável publicar artigos em periódicos acadêmicos de menor expressão com uma linguagem relativamente impenetrável para a grande maioria – mas muito menos seguro levantar-se em uma reunião pública e chamar Israel diretamente de país genocida. Os poucos que o fizeram enfrentaram severas consequências. Os demais tiveram que aplacar sua frustração com discursos esotéricos.

Em muitas partes do Sul Global, com algumas exceções (como Argentina e Índia), a crítica aberta a Israel não era controlada pelos governos (muitos dos quais apoiaram, de uma forma ou de outra, a reivindicação sul-africana à Corte Internacional de Justiça). Mas, nesses países, o clima intelectual já havia sido prejudicado pela privatização de faculdades e universidades, por uma cultura de sobrecarga de trabalho para professores mal remunerados, mesmo em instituições públicas, e pela destruição do aparato da cultura intelectual (incluindo periódicos acadêmicos e intelectuais, espaços públicos para discussão e debate e a relação entre intelectuais acadêmicos e a mídia). Intelectuais em grande parte do Sul Global expressavam sua frustração nas redes sociais, em cartas aos editores e em quaisquer webinars que conseguissem realizar para públicos relativamente pequenos. O espaço público no Sul Global já havia sido reduzido a uma mercadoria neoliberal.

Rompendo o bloqueio à verdade

“Você, parado à porta, entre
E tome conosco nosso café árabe
Pois talvez sinta que é humano como nós.” - Mahmoud Darwish, Estado de Sítio, 2002.

Mas essas restrições, de um tipo ou de outro, geraram imensa frustração entre as pessoas que haviam começado a acumular informações sobre a devastação, mas encontravam dificuldades em amplificar o genocídio por razões de emprego, reputação ou falta de um meio de expressão. O que as impeliu a querer falar, apesar das limitações ideológicas e da atmosfera repressiva imposta pelo poder israelense-estadual no cenário global, foi sua humanidade e a frustração com a própria incapacidade de se expressar com clareza. Seria impossível discordar da afirmação de que os intelectuais têm a responsabilidade moral de se manifestar veementemente em momentos de sofrimento humano. Após o Holocausto e durante a era da descolonização, muitos intelectuais concluíram que o silêncio diante da atrocidade era, em si, uma forma de cumplicidade. A Carta de Fundação da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO), em 1945, capturou essa reflexão do pós-guerra com a declaração:

“Que uma vez que as guerras se iniciam nas mentes dos homens, é nas mentes dos homens que devem ser construídas as defesas da paz”

A ideia era que o fascismo, o genocídio e a violência colonial foram possibilitados não apenas pelos exércitos, mas também pela propaganda, pelo racismo, por instituições submissas e pela falha da resistência intelectual.

Mas essas restrições, de um tipo ou de outro, geraram imensa frustração entre as pessoas que haviam começado a acumular informações sobre a devastação, mas encontravam dificuldades em amplificar o genocídio por razões de emprego, reputação ou falta de um meio de expressão. O que as impeliu a querer falar, apesar das limitações ideológicas e da atmosfera repressiva imposta pelo poder israelense-estadual no cenário global, foi sua humanidade e a frustração com a própria incapacidade de se expressar com clareza. Seria impossível discordar da afirmação de que os intelectuais têm a responsabilidade moral de se manifestar veementemente em momentos de sofrimento humano.

Após o Holocausto e durante a era da descolonização, muitos intelectuais concluíram que o silêncio diante da atrocidade era, em si, uma forma de cumplicidade. A carta de fundação da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), em 1945, capturou essa reflexão do pós-guerra com a declaração: “Como as guerras começam na mente dos homens, é na mente dos homens que as defesas da paz devem ser construídas”. A ideia era que o fascismo, o genocídio e a violência colonial foram possibilitados não apenas pelos exércitos, mas também pela propaganda, pelo racismo, por instituições submissas e pela falha da resistência intelectual.

Em 1947, Jean-Paul Sartre publicou O que é a literatura?, obra na qual distinguiu entre a ideia burguesa de “liberdade” e “compromisso” do escritor; a primeira sugeria libertinagem e irresponsabilidade, enquanto a segunda impunha uma obrigação moral aos escritores. “A função do escritor”, escreveu Sartre, “é agir de tal forma que ninguém possa ignorar o mundo e ninguém possa dizer que é inocente do que ele representa”. Três anos depois, em seu Discurso sobre o colonialismo (1950), Aimé Césaire argumentou que a violência colonial e a violência fascista emergiram da civilização europeia e, desafiando os intelectuais europeus, escreveu: “uma civilização que se revela incapaz de resolver os
problemas que o seu funcionamento suscita, é uma civilização decadente”. Esses debates do pós-guerra ajudaram a estabelecer a expectativa moderna de que acadêmicos, escritores e jornalistas têm o dever de falar com clareza sobre a violência em massa. Para muitos intelectuais contemporâneos, portanto, o genocídio em Gaza tornou-se um teste para verificar se essas lições ainda possuem força moral nos dias de hoje.

Existem milhões de acadêmicos, escritores e jornalistas que se empenharam de diversas maneiras para dar visibilidade ao genocídio – mas seus esforços foram ínfimos e muitos deles se desmoralizaram. Qual o sentido de detalhar os momentos de sofrimento humano em massa em Gaza – por grandes agências multilaterais (incluindo as Nações Unidas) e por intelectuais nos menores veículos de comunicação – se essas declarações de indignação documentadas não surtiram efeito? Não foram apenas as instituições que tentaram silenciar acadêmicos, escritores e jornalistas que criaram esse fracasso, mas sim todo o conjunto de indústrias que deformaram a cultura e criaram uma sensibilidade de indiferença na população moderna – semeando dúvidas sobre o próprio genocídio, criando um sentimento de futilidade diante da violência e estabelecendo uma normalidade que permite que a vida cotidiana continue em sua forma habitual enquanto a brutalidade persiste.

O que isso revela não é a futilidade do trabalho intelectual ou a coragem dos próprios intelectuais, mas a profundidade das estruturas contra as quais o trabalho intelectual e os intelectuais lutam. A questão não é meramente que os governos ignorem as evidências ou que as corporações de mídia distorçam a realidade. É que o capitalismo contemporâneo produziu toda uma arquitetura de distração, exaustão, espetáculo e sentimentos controlados que absorve até mesmo as imagens mais horríveis na circulação ordinária da vida cotidiana.

A atrocidade se transforma em conteúdo. A indignação torna-se episódica. O sofrimento surge brevemente antes de desaparecer no fluxo interminável de mercadorias, entretenimento e sobrevivência ansiosa que estrutura a existência moderna. Em tal condição, a responsabilidade dos intelectuais não pode ser simplesmente fornecer mais informações, já que a informação por si só não é mais suficiente para gerar ação moral. A tarefa torna-se maior e mais difícil: romper com os hábitos da indiferença, restaurar o significado humano do sofrimento, defender a verdade histórica contra a falsificação organizada e insistir que a vida palestina não pode ser tratada como descartável dentro da ordem moral do mundo. É mais fácil dizer do que fazer? Na verdade, não.

O que isso revela não é a futilidade do trabalho intelectual ou a coragem dos próprios intelectuais, mas a profundidade das estruturas contra as quais o trabalho intelectual e os intelectuais lutam. A questão não é meramente que os governos ignorem as evidências ou que as corporações de mídia distorçam a realidade. É que o capitalismo contemporâneo produziu toda uma arquitetura de distração, exaustão, espetáculo e sentimentos controlados que absorve até mesmo as imagens mais horríveis na circulação ordinária da vida cotidiana. A atrocidade se transforma em conteúdo.

A indignação torna-se episódica. O sofrimento surge brevemente antes de desaparecer no fluxo interminável de mercadorias, entretenimento e sobrevivência ansiosa que estrutura a existência moderna. Nessa condição, a responsabilidade dos intelectuais não pode ser apenas fornecer mais informações, já que a informação por si só não é mais suficiente para gerar ação moral. A tarefa torna-se maior e mais difícil: romper com os hábitos da indiferença, restaurar o significado humano do sofrimento, defender a verdade histórica contra a falsificação organizada e insistir que a vida palestina não pode ser tratada como descartável dentro da ordem moral do mundo. É mais fácil dizer do que fazer? Na verdade, não.

Nós nos mantemos informados graças ao jornalismo sério, à pesquisa histórica, a testemunhos oculares, à literatura e à documentação sobre direitos humanos, em vez de nos basearmos na cobertura sensacionalista dos grandes meios de comunicação. Isso exige que construamos instituições que transmitam um jornalismo centrado nas pessoas, não apenas sobre as pessoas, mas para as pessoas (o que significa meios de comunicação feitos em linguagens compreensíveis para as pessoas).

É importante lembrar que nossos meios de comunicação devem ser cativantes e transformadores de consciências, e não apenas transmissores de informação. É isso que vemos em veículos como Peoples Dispatch, Pan-African TV, Brasil de Fato e outros. Resistimos à indiferença recusando-nos a tratar o sofrimento palestino como algo rotineiro, distante ou inevitável. Restauramos o significado humano do sofrimento ao focarmos na experiência vivida, incluindo a destruição da vida cotidiana e a luta pela sobrevivência. Nossos meios de comunicação, uns para os outros, não devem reduzir as pessoas a estatísticas, símbolos ou abstrações geopolíticas. Mesmo quando essas intervenções parecem ineficazes no sentido imediato, elas permanecem essenciais porque preservam a possibilidade de que a própria humanidade ainda possa resistir à normalização da barbárie. Devemos romper o bloqueio à realidade.

Romper esse bloqueio à realidade exige mais do que a mera circulação de fatos. Exige formas de trabalho político e cultural capazes de superar o isolamento, a fragmentação e a impotência aprendida. A solidariedade com a Palestina permanece um mero gesto, a menos que esteja diretamente ligada às lutas internas das classes trabalhadoras locais. A solidariedade não é uma via de mão única, onde os privilegiados expressam solidariedade com aqueles que são vistos como desprovidos de poder.

A solidariedade com a Palestina deve ser vista como crucial para o sucesso das lutas internas. Podemos usar a solidariedade com a Palestina como uma arma para ferir nossas classes dominantes? A imensa tarefa que temos pela frente é reconectar o sofrimento às estruturas de poder, transformar o horror privado em consciência coletiva e reconstruir instituições que possam sustentar a atenção moral para além dos breves ciclos de espetáculo. Intelectuais, artistas, educadores e movimentos devem, portanto, lutar não apenas contra a censura, mas também contra os hábitos de passividade que permitem que a atrocidade pareça distante, inevitável ou irreal. A defesa da verdade torna-se inseparável da própria defesa da coletividade humana.

A ordem moderna isola as pessoas em uma existência individual competitiva e ansiosa, ao mesmo tempo em que dissolve as capacidades necessárias para a ação moral e política coletiva. Contra essa decomposição, o projeto de resgatar a vida coletiva significa reconstruir organizações populares, cultura pública, sindicatos, movimentos camponeses, círculos de estudo e educação política capazes de restaurar um compromisso compartilhado com a dignidade humana. É somente por meio de tais estruturas coletivas que as sociedades podem resistir à normalização da crueldade e superar a paralisia produzida pelo espetáculo e pelo desespero. Nesse sentido, a solidariedade com a Palestina não é meramente um ato de simpatia pelo sofrimento distante: ela é parte de uma luta mais ampla, que serve para defender a própria possibilidade de um futuro humano e coletivo.

 

Fonte: Por Vijay Prashad - Tradução Hugo Albuquerque, para Jacobin Brasil

 

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