Universidade
em disputa – entre pluralidade, neutralidade e poder
Ao
longo de muitos anos dedicados ao ensino e pesquisa, convenci-me de que certos
temas permanecem incontornáveis para compreender a dinâmica política
brasileira. Entre eles, destacam-se a formação da identidade nacional, a
constituição do Estado brasileiro, a atuação dos grupos de interesse e as
gramáticas que moldam as relações entre Estado e sociedade civil.
Nesse
conjunto, sobressaem as quatro categorias formuladas por Edson Nunes,
clientelismo, corporativismo, insulamento burocrático e universalismo de
procedimentos. Mais do que instrumentos conceituais, elas revelam formas
históricas de articulação entre atores sociais e instituições estatais. Sua
força explicativa, porém, ultrapassa o campo da administração pública e alcança
também a universidade, suas disputas e os sentidos atribuídos à neutralidade e
à pluralidade.
Não se
trata de um debate abstrato. As universidades brasileiras, sobretudo as
públicas, sempre foram atravessadas por tensões que espelham dilemas mais
amplos da vida nacional. Elas condensam conflitos sobre autoridade,
legitimidade, distribuição de recursos, produção de conhecimento e definição do
interesse público. O que ocorre em seu interior, portanto, não diz respeito
apenas à comunidade acadêmica, mas ao modo como a democracia compreende a si
mesma, forma suas elites intelectuais e administra o convívio entre
divergências profundas.
Ao
falar em neutralidade institucional, não me refiro a um espaço asséptico ou
imune a visões de mundo, tampouco a uma universidade domesticada por um ideal
impossível de ausência de conflito. Refiro-me a uma arquitetura institucional
capaz de impedir que maiorias ocasionais, governos transitórios ou grupos
organizados convertam a vida universitária em aparelho de confirmação
ideológica. A universidade não perde relevância quando abriga divergências;
perde-a quando deixa de saber protegê-las.
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Memória histórica e sentido da pluralidade
Essa
reflexão ganha densidade histórica quando recordamos o que esteve em jogo
durante a ditadura militar. Naquele período, a defesa da autonomia
universitária e da liberdade acadêmica não foi um gesto lateral, mas uma frente
decisiva da resistência democrática.
Estudantes,
pesquisadores e professores foram perseguidos, silenciados e, em muitos casos,
submetidos à tortura por sustentarem interpretações dissidentes das impostas
pelo regime. Não por acaso, a universidade converteu-se em alvo privilegiado da
repressão: associada historicamente ao debate público e à formação cidadã,
acolhia teorias críticas, literaturas contestadas e perspectivas políticas
consideradas subversivas.
Nesse
contexto, a defesa da pluralidade intelectual deixou de ser apenas princípio da
vida acadêmica para afirmar-se como exigência mais ampla da própria vida
pública em uma sociedade plural.
Convém
insistir nesse ponto porque a memória democrática brasileira frequentemente
sofre encurtamentos convenientes. A repressão às universidades não foi mero
efeito colateral da ditadura, mas parte de uma estratégia deliberada de
controle do pensamento e disciplinamento do dissenso. O objetivo não era apenas
silenciar indivíduos, mas restringir repertórios de interpretação da realidade
e interditar formas de crítica consideradas perigosas ao regime.
Essa
memória importa porque a universidade não é apenas espaço de transmissão de
conteúdos; é também instituição de preservação da experiência histórica e
elaboração crítica do passado. Quando perde essa dimensão, torna-se mais
vulnerável a modismos intelectuais, alinhamentos oportunistas e simplificações
políticas. Uma universidade sem memória institucional tende a confundir
hegemonia momentânea com consenso legítimo e adesão circunstancial com verdade
pública.
Por
isso, a pluralidade não pode ser reduzida a ornamento retórico. Em ambientes
intelectualmente vivos, a divergência é parte constitutiva da produção do
conhecimento. Métodos distintos, tradições teóricas concorrentes, posições
normativas incompatíveis e diagnósticos opostos coexistem não apesar da
universidade, mas por causa dela. Defender a pluralidade é recusar a tentação
de transformar a instituição em espaço de consagração de uma única
sensibilidade moral ou política.
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Neutralidade institucional em questão
É nesse
contexto que se insere a defesa da neutralidade institucional no “Manifesto
pela Pluralidade e Liberdade Acadêmica”, assinado por mais de 1600 pessoas, em
sua maioria docentes, além de estudantes. A iniciativa surgiu de um grupo de 13
professores de diferentes universidades públicas, reunidos em abril no Centro
Maria Antônia (USP) para um seminário sobre pluralidade e liberdade de
expressão no ambiente universitário atual. Não se trata de sustentar uma
neutralidade epistemológica ingênua nem de reabilitar um positivismo tardio.
O que
está em questão é algo mais sóbrio e exigente: preservar um ambiente
universitário capaz de acolher perspectivas divergentes sem coerção,
intimidação ou patrulhamento ideológico.
O
paradoxo é revelador. A noção de neutralidade, outrora reivindicada por aqueles
que resistiram ao autoritarismo, passou a ser lida por alguns setores como
ameaça ou retrocesso. Essa inflexão merece exame. O que se alterou no ambiente
acadêmico para que a defesa da pluralidade passe a soar incômoda?
E mais:
seria o alinhamento de parte da docência ao governo atual, alinhamento parcial
que também assumo, um fator de retração diante do dissenso e, em casos
extremos, de adesão a uma lógica patrimonialista segundo a qual o serviço
público deve servir ao soberano, e não ao público?
Talvez
uma das maiores dificuldades desse debate esteja no fato de que a palavra
“neutralidade” costuma ser confundida com indiferença moral. Mas instituições e
indivíduos não se confundem. Professores, pesquisadores e estudantes têm
convicções e engajamentos; instituições republicanas, por sua vez, devem
organizar procedimentos capazes de garantir tratamento isonômico, circulação de
perspectivas e proteção contra arbitrariedades.
Confundir
esses planos produz um equívoco recorrente: imaginar que, para defender a
liberdade de pensamento, a universidade precise autorizar formas de
partidarização institucional.
A
neutralidade institucional, tal como a compreendo, não exige suspensão do juízo
crítico nem equivalência artificial entre argumentos melhores e piores. Exige,
isto sim, que a autoridade universitária não se coloque a serviço da
intimidação, do favorecimento ideológico ou da exclusão simbólica de posições
legítimas. Exige também critérios estáveis de avaliação acadêmica,
recrutamento, promoção e reconhecimento, para que pertencimentos políticos não
se convertam em senhas tácitas de inclusão ou exclusão.
É aqui
que a hipótese de um novo patrimonialismo ganha relevância. Em vez de se
manifestar apenas pela apropriação material do público pelo privado, ele pode
surgir como apropriação simbólica da instituição por uma sensibilidade política
que passa a falar em nome do todo. Quando isso ocorre, o dissenso deixa de ser
compreendido como dimensão normal da vida intelectual e passa a ser tratado
como desvio moral ou ilegitimidade. O resultado é o empobrecimento do debate e
a erosão silenciosa do pluralismo.
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As gramáticas do Estado e seus limites
É
precisamente nesse ponto que as gramáticas formuladas por Nunes ajudam a
decantar o debate. Entre elas, apenas o universalismo de procedimentos
pressupõe uma aspiração consistente à neutralidade administrativa, ancorada em
regras impessoais, critérios técnicos e igualdade formal de tratamento.
As
demais operam por lógicas seletivas, favorecendo grupos específicos e revelando
que a ação estatal raramente se deixa descrever como neutra.
No
campo da administração pública, isso implica reconhecer um dado incômodo, mas
decisivo: a distribuição de recursos, o acesso a políticas e a tomada de
decisões são atravessados por padrões históricos de interação entre Estado e
sociedade. A impessoalidade aparece, assim, menos como realidade consolidada do
que como horizonte normativo.
A
contribuição de Edson Nunes permanece fecunda justamente porque permite
perceber que o Estado brasileiro nunca operou sob uma única lógica.
Clientelismo, corporativismo, insulamento burocrático e universalismo de
procedimentos não são tipos isolados, mas gramáticas que se combinam e disputam
primazia em diferentes contextos.
A
universidade, evidentemente, não está fora dessas gramáticas. Elas reaparecem
quando redes de proximidade influenciam oportunidades, grupos organizados
monopolizam legitimidade, a linguagem técnica é mobilizada para blindar
decisões e procedimentos universais são relativizados em nome de urgências
supostamente superiores.
O
problema não é reconhecer tais tensões, mas naturalizá-las a ponto de tornar
impossível distinguir entre disputa legítima e captura institucional.
Por
isso, a impessoalidade não deve ser ridicularizada como fantasia liberal nem
celebrada ingenuamente como realidade consumada. Seu estatuto é mais exigente:
o de horizonte regulador que permite criticar favoritismos, arbitrariedades e
exclusões travestidas de engajamento.
Defender
a neutralidade institucional na universidade não significa suprimir posições
políticas nem dissolver o conflito, parte constitutiva da vida democrática.
Significa recusar que qualquer grupo, independentemente do governo de turno,
capture a universidade e converta o espaço público do conhecimento em
instrumento de fidelidade política.
O ponto
decisivo é preservar a coerência histórica de uma instituição que, em momentos
sombrios, fez da liberdade acadêmica e da pluralidade intelectual não apenas um
princípio, mas uma forma de resistência.
Se a
universidade pretende continuar a exercer seu papel republicano de crítica,
reflexão e produção de conhecimento, precisará manter-se aberta ao dissenso. Em
uma democracia digna desse nome, deve ser lugar de muitas vozes, jamais púlpito
de poucas.
Há
ainda uma razão adicional para tratar esse tema com seriedade. Em democracias
polarizadas, cresce a tentação de transformar instituições em extensões da
guerra política permanente. Tribunais, imprensa, escolas, agências reguladoras
e universidades passam a ser avaliados não por sua capacidade de cumprir
funções próprias, mas por sua utilidade imediata na derrota do adversário.
Quando essa lógica prevalece, o espaço público se estreita e a confiança
institucional torna-se refém de alinhamentos conjunturais.
A
universidade pública, em particular, possui responsabilidade acrescida.
Financiada pela sociedade e investida de autoridade intelectual, deve responder
ao país não com obediência ideológica, mas com independência crítica,
excelência acadêmica e abertura ao contraditório. Isso não implica renunciar a
valores democráticos elementares, mas reconhecer que eles se sustentam
plenamente apenas quando instituições fortes sabem conviver com desacordo,
ambivalência e complexidade.
No
fundo, o debate sobre neutralidade institucional devolve à universidade uma
pergunta antiga: ela existe para refletir a correlação de forças do presente ou
para criar as condições intelectuais pelas quais a sociedade pode examinar
criticamente a si mesma? Se prevalecer a primeira alternativa, perderá sua
singularidade e se tornará apenas mais um palco de confirmação de lealdades. Se
escolher a segunda, terá de reafirmar, com serenidade e firmeza, que
pluralidade não é concessão tática, mas princípio constitutivo de sua razão de
ser.
Fonte:
Por Helcimara Telles, em A Terra é Redonda

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