A
morte anunciada dos direitos sociais: o ataque de Flávio Bolsonaro às garantias
constitucionais
A
eleição presidencial de 2026 coloca em disputa projetos antagônicos quanto ao
papel do Estado na garantia de direitos fundamentais. No centro desse confronto
está a candidatura de Flávio Bolsonaro (PL-RJ), herdeiro político do
bolsonarismo, cuja pré-campanha já sinaliza uma agenda econômica de profundas
consequências para a proteção social no país. Os apontamentos feitos sobre seu
programa econômico até o momento, além da própria atuação parlamentar do
senador – que não por acaso trabalha ativamente contra a aprovação do fim da
escala 6×1 –, explicam como, apesar do envolvimento com o escândalo do Banco
Master, Flávio Bolsonaro ainda seja o nome do mercado financeiro na disputa
presidencial.
A
Constituição de 1988 instituiu um sistema híbrido e subfinanciado de proteção
social que, mesmo historicamente distante do Estado de bem-estar social
teorizado por Esping-Andersen (1990) e materializado nas experiências europeias
do pós-guerra, que pressupunham políticas universais de proteção social
financiadas por altas cargas tributárias e ancoradas em pleno emprego,
representou avanços notáveis — universalização do acesso à saúde e à educação,
instituição de pisos mínimos de renda para idosos e pessoas com deficiência —,
combinados porém com a manutenção da exclusão estrutural de amplas camadas da
população.
A
agenda atribuída a Flávio Bolsonaro consiste no “desmonte” dessas árduas
conquistas. Trata-se de um ataque sistemático às garantias constitucionais
resultantes de décadas de luta social, garantias cuja implementação, ainda que
incompleta e permanentemente ameaçada, representou um salto civilizatório
imensurável. Como pretendemos demonstrar, esse movimento insere-se em um
processo mais amplo de reconfiguração do Estado brasileiro, iniciado com o
golpe parlamentar de 2016, aprofundado pelas reformas trabalhista e da
previdência nos governos Temer e Bolsonaro, e que encontraria na eventual
eleição de Flávio Bolsonaro sua radicalização final.
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Previdência e salário mínimo: o ataque ao piso constitucional
Embora
ainda não tenha lançado um programa eleitoral, Flávio Bolsonaro e sua equipe
econômica têm dado declarações bastante eloquentes acerca do tema. O elemento
central do plano econômico do candidato é a alteração radical das regras de
reajuste dos benefícios previdenciários e assistenciais. Atualmente, o salário
mínimo — referência para aproximadamente 70% dos benefícios do INSS — é
reajustado pela inflação somada ao crescimento do PIB de dois anos antes. Essa
política, reinstituída pelo governo Lula em 2023, assegura ganhos reais aos
trabalhadores e pensionistas.
A
proposta em estudo pela equipe de Flávio Bolsonaro prevê interromper essa
política. Os benefícios passariam a ser corrigidos apenas pela inflação, sem
qualquer ganho real adicional. O mesmo se aplicaria ao Benefício de Prestação
Continuada (BPC), pago a idosos e pessoas com deficiência de baixa renda. O
coordenador da pré-campanha, senador Rogério Marinho (PL-RN), justificou a
necessidade de “revisitar a Previdência” sob o argumento de que “o modelo está
estourando”.
As
projeções da equipe econômica indicam uma economia de até R$ 1,1 trilhão em dez
anos. Esse número, porém, oculta a dimensão humana da medida. Aproximadamente
70% dos beneficiários do INSS recebem até um salário mínimo. Para esses milhões
de brasileiros — aposentados, pensionistas, pessoas com deficiência —, a
interrupção do ganho real significa perda progressiva do poder de compra, com
consequências diretas sobre alimentação, moradia, medicamentos e transporte.
Há um
aspecto ainda mais grave. A proposta estabeleceria uma distinção perversa entre
trabalhadores ativos e inativos: o salário mínimo continuaria a ser reajustado
pela política atual, enquanto aposentados e pensionistas teriam seus benefícios
congelados. Trata-se de uma violação do princípio da solidariedade
intergeracional, fundamento ético-jurídico do sistema previdenciário, que
introduz uma hierarquia onde a Constituição buscou estabelecer um piso comum de
dignidade.
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Saúde e educação: o fim dos pisos constitucionais
Outro
pilar do programa de Flávio Bolsonaro é a desvinculação dos gastos mínimos
obrigatórios com saúde e educação. Atualmente, a Constituição determina que a
União aplique 15% de sua Receita Corrente Líquida em saúde e 18% da Receita
Líquida de Impostos em educação.
A
proposta prevê substituir esses percentuais fixos por uma correção baseada
exclusivamente na inflação. Os investimentos em saúde e educação deixariam de
acompanhar o crescimento da economia, congelando-se em termos reais. As
projeções apontam uma economia de cerca de R$ 800 bilhões em dez anos.
Os
pisos constitucionais foram introduzidos precisamente para garantir que, mesmo
em contextos de ajuste fiscal, as áreas sociais não fossem sacrificialmente
reduzidas. Constituem uma blindagem orçamentária para direitos fundamentais —
aqueles que exigem prestações positivas do Estado.
Os
impactos potenciais são profundos. O SUS atende cerca de 75% da população
brasileira, e a redução relativa dos recursos teria consequências imediatas
sobre o tempo de espera por atendimentos, a capacidade instalada de leitos
hospitalares e a disponibilidade de medicamentos. Na educação, o congelamento
inviabilizaria a ampliação da educação em tempo integral, a valorização dos
professores e a redução das desigualdades regionais e raciais.
Essas
medidas não representam o “desmonte” de um Estado de bem-estar social
previamente existente. Representam, antes, a interrupção definitiva de qualquer
possibilidade de construção desse Estado — o fechamento da janela histórica
aberta pela Constituição de 1988.
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Trabalho: o aprofundamento da reforma de 2017
A
agenda de Flávio Bolsonaro também sinaliza a intenção de “revisitar” a reforma
trabalhista de 2017. A reforma de 2017 já representou um retrocesso
significativo: introduziu a prevalência do negociado sobre o legislado, ampliou
a terceirização, criou o trabalho intermitente e reduziu o adicional de horas
extras.
O que
se anuncia agora é um aprofundamento dessa agenda: maior flexibilização da
jornada, ampliação da terceirização irrestrita, redução de custos trabalhistas
mediante compressão de direitos (décimo terceiro, FGTS, aviso prévio) e novas
modalidades contratuais ainda mais precárias.
O
aprofundamento da reforma trabalhista deve ser compreendido em conjunto com as
demais medidas. Trata-se de um projeto integrado: desregulamentar o mercado de
trabalho para reduzir custos ao empregador; reduzir o valor real dos benefícios
previdenciários; e sucatear os serviços públicos de saúde e educação para abrir
espaço para a iniciativa privada. O efeito combinado é devastador: perda de
direitos trabalhistas, aposentadoria corroída pela inflação, e acesso reduzido
a serviços públicos de qualidade.
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Considerações finais
A
análise das declarações feitas até o momento em torno do programa econômico de
Flávio Bolsonaro permite afirmar que estamos diante do projeto mais ambicioso
de ataque às garantias constitucionais obtidas desde 1988. As medidas propostas
constituem uma agenda sistemática de erosão do pacto constitucional inaugurado
há quase quatro décadas.
Os
efeitos combinados são previsíveis: perda de poder aquisitivo para milhões de
beneficiários do INSS e do BPC; sucateamento progressivo do SUS e da educação
pública; precarização do trabalho; ampliação da desigualdade social, com as
medidas recaindo desproporcionalmente sobre a população mais vulnerável —
idosos, pessoas com deficiência, trabalhadores de baixa renda, mulheres.
O que
está em risco não é uma política pública ou outra, mas o próprio princípio de
que o Estado tem a obrigação de garantir um piso mínimo de bem-estar a todos os
cidadãos — independentemente de renda, idade, condição de saúde ou região de
origem. Esse princípio, que a Constituição de 1988 consagrou como fundamento da
República, é exatamente o que o projeto de Flávio Bolsonaro se propõe a
extinguir.
• Escala 7×0: o que há por trás da
proposta de Flávio Bolsonaro no Senado que tenta sabotar fim da escala 6×1
O
presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), deve reunir líderes
partidários esta semana para definir o rito de tramitação da PEC que acaba com
a escala 6×1, aprovada pela Câmara dos Deputados. A proposta, que reduz a
jornada semanal de 44 para 40 horas e garante dois dias de folga, aguarda
despacho à Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), enquanto a oposição já
protocolou uma PEC alternativa, a PEC 12/2026, que parlamentares governistas
classificam como uma manobra para esvaziar o avanço trabalhista e instituir, na
prática, uma “escala 7×0”.
Entre
os senadores que votaram a favor do texto da PEC da 7×0, está o pré-candidato à
Presidência Flávio Bolsonaro (PL), que encabeça a proposta junto de Rogério
Marinho (PL-RN), seu coordenador da pré-campanha, que propõe ser possível
“escolher” entre o regime comum previsto pela Consolidação das Leis do Trabalho
(CLT) ou um “regime flexível” baseado em horas trabalhadas. Nesse segundo
modelo, o patrão pagaria apenas o número de horas trabalhadas pelo empregado.
O
senador usa como argumento a mesma afirmação dos parlamentares que defendem o
fim da escala 6×1: permitir que o trabalhador consiga conciliar melhor o
trabalho e a vida social. No entanto, na PEC que reduz a jornada de trabalho, a
remuneração salarial não irá diminuir, diferente da proposta do senador do PL.
Representantes
sindicais e os formuladores da proposta de redução defendem que a valorização
do trabalhador contribui para ganhos de produtividade e para o aquecimento do
mercado interno. A escala 7×0 tem apoio de outros 39 dos 81 senadores. Veja a
seguir:
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Veja quem votou pela PEC da escala 7×0
1-Rogério
Marinho (PL-RN) – principal autor
2-Angelo
Coronel (Republicanos-BA)
3-Astronauta
Marcos Pontes (PL-SP)
4-Carlos
Portinho (PL-RJ)
5-Carlos
Viana (PSD-MG)
6-Ciro
Nogueira (PP-PI)
7-Cleitinho
(Republicanos-MG)
8-Damares
Alves (Republicanos-DF)
9-Dr. Hiran (PP-RR)
10-Dra. Eudócia (PSDB-AL)
11-Eduardo
Girão (Novo-CE)
12-Eduardo
Gomes (PL-TO)
13-Efraim
Filho (PL-PB)
14-Esperidião
Amin (PP-SC)
15-Flávio
Bolsonaro (PL-RJ)
16-Hamilton
Mourão (Republicanos-RS)
17-Hermes
Klann (PL-SC)
18-Izalci
Lucas (PL-DF)
19-Jaime
Bagattoli (PL-RO)
20-Jayme
Campos (União-MT)
21-Laércio
Oliveira (PP-SE)
22-Lucas
Barreto (PSD-AP)
23-Luis
Carlos Heinze (PP-RS)
24-Magno
Malta (PL-ES)
25-Marcio
Bittar (PL-AC)
26-Marcos
do Val (Avante-ES)
27-Marcos
Rogério (PL-RO)
28-Nelsinho
Trad (PSD-MS)
29-Oriovisto
Guimarães (PSDB-PR)
30-Plínio
Valério (PSDB-AM)
31-Roberta
Acioly (Republicanos-RR)
32-Romário
(PL-RJ)
33-Sergio
Moro (PL-PR)
34-Sérgio
Petecão (PSD-AC)
35-Styvenson
Valentim (Podemos-RN)
36-Tereza Cristina (PP-MS)
37-Vanderlan Cardoso (PSD-GO)
38-Wellington Fagundes (PL-MT)
39-Wilder Morais (PL-GO)
40-Zequinha
Marinho (Podemos-PA).
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Consulta do Senado tem maioria esmagadora contra “escala 7×0”
A
consulta pública aberta pelo Senado sobre a PEC 12/2026, apresentada pelo
senador Rogério Marinho (PL-RN), registra uma maioria esmagadora de votos
contrários à proposta que parlamentares governistas e lideranças da esquerda
vêm chamando de “escala 7×0”.
Na
página do e-Cidadania, a consulta aparece com 32.364 votos contrários e 4.049
favoráveis à proposta, até as 5h38 desta segunda-feira (1º).
Como
votar contra a PEC da “escala 7×0”
Para
participar da consulta pública, é preciso acessar a página da PEC 12/2026 no
portal e-Cidadania do Senado. O próprio Senado informa que todas as proposições
em tramitação ficam abertas para receber opiniões públicas durante sua
tramitação, conforme a Resolução 26/2013.
O
caminho é simples:
1. Acesse a consulta pública da PEC 12/2026
no e-Cidadania;
2. Na pergunta “Você apoia essa
proposição?”, escolha “Não”;
3. Faça login com a conta gov.br, se o
sistema solicitar;
4. Confirme o voto.
Segundo
o Senado, qualquer pessoa cadastrada no portal pode opinar sobre proposições em
tramitação, mas cada usuário pode votar apenas uma vez. O cadastro no
e-Cidadania é feito pela plataforma gov.br.
A
ofensiva nas redes busca transformar a consulta em mais um instrumento de
pressão sobre os senadores. A avaliação entre governistas é que a PEC 12/2026
cria uma armadilha política: sob o discurso de “flexibilização”, permitiria um
modelo em que o trabalhador receberia apenas pelas horas efetivamente
trabalhadas, sem a garantia de preservação salarial prevista na proposta de
redução da jornada.
A
disputa também tem peso eleitoral. O fim da escala 6×1 se tornou uma das pautas
trabalhistas de maior apelo popular no país e passou a ser tratado pelo governo
Lula como uma vitória política importante na agenda de valorização do trabalho.
Do outro lado, a oposição tenta apresentar uma alternativa que, na prática,
pode neutralizar a proposta aprovada na Câmara.
No
Senado, a PEC que acaba com a escala 6×1 ainda depende de tramitação na
Comissão de Constituição e Justiça e de aprovação em dois turnos no plenário,
com pelo menos 49 votos. A pressão popular, agora expressa também na consulta
pública, deve pesar sobre senadores que tentam evitar o desgaste de se
posicionar contra o direito ao descanso.
• Escala 7×0: Proposta apoiada por Flávio
Bolsonaro perde assinaturas após pressão
proposta
de escala 7×0, que pune os trabalhadores de forma cruel, perdeu força. Três
senadores, que tinham se posicionado favoravelmente ao texto apresentado pelo
líder da oposição na Casa, Rogério Marinho (PL-RN), e apoiado pelo
pré-candidato a presidente, Flávio Bolsonaro (PL-RJ), retiraram suas
assinaturas.
Os
arrependidos são Romário (PL-RJ), Zequinha Marinho (Podemos-PA) e Cleitinho
(Republicanos-MG), todos integrantes da oposição, que voltaram atrás e passaram
a defender o fim da escala 6×1.
A
proposta de Rogério Marinho, coordenador da pré-campanha de Flávio Bolsonaro,
propõe ser possível “escolher” entre o regime comum previsto pela Consolidação
das Leis do Trabalho (CLT) ou um “regime flexível” baseado em horas
trabalhadas. Nesse segundo modelo, o patrão pagaria apenas o número de horas
trabalhadas pelo empregado.
O
senador usa como argumento a mesma afirmação dos parlamentares que defendem o
fim da escala 6×1: permitir que o trabalhador consiga conciliar melhor o
trabalho e a vida social. No entanto, na PEC que reduz a jornada de trabalho, a
remuneração salarial não irá diminuir, diferentemente da proposta do senador do
PL.
A PEC
que acaba com a escala 6×1 e reduz a jornada de trabalho de 44 para 40 horas
foi aprovada pela Câmara dos Deputados e agora passa a ser alvo de pressão para
avançar no Senado. O presidente da Casa, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP),
disse que pretende se reunir na próxima semana com os líderes partidários para
definir um cronograma de tramitação da proposta.
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O que disseram os arrependidos
Um dos
primeiros a anunciar a retirada do apoio à escala 7×0 foi Romário (PL-RJ). O
ex-jogador anunciou a decisão em publicação no X e afirmou que “fazer política
também é saber ouvir a população”.
Já o
senador Zequinha Marinho (Podemos-PA) destacou, em publicação no Instagram, que
retirou sua assinatura para permitir que “a pauta da escala 6×1 avance no
Senado, em defesa do trabalhador”.
Durante
discurso no plenário do Senado, na terça-feira (2), o senador Cleitinho
(Republicanos-MG) solicitou a Alcolumbre que dê prioridade à PEC aprovada pela
Câmara.
“Então,
eu peço que vossa excelência dê prioridade à que veio da Câmara. Porque eu
tenho dois anos aqui, antes de alguns oportunistas que estão agora falando para
acabar com a escala, eu tenho dois anos, inclusive criticado pela direita,
muitos políticos de direita me criticando: ‘O Cleitinho está errado’. Não! É
porque eu penso, é porque a vida inteira eu trabalhei nessa maldita escala, eu
passei na pele, eu senti na pele, junto com meu pai”, afirmou.
Fonte:
Por Alvaro Matias Morgado Jr., no Blog da Boitempo/Fórum

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