sábado, 6 de junho de 2026

Gustavo Tapioca: A sombra de Washington sobre a eleição brasileira

Em 2022, Biden ajudou a fechar a porta ao golpismo no Brasil. Em 2026, com Trump de volta à Casa Branca, a aproximação entre Washington e o bolsonarismo levanta uma pergunta inquietante: o que acontece se Lula continuar crescendo nas pesquisas?  Uma das razões pelas quais o golpe de 8 de janeiro fracassou raramente aparece com a força que merece nas análises sobre a crise brasileira. Naquele momento decisivo, os Estados Unidos eram governados por Joe Biden. 

Enquanto Jair Bolsonaro colocava em dúvida o sistema eleitoral, alimentava a suspeição contra as urnas e seus aliados conspiravam contra a democracia, Washington reconheceu rapidamente a vitória de Lula. Diplomatas, emissários e militares americanos enviaram sinais claros de que os Estados Unidos não apoiariam qualquer aventura golpista no Brasil.  Esse fator internacional ajudou a isolar a extrema direita brasileira. Não foi o único. Mas foi importante. A mensagem era inequívoca: a maior potência militar do planeta reconhecia o resultado das urnas brasileiras.  Em 2026, o cenário é outro. Donald Trump voltou à Casa Branca. E o bolsonarismo voltou a Washington. 

<><> O mundo mudou desde 2022 

A eleição presidencial brasileira de 2026 ocorrerá em condições internacionais muito diferentes das que marcaram a vitória de Lula quatro anos antes. Naquele momento, o governo Biden tinha interesse explícito em conter a onda autoritária estimulada por Trump, Bolsonaro e outras lideranças da extrema direita internacional.  Hoje, a Casa Branca é comandada pelo próprio Trump. E Trump não observa o Brasil como um país qualquer. O Brasil é a maior economia da América Latina. É membro dos BRICS. Ampliou sua aproximação com a China. 

Tem peso estratégico em energia, alimentos, minerais, meio ambiente, tecnologia financeira e diplomacia global.  É também governado por Lula, um presidente que defende uma ordem internacional multipolar e resiste à submissão automática aos interesses de Washington. Nada disso é irrelevante. 

<><> Punhal Verde e Amarelo  

Há um ponto que não pode ser apagado da memória recente. O golpe de 8 de janeiro fracassou também porque, em 2022, a extrema direita brasileira não encontrou em Washington o respaldo que talvez esperasse.  O governo Biden reconheceu a vitória de Lula e enviou sinais claros aos militares brasileiros: os Estados Unidos não apoiariam ruptura institucional. Esse fator ajudou a conter a aventura golpista. O que estava em jogo não era apenas uma disputa de palácio. 

A Polícia Federal revelou depois o plano Punhal Verde e Amarelo, que incluía Lula, Geraldo Alckmin e Alexandre de Moraes como alvos centrais. O Brasil esteve muito mais perto do abismo do que muitos ainda admitem.  Se o golpe tivesse avançado, o país poderia ter mergulhado numa tragédia institucional comparável, ou pior, aos anos que se seguiram a 1964, quando a ditadura brasileira contou com apoio decisivo dos Estados Unidos. 

É por isso que a pergunta de 2026 é tão inquietante.  Se em 2022 Biden ajudou a fechar a porta ao golpismo, o que acontece agora, com Trump na Casa Branca e o bolsonarismo novamente buscando apoio em Washington? E Lula novamente candidato? 

<><> O elo permanente com Washington 

Existe um personagem que conecta praticamente todos os capítulos dessa história. Eduardo Bolsonaro, o filho 03 de Jair, um deputado que perdeu o mandato por “excesso de faltas”. Estava – e continua nos Estados Unidos – como embaixador “ad hoc” para lutar contra a soberania do Brasil.  Desde 2025, o deputado passou a atuar politicamente a partir dos Estados Unidos, aprofundando relações construídas ao longo dos anos com o universo político do trumpismo. Sua proximidade com Steve Bannon, assessores de Donald Trump e figuras influentes da direita americana nunca foi segredo.  Enquanto Flávio Bolsonaro se apresenta como candidato presidencial, Eduardo desempenha outro papel: o de principal articulador internacional do bolsonarismo. 

Essa divisão de tarefas ajuda a explicar por que os acontecimentos recentes não podem ser analisados isoladamente. De um lado, Flávio tenta consolidar uma candidatura presidencial. De outro, Eduardo mantém canais permanentes com setores influentes da nova administração americana.  Nenhum desses fatos, isoladamente, prova a existência de um plano de interferência eleitoral. Mas todos ajudam a formular a pergunta que realmente importa.  Se em 2022 os Estados Unidos atuaram para reforçar o respeito ao resultado das urnas, qual será a postura de uma Casa Branca comandada por Donald Trump diante de uma eventual reeleição de Lula? 

<><> A nova Doutrina Trump 

Nos últimos meses, uma sequência de movimentos começou a redesenhar o ambiente político em torno do Brasil.  Primeiro, a aproximação explícita entre Flávio Bolsonaro e a Casa Branca. Depois, a classificação do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas pelos Estados Unidos. Em seguida, as pressões comerciais, os questionamentos ao Pix e a proposta de tarifas de 25% contra produtos brasileiros.  Separadamente, cada medida possui sua justificativa. Juntas, formam um padrão.  O Brasil passou a ser tratado por Washington não apenas como parceiro comercial ou aliado regional. Passou a ser tratado como tema estratégico. 

E essa talvez seja a principal diferença entre 2022 e 2026. 

<><> Narcoterrorismo: o novo nome da velha pressão 

A classificação de PCC e Comando Vermelho como organizações terroristas foi celebrada por setores da extrema direita brasileira como uma vitória de Flávio Bolsonaro. Mas seu significado jurídico e político é muito mais amplo.  Quando um grupo deixa de ser tratado apenas como organização criminosa e passa a ser enquadrado como organização terrorista, entram em cena instrumentos extraordinários de pressão diplomática, financeira, policial e de inteligência.  Isso não significa intervenção automática. Mas significa a criação de um ambiente político e jurídico que amplia o alcance da legislação americana para além de suas fronteiras. 

Foi esse mecanismo que, ao longo das últimas décadas, permitiu aos Estados Unidos justificar sanções, bloqueios, operações clandestinas, ações militares e pressões sobre governos considerados hostis.  A questão, portanto, não é defender facções criminosas. A questão é compreender o que se autoriza quando Washington decide enquadrar problemas brasileiros dentro de sua própria doutrina de segurança nacional. 

<><> A América Latina conhece esse roteiro 

A preocupação não nasce de teorias conspiratórias. Nasce da História. Os Estados Unidos nunca foram observadores neutros dos processos políticos latino-americanos.  Durante a Guerra Fria, Washington apoiou ou participou diretamente de operações que influenciaram governos, eleições e golpes no continente.   Foi assim na Guatemala, em 1954, quando a CIA apoiou a derrubada de Jacobo Árbenz. Foi assim em Cuba, com a invasão da Baía dos Porcos em 1961. Foi assim no Brasil, em 1964, quando Washington apoiou o golpe contra João Goulart e preparou a Operação Brother Sam. Foi assim na República Dominicana, em 1965. Foi assim no Chile, em 1973, no processo de desestabilização que antecedeu a derrubada de Salvador Allende.  Depois vieram a guerra às drogas, o Panamá, a guerra ao terror, o Afeganistão, o Iraque, a Síria, o Iêmen, a Somália e o Paquistão. 

Os nomes mudam. As justificativas mudam. Mas a lógica permanece. 

Uma ameaça é identificada. Uma estrutura jurídica é criada. Os instrumentos de pressão se ampliam. E a margem de atuação de Washington cresce. 

<><> A região sob nova ofensiva 

A América Latina voltou a ser tratada como terreno prioritário da disputa internacional.  A ascensão de Javier Milei na Argentina foi celebrada por Trump, por Steve Bannon e pela extrema direita global como um modelo de vitória política no continente.  Em outros países, a disputa entre projetos soberanos e projetos alinhados à nova direita americana tornou-se cada vez mais explícita. O método não precisa ser o mesmo da Guerra Fria. 

A pressão pode vir por tarifas. Por sanções. Por plataformas digitais. Por campanhas de desinformação. Por questionamentos eleitorais. Por cooperação seletiva em segurança. Por apoio político a aliados internos.  E é exatamente por isso que o caso brasileiro merece atenção. Nenhum outro país da América Latina reúne simultaneamente o peso econômico, territorial, energético, agrícola, ambiental, tecnológico e diplomático do Brasil.  Se Trump atua para influenciar o rumo político de países menores da região, o que poderá fazer diante do maior país latino-americano, integrante dos BRICS, parceiro estratégico da China e governado por Lula? 

<><> Lula cresce. E agora? 

A pergunta já não é apenas o que acontece se Lula vencer. A pergunta talvez seja anterior. O que acontece se Lula continuar crescendo? O que acontece se as pesquisas passarem a apontar uma vitória cada vez mais provável do atual presidente? É nesse ponto que os episódios recentes deixam de parecer isolados.  O narcoterrorismo. O tarifaço. Os ataques ao Pix. A investigação comercial contra o Brasil. A aproximação entre Flávio Bolsonaro e Trump. A presença permanente de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos. A pressão sobre temas estratégicos da economia brasileira.  Tudo isso pode ser interpretado como fatos separados. Mas também pode ser lido como parte de um ambiente crescente de pressão sobre o Brasil antes mesmo da eleição. Não é preciso afirmar que existe uma intervenção em curso para reconhecer que há sinais de alerta. Basta observar os acontecimentos. 

<><> E se Flávio perder? 

A pergunta mais incômoda talvez seja esta. Se Flávio Bolsonaro for derrotado por Lula nas urnas, a Casa Branca aceitará o resultado sem contestação? Talvez sim. Talvez Trump reconheça imediatamente a vitória brasileira, como Biden fez em 2022. Talvez as tensões atuais se dissipem. Talvez o comércio volte ao centro da relação bilateral.  Mas também é possível que a eleição brasileira de 2026 ocorra sob uma pressão internacional muito mais pesada do que a de 2022. A diferença é brutal. Em 2022, Washington ajudou a fechar a porta ao golpismo. Em 2026, Washington é governada por Trump.  E Trump tem ao seu comando um bolsonarismo que nunca aceitou plenamente a derrota de 2022, que viu seu líder condenado por tentativa de golpe e que agora tenta voltar ao poder por meio de Flávio Bolsonaro. 

<><> O Brasil precisa olhar para o perigo 

Não se trata de alarmismo. Trata-se de memória histórica. O Brasil sabe o que acontece quando elites internas buscam apoio externo para derrotar projetos populares e soberanos. Sabe porque viveu 1964. Sabe porque enfrentou 21 anos de ditadura. Sabe porque viu perseguições, prisões, cassações, torturas, assassinatos e exílios serem justificados em nome da ordem, da segurança nacional e do combate ao comunismo.  Agora, o vocabulário mudou. Não é mais o comunismo. É o narcoterrorismo. Não são mais os tanques nas ruas como primeira cena. São tarifas, sanções, investigações comerciais, bloqueios, pressões diplomáticas, espionagem, guerra digital e articulações políticas internacionais.   Mas o risco de fundo permanece o mesmo: a tentativa de submeter a soberania brasileira a interesses definidos fora do país. 

<><> A eleição que já começou fora das urnas 

A eleição presidencial de outubro ainda não começou oficialmente em sua fase decisiva. Mas a pressão sobre o Brasil já começou.  

Começou quando o bolsonarismo levou sua agenda para Washington.   Começou quando Eduardo Bolsonaro transformou os Estados Unidos em base permanente de articulação política.   Começou quando Flávio Bolsonaro tentou apresentar Trump como fiador de sua candidatura.   Começou quando PCC e Comando Vermelho foram enquadrados na doutrina americana do narcoterrorismo.   Começou quando o Pix entrou na mira. Começou quando tarifas de 25% passaram a ser usadas como instrumento de pressão.  Começou quando o Brasil, por sua relação com os BRICS, com a China e com uma ordem internacional multipolar, passou a ser tratado como problema estratégico. 

A pergunta de 2026, portanto, não é apenas quem vencerá a eleição. A pergunta é outra.  O que fará Trump se Lula continuar crescendo?  E o que fará o Brasil para impedir que sua soberania volte a ser negociada nos corredores do poder em Washington? 

¨      Como Trump está infiltrando suas forças armadas na América Latina com uma nova coalizão militar contra o narcotráfico

Três datas dos primeiros cinco meses de 2026 ilustram o renovado intervencionismo dos EUA na América Latina: em 3 de janeiro, as tropas de elite da Força Delta dos EUA invadiram Caracas e sequestraram Nicolás Maduro, presidente da Venezuela. Em 3 de março, helicópteros militares equatorianos, com apoio militar dos EUA, incendiaram supostos esconderijos de narcotraficantes na província de Sucumbíos, perto da Colômbia. "Sim, também estamos bombardeando narcoterroristas em terra", declarou Pete Hegseth, então Secretário de Defesa dos EUA. Em 30 de abril, o presidente argentino Javier Milei desembarcou no porta-aviões nuclear americano USS Nimitz para participar de exercícios navais conjuntos com os EUA em Mar del Plata. Poucos dias antes, havia autorizado a presença de militares americanos em solo argentino para o Exercício Daga Atlántica. O fluxo de intervenções militares dos EUA na América Latina ocorre no âmbito da Operação Escudo das Américas, uma nova coalizão militar lançada em 7 de março no campo de golfe Trump National Doral, em Miami, para combater o narcotráfico e a imigração ilegal. Doze governos nacionais alinhados a Donald Trump já aderiram à Operação, incluindo Argentina, Equador, Bolívia, El Salvador, Paraguai e Costa Rica — um país historicamente neutro e sem exército, onde o debate sobre a presença de bases militares americanas em seu território já começou.

Após décadas de presença limitada a bases isoladas, as forças armadas dos Estados Unidos estão de volta à América Latina. Donald Trump está forçando diversos governos a assinarem acordos militares em uma sequência carregada de simbolismo. Em fevereiro de 2024, o Acordo sobre o Estatuto das Forças (SOFA) foi assinado com o Equador, país que fechou a base militar de Manta em 2009. Em abril de 2025, um memorando de entendimento militar foi assinado com o Panamá, país onde Washington administrou o Canal do Panamá até 2000 e onde se localizava a Escola das Américas, que treinava os exércitos de ditaduras. O Peru e a República Dominicana autorizaram o destacamento temporário de tropas americanas em seus territórios até o final de 2025. No entanto, o acordo que mais gerou preocupação foi o SOFA assinado com o Paraguai. Aprovado em março, o acordo não só protege os soldados americanos da justiça paraguaia, como também permite a circulação de veículos e armamentos militares sem qualquer inspeção. "O acordo representa uma verdadeira base militar secreta. É humilhante", declarou o deputado da oposição Raúl Benítez ao elDiario.es.

<><> Protestos eclodem no Paraguai

Em um evento na Plaza Italia, em Assunção, membros de movimentos indígenas e camponeses se reuniram para formar uma frente unida de resistência. Eles discursaram em guarani, usando ocasionalmente palavras em espanhol: "Resistência", "camaradas", "privatização", "narcopoder". Uma palavra se repetia constantemente: SOFA. "Este acordo viola os direitos das comunidades. Um soldado americano pode estuprar uma menina e nada acontece. O narcotráfico é a desculpa deles", disse Camila Mas, da Coordenação Paraguaia de Direitos Humanos (CODEHUPY), ao elDiario.es. Rosa Toledo, da La Vía Campesina, declarou que a revogação do SOFA é uma das principais reivindicações dos povos indígenas e dos movimentos camponeses: "Viola o Artigo 143 da Constituição (relativo à soberania nacional). Permite que comunidades de pequenos agricultores sofram despejos violentos." Os EUA têm um longo histórico de danos colaterais decorrentes de supostas operações antidrogas. Uma investigação do New York Times revelou que o alvo do ataque em Sucumbíos, em março, não era um acampamento de narcotráfico, mas sim uma fazenda leiteira. A congressista de esquerda Johanna Ortega, do Partido Solidariedade País (PPS), denuncia o acordo SOFA como um insulto ao povo paraguaio. "Antes, a cooperação com os militares dos EUA era implementada em etapas. O acordo SOFA transforma oficialmente o Paraguai no quintal dos EUA, permitindo a entrada de qualquer veículo e beneficiando apenas alguns poderosos", disse ela ao elDiario.es. A congressista explica que o acordo prevê o levantamento das sanções impostas pelos EUA contra o ex-presidente Horacio Cartes por seu envolvimento em "corrupção desenfreada". "É paradoxal: a maioria dos deputados conservadores implicados em contrabando e narcotráfico votou a favor do acordo", observa Raúl Benítez. Pelo menos 26 deputados de Cartes foram investigados judicialmente por seu envolvimento com o narcotráfico.

<><> Alarme em Brasília

O acordo SOFA assinado pelo Paraguai soou o alarme em Brasília. Apenas alguns dias antes de sua aprovação, o jornalista brasileiro Jamil Chade noticiou que o Departamento de Estado dos EUA havia declarado a região da tríplice fronteira entre Paraguai, Argentina e Brasil como uma das "principais áreas de atividade na América Latina", incluindo a cidade brasileira de Foz do Iguaçu. Poucos dias após a assinatura do acordo SOFA, o ministro das Relações Exteriores brasileiro, André Vieira, reuniu-se em Assunção com o presidente paraguaio Santiago Peña para expressar sua preocupação. A recente designação, pelos Estados Unidos, das organizações criminosas Comando Vermelho (CV) e Primeiro Comando da Capital (PCC) como grupos terroristas representou um grande revés para o Brasil. O encontro do presidente Lula com Donald Trump na Casa Branca, no início de maio, não conseguiu reverter a decisão.

A pressão da família Bolsonaro sobre Donald Trump após o escândalo de corrupção envolvendo o filme Dark Horse acelerou o processo. Será que o SOFA paraguaio permitirá que os EUA desdobrem tropas em território brasileiro sob o pretexto de combater o financiamento do Hezbollah ou os cartéis de drogas brasileiros na tríplice fronteira? "É verdade que a medida faz parte de uma política externa que busca expandir a influência dos EUA. Mas expandir os instrumentos de pressão é uma coisa, e intervenção direta em território brasileiro é outra", disse André Pasternak Glitz, procurador do Ministério Público do Paraná, ao elDiario.es. Para Tallita Lima, professora de Relações Internacionais da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), considerar o PCC e o CV como terroristas significa enquadrá-los no contexto da segurança nacional, da defesa e da política externa. "Quando Washington começa a classificar organizações criminosas latino-americanas como terroristas, cria um ambiente político no qual medidas extraterritoriais, sanções, cooperação assimétrica e formas mais intrusivas de vigilância parecem mais aceitáveis", disse Lima a este jornal. Após o anúncio do governo americano, o próprio Lula afirmou que os cartéis de drogas "são terroristas para as comunidades brasileiras", mas "não são os terroristas que Trump quer".

<><> Interesses ocultos

A presença de Alexandre Silveira, Ministro de Minas e Energia do Brasil, na reunião em Assunção fornece mais uma pista sobre as implicações do acordo SOFA: recursos naturais e minerais. O deputado federal paraguaio Billy Vaesken, do Partido Liberal, denunciou que o acordo SOFA não apenas abre mão da soberania, mas também de "informações valiosas" sobre os recursos naturais do país, referindo-se ao lítio e aos aquíferos subterrâneos — o Paraguai compartilha o vasto Aquífero Guarani com o Brasil, a Argentina e o Uruguai. Vaesken afirma que o verdadeiro interesse dos EUA "não é a cooperação desinteressada, mas o acesso a dados estratégicos e recursos naturais críticos do Paraguai", que também incluem ouro e urânio. Após a intervenção militar dos EUA na Venezuela, a Operação Escudo das Américas foi recebida com suspeita em toda a região. "A doutrina de segurança nacional dos EUA visa criar uma barreira contra potências adversárias. Ela é claramente direcionada à China", disse à BBC o chileno Carlos Solar, especialista em segurança e defesa no Royal United Services Institute (RUSI).

Pablo Ospina, professor da Universidade Andina Simón Bolívar, no Equador, afirma que, embora o narcotráfico e a imigração não sejam meras cortinas de fumaça, os novos acordos militares dos EUA têm outros objetivos. "O interesse político mais evidente é consolidar contatos e parcerias entre projetos de extrema-direita", declara. O especialista aponta que existem interesses em comum entre o governo dos EUA e seus aliados para promover "agendas menos populares, como cortes de impostos para os mais ricos, reduções em serviços sociais e nos sistemas universais de saúde e educação pública, além da pilhagem de recursos, da natureza e do patrimônio".

Da Argentina, a principal preocupação é a Base Naval Integrada que o governo de Javier Milei autorizou a ser construída em conjunto com os EUA na península de Ushuaia, na Terra do Fogo. A visita de uma delegação comercial americana a Ushuaia, em janeiro, não incluiu o narcotráfico em sua agenda, mas sim o "processamento de licenças para a gestão de minas e o processamento de minerais críticos", segundo a própria embaixada dos EUA. Emiliano Fossatto, secretário jurídico da Terra do Fogo, governada pela oposição peronista, declarou que a visita foi repleta de "muitas preocupações" e não foi comunicada às autoridades locais. "A localização geográfica do porto de Ushuaia, porta de entrada para a Antártica, é significativa. Pode haver outros motivos em jogo." A Antártica, vítima do derretimento do gelo causado pelo aquecimento global, está se tornando uma nova fronteira para o Hemisfério Ocidental da era Trump.

 

Fonte: Brasil 247/ elDiario.es

 

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