Quem
foi Catulo da Paixão Cearense, o violeiro que traduziu o popular para a elite
Ele
ficou conhecido como o poeta do sertão e as versões da canção mais famosa que
lhe é atribuída aludem à saudade da vida do campo, do meio rural, do ambiente
sertanejo. O maranhense Catulo da Paixão Cearense (1866-1946), morto há 80
anos, é um dos nomes mais importantes da música popular do Brasil.
"O
Catulo foi o tradutor das canções ditas populares para outro tipo de escuta,
que era a dos salões cariocas", afirma o historiador Kleiton de Sousa
Moraes, professor na Universidade Federal do Ceará e autor do livro Catulo da
Paixão Cearense ou Como se Constrói um Autor?. "Ele circulava nos
subúrbios e levava as canções para as casas da elite."
"Foi
pioneiro na atuação artística que fez da música popular elemento central, e
mutante da identidade cultural brasileira", diz o antropólogo Hermano
Vianna, autor de, entre outros livros, Música do Brasil.
"Sua
obra, exaltando essa coisa mais idílica da vida sertaneja, é uma espécie de
contraponto à contemporaneidade, com sua visão lírica de um mundo idealizado,
de harmonia existencial", comenta o músico Alberto Tsuyoshi Ikeda,
professor na Universidade de São Paulo e consultor da cátedra Kaapora: da
Diversidade Cultural e Étnica na Sociedade Brasileira, da Universidade Federal
de São Paulo.
Se por
um lado hoje em dia seu nome é pouco conhecido do grande público, a verdade é
que quase todo brasileiro já ouviu alguma das centenas de versões da toada
sertaneja Luar do Sertão, gravada por um vasto espectro que vai de Caetano
Veloso a Francisco Alves, passando por Vicente Celestino, Chitãozinho e Xororó,
Elba Ramalho, Luiz Gonzaga e Milton Nascimento.
Autor
de Da Modinha ao Sertão, livro sobre a trajetória de Catulo, o historiador e
escritor Luiz Americo Lisboa Junior, pesquisador-doutorando na Universidade de
Lisboa, classifica Luar do Sertão como "um patrimônio cultural
brasileiro".
"Sua
importância é fundamental", diz o historiador.
Uma das
músicas mais regravadas da história do cancioneiro brasileiro, a composição é
definida pelo famoso Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira como
"um segundo Hino Nacional". Primeiro ministro negro do Supremo
Tribunal Federal, o jurista Pedro Lessa (1859-1921) chamou a música de
"hino nacional do sertanejo".
Há uma
controvérsia histórica sobre a autoria da canção, com atribuições ora a Catulo,
ora ao violeiro João Teixeira Guimarães (1883-1947), o João Pernambuco. Segundo
especialistas, o mais correto é atribuir ao primeiro a letra e a este último, a
melodia. Mas essa questão também envolve o fato de que a noção de direitos
autorais para composições populares era um tanto difusa no início do século 20.
Catulo
— e este parece ter sido seu grande mérito — foi hábil em resgatar canções
populares que circulavam à época e publicá-las em livros e livretos com seu
nome. Gradualmente, ele acabava sendo visto como o autor.
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Biografia
Nascido
em São Luís do Maranhão, Catulo da Paixão Cearense mudou-se para o Rio de
Janeiro na adolescência, com os pais. Trabalhou como relojoeiro e como
estivador. Mas acabou se envolvendo rapidamente com os boêmios da cidade,
sobretudo os chamados chorões.
"Sua
geração constitui a base do que hoje chamamos de música popular
brasileira", pontua Ikeda, citando pares como Francisca Neves Gonzaga
(1847-1935), a Chiquinha Gonzaga, Ernesto Nazareth (1863-1934) e Joaquim
Callado (1848-1880), entre outros.
Ficou
amigo de um livreiro, Pedro da Silva Quaresma (1863-1921), e passou a publicar
com ele folhetos e livretos com compilados de modinhas que circulavam na época.
"Seus livros de modinhas vendiam mais do que a literatura da época",
compara Moraes.
"Vindo
do interior nordestino, ele conquistou a capital nacional, misturando mundos
que pareciam condenados a viver para sempre separados", comenta Vianna.
"Foi
estivador no porto do Rio de Janeiro, mas seu talento musical, e curiosidade
espantosa, logo o tornou elo mediador entre ambientes bem diferentes como o
palácio presidencial e os terreiros que ainda iriam inventar o samba",
complementa o antropólogo. "Fez a conexão entre os intelectuais da
Academia Brasileira de Letras e quem criava a poesia popular das ruas cariocas.
Também entre a canção urbana, conhecida como modinha, e os estilos rurais, ou
sertanejos, de todo o país. Isso antes do rádio ou da indústria
fonográfica."
A
primeira gravação de sua música mais famosa, Luar do Sertão, foi feita em 1914,
pelo cantor Eduardo das Neves (1874-1919). Saiu em disco de 78 rotações, da
Casa Edison. Ali os créditos apareceram como "versos e música de Catulo
Cearense".
"Luar
do Sertão é algo excepcional, uma das canções mais conhecidas de toda a
história da música popular do Brasil", avalia Ikeda.
Era o
momento em que a ideia de gravar, por si só, consistia em novidade recente.
Ikeda lembra que Catulo é personagem importante desse período histórico em que
há uma transição no modelo de se ouvir música, já que as primeiras gravações
permitem que tal experiência não seja necessariamente ao vivo e a partir de uma
relação interpessoal. "Criou-se então um novo segmento artístico-econômico
por meio dos discos", contextualiza o professor.
Mas
Catulo estava longe de ser homem de um só sucesso. Também foram muito
conhecidas, principalmente em sua época, músicas como Talento e Formosura,
Invocação a uma Estrela e Ontem ao Luar.
"Produziu
muitos sucessos que marcaram nosso imaginário, inclusive influenciando as
novidades do carnaval", lembra Vianna.
Lisboa
Junior traz uma curiosidade interessante. "A primeira vez que o termo
'sambando' apareceu em uma canção foi na música A Viola Está Magoada [de
Catulo], uma espécie de samba de partido alto gravado em 1914 pelos cantores
Bahiano [pseudônimo de Manuel Pedro dos Santos (1870-1944)] e Júlia
Martins", conta. A gravação, conforme registro nos arquivos da Biblioteca
Nacional, ocorreu três anos antes de Pelo Telefone ser gravada por Donga, nome
artístico de Ernesto dos Santos (1890-1974) — considerada por muitos o primeiro
samba gravado. "Mais um mito da história da MPB que se desfaz pelos
fatos", diz o historiador.
Catulo
publicou diversos livros, que eram comercializados a preços populares e tinham
tiragens consideradas altas. Os mais importantes são Meu Sertão, Sertão em
Flor, Poemas Bravios e Mata Iluminada.
"Ele
foi o primeiro grande poeta do sertão", define Lisboa Junior. "Esses
livros são fundamentais para a compreensão da linguagem sertaneja do início do
século 20."
Para o
poeta Sebastião Moreira Duarte, da Academia Maranhense de Letras, se "o
lugar de Catulo no cancioneiro popular não pode sequer ser posto em
dúvida", a sua literatura precisa ser olhada com ressalvas. "Ele é um
gênio nas metáforas, um criador telúrico de belíssimas imagens poéticas e tem a
facilidade de rimar que têm os cantadores populares", comenta. "O seu
lirismo é, porém, o de um ultrarromântico temporão."
Duarte
também critica o idioleto comumente empregado por Catulo em suas composições.
"Uma língua simplesmente fake", afirma. "Ele não conhecia o
linguajar matuto e deturpava palavras só para servirem à sua necessidade de
rima", aponta.
O
historiador Moraes afirma que Catulo transitava entre muita gente importante do
meio cultural, como os poetas Manuel Bandeira (1886-1968) e Mário de Andrade
(1893-1945). "Esse capital social era bem utilizado por ele em seus
livros. Catulo buscava uma certa distinção a partir do letramento",
analisa.
Catulo
foi grande amigo do poeta e diplomata português Júlio Dantas (1876-1962).
"Ele fazia questão de enaltecer a qualidade literária de Catulo
frequentando bastante sua casa", diz Lisboa Junior. "Quando Julio
Dantas foi homenageado na Academia Brasileira de Letras, fez questão da
presença de Catulo e dividiu com ele as homenagens recebidas."
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O "tradutor" do popular para as elites
Para
especialistas, o maior legado de Catulo foi esse trabalho de resgate e registro
das canções que circulavam na época.
"Ele
circulava nos subúrbios cariocas e levava as canções de lá para as casas da
elite citadina do Rio de Janeiro na época, na virada do século 19 para o
20", explica Moraes.
Mas não
era uma mera reprodução. Segundo conta o historiador, Catulo adaptava as
canções para que se tornassem palatáveis ao gosto daquela aristocracia
habituada a gêneros como valsa, tango e mazurca. "Tocava com
acompanhamento musical próprio para que a música fosse consumida por essa
elite", diz Moraes.
"Ele
tem um papel fundamental na divulgação das canções que circulavam no Rio. Como
era letrado, os salões cariocas abriam espaço para ouvi-lo cantar um tipo de
música considerada popular", acrescenta Moraes.
Nesse
movimento, de acordo com o historiador, Catulo passou a "se
apropriar" de letras populares, publicando-as sob seu nome em compilados.
"Foi o que ocorreu com Luar do Sertão, que já era conhecida nos meios
populares do Rio", exemplifica. Outro caso do tipo foi a canção Cabocla de
Caxangá.
O
historiador explica que o reconhecimento como criador intelectual das obras se
deu por conta da relação entre autoria e texto escrito, portanto.
"Como
as publicava em livros, em uma época de direitos autorais inexistentes, era
visto como autor", explica Moraes.
Interessante,
contudo, é que ele adaptava as letras. Em suas próprias palavras,
"corrigia" as letras "estropiadas e bárbaras". "Nos
termos dele, ele civilizava as composições", conta Moraes. "Foi um
tradutor da escuta popular para os salões."
Graças
a esse processo, conhecemos muito do que foi produzido nessa época, cabe
ressaltar. "Nas versões que são as 'correções' do Catulo", enfatiza o
historiador Moraes.
"O
legado foi que ele colocou no papel. E o objeto escrito tem mais durabilidade
do que o objeto oral", define. "Grande parte do que sabemos que havia
do cancioneiro dessa época chegou até hoje porque foi efetivamente compilada
por Catulo."
O
historiador destaca, contudo, que o poeta dava "um tom autoral dele".
"Ele
absorveu expressões artísticas que vinham das toadas, do cancioneiro lírico, e
as transpôs para o grande público", diz Ikeda. "Além disso, tinha
capacidade intelectual e artística de transitar entre grupos sociais distintos,
frequentando as elites e levando para esses grupos a produção popular."
"Ele
foi o mediador e criador que reuniu mundos sociais e semânticos bem diferentes
e distintos dentro da história da cultura e da música brasileira", destaca
Ikeda.
"Catulo
também era um excelente violonista e responsável pela introdução do violão,
instrumento considerado de vadios, nos salões de elite", afirma Lisboa
Junior. O historiador cita evento de 5 de julho de 1908, quando o artista
cantou modinhas em um recital no Instituto Nacional de Música, no Rio. "Na
plateia estava a nata cultural, científica e política do país", comenta.
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O sertanejo raiz
Segundo
o historiador Moraes, foi a partir do sucesso de Luar do Sertão que Catulo
passou a ser visto como poeta sertanejo. "Ele próprio começou a investir
nessa ideia", afirma. "Antes, era conhecido como o cantador de
modinhas. E já fazia muito sucesso."
Com o
passar do tempo, entretanto, a fama pessoal dele acabou desaparecendo do grande
público. Ao menos enquanto pessoa, enquanto personagem.
"Se
por um lado ele não parece ter muito reconhecimento hoje em dia, pelo menos a
obra fica", diz Ikeda. "E ele segue sendo cantado por muitos
artistas. Até as duplas sertanejas mais jovens conhecem Luar do Sertão."
Fonte:
BBC News Brasil

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