Por
que classificar PCC e CV como terroristas pode fortalecer facções, segundo
especialista dos EUA
A
designação do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho (CV) como
organizações terroristas pelos Estados Unidos tem potencial de provocar o
efeito contrário desejado por Donald Trump e fortalecer as facções criminosas
no Brasil e no mundo.
Essa é
a visão compartilhada pelo criminologista Nikos Passas, professor da
Universidade Northeastern, nos Estados Unidos. O advogado foi um dos
especialistas que colaborou para a implementação das convenções das Nações
Unidas contra a corrupção e crime organizado transnacional e vem acompanhando
de perto a estratégia americana contra o narcoterrorismo na América Latina.
"No
passado, vimos que a aplicação rigorosa de medidas contra essas organizações às
vezes serve de incentivo para que elas se tornem mais bem organizadas, mais
sofisticadas e, consequentemente, mais poderosas e resilientes", disse em
entrevista à BBC News Brasil.
Para
Passas, o PCC e o CV foram capazes de crescer e expandir suas operações nas
últimas décadas apesar das medidas tomadas no Brasil e internacionalmente para
pará-los, o que demonstra sua capacidade de se adaptar e encontrar novas
soluções criminosas.
A
inclusão das facções na lista americana de Organizações Terroristas
Estrangeiras (FTOs, na sigla em inglês), que entrou em vigor nesta sexta-feira
(5/6), deve significar inicialmente um novo desafio para suas lideranças, diz.
Mas sem
uma colaboração estreita entre os governos americano e brasileiro, o cenário
pode rapidamente se reverter a favor dos criminosos.
"Se
não houver a cooperação internacional necessária para combater atos criminosos,
um efeito indesejável e imprevisto pode ser que essas organizações se tornem
mais poderosas e difíceis de detectar", explica.
As
facções precisarão, por exemplo, mudar a forma como gerenciam suas finanças
para que possam continuar atuando. E segundo o criminologista, há indícios de
que elas são capazes de encontrar aconselhamento legal e financeiro sofisticado
para fazer isso.
Da
mesma forma, organizações criminosas tendem a fragmentar suas operações quando
as autoridades fecham o cerco contra sua estrutura, diz Nikos Passas. Por
vezes, isso acaba significando uma expansão para diferentes regiões geográficas
e jurisdições.
"A
história nos ensina que esse tipo de organização rapidamente recorre a
conhecimentos jurídicos sofisticados. Eles podem comprar o apoio de
profissionais que lhes mostram como contornar a lei", afirma o
criminologista.
Ainda
segundo o especialista, a colaboração estreita entre países é uma das melhores
formas de combater as organziações e fazer com que as medidas implementadas
sejam bem-sucedidas.
No caso
do PCC e do CV, porém, ainda não está claro como as autoridades no Brasil e nos
Estados Unidos atuarão daqui para frente.
A
designação das organizações como terroristas foi vista como uma derrota para o
presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). O governo brasileiro era contra a
medida – o principal argumento era de que ela poderia colocar em risco a
soberania nacional ao abrir espaço para ações militares norte-americanas sob o
pretexto de combate ao terrorismo.
O
governo também alegava que a medida iria contra a legislação brasileira que faz
uma distinção entre as atividades praticadas por facções criminosas e o
terrorismo.
Mas a
decisão do Departamento de Estado americano foi anunciada mesmo assim, um dia
depois do senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) ter
encerrado uma viagem para Washington, onde se encontrou com o presidente Donald
Trump, o vice-presidente J.D. Vance e com o secretário de Estado, Marco Rubio.
Para
Nikos Passas, essa cenário indica um futuro incerto em relação à cooperação
entre os dois países.
Além
disso, diz o especialista, o tom político e partidário da decisão pode ser
explorado e beneficiar o PCC e o CV. "Eles podem afirmam que estão agindo
contra partes externas que tentam interferir em assuntos brasileiros e obter
apoio político adicional", avalia.
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Fora do alcance dos EUA?
Uma das
maiores consequências da classificação como organização terrorista é a inclusão
das organizações na lista do Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros
(Ofac) do Departamento do Tesouro americano, que administra e aplica sanções
econômicas e comerciais. Com isso, todos os bens das facções e suas lideranças
nomeadas são bloqueados nos EUA.
A
inclusão também significa que qualquer empresa ou indivíduo que forneça apoio
material para membros ou instituições ligadas ao PCC e ao CV pode enfrentar
penalidades. Isso inclui envio de dinheiro, prestação de serviço, consultoria,
fornecimento de transporte ou qualquer outra ajuda econômica direta ou
indireta.
Nikos
Passas explica que essas barreiras podem mudar as regras do jogo para as
organizações criminosas.
No
passado, outras organizações que estiveram na mira do Ofac se afastaram do
ambiente financeiro americano e do dólar, diz ele.
"Isso
proporciona incentivos adicionais para a desdolarização, visando evitar a
jurisdição dos EUA, evitar bancos que operam em dólares americanos ou evitar o
dólar americano por completo", afirma.
No caso
específico do PCC e do CV, que já tem suas operações internacionais
principalmente na Europa e na África, as sanções devem levar a um afastamento
ainda maior dos Estados Unidos, aponta Passas.
O
dinheiro que já é lavado, por exemplo, em Portugal, pode passar a ser
reintroduzido na economia brasileira de formas mais sofisticadas, diz.
E sem
uma cooperação estabelecida não apenas entre as autoridades no Brasil e nos
EUA, mas entre as polícias americana, europeias e africanas, pode ficar mais
difícil para o governo de Donald Trump monitorar as movimentações das facções.
"Do
ponto de vista americano, a lei tem alcance extraterritorial, mas só será
eficaz na medida em que houver acordo e cooperação com as autoridades nacionais
locais", diz.
"Em
outras palavras, você até pode usar suas armas nos alvos que estão ao seu
redor, mas se eles se moverem para outro lugar, estarão fora do seu
alcance", resume o advogado.
• Diretor da PF diz que facções não podem
ser tratadas como terroristas
O
diretor-geral da Polícia Federal (PF), Andrei Passos Rodrigues, criticou a
decisão dos Estados Unidos de classificar facções criminosas como organizações
terroristas. Em entrevista à TV Globo nesta sexta-feira (5), segundo o G1, ele afirmou que a medida
representa um equívoco técnico e não altera a estratégia brasileira de combate
ao crime organizado.
Segundo
Rodrigues, embora as facções promovam violência e espalhem medo entre a
população, elas possuem características distintas das organizações terroristas,
sobretudo em relação às motivações e aos objetivos de atuação.
"As
organizações terroristas têm motivos ideológicos, motivos religiosos, objetivos
diferentes daquele do crime organizado que, em que pese aterrorizar as pessoas,
busca o lucro", afirmou.
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PF vê erro conceitual na classificação
Para o
diretor-geral da PF, enquadrar facções criminosas como organizações terroristas
pode comprometer a definição das estratégias adequadas de enfrentamento.
"E
essa definição [como terroristas] é um equívoco, porque a estratégia de
enfrentamento é diferente para um grupo e para outro grupo. Então, nós não
podemos confundir essas iniciativas, né? Para o cidadão pouco importa a
definição, qual a semântica, o que vai ser chamado esse grupo que está
impingindo o medo", declarou.
Rodrigues
ressaltou que a decisão estadunidense não muda a forma como o Brasil combate o
crime organizado nem reduz a intensidade das ações da Polícia Federal.
"Há
questões técnicas que precisam ser colocadas mas, ao mesmo tempo, tornar muito
claro que para nós essa definição que os Estados Unidos atribui às organizações
criminosas em nada altera o vigor e a firmeza que nós vamos seguir atuando
contra o crime organizado. É motivação distinta, é objetivo distinto",
destacou.
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Decisão dos EUA não altera política brasileira
A
Polícia Federal informou que não recebeu comunicação oficial sobre a medida e
tomou conhecimento da decisão por meio da imprensa. Por isso, segundo
Rodrigues, ainda não é possível avaliar se haverá impactos concretos na
cooperação entre os dois países.
"Não
tivemos nenhuma alteração, nenhuma interlocução que tenha sinalizado mudança
imediata nessa cooperação. Precisamos aguardar para saber qual será a política
dos Estados Unidos e se é o caso de haver alterações", afirmou.
O
diretor também enfatizou que decisões tomadas por governos estrangeiros não têm
poder para modificar as políticas públicas brasileiras de segurança. "Na
prática, essa decisão de um outro país soberano não tem nenhuma influência, não
tem o condão de mudar as políticas públicas brasileiras. A nossa maneira de
enfrentar o crime organizado é baseada na integração, na descapitalização
dessas organizações criminosas e na prisão de lideranças", disse.
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Cooperação internacional pode ser ampliada
Apesar
das críticas à classificação adotada por Washington, Rodrigues avaliou que o
episódio pode abrir espaço para ampliar a cooperação internacional no
enfrentamento ao crime organizado transnacional.
"Eu
penso que isso se torna uma oportunidade de ampliarmos a cooperação, de termos
mais troca de informações, bloqueio do envio de armas para o Brasil, prisão de
foragidos da Justiça brasileira nos Estados Unidos. Aqueles países que quiserem
verdadeiramente enfrentar o crime organizado e cooperar terão na Polícia
Federal e no nosso país um grande parceiro", declarou.
A
proposta inclui intensificar a troca de informações de inteligência, ampliar o
combate ao tráfico internacional de armas e fortalecer mecanismos para capturar
criminosos procurados pela Justiça brasileira que estejam em território
estadunidense.
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Especialistas apontam possíveis efeitos econômicos
Além
das repercussões na área de segurança, especialistas avaliam que a medida pode
gerar impactos econômicos. O professor de Política e Relações Internacionais da
Fundação Getulio Vargas (FGV), Eduardo Mello, afirmou que a classificação pode
aumentar as exigências de compliance para empresas que mantêm relações
financeiras ou comerciais com os Estados Unidos.
Segundo
ele, investidores e companhias poderão enfrentar custos adicionais para
comprovar que não possuem qualquer vínculo com grupos enquadrados como
terroristas, o que pode afetar decisões de investimento.
Na
semana passada, o governo brasileiro divulgou nota reiterando que o combate ao
crime organizado permanece como prioridade nacional. O texto também destacou
que a cooperação internacional deve ocorrer em respeito à soberania dos países
envolvidos.
Integrantes
do Ministério da Justiça defendem que os mecanismos de cooperação jurídica
internacional continuem sendo instrumentos fundamentais para enfrentar
organizações criminosas.
Fonte:
BBC News Brasil/Brasil 247

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