É
possível morrer pela perda da pessoa amada?
É
possível morrer de tristeza?
É o que
muitos têm se perguntado após a morte, aos 56 anos, de Marjane Satrapi, autora,
diretora, ilustradora e ativista franco-iraniana conhecida principalmente pela
série de graphic novels Persépolis.
Publicada
em 2000, a obra que conquistou o mundo narra a história da jovem Marjane
durante e após a Revolução Iraniana, também conhecida como Revolução Islâmica.
Oito
anos depois, a adaptação para o cinema, codirigida pela própria Satrapi, foi
indicada ao Oscar de Melhor Filme de Animação.
Embora
não tenham sido divulgadas oficialmente as causas médicas da morte de Satrapi,
familiares e pessoas próximas a atribuíram à "tristeza" que ela
sofreu após a perda do marido.
"Marjane
Satrapi morreu de tristeza pouco mais de um ano após a morte de Mattias Ripa,
seu marido e o amor de sua vida", disse a família em comunicado enviado
nesta quinta-feira (5/6) à agência AFP.
Recentemente,
a autora havia publicado uma série de mensagens emocionadas no Instagram em que
escrevia: "Perdi o amor da minha vida."
Ripa
morreu em abril de 2025, aos 53 anos. Na ocasião, Satrapi publicou uma nota no
jornal Le Figaro anunciando o falecimento.
"Marjane
Satrapi anuncia com profunda tristeza o falecimento de Mattias Ripa, o homem e
o amor de sua vida, que nos deixou aos 53 anos após 31 anos de uma vida
maravilhosa juntos", escreveu.
Mas o
luto por alguém amado pode ser tão intenso a ponto de nos levar à morte por
causas naturais?
Um
estudo publicado em 2014 na revista JAMA Internal Medicine descobriu que,
embora raro, o número de pessoas que sofreram infarto ou AVC no mês posterior à
morte de alguém querido era o dobro comparado a um grupo que não estava em
luto.
No
grupo de enlutados, formado por 30.447 pessoas, 50 sofreram alguma das
condições mencionadas, o que representa 0,16%. No grupo sem luto, apenas 0,08%.
Sunil
Shah, um dos autores do estudo e professor da Universidade de Londres, disse à
BBC: "Costumamos usar a expressão 'coração partido' para nos referir à dor
de perder alguém amado. Nosso estudo mostra que o luto pode ter um efeito
direto na saúde do coração."
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Coração atordoado
Algumas
pessoas falam em "síndrome do coração partido", conhecida mais
formalmente como cardiomiopatia induzida por estresse ou cardiomiopatia de
Takotsubo.
"É
uma condição temporária na qual o músculo cardíaco enfraquece de repente ou
fica atordoado. O ventrículo esquerdo, uma das cavidades do coração, muda de
forma", explica a British Heart Foundation, fundação britânica de saúde
cardiovascular.
O nome
científico, cardiomiopatia de Takotsubo, vem da palavra japonesa que designa um
tipo de armadilha de fundo arredondado e gargalo estreito usada para capturar
polvos.
O
estresse súbito faz com que o ventrículo esquerdo do coração, responsável por
bombear o sangue, assuma essa forma.
A
anomalia pode ser desencadeada por um abalo emocional.
"Cerca
de três quartos das pessoas diagnosticadas com cardiomiopatia de Takotsubo
passaram por estresse emocional ou físico significativo antes de adoecer",
diz a fundação. Esse estresse pode estar relacionado ao luto, mas também a
qualquer outro problema.
Há
casos documentados de pessoas que sofreram a condição após serem assustadas em
uma brincadeira por colegas ou em decorrência do estresse de falar diante de um
grande público.
Especula-se
que a liberação repentina de hormônios — em particular a adrenalina — cause o
atordoamento do músculo cardíaco.
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Ataque do coração
Essa
situação é diferente do infarto, em que o coração para devido à interrupção do
fluxo sanguíneo, geralmente por causa de artérias obstruídas.
"A
maior parte dos infartos ocorre devido a bloqueios e coágulos sanguíneos que se
formam nas artérias coronárias, que levam sangue ao coração", explica um
artigo sobre a síndrome do coração partido publicado pela Universidade Johns
Hopkins.
A
maioria dos pacientes com cardiomiopatia "tem artérias coronárias bastante
normais e não apresenta bloqueios graves ou coágulos", diz a instituição
em seu site.
Muitas
pessoas simplesmente se recuperam. O estresse passa e o coração volta à forma
normal.
Mas, em
outros pacientes, como idosos ou pessoas com problemas cardíacos preexistentes,
a mudança no formato do coração pode levar a um desfecho fatal.
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Morrer de amor?
Há
também evidências de maior risco de morte após a internação de um dos membros
do casal, segundo estudo publicado em 2006 no New England Journal of Medicine.
Outros
estudos publicados em 2011 sugerem que as chances de morte do parceiro
sobrevivente aumentam nos seis meses seguintes à morte do companheiro.
Especialistas
apontam que um casamento em que os cônjuges se apoiam mutuamente atua como um
alívio contra o estresse. Os parceiros também cuidam um do outro e incentivam
hábitos saudáveis: lembram-se de tomar os medicamentos, por exemplo, e
verificam se o outro não está bebendo demais.
Cardiomiopatia
de Takotsubo é o nome correto da doença cardíaca que pode ter afetado Satrapi,
mas "coração partido" explica melhor o que aconteceu.
Fonte:
BBC News Mundo

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