Francisco Teixeira: Fetichismo da mercadoria
e dominação
Karl Marx inicia a primeira seção do capítulo
I de O capital com a análise das determinações fundamentais da mercadoria:
valor de uso e valor. Diferentemente deste último – que traz consigo as marcas
de sua determinação histórica –, o valor de uso possui uma existência tão
antiga quanto a própria história. Ele remete ao processo de reprodução da vida
material, na medida em que a utilidade dos objetos se vincula às necessidades
humanas tal como se apresentam nesse processo. No entanto, no capitalismo, o valor
de uso é rebaixado à condição de suporte do valor.
Após examinar a dupla natureza da mercadoria,
Marx passa, na seção 2 do capítulo I do Livro I de O capital, à análise do
duplo caráter do trabalho nela objetivado. Na condição de criador de valores de
uso, o trabalho útil constitui uma condição eterna de existência do homem,
independente de todas as formas sociais. Como produtor de mercadorias, porém, o
trabalho traz consigo os vestígios de sua determinação histórica. No
capitalismo, os trabalhos úteis são convertidos em trabalho abstrato, isto é,
reduzidos a trabalho criador de valor, a puro dispêndio de força de trabalho
humana.
Tal conversão não elimina as diferenças
constitutivas dos trabalhos úteis, isto é, dos trabalhos concretos, específico.
Não se trata de uma forma de generalização puramente conceitual, que nasce de
uma simples soma abstrata de mortos traços comuns em cada tipo distinto de
trabalho. Se assim fosse, não haveria troca de mercadorias; a própria produção
de mercadorias seria impossível.
Por quê? Porque se as mercadorias “[…] não
fossem valores de uso qualitativamente distintos e, por isso, produtos de
trabalhos úteis qualitativamente distintos, essas coisas não poderiam de modo
algum se confrontar como mercadorias”. Afinal, “[…] um valor de uso não se
troca pelo mesmo valor de uso” (Marx, 2017, Livro I, p.119).
Quanto mais diversificados são esses
trabalhos úteis, mais complexa se torna a divisão social do trabalho, que se
configura, assim, como condição de existência da produção de mercadorias.
Embora a divisão social do trabalho seja
condição de existência da produção de mercadorias, ela não depende,
historicamente, desta última. De fato, “onde a necessidade de vestir-se o
obrigou”, observa Marx, “o homem costurou por milênios, e desde muito antes que
houvesse qualquer alfaiate” (O capital, p. 120). A alfaiataria só se transforma
em atividade voltada à produção para a venda quando ocorre a cisão do produto
do trabalho em coisa útil e valor; quando, portanto, a troca adquire alcance e
importância suficientes para que se passem a produzir coisas úteis destinadas
ao intercâmbio e, com isso, “o caráter de valor das coisas [passe] a ser
considerado já no próprio processo de produção” (O capital, p. 148).
A partir de então, os trabalhos privados dos
produtores assumem, de fato, um duplo caráter social. Por um lado, enquanto
trabalhos úteis determinados, devem satisfazer necessidades sociais
específicas, conservando-se, assim, como elos da totalidade dos trabalhos da
sociedade, isto é, do sistema espontâneo da divisão social do trabalho. Por
outro, só satisfazem as necessidades de seus próprios produtores na medida em
que cada trabalho útil particular é permutável por qualquer outro, isto é, na
medida em que equivale aos demais.
Como observa Marx, “como trabalhos úteis
determinados, eles têm de satisfazer uma determinada necessidade social e,
desse modo, conservar a si mesmos como elos do trabalho total, do sistema
natural-espontâneo da divisão social do trabalho. Por outro lado, eles só
satisfazem as múltiplas necessidades de seus próprios produtores na medida em
que cada trabalho privado e útil particular é permutável por qualquer outro
tipo útil de trabalho privado” (p. 148).
Ora, se os diferentes trabalhos já integram a
divisão social do trabalho – sendo, portanto, sociais –, por que seu caráter
social ainda precisa ser reconhecido? Porque, embora sejam trabalhos úteis para
outrem, tal utilidade não basta para realizar plenamente esse caráter. Como
observa Marx, “[…] mesmo que o trabalho do nosso tecelão de linho […] seja um
elo permanente da divisão social do trabalho, com isso não está de modo algum
garantida a venda do valor de uso de suas 20 braças de linho” (p. 180). Ou seja,
a validação social desse trabalho ainda não está assegurada.
Por isso, os produtores de mercadorias
tornam-se reféns dos humores do mercado. Com efeito, se o trabalho do tecelão
não é socialmente legitimado por meio da troca, suas expectativas de venda se
frustram. O tecelão, que investiu tempo e dinheiro na produção de tecidos,
produziu valores de uso na convicção de ter realizado um bom trabalho; viu,
contudo, suas expectativas se desfazerem: criou um valor de uso sem realizar o
valor – isto é, sem ver seu trabalho reconhecido como trabalho social.
Se, em sua oficina, o tecelão se julga senhor
das condições de produção – pois conhece com segurança os custos e estima a
margem de ganho –, essa confiança pode se desfazer tão logo chegue ao mercado,
onde a transformação de sua mercadoria em dinheiro pode não se realizar.
Realmente, é nesse momento que tal incerteza
se impõe: ao chegar ao mercado, o tecelão, antes cheio de convicções, depara-se
com a ausência de garantias quanto à realização de suas expectativas. Nem
poderia ser diferente, pois “[…] a divisão social do trabalho torna seu
trabalho tão unilateral quanto multilaterais suas necessidades”. Ele é apenas
um entre muitos concorrentes que disputam entre si “[…] a forma equivalente
universal, socialmente válida, existente no dinheiro […]”, que se encontra “[…]
no bolso de outrem” (p. 180).
É nesse contexto que, no mercado, a
mercadoria tem de confessar seu amor ao dinheiro. Se esse amor não for
correspondido, o pobre tecelão é quem sofrerá as consequências desse divórcio.
É isso que Marx chama de “[…] salto mortale [salto mortal] da mercadoria. Se
esse salto dá errado, não é a mercadoria que se esborracha, mas seu possuidor”
(O capital, p. 180).
A mercadoria parece destinada a realizar-se
no dinheiro. Mas, por mais que o ame, nada garante que seu amor seja
reconhecido. Isso ocorre porque a mesma divisão do trabalho que transforma os
possuidores de mercadorias em “produtores privados independentes também torna
independente deles o processo social de produção e as relações que nele se
estabelecem, de modo que a independência das pessoas umas em relação às outras
se consuma num sistema de dependência material (sachlich) universal” (p. 182).
É justamente essa inversão que retira dos
indivíduos a condição de sujeitos. Por isso, para Marx, nas sociedades
capitalistas, as pessoas não passam de personificações das relações econômicas,
e que elas “se defrontam umas com as outras como suporte [Träger] dessas
relações (p. 160).
<><> Fetichismo da mercadoria e
sua dominação impessoal
Essa inversão prepara o terreno para a
análise do fetichismo da mercadoria e de sua dominação impessoal. Marx abre a
seção 4 do capítulo I do Livro I de O capital convidando o leitor a se refugiar
com ele no mundo nebuloso da religião. Nesse mundo, diz ele, os produtos do
cérebro humano aparecem como figuras autônomas, dotadas de vida própria e
capazes de se relacionar entre si e com os homens.
Assim também ocorre no mundo das mercadorias:
os produtos do trabalho humano apresentam-se como coisas dotadas de vida e
vontade próprias. As mercadorias parecem, então, subtrair dos homens suas
próprias qualidades naturais, passando a dominá-los sob a forma de um poder
impessoal. “A isso”, diz Marx, “eu chamo de fetichismo, que se cola aos
produtos do trabalho tão logo eles são produzidos como mercadorias e que, por
isso, é inseparável da produção de mercadorias (p. 147-48).
Marx inicia sua análise do fetichismo
examinando o caráter sobrenatural que os produtos do trabalho humano adquirem
ao se transformarem em mercadorias. Toma como exemplo o que ocorre com uma
mesa. Ela, como qualquer outro produto da atividade humana, vem ao mundo por
intermédio do trabalho, cuja atividade transforma as formas das matérias
naturais a fim de adequá-las às necessidades humanas. A forma da madeira, por
exemplo, é alterada quando dela se faz uma mesa; ainda assim, ela continua
sendo madeira, uma coisa sensível e banal.
No entanto, “tão logo aparece como
mercadoria”, diz o autor de O capital, “ela se transforma numa coisa
sensível-suprassensível. Ela não só se mantém com os pés no chão, mas põe-se de
cabeça para baixo diante de todas as outras mercadorias, e, em sua cabeça de
madeira, nascem minhocas que nos assombram muito mais do que se ela começasse a
dançar por vontade própria (p. 146).
Mas de onde provém esse caráter enigmático,
que transforma os produtos do trabalho humano em coisas dotadas de vontade
própria? A resposta de Marx é que essa característica decorre da natureza
social peculiar do trabalho que produz mercadorias. Isso porque, nas sociedades
capitalistas, as relações sociais entre os produtores não se apresentam
diretamente como relações entre pessoas, mas assumem a forma de relações entre
coisas. Desse modo, o caráter social do trabalho aparece como uma propriedade
objetiva dos próprios produtos, como se lhes fosse inerente, quando, na
verdade, não passa de uma forma social historicamente determinada que se impõe
aos produtores.
Tal peculiaridade já foi anteriormente
analisada. Ela nasce do fato de que a mesma divisão do trabalho que transforma
os agentes econômicos em produtores privados independentes “também torna
independente deles o processo social de produção”. Isso ocorre porque, nas
relações de troca, as grandezas de valor “variam constantemente,
independentemente da vontade, da previsão e da ação daqueles que realizam a
troca.
Seu próprio movimento social possui, para
eles, a forma de um movimento de coisas, sob cujo controle se encontram, em vez
de eles as controlarem”. Isso se deve ao fato de que o tempo de trabalho
socialmente necessário impõe-se “com a força de uma lei natural reguladora,
assim como a lei da gravidade se impõe quando, por exemplo, uma casa desaba
sobre a cabeça de alguém” (p. 150).
A razão de tudo isso, recorde-se, decorre do
caráter peculiar do trabalho produtor de mercadorias, que se caracteriza por
uma dupla forma de socialização: embora cada trabalho particular figure como
elo da divisão social do trabalho, ele não é, por isso, imediatamente
reconhecido como social. Essa validação só se efetiva na troca, momento em que
os produtos do trabalho são postos como valores e se igualam enquanto tais.
Noutros termos, o trabalho apresenta-se, assim, sob uma dupla determinação
social: como parte da divisão social do trabalho e como trabalho socialmente
validado por meio da igualação de seus produtos.
Essa igualação dos diferentes trabalhos,
mediada pela igualação de seus produtos, é o que Marx chama de trabalho
abstrato. Ele considera essa forma de trabalho uma categoria central para
explicar por que o capitalismo é marcado por uma inversão fundamental: os
indivíduos renunciam à sua condição de sujeitos para se tornarem suportes de
relações que não dominam. Isso se manifesta no fato de que o trabalho abstrato
tem primazia sobre os trabalhos concretos e úteis. Com efeito, no capitalismo,
não é a multiplicidade dos trabalhos individuais que vem primeiro, do ponto de
vista do valor; não é a diversidade concreta que organiza o sistema, mas a
unidade – o trabalho abstrato – que domina e estrutura essa diversidade. É por
isso que os trabalhos concretos só “valem” socialmente quando são reduzidos a
trabalho abstrato, isto é, a trabalho indiferenciado, simples e homogêneo, que
se distingue apenas quantitativamente.
O trabalho abstrato se caracteriza, portanto,
como uma unidade constituída por inúmeras forças de trabalho individuais. Por
isso, o trabalho abstrato, como observa Marx, “aparece não como trabalho de
diferentes sujeitos, mas, ao contrário, os indivíduos diversos que trabalham
aparecem como meros órgãos do trabalho. Ou seja, o trabalho, tal como se
apresenta em valores de troca, poderia expressar-se como trabalho humano geral”
(p. 33).
O senso comum vê tudo isso de ponta-cabeça.
Percebe, em primeiro lugar, a existência de diferentes indivíduos produzindo
bens para levá-los ao mercado e trocá-los por outros. O processo parece, assim,
partir da ação dos indivíduos, de suas atividades concretas. Contudo, as coisas
não são como aparecem à primeira vista. Na realidade, a dinâmica é inversa: é o
trabalho abstrato que organiza os diferentes trabalhos. Estes não contam pelo
que são em si mesmos, mas pelo fato de serem reconhecidos como produtores de
valor, como trabalhos convertíveis em trabalho abstrato.
Não são, portanto, os indivíduos que
determinam o curso dos acontecimentos. Nem poderiam, pois suas atividades estão
subordinadas à lógica do valor, isto é, à lógica do trabalho abstrato. Tal
subordinação, porém, não se apresenta como tal. Ao contrário, impõe-se aos
indivíduos como uma força externa e objetiva, independentemente de sua vontade
e de sua consciência. É precisamente nesse deslocamento – em que relações
sociais aparecem como propriedades das coisas e como potências que dominam os
próprios produtores – que reside o fenômeno do fetichismo da mercadoria, tal
como analisado por Marx.
É essa dupla natureza do trabalho contido nas
mercadorias que caracteriza a sociedade capitalista como uma forma social
específica. Em épocas anteriores, os produtos do trabalho também podiam assumir
a forma de mercadorias; contudo, essa transformação não era inerente ao
processo de produção, mas decorria da esfera da circulação. É o que observa
Marx ao afirmar que é pela ação do capital comercial que o produto do trabalho
se torna mercadoria. “É o comércio”, diz ele, “que, nesse caso, possibilita que
o produto se transfigure em mercadoria; não é a mercadoria produzida que, por
seu movimento, faz surgir o comércio” (Marx, Livro III, p. 372).
Somente quando se completa definitivamente a
cisão do produto do trabalho em coisa útil e coisa de valor é que a mercadoria
se torna a forma dominante e elementar da riqueza. Mas isso só ocorre no
capitalismo, pois é nessa forma de sociedade que o trabalho assume, de modo
generalizado, a forma de trabalho produtor de valor. Por isso, a mercadoria
deixa de ser uma forma ocasional ou periférica e passa a constituir a forma
universal do produto do trabalho, que é produzido, desde o início, já como
mercadoria. James Steuart tinha consciência disso.
De acordo com Marx, ele “sabia muito bem que
nas épocas pré-burguesas também o produto havia revestido a forma de
mercadoria, e, esta, a forma de dinheiro; mas demonstra detalhadamente que a
mercadoria, como forma fundamental elementar da riqueza, e a alienação, como
forma predominante de apropriação, não pertencem senão ao período burguês de
produção burguesa, e que o caráter do trabalho que põe o valor de troca é, por
conseguinte, especificamente burguês” (Marx, 1982, p. 51).
<><> Valor – forma social
específica do capitalismo
Nos seus comentários sobre James Steuart,
Marx observa que o trabalho abstrato é uma criação histórica do capitalismo.
Logo, tratar do valor e, consequentemente, do fetichismo fora da sociedade
capitalista é, no mínimo, problemático. Com efeito, falar do caráter enigmático
da mercadoria em uma realidade na qual o trabalho abstrato está ausente não
parece fazer sentido.
Quanto a isso, Marx parece bastante claro ao
afirmar que “todo o misticismo do mundo das mercadorias, toda a mágica e a
assombração que anuviam os produtos do trabalho na base da produção de
mercadorias desaparecem imediatamente, tão logo nos refugiemos em outras formas
de produção (Marx, p, 151).
O primeiro refúgio em que Marx se abriga para
mostrar que não há valor nem fetichismo é na ilha do Robinson Crusoé. Aí ele
mostra, apesar de seu caráter fictício, que nas atividades de sobrevivência
desenvolvidas por Robinson Crusoé estão presentes todas as determinações do
valor. Como bom inglês que é, isto é, como homo oeconomicus ‘racional’, ele
“distribui seu tempo com exatidão entre as suas diferentes funções”. Robinson
que, entre os destroços do navio salvou relógio, livro comercial, tinta e pena,
põe-se logo […], a fazer a contabilidade de si mesmo. Distribuído o trabalho
entre as diversas ocupações, ele passa a contabilizar o tempo que custa a cada
uma das ocupações. Gasto de energia, distribuição do tempo de trabalho e
mensuração do tempo, estão aí ´presentes. Ou, como diz Marx, aí “estão contidas
todas as determinações do valor” (p. 152).
Mas aí não estão presentes nem o valor nem
tampouco o caráter enigmático da mercadoria. As relações na ilha de Robinson
Crusoé são transparentes, nelas não existe nada de enigmático, intransparente.
Numa palavra, não existe trabalho criador de valor.
Da ilha de Robinson Crusoé, Marx passa para
“a sombria Idade Média europeia” e, em seguida, para o exemplo de uma família
patriarcal camponesa. Por fim, apresenta “uma associação de homens livres, que
trabalham com meios de produção coletivos e que conscientemente despendem suas
forças de trabalho individuais como uma única força social de trabalho” (p.
153). Nessa forma de sociedade, assim como ocorre com Robinson Crusoé, na Idade
Média e na família patriarcal camponesa, “as relações sociais dos homens com
seus trabalhos e seus produtos de trabalho permanecem aqui transparentemente
simples, tanto na produção quanto na distribuição” (p. 153).
Marx lança mão desses exemplos para mostrar
que, nessas formas de organização da produção, as relações dos homens com seu
trabalho se apresentam como relações transparentes e racionais que eles
estabelecem entre si e com a natureza. Consequentemente, não há trabalho
abstrato nem valor; nessas formas de organização da produção, diferentemente do
que ocorre na produção mercantil, a forma natural do trabalho é sua forma
imediatamente social.
Ora, sem trabalho abstrato, não faz sentido
falar em fetichismo. Este só existe, como foi mostrado, num mundo em que o
trabalho abstrato se impõe aos indivíduos como um poder autônomo, compelindo-os
a abdicar de sua condição de sujeitos para se tornarem suportes de relações que
não dominam.
Sendo assim, não faz sentido falar em
fetichismo fora do capitalismo, tampouco em coisificação, já que esta consiste
na forma pela qual as relações sociais entre pessoas aparecem como propriedades
de coisas. Embora não sejam conceitos idênticos, fetichismo e coisificação
designam momentos do mesmo processo social: o fetichismo constitui a expressão
fenomenal da coisificação das relações sociais.
Sendo assim, não faz sentido, portanto, falar
do fetichismo fora o capitalismo. Tampouco também de coisificação, uma vez que
esta é a forma em que relações sociais entre pessoas aparecem como propriedades
das coisas.
Se se pode falar de fetichismo e coisificação
nas sociedades pré-capitalistas, esses fenômenos têm existência limitada, não
sendo determinantes nem possuindo alcance universal como nas sociedades
capitalistas. Eles se apresentam apenas de forma parcial, pois, como diz Marx,
“povos propriamente comerciantes existem apenas nos intermúndios do mundo
antigo, como os deuses de Epicuro, ou nos poros da sociedade polonesa, como os
judeus”. Mesmo aí, o fetichismo e a coisificação não transformam os indivíduos
em meros suportes das relações de produção. Naqueles intermúndios de que fala
Marx, as relações sociais de produção são “extraordinariamente mais simples e
transparentes do que o organismo burguês”, mas “baseiam-se ou na imaturidade do
homem individual, que ainda não rompeu o cordão umbilical que o prende a outrem
por um vínculo natural de gênero [Gattungszusammenhang], ou em relações diretas
de dominação e servidão” (p. 154).
Fonte: A Terra é Redonda

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