segunda-feira, 8 de junho de 2026

O mito racista do ariano propagado pelo nazismo

Adolf Hitler não tinha cabelos loiros nem era particularmente alto, assim como muitos outros alemães. A imagem ideal do "ariano" de origem nórdica propagada pelo nazismo era mais exceção do que regra.

O que importava era a origem: a partir de 1935, todos os "cidadãos do Reich" tinham de comprovar, por meio de um "atestado de arianidade", retrocedendo pelo menos três gerações, que não corria em suas veias sangue judeu nem "cigano".

Funcionários públicos, médicos ou advogados já tiveram de apresentar essa comprovação dois anos antes. Muitas vezes isso exigia uma pesquisa demorada até as pessoas poderem submeter o resultado para verificação ao Escritório do Reich para Pesquisa Genealógica.

Os nazistas declararam o povo alemão a "raça superior de senhores". Os judeus eram, para eles, uma raça "inferior" e foram inicialmente sistematicamente excluídos e depois assassinados.

Filmes de propaganda afirmavam que os judeus queriam destruir a ordem mundial e tirar a posição de domínio e liderança da "raça de senhores". Em caricaturas, especialmente no jornal nazista Der Stürmer, eles eram retratados de forma grotesca, com grandes narizes aduncos e expressões faciais gananciosas.

Mas havia também povos aos quais os nazistas atribuíam características "arianas", como os escandinavos e outros do norte da Europa. Quando encontravam crianças loiras e de olhos azuis na Letônia, na Polônia ou em outro país ocupado, não tinham escrúpulos em arrancá-las das mães e "germanizá-las" nos chamados lares Lebensborn no Reich ou nos territórios ocupados. Depois elas eram entregues para a adoção por famílias alemãs leais ao partido.

Os lares Lebensborn foi uma ideia do comandante da SS, Heinrich Himmler, que queria promover a multiplicação de uma população considerada "racialmente valiosa".

A palavra ariano também foi a base da "arianização", como foi chamado o confisco e transferência de negócios judeus e de propriedades judaicas para não judeus.

<><> A verdadeira origem dos arianos

Embora o termo ariano fosse amplamente usado, os pesquisadores raciais do regime nazista pouco usavam essa denominação e falavam, em vez disso, de "sangue alemão ou aparentado". Eles sabiam que a palavra originalmente se referia a semelhanças linguísticas e não a características físicas hereditárias.

Achados arqueológicos mostram que o termo ariano existe há mais de dois milênios. O governante persa Dario 1º mandou esculpir, cerca de 500 anos antes de Cristo, um túmulo rupestre na necrópole de Naqsh-e Rostam, no Irã. A inscrição diz "eu sou Dario, o grande rei… um persa, filho de um persa, um ariano, de ascendência ariana". O termo também aparece em textos sagrados da Índia, escrito em sânscrito.

Originalmente, arya – que significa algo como "nobre" ou "honrado" – era uma autodenominação de povos da Índia e do Irã. Eles descendiam de nômades que haviam migrado das regiões da atual Ucrânia, do Cazaquistão e do sul da Rússia.

Mais tarde, cientistas definiram como arianos os pertencentes a uma mesma família linguística indo-europeia, ao reconhecerem as semelhanças entre a maioria das línguas europeias e o sânscrito e o persa.

<><> Reinterpretação racista

Foi apenas em meados do século 19 que o termo ariano passou a ser interpretado equivocadamente de maneira racista. O escritor e diplomata francês Joseph Arthur de Gobineau dividiu a humanidade, em sua obra em quatro volumes Ensaio sobre a desigualdade das raças humanas (escrita entre 1853 e 1855), em uma raça branca, uma amarela e uma negra.

Sua conclusão: a raça branca ariana original seria superior às outras, destacar-se-ia por sua "inteligência imensamente superior" e seria predestinada a dominar as demais. Ao mesmo tempo ele alertava contra a miscigenação, pois isso colocaria em risco a qualidade da raça ariana original e, portanto, da humanidade como um todo.

A teoria de Gobineau encontrou grande aceitação entre seus contemporâneos. Muitos cientistas e estudiosos a utilizaram como base para escrever seus próprios tratados sobre o tema. Um deles foi o autor inglês Houston Stewart Chamberlain (mais tarde genro do compositor alemão Richard Wagner). Em 1899, o britânico publicou o livro Os fundamentos do século 19, no qual elevou as suposições raciais de Gobineau a um novo nível.

Chamberlain glorificava a raça alemã "germânica". Como ele tinha plena consciência de que nem todos os alemães correspondiam ao ideal físico ariano de Gobineau, recorreu a valores que, segundo ele, eram determinados pelo sangue: honestidade, lealdade e diligência seriam características comuns dos alemães.

A "raça judaica", à qual atribuía falta de criatividade e idealismo, além de uma orientação puramente materialista, era vista por ele como uma ameaça aos "arianos germânicos". Embora Chamberlain reconhecesse em alguns judeus certa nobreza de caráter, destacava sua "incapacidade e inferioridade" diante da "raça ariana".

A obra de Chamberlain foi bem recebida pelos alemães; entre seus admiradores estava também o imperador Guilherme 2º, que o convidou repetidas vezes para visitar a corte.

<><> Chamberlain e Hitler, irmãos de espírito

Em 1917, Chamberlain ingressou no Partido da Pátria Alemã, de extrema direita, com orientação nacionalista e antissemita. Em 30 de setembro de 1923, Hitler foi visitá-lo e aparentemente deixou uma forte impressão. Poucos dias após o encontro, Chamberlain escreveu ao futuro ditador: "Que a Alemanha, na hora da necessidade, dê à luz um Hitler, isso prova que ela está viva".

Hitler, por sua vez, considerava Chamberlain um dos "evangelistas" de sua visão de mundo; em seu livro Minha luta, ele se refere repetidamente a Chamberlain e, como ele, exalta a superioridade da "raça ariana".

Uma classificação biológica das pessoas em raças não tem fundamentação científica – já está comprovado há muito tempo que, do ponto de vista biológico e científico, não existem raças humanas. O termo é uma construção social. Os nazistas abusaram do conceito de ariano para justificar sua ideologia desumana, e racistas em todo o mundo ainda o utilizam nos dias de hoje.

•        1939: Programa nazista de extermínio de judeus e não arianos

Depois que a burocracia alemã do Terceiro Reich executou as medidas de desapropriação e concentração dos judeus, o regime nazista chegou a um ponto crítico. Qualquer passo adiante significaria o fim a existência do judaísmo na Europa ocupada. No jargão nazista, a superação desse limite era descrito como a "solução final da questão dos judeus".

Na verdade, a expressão "solução final" era um eufemismo para a palavra "morte". O objetivo era matar todos os judeus e pessoas "não arianas", que aos olhos dos algozes nazistas eram "indignos de viver".

Em 1º de setembro de 1939, Adolf Hitler assinou um decreto autorizando os médicos e psiquiatras a concederem o que chamavam de "morte de misericórdia" a doentes incuráveis, deficientes mentais e físicos. Esse programa de "eutanásia" atingia todos os cidadãos judeus na Alemanha.

Uma das testemunhas dessa máquina mortífera, o tenente Peter von der Osten, lembra que "não se ouviam nem gritos nem tiros. Eles (os judeus) eram impelidos para a morte pelos alemães, mas sem gritos. Pode-se dizer que pairava no ar um silêncio de morte, algo muito deprimente".

<><> Óculos, único auxílio permitido

A partir da tomada do poder pelos nazistas, os judeus passaram a ter uma existência fantasma na Alemanha. Diariamente, eram decretadas novas proibições e manobras maliciosas. O sobrevivente berlinense Hans-Oskar Löwenstein lembra que os nazistas confiscaram quase todos os pertences dos judeus: telefones, rádios, toca-discos, máquinas fotográficas.

"O único equipamento que se podia usar eram óculos. A água quente foi bloqueada e o acesso aos elevadores e às sacadas de frente para o passeio público. Nas cozinhas, os fogões a gás e elétricos foram lacrados. À disposição dos judeus residentes no seu edifício ficaram apenas dois fogões a gás e dois fervedores elétricos. Era, portanto, uma situação terrível. Peixes de aquário, flores, plantas ornamentais, tudo era proibido para os judeus.

<><> Câmaras de gás

O "programa da eutanásia" abrangeu três operações: matança de cinco mil portadores da síndrome de Down e crianças deficientes físicas em orfanatos; fuzilamento ou morte nas câmaras de gás de 70 mil adultos, entre eles deficientes físicos e mentais; ampliação da máquina de extermínio, inicialmente planejada somente para a Alemanha, aos territórios ocupados da Polônia.

A sobrevivente Rozele Goldstein não consegue esquecer os horrores do Holocausto: "Eu realmente não tinha esperanças de sobreviver. Quando estava uns cinco minutos deitada na vala, pensei que a morte ainda viria. Só notei que ainda estava viva quando ouvi os assassinos indo embora cantando, bêbados".

<><> Extermínio geral

O policial Jouzaz Maleksames defendeu-se da acusação de haver participado do extermínio de judeus na Letônia. "Não nos preocupamos com os judeus; isso não nos interessava. Não ouvimos nada a respeito do fuzilamento de judeus, ciganos ou civis", diz.

Os carrascos nazistas, porém, eram solícitos quando recebiam ordens de seus superiores, não importando se as vítimas eram crianças, mulheres ou homens recolhidos em hospitais ou clínicas psiquiátricas ou se, além disso, eram judeus, ciganos, homossexuais ou simplesmente "não arianos". Segundo o soldado Reinhold Emmer, "era impossível opor-se às ordens superiores".

<><> Deportações

As deportações corriam a todo vapor desde o início da guerra. Inicialmente para Buchenwald, mais tarde também para Auschwitz, Treblinka e Sobibor, onde as câmaras de gás funcionavam sem cessar.

Já na rampa de desembarque, os médicos nazistas examinavam os deportados que chegavam nos trens superlotados. Idosos, crianças, doentes e pessoas frágeis eram mandados diretamente para as câmaras de gás ou comandos de fuzilamento.

Quem conseguira suportar o esgotamento físico da viagem era submetido a trabalhos forçados. Anãos, gêmeos e deficientes físicos que chamassem a atenção do médicos eram selecionados para experiências genéticas e morriam em consequência da brutalidade dos testes de laboratório.

 

Fonte: DW Brasil

 

Nenhum comentário: