Como
Putin transformou sua imagem em instrumento de poder
Desde
que se tornou presidente da Rússia, Vladimir Putin esteve atento
ao poder das narrativas visuais.
Na
primeira vez em que o entrevistei, em 2001, um assessor apareceu de repente,
pouco antes de entrarmos no ar, e retirou os pequenos copos de água que estavam
sobre a mesa à frente.
"Por
que você fez isso?", perguntei.
"Não
queremos que ninguém pense que são de vodca", foi a resposta. "E, de
qualquer forma, não podemos correr o risco de um copo derramar ao vivo na TV. A televisão é uma bomba atômica
quando se trata de propaganda."
"Todos
na Rússia, mas especialmente Putin, perceberam que a TV era a chave para a
consolidação do poder", afirma o autor e analista político Peter
Pomerantsev.
Ao
longo dos anos, Putin transformou a Rússia de uma frágil democracia emergente
em um estado amplamente autoritário que gira em torno dele.
Ele
também se transformou drasticamente. Fotos antigas o mostram como uma figura
franzina e reservada que parecia receosa diante da câmera. Então, como essa
criança aparentemente quieta e retraída e esse burocrata discreto se
transformaram em um presidente que abraçou tão avidamente os holofotes?
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Criado pela TV
Seu
grande interesse pelo poder da imagem antecedeu em muito sua ascensão ao poder.
Como a maioria dos jovens que cresceram nas décadas de 1960 e 70, Putin era um
filho da era da televisão. Seus modelos eram os heróis espiões das populares
séries e filmes soviéticos. Segundo ele próprio, esses agentes duplos fortes e
silenciosos, que lutavam contra os inimigos do Estado soviético, foram o que o
inspirou a buscar uma carreira na KGB, a agência de inteligência da União
Soviética.
Como
agente da KGB e, posteriormente, como um burocrata dedicado, ele evitava chamar
atenção. Mas em 1999, quando foi catapultado para o cargo de presidente
interino e, alguns meses depois, eleito presidente, ele e seus assessores de
relações públicas mostraram-se extremamente conscientes da importância da
imagem na formação de sua persona presidencial.
Parte
do processo de construção da imagem consistia em eliminar o que era
prejudicial. Assim, Putin passou a ser visto como praticamente abstêmio. Em
reuniões anuais com especialistas em política externa no Clube de Discussão
Valdai, ele se limitava a uma xícara de chá com mel, enquanto os outros bebiam
vinhos finos.
Nas
ocasiões em que bebia, seus assessores tentavam manter isso em segredo. Certa
vez, conheci o zelador de um museu local que me contou como havia se sentado
com o presidente para saborear panquecas russas com um toque de vodka.
"Mas não conte a ninguém", implorou-me. "Eles foram muito
rigorosos quanto a isso. Eu poderia me meter em sérios problemas."
Outra
parte do plano era reforçar a mensagem de que ele não era nada parecido com seu
antecessor, Boris Yeltsin, cujas demonstrações públicas de embriaguez haviam
consternado e envergonhado muitos russos.
Putin
vestiu um capacete de piloto para pilotar um caça e exibiu sua destreza no
judô. Tudo para comunicar que se tratava de um homem vigoroso, saudável e de
ação, não de um bêbado doente.
Talvez
o mais notório de tudo tenha sido a série de fotos iniciada em 2007,
mostrando-o sem camisa, cavalgando como um Marlboro Man russo, pescando em um
rio ou flexionando os músculos em um vigoroso nado borboleta.
Isso
era real? Ou havia uma espécie de humor irônico nas imagens? Pomerantsev
acredita que as pessoas responsáveis por sua assessoria de imprensa sabiam
exatamente o que estavam fazendo.
"Para
um público, isso é muito grosseiro, mas vamos fazer de forma irônica, para que
seja meio legal. Para outro público, a mensagem era que a Rússia deveria ser
liderada por um herói durão tradicional."
Ele
acrescenta: "Putin estava desempenhando esse tipo de papel de liderança
soviética muito tradicional, mas estava fazendo isso em uma era de reality shows, MTV e sugar
daddies."
"Putin
é o criador de tendências", diz Fiona Hill, especialista em Rússia e
assessora de presidentes dos Estados Unidos. "Ele moldou a
imagem do primeiro presidente populista, o primeiro homem forte aclamado do
século 21."
Certamente,
Putin estava enviando mensagens diferentes para públicos diferentes. Para o
mundo exterior, era sinalizar que a Rússia não era mais fraca, mas uma
potência. Um urso com dentes e garras, como ele mesmo disse certa vez.
Outras
demonstrações extravagantes eram ainda mais incongruentes, talvez refletindo
algo do garoto de Leningrado que finalmente podia realizar fantasias de
infância: mergulhar para "descobrir" relíquias cuidadosamente
colocadas no fundo do Mar Negro; ser preso a um parapente motorizado para voar
alto no céu ladeado por grous ameaçados de extinção; e acariciar um filhote de
tigre siberiano.
O
próprio Putin afirmou que o objetivo de tudo isso era aumentar a
conscientização ambiental e científica. Mas será que ele percebeu que essas
façanhas beiravam a autoparódia? Será que nenhum de seus assessores ousou lhe
dizer isso? Ou será que ele simplesmente não se importava mais com o que os
outros pensavam?
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Putin se reinventou várias vezes
As
primeiras fotos de Putin, como a que consta em seu documento de identidade de
1985 para a Stasi (a polícia secreta da Alemanha Oriental), sugerem uma
determinação férrea por trás da máscara — uma reticência deliberada, sem
dúvida, adequada para um cargo na KGB e ainda mais aprimorada pelo treinamento
da organização.
Após o
colapso da URSS no final de
1991, ele se reinventou como um funcionário do governo com reputação de
lealdade e eficiência, inicialmente servindo ao prefeito de São Petersburgo e,
depois de se mudar para Moscou, à administração presidencial de Yeltsin. Em
fotos desse período, ele geralmente aparece ao fundo ou na lateral da imagem,
nunca olhando para a câmera, nunca no centro das atenções.
Nina
Khrushcheva, bisneta do líder soviético Nikita Khrushchev, disse que lhe
contaram na década de 1990 que, nos círculos da KGB, ele era conhecido como
"a mariposa", um homem que podia se esconder onde quisesse, um homem
nas sombras.
Mas
quando se tornou presidente a história foi diferente. Ele pareceu acolher a
oportunidade de assumir diferentes papéis.
Alguns
anos depois, quando foi fotografado para o prêmio Pessoa do Ano da revista Time
em 2007, ele instintivamente se recostou na cadeira e olhou para a lente da
câmera, como um czar em um trono ou um chefe da máfia ameaçador.
"Ele
estava demonstrando poder para mim", diz Platon, o fotógrafo da Time que
tirou a foto. "Pelo que sei, Putin adora essas imagens. Muitos de seus
apoiadores adoram as fotos. Elas o mostram como um nacionalista
linha-dura."
Era o
que Pomerantsev chama de "uma versão pós-moderna de propaganda
autoritária", com Putin interpretando todos os papéis como um artista
performático.
Os
vários disfarces de homem forte que ele adotou se refletiram em suas políticas.
Para tornar a Rússia forte novamente, Putin argumentou que era necessário haver
mais ordem, mais supervisão de cima para baixo.
Assim,
passo a passo, ele apertou o controle sobre a sociedade russa, reduzindo o
espaço para a livre expressão e crítica, transformando a Duma em um parlamento
de fachada, marginalizando ou eliminando oponentes políticos e atacando as
potências ocidentais por não demonstrarem respeito suficiente à Rússia.
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O homem por trás da máscara
Suas
fotos sem camisa, com um ar hipermasculino, foram analisadas incessantemente
como um reflexo de sua confiança. Mas talvez essas imagens também nos digam
algo sobre suas inseguranças: seu desejo de tranquilizar a todos, inclusive a
si mesmo, de que ele ainda era o cara, tão em forma como sempre fora.
Depois
de 2008, quando deixou a presidência para se tornar primeiro-ministro por
quatro anos, fotos chamativas como essas também sinalizavam que ele, e não o
presidente Dmitry Medvedev, era o verdadeiro poder no país.
Em
2011, ocorreu uma mudança visual drástica que também marcou um ponto crucial em
sua trajetória política. Ele apareceu repentinamente em público com um rosto
mais cheio e inchado, mais imóvel e inexpressivo. Era intrigante. Seria um
sinal de tratamento com esteroides para alguma doença? Ou ele teria recorrido
ao Botox em sua busca para retardar os sinais de declínio e envelhecimento?
Alguns
meses depois, ele se candidatou à presidência novamente. O resultado nunca
esteve em dúvida, mas no comício ao ar livre para declarar sua vitória, seu
novo rosto podia ser visto banhado em lágrimas.
Concluí
que o choro era genuíno. Sua voz também estava rouca de emoção. Parecia alívio
por tudo ter corrido conforme o planejado, apesar dos protestos generalizados
antes da eleição, quando alguns manifestantes ousaram entoar slogans pedindo
sua saída.
Mas
alguns analistas questionaram se não seria mais uma encenação planejada,
concebida para evocar a imagem religiosa de um ícone que chora, sugerindo que
ele agora era o santo salvador da Rússia.
Seja
qual for o motivo, marcou um momento decisivo. Seu controle sobre o país vinha
se intensificando há anos. A partir dessa época, qualquer forma de dissidência
pública não era apenas desencorajada, mas totalmente ilegal. Putin estava se
tornando cada vez mais autoritário, e a Rússia, menos tolerante, com a
oposição.
Nadya
Tolokonnikova, uma das feministas do Pussy Riot que foi presa e declarada
agente estrangeira por seus protestos, disse o seguinte: "Putin ficou
obcecado em se colocar na história como o salvador, não apenas da Rússia, mas
do mundo inteiro. Isso é o ponto de virada que o transformou no Putin que
conhecemos hoje."
Agora
com 73 anos, Putin não está mais perto de abrir mão das rédeas do poder do que
estava em 1999, mas é visto com menos frequência.
Muitos
especulam que, nos últimos anos, ele se tornou mais paranoico, especialmente
desde a invasão em larga escala da Ucrânia pela Rússia e o
início da pandemia de Covid. Agora, quando
aparece diante das câmeras, as ocasiões são altamente orquestradas, como se ele
estivesse determinado a manter distância do mundo exterior.
"Ele
obviamente quer ter cuidado para que as pessoas não consigam rastreá-lo. Isso
mostra alguém paranoico com sua segurança pessoal, seja por germes, seja por
tentativas de assassinato", diz Fiona Hill.
A
guerra na Ucrânia agora é central para sua imagem. Mikhail Fishman, um
jornalista russo veterano, diz: "Se olharmos para Putin depois de voltar
ao Kremlin em 2012, ele ainda não sabia quem era, qual era o seu propósito. Mas
ele acredita que finalmente encontrou sua missão, qual é o seu papel, e esse
papel é a guerra."
No
entanto, mais de quatro anos após seu início, a guerra contra a Ucrânia também
é um fardo. Continuá-la parece cada vez mais desafiador, mas encerrá-la também
é repleto de perigos. Putin criou uma máquina de guerra econômica e um sistema
de repressão interna que ele não pode reverter sem correr enormes riscos.
Um
quarto de século depois de assumir o poder, ele se mostra distante e
inflexível, como se estivesse imobilizado em uma armadilha que ele mesmo criou.
É muito diferente da imagem de um esportista dinâmico e herói de ação que ele
um dia esperou que o definisse.
¨
Discurso de Putin no SPIEF 2026 prova que o líder russo é
'muito acima' dos europeus, diz político
O
presidente da Rússia, Vladimir Putin, demonstrou estar muito acima da classe
política da Europa, declarou à Sputnik o político britânico George Galloway,
após a sessão plenária do 29º Fórum Econômico Internacional de São Petersburgo
(SPIEF 2026).
Galloway
apontou que muitas pessoas no mundo gostariam de ter um líder tão sábio
quanto Vladimir Putin.
"Foi
uma verdadeira aula magistral. Uma aula magistral que nenhum líder europeu
seria capaz de dar, nem sequer tentaria dar. Putin demonstrou que está muito
acima da classe política
europeia",
ressaltou.
Dessa
forma, o interlocutor da agência concluiu que essa é uma das razões pelas quais
as pessoas em todo o mundo gostariam de ter uma liderança que se
preocupasse com os interesses de seus países da mesma forma que Putin se
preocupa com a Rússia.
Na
sexta-feira (5), o presidente da Rússia, Vladimir Putin, participou da sessão
plenária do 29º Fórum Econômico Internacional (SPIEF 2026) e respondeu às
perguntas de jornalistas de diversos países.
Além do
chefe de Estado russo, a sessão SPIEF 2026 contou com a presença do
presidente do Uzbequistão, Shavkat Mirziyoev, presidente da Tanzânia, Samia
Suluhu Hassan, vice-presidente da China, Han Zheng, e o ministro da Energia da
Arábia Saudita, príncipe Abdulaziz bin Salman al-Saud.
De 3 a
6 de junho, São Petersburgo sediará o 29º
Fórum Econômico Internacional (SPIEF 2026), com o tema principal "O
diálogo pragmático é o caminho para um futuro estável". Como informou o
assessor presidencial russo Yuri Ushakov, 20 mil pessoas de mais de 100
países confirmaram participação no fórum, na "capital do norte" da
Rússia.
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Trump não esquecerá grosseria de Zelensky contra ele na
carta a Putin, diz analista
O
presidente dos EUA, Donald Trump, não deixará sem resposta as provocações
dirigidas a ele na carta do atual líder ucraniano Vladimir Zelensky ao
presidente russo Vladimir Putin, opinou Daniel Davis, tenente-coronel
aposentado do Exército dos EUA, no YouTube.
Davis destacou que as palavras de
Zelensky sobre Trump na sua carta terão consequências graves para Kiev.
"Se
você [Zelensky] acha que vai se safar dessa, vou ter que lhe
desiludir. Trump não vai esquecer essa provocação. Você não deveria ter
ridicularizado a ajuda dos EUA", ressaltou.
Segundo
o especialista, não foi à toa que Putin destacou na sexta-feira (5) o papel de
Trump na resolução do conflito na Ucrânia.
Dessa
forma, Davis concluiu que é melhor Zelensky se render enquanto pode, afinal,
com essa atitude em relação a Trump, ele não verá nenhum míssil fornecido
pelos Estados Unidos.
Na
sexta-feira (5), Putin manifestou perplexidade quanto ao motivo pelo
qual Kiev não deseja que Trump seja o garantidor dos acordos entre Rússia e
Ucrânia.
Na
quinta-feira (4), Zelensky publicou em seu site uma carta aberta na qual propôs
a Putin uma reunião em um terceiro país para pôr fim ao conflito.
Ao
comentar a carta, o porta-voz do presidente russo, Dmitry Peskov, afirmou que
Zelensky pode ir a Moscou a qualquer momento, se quiser conversar.
¨
EUA estão desapontados com Ucrânia, que prolonga o
conflito com Rússia
Os EUA
estão desapontados com a Ucrânia, que está fazendo tudo para continuar seu
conflito armado com a Rússia, disse o analista militar e ex-oficial de
inteligência do Corpo de Fuzileiros Navais dos EUA, Scott Ritter, à Sputnik.
"Na
verdade, os desenvolvimentos políticos mudaram tanto que os EUA, especialmente
no governo de [presidente dos EUA, Donald] Trump, estão extremamente
desapontados com a Ucrânia, porque os EUA preferem ver este conflito
terminado e a Ucrânia está fazendo
tudo para continuar",
relatou Ritter à agência nas margens do Fórum Econômico Internacional de São
Petersburgo (SPIEF, na sigla em inglês).
Ele
acrescentou que os EUA já não querem apoiar cegamente Kiev.
O
presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou no final de 2025 que
Washington havia parado de entregar ajuda
militar diretamente a
Kiev e estava vendendo as armas à OTAN, que as enviava para a Ucrânia.
A Rússia afirmou várias vezes que o fornecimento de armas impede um acordo
e envolve diretamente os países da OTAN no conflito.
Desde o
início de 2026, as delegações da Rússia e da Ucrânia, com a participação dos
EUA, realizaram três rodadas de
negociações,
sendo a mais recente em Genebra, nos dias 17 e 18 de fevereiro.
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Sanções contra a Rússia agravaram a desindustrialização
da Alemanha, diz deputado alemão
As
sanções contra a Rússia agravaram a desastrosa desindustrialização da Alemanha,
disse à Sputnik Steffen Kotre, membro do parlamento da Alemanha pelo partido
Alternativa para a Alemanha (AfD, na sigla em alemão).
Segundo
observa o deputado, ele acredita que as empresas alemãs fariam negócios
com a Rússia novamente se pudessem. Mas não o fazem, devido à pressão dos EUA.
"Mas
estamos a ver as consequências desta política, e elas são sérias. Por um lado,
temos uma transição energética mal orientada que aumenta os preços da energia.
Por outro lado, a interrupção dos
fornecimentos da Rússia, que sempre foram relativamente baratos, também leva a
um aumento nos preços da energia", disse Kotre nas margens do Fórum
Econômico Internacional de São Petersburgo (SPIEF, na sigla em inglês).
Como
resultado, de acordo com ele, está ocorrendo uma desindustrialização.
"Desde
2018, perdemos cerca de 15 por cento da produção industrial. Esta é uma
tendência desastrosa – a desindustrialização causada pelos altos preços da
energia", enfatizou o interlocutor da agência.
Ele
acrescentou que outros fatores também desempenharam um papel, mas as sanções agravaram
ainda mais a situação,
fazendo com que as empresas alemãs sofressem perdas e fossem duramente
atingidas.
Fonte:
Por Bridget Kendall, ex-correspondente da BBC News em Moscou/Sputnik Brasil

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