Doação
de órgãos oferece nova chance a milhares de pacientes
A
doação e o transplante de órgãos funcionam como uma engrenagem complexa que
corre contra o relógio. Mais do que a burocracia e a complexidade que existem
dentro desse procedimento cirúrgico, há, ainda, um gesto profundo, sensível, à
espera do sim de uma família que, no pior dia da sua vida, pode acabar salvando
outras. Hoje, o Brasil se destaca por abrigar um dos maiores programas públicos
de transplantes do mundo, financiado majoritariamente pelo Sistema Único de
Saúde (SUS). No entanto, existem desafios a serem superados.
O
nefrologista, cirurgião e coordenador do Programa de Transplantes do Hospital
Santa Lúcia, Elber Rocha, destaca que o maior mérito nacional foi construir uma
política pública regulada, com lista única e critérios estritamente técnicos,
garantindo acesso universal independentemente da condição econômica do
paciente. Contudo, para ele, o sistema enfrenta o desafio da heterogeneidade
institucional e geográfica.
Enquanto
o Brasil registra cerca de 18 doadores por milhão de habitantes — distante de
líderes globais como a Espanha, que alcança médias de 45 a 48 —, o acesso real
ao procedimento varia drasticamente entre diferentes estados brasileiros.
"A nível nacional, não tem um único sistema de transplantes funcionando de
forma homogênea. Temos lugares de excelência e regiões com severas dificuldades
de notificação, diagnóstico de morte encefálica e logística", pontua o
profissional.
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O que é?
O
transplante de órgãos consiste na substituição de um órgão doente ou
disfuncional por um outro saudável, proveniente de um doador vivo ou falecido.
Trata-se da principal alternativa terapêutica para pacientes com insuficiência
terminal de órgãos vitais, visando restabelecer funções biológicas essenciais e
salvar vidas.
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Destaque mundial
Segundo
o Ministério da Saúde, o Brasil registrou mais de 31 mil transplantes de órgãos
e tecidos, em 2025. Um recorde histórico, muito impulsionado pela
acessibilidade fornecida por meio do SUS.
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Fila de espera
Apesar
dos avanços, muitas famílias ainda aguardam na fila de espera por um órgão. São
mais de 80 mil brasileiros, sendo que 48 mil esperam por órgãos sólidos (como
rins, fígados e corações), enquanto mais de 32 mil aguardam por transplantes de
córnea.
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Rotina exaustiva
Para
Silvia Casas, diretora médica de transplantes na Werfen da América Latina, a
jornada de quem aguarda um órgão é marcada por uma severa carga física e
emocional. “Para o corpo médico, o tempo em lista exige uma conduta clínica de
alta vigilância para manter o paciente transplantável, controlando ativamente
infecções, anemias e doenças cardiovasculares que possam comprometer a futura
cirurgia.”
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Tipos de doadores
Os
transplantes podem ser realizados a partir de dois tipos de doadores: o doador
falecido, que consiste em pacientes hospitalizados com quadro confirmado de
morte encefálica — geralmente decorrente de AVC ou traumatismo craniano — aptos
a doar órgãos como coração, pulmões, fígado e rins, além de tecidos; e o doador
vivo, que compreende qualquer pessoa juridicamente capaz que, após uma rigorosa
avaliação médica e imunológica, concorde em doar um de seus rins ou parte do
fígado e do pulmão para parentes de até quarto grau, sendo exigida autorização
judicial em casos de doação para não parentes.
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Palavra do Especialista - Silvia Casas é diretora médica de transplantes na
Werfen da América Latina
• Como é a rotina e a qualidade de vida
real de um paciente transplantado?
Para a
maioria dos pacientes, o transplante representa uma transformação profunda na
qualidade de vida. Muitas pessoas conseguem retomar atividades profissionais,
estudos, convivência social e projetos que estavam limitados pela doença. No
entanto, o transplante não significa cura definitiva. O paciente continua
necessitando de acompanhamento médico regular, exames laboratoriais periódicos
e uso contínuo de medicamentos imunossupressores. A rotina exige disciplina e
compromisso com o tratamento. Apesar dessas exigências, a grande maioria relata
melhora significativa da autonomia, da capacidade física e do bem-estar. O
objetivo do transplante é justamente devolver anos de vida com mais qualidade e
independência.
• A recusa das famílias em autorizar a
doação ainda é um dos maiores obstáculos para o crescimento dos transplantes. O
que precisa mudar?
A
decisão sobre a doação costuma ocorrer em um momento de profunda dor para a
família, logo após a confirmação da morte de um ente querido. Em muitos casos,
esse tema nunca foi discutido previamente entre os familiares, o que aumenta a
insegurança no momento da escolha. Além disso, a legislação brasileira atribui
à família a autorização final para a doação após a morte. Por isso, no Brasil,
conversar em vida sobre o desejo de ser doador é uma das medidas mais eficazes
para reduzir dúvidas, facilitar a tomada de decisão e ampliar as chances de
beneficiar pacientes que aguardam na lista de espera.
• Quais os desafios para quem recebe algum
tipo de transplante, falando no pós-cirúrgico?
Os
principais desafios do pós-transplante envolvem a adaptação ao novo tratamento
e a prevenção de complicações. Os medicamentos imunossupressores, fundamentais
para evitar a rejeição do órgão, precisam ser tomados corretamente e por toda a
vida. Além disso, esses medicamentos podem aumentar o risco de infecções e
exigir monitoramento constante. O paciente também deve adotar hábitos
saudáveis, manter consultas regulares e realizar exames periódicos. Atualmente,
os testes laboratoriais imunológicos desempenham um papel cada vez mais
importante nesse acompanhamento, permitindo avaliar de forma mais precisa o
risco de rejeição e identificar precocemente alterações que possam comprometer
o funcionamento do órgão transplantado. Outro aspecto relevante é o impacto
emocional, pois muitos pacientes enfrentam ansiedade e expectativas elevadas
após a cirurgia. O acompanhamento multiprofissional é essencial para garantir
bons resultados a longo prazo.
Fonte:
Correio Braziliense

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