Da abolição inconclusa aos desafios do
antirracismo no século XXI
Vivemos
no país que mais recebeu heranças africanas no mundo. Não apenas em quantidade,
já que o Brasil concentrou alguns dos maiores portos de desembarque de
africanos escravizados nas Américas, mas também em diversidade, pois para cá
vieram povos de diferentes regiões do continente africano, trazendo línguas,
culturas, filosofias, religiosidades, tecnologias e formas de organização
social que moldaram profundamente a sociedade brasileira.
Nossa
história, hábitos, costumes, culinária, música, economia, religiosidade e
identidade nacional revelam muito da África em toda parte. Não há como
interpretar o Brasil sem reconhecer a importante contribuição africana na
formação, no desenvolvimento e na identidade do povo brasileiro.
Neste
13 de maio de 2026, completam-se 138 anos da assinatura da Lei Áurea, data que
formalmente aboliu a escravidão no país. Entretanto, a abolição brasileira
permanece inconclusa. Hoje, assim como naquele período histórico, o Brasil
atravessa crises sociais, políticas e econômicas profundas, marcadas por
desigualdades estruturais que seguem atingindo de maneira mais intensa a
população negra.
Após a
abolição, para modernizar o país, o Estado brasileiro optou por construir
políticas de imigração branca europeia e por invisibilizar as desigualdades
raciais, abandonando a população negra à própria sorte e ao estigma da cor. Não
houve qualquer projeto de reparação social, distribuição de terras, acesso à
educação ou inclusão econômica dos recém-libertos. Pelo contrário:
consolidou-se uma política de exclusão racial que estruturou o racismo como um
dos pilares ideológicos da formação nacional.
Da
abolição até os dias atuais, o Brasil atravessou diferentes fases no debate
racial. A primeira delas foi a fase da eugenia, no final do século XIX e início
do século XX, quando teorias pseudocientíficas defendiam o “branqueamento” da
população brasileira como caminho para o desenvolvimento nacional. Em seguida,
veio a fase da chamada democracia racial, marcada pela falsa ideia de
convivência harmoniosa entre brancos e negros, utilizada para negar a
existência do racismo no país.
Posteriormente,
especialmente a partir da atuação histórica do movimento negro, consolidou-se a
fase da denúncia do racismo, revelando as desigualdades produzidas pelo racismo
estrutural brasileiro. Mais recentemente, avançamos para uma fase de construção
do antirracismo com a promoção da igualdade racial, expressa em políticas
públicas, ações afirmativas, produção intelectual negra e maior presença da
pauta racial nas instituições. Trata-se de um avanço histórico importante, mas
que não pode se limitar a gestos simbólicos ou discursos vazios de diversidade,
por parte de governantes e de grandes empresas.
Ao
longo do século XX e também neste início de século XXI, o racismo estrutural
continuou mediando as relações sociais no Brasil por meio da banalização da
violência, da exclusão econômica e da subjugação da população negra. Tentou-se
conciliar desenvolvimento com desigualdade, cidadania com discriminação e
democracia com exclusão racial.
Quase
140 anos após a abolição, seguimos convivendo com um apartheid que nos coube,
sinuoso e profundamente indiferente à violência e às desigualdades. A população
negra continua sendo maioria entre os pobres, entre os desempregados e entre as
vítimas da violência letal.
Os
dados revelam a permanência dessa desigualdade histórica. Pessoas negras seguem
sub-representadas nos espaços de poder político e econômico do país. Embora
pretos e pardos representem a maioria da população brasileira, sua presença no
Congresso Nacional, nos cargos de direção das grandes empresas e nos espaços de
tomada de decisão ainda é reduzida. No mercado de trabalho, trabalhadores
negros recebem salários inferiores aos de trabalhadores brancos mesmo exercendo
funções semelhantes e enfrentam maiores taxas de informalidade e desemprego.
A
violência também possui cor. Jovens negros seguem sendo as maiores vítimas de
homicídios no Brasil, demonstrando que o racismo estrutural atua inclusive na
definição de quem vive e de quem morre. Mulheres negras permanecem entre as
mais afetadas pela precarização do trabalho, pela violência doméstica e pela
ausência de oportunidades.
Apesar
desse cenário, é impossível ignorar os avanços conquistados nas últimas décadas
graças à luta histórica do movimento negro e às políticas afirmativas. O
sistema de cotas raciais nas universidades públicas transformou o perfil do
ensino superior brasileiro e abriu oportunidades antes negadas à população
negra.
Milhares
de estudantes cotistas, mesmo enfrentando dificuldades financeiras, ausência de
bolsas permanência, longas jornadas de trabalho e inúmeras barreiras sociais,
conseguem concluir seus cursos com excelência e dignidade. Esses estudantes
demonstram diariamente que o problema nunca foi falta de capacidade
intelectual, mas sim a histórica ausência de oportunidades.
Os
avanços na educação, no acesso ao ensino superior, na valorização da cultura
afro-brasileira e na ampliação do debate público sobre racismo representam
conquistas fundamentais e nos dão esperanças. Contudo, ainda enfrentamos forte
resistência à diversidade racial nas médias e grandes empresas, na grande
mídia, no sistema de justiça e nos espaços de poder.
Também
permanece alarmante o racismo institucional praticado contra religiões de
matriz africana, frequentemente alvo de violência, intolerância e ataques
simbólicos e físicos. A desigualdade racial continua sendo uma das injustiças
mais profundas e cristalizadas da sociedade brasileira.
Neste
tempo de crises e retrocessos, o Movimento Negro não pode passar mais um século
sendo protagonista da principal luta para democratizar o Brasil. É preciso que
a questão racial seja materialmente uma questão para o Estado e sociedade. As
políticas públicas e não somente discursos devem capitanear o nosso tempo.
O
racismo capturou parte significativa das estruturas da sociedade brasileira e
retirou da democracia seu potencial plenamente libertador. Não há
desenvolvimento verdadeiro sem justiça social, nem democracia plena convivendo
com discriminação racial.
Defender
a democracia exige mais do que combater corrupção, patrimonialismo ou
autoritarismos. Defender a democracia significa também enfrentar o racismo
estrutural que historicamente desumaniza e limita a cidadania negra no Brasil.
Por
isso, o grande desafio do século XXI não é apenas reconhecer a diversidade
racial e apoiar políticas simbólicas, mas construir um antirracismo material.
Um antirracismo que produza transformação concreta na vida da população negra;
que garanta acesso à renda, educação, saúde, terra, moradia, tecnologia,
representação política e oportunidades reais.
O
Brasil precisa ir além da igualdade simbólica e produzir igualdade substantiva.
Precisamos construir um país onde pessoas negras não apenas sobrevivam, mas
possam viver com dignidade, segurança, reconhecimento e participação efetiva no
poder.
Ser um
abolicionista moderno, hoje, significa ajudar a concluir aquilo que a Lei Áurea
não realizou: a verdadeira libertação social, econômica e política da população
negra brasileira.
Fonte:
Por Renato Ferreira, em ICL Notícias

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