A
pré-campanha eleitoral – na corda bamba
Antes
de entrar na análise anunciada no título do artigo, precisamos definir qual é
este quadro. Segundo a maioria dos analistas de esquerda, o quadro ainda é
indefinido e, até para alguns, Lula ainda é o favorito no próximo pleito
presidencial. O argumento mais frequente é o dado obtido pelas várias
pesquisas, mostrando que mais de 60% dos eleitores não têm candidato, quando
perguntados sobre sua preferência sem olhar para uma tabela com os nomes dos
presidenciáveis. A meu ver, isto é tão pueril quanto tentar tapar o sol com uma
peneira. Ou, em uma imagem futebolística, achar que o jogo Brasil e Alemanha
ainda não estava perdido quando entubávamos 4×1 no segundo tempo, na semifinal
da Copa de 2014. O conjunto das pesquisas de todos os tipos, em sucessivas
amostragens desde o ano passado, aponta para uma realidade mais sombria. Em
meados do ano passado, a avaliação negativa do governo estava em 40% e a
positiva em 29%. A reação do governo ao tarifaço e as incríveis bobagens dos
bolsonaristas, desfraldando imensa bandeira americana e saudando Donald Trump
em manifestação na avenida Paulista, permitiram a Lula recuperar 4% de apoio
contra uma diminuição de apenas 2% na rejeição. Mas a alegria foi pouca e de
curta duração. Na última pesquisa do Datafolha, Lula voltou para os 29% de
apoio e 40% de rejeição. Em outra pesquisa, 55% dos entrevistados acharam que
Lula não merece um quarto mandato.
Pior do
que isso, Flávio Bolsonaro está em empate técnico com Lula e um ponto acima do
presidente, 46% x 45% em simulação de segundo turno e vem de uma progressão
constante. O detalhamento da pesquisa mostra que Lula vem perdendo apoio em
todos os setores sociais, faixas etárias, gênero e em todas as regiões, mesmo
entre os/as que ainda lhe dão mais apoio do que à Flávio Bolsonaro: os mais
pobres, os menos instruídos, as mulheres, os católicos, os nordestinos e
nortistas. A evolução dos números em todos estes setores e regiões vem piorando
consistentemente nos últimos oito meses. Para completar, não só Flávio
Bolsonaro está bem competitivo como todos os outros candidatos da direita, mais
ou menos bolsonaristas, estão próximos dos números de Lula no segundo turno
simulado nas pesquisas sem Flávio Bolsonaro. Isto indica a força do sentimento
antipetista/lulista no eleitorado. O governo esperava recuperar o terreno
perdido ao longo do mandato através de projetos recentes, beneficiando os mais
pobres, em particular com a isenção ampliada do imposto de renda, mas isto não
aconteceu. Foi a pá de cal na estratégia governamental, desde 2023, de melhorar
a renda, baixar a inflação e tecnicamente zerar o desemprego. Os números da
economia citados até a exaustão por Lula e Fernando Hadad são positivos, mas os
eleitores não parecem satisfeitos com o resultado.
Para
alguns analistas, isto confirma a ideia de que a economia não é o fator
decisivo nesta eleição e que os temas que movem o eleitorado são os ditos de
“costumes”, tão caros aos evangélicos e católicos conservadores. Outros dizem
que os fatores que explicam o resultado negativo das pesquisas são os problemas
da violência, da corrupção e das filas do INSS ou ainda o que chamam de fadiga
de material ou cansaço com os governos petistas. Finalmente, há uma constatação
de que o eleitorado não está mais tão preocupado com a ameaça à democracia
representada pelo bolsonarismo golpista, apesar da enxurrada de denúncias
apresentadas nos julgamentos históricos dos atos golpistas do 8 de janeiro de
2023.
A
esquerda parece confiar na fragilidade política do filhote do energúmeno e
dizem que ele ainda não foi submetido ao bombardeio político de uma campanha
eleitoral que não esquentou até agora. É a palha em que estamos nos agarrando
para evitar olhar com rigor para o que as pesquisas estão apontando. A outra
vertente explicativa, crescente dentro do PT, é o questionamento da comunicação
do governo, que não estaria sabendo mostrar os avanços da economia promovidos
por Lula.
Para
completar o quadro negativo, o governo tem nas mãos os efeitos da crise
econômica provocada pela guerra de Donald Trump/Benjamin Netanyahu contra o
Irã, com alta dos combustíveis começando a se espalhar por outros setores da
economia e chegando ao bolso dos eleitores, pelo momento através do aumento dos
preços da gasolina, diesel e gás. Significativamente, a alta dos fertilizantes,
também provocada pelo bloqueio de Ormuz, ainda não chegou aos preços dos
alimentos no Brasil, mas não deixará de impactá-los até o fim do ano. Também
não ajuda o surpreendente e maciço endividamento de 85% das famílias que o
governo está atribuindo aos bilhões de reais gastos nos Bets, inclusive entre
as famílias beneficiárias do Bolsa Família.
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O que há de verdade nestas várias avaliações?
Para
começar, a economia, entendida no caso do comportamento eleitoral, como o
balanço entre renda e custo de vida, tem sim relevância. Para entender por que
os “sucessos” das políticas do governo em relação ao emprego, renda e controle
da inflação não estão sendo percebidos pelo eleitorado é preciso olhar os
números no detalhe.
A
inflação medida pelo IGP engloba todos os preços de todas as atividades
econômicas, produção, serviços, consumo etc. Se nos limitarmos a olhar os
custos dos bens e serviços consumidos pelos diferentes setores da população
encontramos diferentes inflações. A dos alimentos andou elevada até o ano
passado até os preços se estabilizarem, mas estes ficaram no seu nível mais
alto, mesmo sem continuarem subindo. E os mais pobres tiveram inflação mais
alta do que os ricos e remediados. O mesmo vale para os serviços e outros bens
de consumo. Mas argumenta-se que a renda cresceu e teria coberto a alta de
preços anterior. Falso. A renda cresceu, inclusive para os mais pobres, mas
muito menos para estes do que para os mais abastados. O consumidor popular olha
para o seu carrinho de compras no supermercado e percebe que continua com menos
produtos em quantidade e qualidade.
E o
emprego? As estatísticas apontam para uma constante queda no desemprego, mas o
detalhe mostra que são os empregos menos remunerados e mais instáveis os que
crescem mais. A informalidade também implica em uma maior rotatividade e maior
insegurança e isto impacta a expectativa do eleitor. Pior ainda, o forte avanço
do número de pobres formados nas universidades não teve como consequência um
aumento correspondente na empregabilidade dos novos “doutores”. Os formandos
tinham como expectativa encontrar empregos de acordo com seus diplomas e isto
não aconteceu com a amplitude esperada. O resultado foi encontrarmos um bom
número de motoristas de Uber com diplomas de nível superior. Em resumo, a
economia, de modo geral, cresceu, embora o PIB registrado em anos sucessivos
indique avanços modestos que escondem a maior concentração da riqueza produzida
nas mãos de uns poucos. A frustração da parcela mais pobre que,
(simbolicamente) esperava um banquete de picanha com cerveja e teve que se
contentar com o miojo com salsicha (também simbolicamente), foi grande. A
decepção talvez explique o número de pobres e remediados, “investindo” na nova
fonte de esperança: os Bets.
O
governo expandiu o crédito ao consumidor para animar a economia e,
aparentemente isto deu certo, mas o preço a pagar foi o brutal endividamento
das famílias, gerando aperto de cintos e angústia, fatores que contam na hora
de avaliar o que o governo entregou. Haja Desenrola!
Sim, a
economia pesou contra o governo, apesar do autoproclamado sucesso de sua
política. É a mesma explicação do sucesso de Donald Trump versus Joe Biden em
2024. Como dizia, singelamente, a saudosa professora Maria da Conceição
Tavares, “povo não come PIB”. Há muitas razões para a incapacidade do governo
promover um salto significativo na economia, sobretudo olhando para seu impacto
na massa dos eleitores.
A
primeira e mais importante foi o freio de mão pesado do Banco Central no
desenvolvimento do Brasil, através das taxas de juros básicos atuando como um
peso no pé de todos os empreendedores. A altíssima taxa Selic arrasta o patamar
dos juros para investidores e consumidores a um nível que explica, em parte, o
brutal aumento do endividamento das famílias. A segunda razão refere-se à falta
de recursos orçamentários. O governo teve que entregar parte substancial do
orçamento não impositivo para pagar as emendas parlamentares com um incrível
desperdício de recursos dispersos sem qualquer plano que os orientasse. Faltou
dinheiro para muita coisa, tanto nos programas sociais como no estímulo ao
desenvolvimento, e mesmo para melhorar os serviços de saúde e educação.
Por
outro lado, o governo preferiu (ou não pode reagir) pagar mais subsídios para o
agronegócio do que para todo o orçamento dos programas sociais. A montanha de
subsídios dirigidos para o agronegócio foi crucial para aumentar as
exportações, mas foi pouco relevante na produção de alimentos, sobretudo os
necessários para uma dieta desejável e desejada pelos consumidores. A política
econômica voltada para manter os ganhos de uma minoria não deu espaço para
investir na produção dos gêneros de consumo de massa. O governo bem que tentou
taxar os mais ricos, mas o poder dos representantes do privilégio no Congresso
diluiu as suas propostas, deixando intocados os ganhos financeiros dos
rentistas. Isto certamente não explica tudo, mas é uma boa base para entender o
mau humor do eleitorado.
Por
outro lado, a questão da segurança foi extremamente mal trabalhada pelo governo
Lula que começou prometendo um ministério da Segurança Pública e a integração
dos vários agentes públicos, federais e estaduais e logo abandonou a
iniciativa. O eleitor, pobre ou rico, sente no quotidiano a ameaça da
violência, embora esta (sobretudo a policial) recaia pesadamente sobre os
jovens, pretos e pobres. Embora legalmente os serviços de polícia sejam de
responsabilidade dos governos estaduais, o eleitor percebe como omissão a
posição do governo federal e a fragilidade do judiciário e cai no discurso da
direita que cobra mais e mais violência policial, mais “bandidos mortos”, mais
presos e condenados. A esquerda, dentro e fora do governo, questiona este
“sentido comum”, mas sem apresentar alternativas e o eleitorado engole o
discurso da direita, apontando uma suposta leniência com a bandidagem. Mais
pontos contra o governo.
Com
estes dados macro jogando contra, as benesses dos programas sociais vão
empalidecendo. O governo não teve coragem de desfazer a politicagem do
energúmeno, sobretudo no seu último ano, desfigurando o Bolsa Família e
gastando rios de dinheiro com falsos candidatos ao benefício. Calcula-se que,
dos 21 milhões de beneficiários, existam uns 4 a 5 milhões de famílias com
acesso irregular e isto impediu que os recursos fossem mais bem distribuídos
para os mais pobres e necessitados. Por outro lado, os programas sociais já não
são novidade e o próprio governo Bolsonaro os encampou, eliminando um dos
elementos de propaganda usados pelo PT em campanhas passadas, afirmando que
estavam ameaçados em caso de derrota da esquerda.
Para
completar a análise, temos a questão da corrupção, que voltou com força para a
ordem do dia com o escândalo Vorcaro. Quer por ter aliados ou mesmo petistas
suspeitos de envolvimento no caso Master, quer pela dificuldade de lidar com o
tema desde a Lava Jato, o fato é que os partidos de esquerda não fizeram o que
deviam ser feito, ou seja, não tomaram a frente na luta pela investigação do
maior esquema de corrupção da nossa história, segundo Fernando Haddad.
Significativamente, os esforços par a criação de uma CPI no congresso foram de
iniciativa do PL, travada por uma aliança do Centrão e dos partidos da base do
governo. Os eleitores ficaram confundidos, olhando para a geleia geral do
Congresso onde quase todos se juntaram para cozinhar a pizza, começando por
Davi Alcolumbre e Hugo Motta. O público olha as notícias e não vê diferenças
entre o governo, o STF ou a oposição, todos visto como comprometidos com a
corrupção. Não é ainda um tema em que o bolsonarismo nade de braçada, como na
época do mensalão e do petrolão, mas deixa todo mundo na vala comum. A Polícia
Federal, a única instituição que escapa à condenação do eleitorado, não é vista
como um agente do governo federal, mas como uma força independente, e o governo
não consegue capitalizar a sua atuação. Mais pontos negativos para o governo.
Para
completar a lista dos dados negativos é preciso lembrar alguns problemas mais
pontuais, mas de grande impacto entre os mais pobres. O primeiro é a eterna
precariedade do SUS. Nossos serviços de saúde são uma benção para os que não
tem recursos para pagar os caríssimos planos privados, mas constituem um
sofrimento generalizado para os que os acessam. Longas filas de espera,
atendimento irregular, poucos médicos e enfermeiras, falta de material,
equipamentos sem conservação e frequentemente inutilizáveis, remédios caros. A
expressão “morrer na fila do SUS” não é um exagero. Acontece no mundo real dos
mais ferrados. O segundo é o INSS. O sistema estava travado no começo do
governo Lula III e foi uma promessa de campanha zerar a fila de um milhão de
pessoas muito necessitadas e o resultado foi que ela triplicou. Pior ainda, o
escândalo da manipulação das aposentadorias, conhecido como o do “careca do
INSS”, revoltou os que ansiavam por soluções há anos. Mais um escândalo de
corrupção que, para cúmulo do efeito eleitoral, envolveu como suspeito o filho
do presidente. Não faltava mais nada. A pá de cal nesta longa lista de
frustrações do eleitorado foi a decisão de Lula de apontar para uma vaga do STF
um personagem totalmente desqualificado para o cargo. Este episódio não deve
ter efeitos maiores nas escolhas dos eleitores, mas revela uma posição
insustentável do governo e tem efeitos importantes em setores que são
formadores de opinião, como a mídia convencional.
Ao
escolher um candidato cujo único predicado é a sua fidelidade canina, o
presidente cometeu uma sequência de erros surpreendente para um político com a
sua história e habilidade. É verdade que o sistema de escolha dos ministros do
supremo é um absurdo histórico, submetendo o posto mais alto da justiça
brasileira ao jogo político do presidente e do Senado. José Sarney, Fernando
Collor, Fernando Henrique, Michel Temer e Jair Bolsonaro colocaram seus fiéis
no STF, com a cumplicidade do Senado. Lula fez o mesmo com um dos seus
nomeados, Dias Toffoli, um dos muitos sem o necessário “notório saber jurídico”
e cujo único predicado era ter sido advogado do PT e amigo de José Dirceu. Mas
a “traição” do nomeado no caso da Lava Jato levou Lula a exacerbar o valor do
critério fidelidade e daí resultou a candidatura de Messias.
Lula
não fez diferente dos seus antecessores, mas as circunstâncias eram outras.
Cristino Zanin era um dos fiéis sem qualificação maior do que sua atuação no
desmonte da Lava Jato e Flávio Dino foi um dos raros casos em que o critério de
notório saber se aplicava. Ambos foram nomeados no começo do mandato. Em um
quadro totalmente diferente, Lula apontou Jorge Messias e atravessou a
preferência do Senado por um dos seus, Rodrigo Pacheco, que era aliado do
presidente da casa, Davi Alcolumbre. A maioria da casa, que sempre foi de
direita, estava em pé de guerra com o STF e disposta a uma demonstração de
força. Já o todo poderoso Davi Alcolumbre ansiava por uma desforra pela
exclusão de seu aliado Pacheco. Mais ainda, Alcolumbre estava preocupado com as
investigações do caso de Daniel Vorcaro no STF e desconfiava da proximidade de
Jorge Messias com o ministro responsável pelo caso, André Mendonça.
A
negociação do governo foi banhada por 2 bilhões de emendas liberadas no esforço
do governo em conquistar o apoio do PMDB e do PDS para a o voto em Jorge
Messias. Lembremos ainda que Lula vinha namorando a adesão destes partidos à
sua candidatura. Do outro lado estava a bancada bolsonarista disposta a
fragilizar tanto o governo como o STF, deixando a nomeação para o próximo
presidente, que eles contam que vai ser Flávio Bolsonaro. Esta estratégia está
voltada para conquistar maioria no STF para o bolsonarismo no próximo
quatriênio, quando três ministros serão aposentados. Com um quarto ministro
conquistado com a derrota de Jorge Messias (e a futura escolha de mais um
candidato de Flávio Bolsonaro) o bolsonarismo conseguiria a maioria do supremo,
somando com os dois evangélicos nomeados pelo energúmeno. O resultado da
votação no Senado era uma pedra cantada por todo mundo, menos pelos
articuladores do PT e pelo próprio presidente. Eu mesmo escrevi um artigo
intitulado “Seu gato subiu no telhado”, afirmando isso já em novembro do ano
passado. Não só Lula se colocou em posição de ser torpedeado como desprezou o
risco futuro para a democracia da formação de uma maioria bolsonarista no STF.
Resultado: todos os entendidos no Senado dizem que MDB e PDS traíram suas
promessas de apoio (no privado ou no público), indicando que estes partidos já
estão cheirando uma vitória de Flávio Bolsonaro e se posicionando para negociar
com o próximo presidente. E Davi Alcolumbre jogou contra o governo sem dó nem
piedade.
Acredito
que este episódio revela com clareza o erro básico da estratégia do governo ao
lidar com o Congresso, desde o começo do mandato. Ao candidatar um fiel
indefensável, Lula abandonou a única força que poderia dobrar o Senado de
direita e com forte presença bolsonarista: a opinião pública. Trocou a pressão
externa (embora não popular) por conchavos e concessões. Não foi suficiente e
agora o quadro é complicado com consequências dramáticas para o futuro. Resta a
Lula fazer o que todo mundo, sobretudo fora do governo, pedia: escolher um
candidato capaz de mobilizar apoio na sociedade. Se tivesse indicado uma
mulher, negra e com forte currículo jurídico não garantiria a vitória, mas pelo
menos isolaria o Senado. Se Lula fizer agora uma indicação com este perfil será
um mea culpa de sua indicação inapropriada anterior, embora Davi Alcolumbre, do
alto de sua manifestação de poder com a derrota de Jorge Messias, esteja
prometendo não pautar o tema até o próximo governo. Mesmo assim, é melhor
encarar o desafio do que abandonar a rinha e deixar tudo esperando uma vitória
eleitoral para fazer uma outra indicação no ano que vem.
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É preciso voltar atrás na análise para entender a situação atual
A
vitória de Lula nas eleições de 2022 foi mais do que apertada. Ele levou a
presidência no fotochart, com menos de 2 milhões de votos de vantagem sobre o
energúmeno, menos de 2% dos votos. Sem sombra de dúvida, a vitória se deveu ao
apoio de eleitores independentes, que podemos caracterizar como republicanos e
democratas conservadores que viam em Bolsonaro uma ameaça para as instituições.
A
votação em primeiro turno de Simone Tebet (uma boa representante deste
eleitorado) corresponde quase 100% ao número de votos que deu a vitória a Lula.
Por outro lado, o voto para o Congresso descolou-se do voto para a presidência
e o resultado foi uma enxurrada de deputados e senadores bolsonaristas ou
fortemente direitistas. Sem ter um projeto de governo (para não falar em um
projeto de país) para propor aos eleitores, Lula apelou para a memória dos
eleitores, apresentando os sucessos de suas políticas sociais e da economia que
levaram a uma distribuição (levemente) mais equitativa da renda no período
2003/2010. Ele “esqueceu” dos desastres dos governos de Dilma Roussef,
convenientemente. Ou seja, na campanha e no governo, Lula se limitou a oferecer
mais do mesmo.
Mas os
tempos tinham mudado. Se nos seus primeiros mandatos Lula era minoritário nas
duas casas do Congresso, ele tinha mais poder para distribuir benesses a
deputados e senadores, tanto em cargos e emendas cuja liberação ele controlava,
quanto através da distribuição de dinheiro via recursos extra orçamentários,
oriundos de acordos com empresas que alimentavam um “caixa dois”, método
conhecido depois como “mensalão”. Nas novas condições geradas pela crise do
impeachment de Dilma Rouseff e a capitulação de Jair Bolsonaro frente ao
Centrão, o Congresso assumiu o controle das emendas e as expandiu em uma farra
de benesses a suas excelências que retiraram o poder do governo federal, não só
da orientação das verbas orçamentárias, como na moeda de troca na relação entre
executivo e legislativo. Sem poder de compra de votos no Congresso e com
recursos escassos para ampliar as benesses dos programas sociais, o governo
ficou travado. A “solução” foi trazer os partidos do Centrão para o governo,
confiando em que se somariam à minoria de centro esquerda pró governo. Não foi
o que ocorreu. Pouco satisfeitos com os ministérios que conseguiram, os
partidos do Centrão negociaram cada voto, frequentemente derrotando as
intenções do presidente.
Mesmo
quando alguma proposta governamental era aprovada, o resultado diluía a
intenção do governo, quando não a desvirtuava completamente. Para manter a
aparência da existência de uma frente governamental, o PT adotou a prática de
não marcar as divergências e aprovar o “possível”. Isto diluiu muito a imagem
progressista da base governamental e mostrou aos eleitores uma identidade
indistinta da geleia geral do Congresso. Muitos dos defensores de Lula e do PT
dizem que não havia uma alternativa para ele poder governar. Havia duas outras,
na verdade. A primeira implicava em uma capitulação total de Lula e do governo
frente ao Centrão, dividindo de fato o poder e entregando boa parte do
orçamento em ministérios de maior importância e com “porteira fechada”. Isto
daria mais estabilidade para o governo, mas rebaixaria ainda mais a gestão
pública para os interesses paroquiais e fisiológicos dos deputados e senadores.
Sem um
programa de governo próprio para negociar com partidos que também não os
tinham, Lula entregou ministérios de menor importância, retendo os de maior
peso, sobretudo orçamentário, confiando que os partidos da base produziriam, no
varejo de cada tema, resultados apropriáveis politicamente para a esquerda.
Também não funcionou. A gestão dos mais importantes ministérios ficou muito
aquém do desejável. A aposta do presidente foi a de buscar a promoção de um
desenvolvimento mais inclusivo, tal como feito, embora modestamente, nos dois
primeiros mandatos. Com o refrão “é a economia, estúpido” na cabeça, Lula
buscou melhorar os índices de emprego e renda e facilitar a ampliação do
consumo de pobres e remediados. Como já foi dito, os dados econômicos mostram
que o impacto no público destinatário foi pequeno e contraditório. A terceira
alternativa de Lula era governar assumindo de frente a situação de minoria e
procurar, via pressão popular, dobrar o Congresso. Algo do tipo governo de
Gustavo Petrus, na Colômbia. Mas mobilizar a opinião pública e, mais ainda, as
massas despossuídas, para reequilibrar a correlação de forças no Congresso não
passou pela cabeça de Lula. Et pour cause.
Duas
são as razões para o presidente descartar este governo de combate que a
esquerda pedia. A primeira é a gigantesca desarticulação dos movimentos sociais
desde 2003.
Nos
dois primeiros governos de Lula os movimentos sociais foram cooptados, quer
diretamente com empregos públicos para seus dirigentes, quer para a sua
participação (aparente) no poder através das centenas de Conselhos que
arregimentavam militantes dos movimentos para discutir políticas que nunca
chegavam a ser aplicadas. As mudanças econômicas, sociais e institucionais
ocorridas desde então ajudaram fragilizar os movimentos, dispersando suas
bases, sobretudo entre os operários, com os sindicatos fragilizados e
esvaziados. Sobraram os movimentos identitários cuja força aumentou bastante,
mas nunca em termos de poder de convocatória para um enfrentamento permanente
com a direita parlamentar. No entanto, nas poucas vezes em que as massas se
mobilizaram para encurralar o Congresso, o resultado foi positivo para o
governo e para Lula, embora o poder de convocação não tenha sido dos partidos e
movimentos e sim de figuras progressistas de alto prestígio popular. Escrevi
sobre estas alternativas em uma série de artigos que intitulei “A Armadilha”,
em Março/Maio de 2023. Os artigos tinham um tom pessimista em relação à
possibilidade de Lula adotar a alternativa de um enfrentamento com a direita,
parlamentar ou não.
Como já
disse acima, Lula e o PT sequer consideraram esta hipótese e a causa, a meu
ver, é a perda de orientação desta parcela da esquerda. Sem programa outro do
que a preservação de seus espaços de poder esta esquerda já vem há tempos
atuando mais ou menos como suas contrapartes do centro e da direita,
interessados apenas em ganhar eleições, seja como for. Para o eleitorado, esta
esquerda deixou de representar uma esperança de um país diferente, para se
tornar apenas mais um entre os componentes da geleia geral do Congresso,
instituição muito mal avaliada nas pesquisas de opinião. Este “espírito” fica
demonstrado pela estratégia eleitoral de Lula e do PT para o pleito deste ano.
Atrair o Centrão ou, pelo menos, partes dele para o apoio à reeleição é o que
rege as atitudes do governo. Mas mesmo se fosse possível trazer figuras como
Aécio Neves, Jader Barbalho, Gilberto Kassab ou outros da mesma laia para os
palanques de Lula, nada garantiria que seus pares se tornassem cabos eleitorais
de Lula e menos ainda que os eleitores que votam nestes personagens
acompanhassem a manobra. Mesmo se esta estratégia chinfrim der resultado para
reeleger Lula, como ficará o voto para o Congresso? Com o candidato forçado a
não favorecer as candidaturas de esquerda ao Senado e Câmara para não
contrariar aliados, o resultado seria pífio. Com esta estratégia, se Lula
ganhar, ele pode governar em uma armadilha congressual ainda mais apertada do
que no terceiro mandato. Em outras palavras, como mostrar para o eleitorado que
este Congresso é “inimigo do povo” se os congressistas de esquerda não se
demarcam da direitalha?
<><>
E o que é possível fazer para alterar este estado de coisas?
Na
verdade, o que se pode fazer é muito pouco para ter efeito nestas eleições, mas
é necessário para prepararmos o futuro. Não creio que Lula e o PT mudem as suas
estratégias eleitorais e estas conduzem a uma derrota em Outubro. Ou a uma
vitória apertadíssima nas presidenciais e uma derrota acachapante nas
congressuais. O que se pode fazer tem um sentido mais de longo prazo. Falta uma
orientação política estratégica que tem que estar baseada em um diagnóstico
claro dos nossos gravíssimos problemas ambientais, econômicos, sociais,
administrativos, tributários, de segurança e outros mais. E faltam propostas de
como lidar com eles. É preciso elaborar um projeto de futuro, mais do que um
projeto de governo, necessário, mas sempre menor do que o primeiro. Sem isso,
não é possível gerar a esperança de mudança para além de promessas de mais
consumo que serão ilusórias com a penca de crises que estão se abatendo sobre o
país e sobre o planeta.
Quem
pode elaborar estas propostas? Até agora estamos vendo esforços de grupos de
interesse setorial, cada um no seu escaninho. Alguns tem acumulado ótimos
documentos, como os que lidam com a emergência climática, mas ficam contidos
nas suas bolhas. É preciso criar um movimento das forças vivas da sociedade
civil para construir propostas de futuro abrangentes e coordenadas e chegar a
um acordo (certamente mais complexo e difícil) sobre os passos a serem dados a
cada momento, inclusive em planos de governo. Coordenar esta iniciativa seria,
idealmente, o papel de um partido político, mas não vejo nenhum com capacidade
de atrair os diferentes grupos especializados para esta empreitada coletiva.
Enquanto não aparecerem lideranças com poder de aglutinação destas ‘forças
vivas” estaremos caminhando para o abismo em ordem dispersa, por melhores que
sejam as contribuições de uns e de outros para construir conteúdos temáticos
necessários. E faltam recursos para financiar esta operação de construção de
uma estratégia de futuro e do processo para alcançá-lo.
Fonte:
Por Jean Marc von der Weid, em A Terra é Redonda

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