Fascismo,
democracia e mediação política
A
controvérsia aberta pelo artigo de Verônica Toste Daflon no caderno
Ilustríssima do jornal Folha de S. Paulo, sobre a ampliação do conceito de
fascismo na obra recente de Vladimir Safatle, ganhou novo capítulo com a
réplica publicada pelo filósofo na própria Folha e reproduzida no site A Terra
é Redonda. O debate é relevante porque toca em uma questão central para a
teoria crítica contemporânea: como nomear a radicalização autoritária do
presente sem dissolver as distinções conceituais que permitem compreender e
enfrentar politicamente esse processo.
A
resposta de Vladimir Safatle parte da crítica de que a exigência de rigor
conceitual poderia funcionar como expediente acadêmico para não reconhecer o
fascismo de nosso tempo. A generalização da violência de Estado, o retorno de
lógicas segregacionistas e a naturalização da exclusão e da morte de populações
inteiras indicariam que o fascismo não deve ser tratado como ameaça externa às
democracias liberais, mas como uma possibilidade inscrita em seu próprio
funcionamento.
É
correto sustentar que o fascismo não pode ser reduzido a um evento histórico
circunscrito à Europa do entreguerras. Tampouco deve ser compreendido como
anomalia completamente exterior às sociedades liberais. Racismo, colonialismo,
violência de Estado, segregação, militarização da vida social, ressentimento
político e produção de inimigos internos fazem parte da história das
democracias modernas.
O
problema começa quando a genealogia se transforma em equivalência. Reconhecer
que há elementos autoritários, coloniais e violentos no interior das
democracias liberais não permite concluir que elas sejam apenas formas
encobertas de fascismo. Democracias liberais limitadas, regimes híbridos,
autocracias eleitorais, governos de direita radical, movimentos neofascistas e
regimes fascistas propriamente ditos podem compartilhar repertórios, afetos e
dispositivos de poder. Mas não são a mesma coisa.
Essa
distinção não é preciosismo acadêmico, é condição da análise política. O
conceito de fascismo é relevante porque permite identificar formas específicas
de mobilização: destruição do pluralismo, culto da violência, produção de um
inimigo interno, mobilização do ressentimento, estetização da força, desprezo
pelas mediações institucionais e disposição para liquidar a democracia em nome
de uma comunidade orgânica, purificada ou vingadora. Quando tudo passa a ser
fascismo, o fascismo mesmo se torna menos visível.
A
acusação de que o rigor conceitual serviria para neutralizar a crítica inverte
o problema. O rigor não é defesa da ordem existente, mas o que permite
distinguir formas de dominação, identificar suas metamorfoses e formular
estratégias adequadas de enfrentamento. Sem distinções, a crítica pode ganhar
intensidade moral, mas perde precisão política.
Por
outro lado, Vladimir Safatle tem razão ao afirmar que há saberes que nascem da
insurreição popular. De fato, momentos de revolta popular desorganizam o campo
do (pre)visível, rompem consensos, revelam violências naturalizadas e expõem a
insuficiência das formas instituídas de representação. A teoria social não deve
tratar esses momentos como irracionalidade coletiva, sem levá-los a sério como
acontecimentos que rompem a ordem estabelecida e ampliam o repertório do
possível.
Mas
reconhecer o poder da insurreição popular não significa transformar a
insurreição em critério último de verdade política. A revolta pode revelar o
intolerável, mas não resolve por si mesma o problema da mediação política. Pode
abrir uma brecha, mas não substitui organização, programa, institucionalidade,
disputa de hegemonia e construção de maiorias. Há uma diferença entre
reconhecer a potência constituinte dos levantes e fazer da ruptura um horizonte
autossuficiente.
Esse
ponto é chave para compreender o Brasil pós-2013. As manifestações daquele ano
expressaram uma crise real do pacto de 1988, da representação política, da
mobilidade urbana, dos serviços públicos, da corrupção sistêmica, da violência
policial e das formas tradicionais de mediação política. O campo progressista,
em grande medida, não soube lidar com essa inflexão. Ao invés de reconhecer a
ambivalência, a potência e os riscos daquele processo, preferiu enquadrá-lo
progressivamente como ameaça, manipulação conservadora ou antessala do golpe.
Essa
leitura defensiva teve consequências duradouras. Ao se colocar
predominantemente na posição de vítima de um golpe institucional, a esquerda
deixou de elaborar e refletir criticamente sobre sua própria responsabilidade
na crise de representação. A denúncia do impeachment como ruptura institucional
era necessária, mas tornou-se insuficiente quando passou a ocupar quase todo o
espaço da formulação política. A esquerda ficou presa à linguagem da reparação,
da recomposição e da restauração, enquanto a extrema direita se apresentava
como força de ruptura.
O
resultado foi uma perda de capacidade propositiva. A crise brasileira passou a
ser narrada quase exclusivamente como ataque externo ao campo
democrático-popular, e não como esgotamento de um ciclo político, de suas
alianças, de seu modelo de governabilidade e de sua relação com os movimentos
sociais. Essa dificuldade ainda marca o terceiro governo Lula. Houve avanços
relativos na reconstrução institucional e na recomposição de políticas
públicas. Mas falta tanto uma narrativa transformadora capaz de responder às
novas configurações sociais, ao crescimento do crime organizado, à precarização
do trabalho, à crise das cidades, à insegurança cotidiana e à disputa moral
mobilizada pela extrema direita. Falta também uma abertura para novas formas de
participação política e de governança democrática.
Vladimir
Safatle denuncia as promessas não cumpridas da democracia liberal, mas não
explicita qual forma política deveria substituí-la, com quais sujeitos sociais,
por quais instituições, mediante quais garantias e sob quais formas de controle
democrático do poder. A crítica aos limites da democracia liberal é válida, mas
se torna pouco convincente quando evita a pergunta pela alternativa.
Na
réplica, Vladimir Safatle apresenta uma gramática da ruptura, da insurreição e
da suspensão da ordem, mas não explicita como essa energia destituinte poderia
se converter em formas políticas duráveis, democráticas e capazes de proteger
direitos, organizar conflitos e produzir transformação social.
Uma
teoria crítica que hoje não parte do reconhecimento da derrota histórica da
esquerda socialista, de sua perspectiva clássica de poder e de transformação
social, tem pouca credibilidade política. Não basta reiterar que a democracia
liberal é insuficiente, seletiva, hipócrita ou estruturalmente violenta. A
questão é saber como construir, nas condições sociais efetivamente existentes,
uma radicalização democrática que não recaia na fantasia de uma ruptura sem
mediações.
Como a
história do século XX comprovou, a crítica da democracia liberal pode alimentar
projetos emancipatórios, mas também pode desembocar em formas autoritárias de
poder. Quando as instituições democráticas são tratadas apenas como máscaras da
dominação, e não como arenas contraditórias de disputa, proteção de direitos e
limitação da violência, abre-se espaço para justificar a supressão do
pluralismo em nome de uma verdade histórica superior.
Isso
não significa idealizar a democracia liberal. Ela é muitas vezes insuficiente e
conivente com formas violentas de dominação e exploração. No caso brasileiro,
convive com patrimonialismo, racismo estrutural, violência policial,
encarceramento em massa, desigualdades extremas e territórios nos quais
direitos são negados. Mas a resposta a essa constatação não pode ser a
dissolução da diferença entre democracia e fascismo. A questão é disputar a
democracia, tensioná-la, ampliá-la, submetê-la a controles sociais,
democratizar suas instituições e produzir políticas públicas capazes de
transformar as condições materiais da vida.
No
campo da violência, da segurança pública e da justiça criminal, essa distinção
é absolutamente necessária. Se todo Estado, toda polícia, toda justiça e toda
institucionalidade democrática são lidos apenas como formas disfarçadas de
fascismo, perdemos os instrumentos necessários para pensar reformas concretas.
Controle
democrático da força, redução da letalidade policial, qualificação da
investigação, responsabilização institucional, prevenção baseada em evidências,
enfrentamento do crime organizado e proteção de direitos dependem de
instituições. Dependem também de crítica, participação social e disputa
política. Mas não podem ser substituídos por uma denúncia totalizante do Estado
como máquina fascista.
A
violência estatal deve ser denunciada e enfrentada. Mas uma democracia também
precisa interditar condutas violentas, proteger vítimas, investigar crimes,
limitar poderes armados e produzir segurança como direito. Quando a crítica
social se limita a denunciar a violência do Estado, mas não enfrenta a
necessidade democrática de proteger vítimas, investigar crimes, conter
organizações armadas e interditar condutas violentas, acaba deixando esse
terreno livre para duas respostas igualmente insuficientes: o autoritarismo
penal, que oferece ordem sem direitos, e o cinismo institucional, que preserva
a linguagem dos direitos sem produzir proteção efetiva.
O
impacto político da formulação de Safatle não é apenas problemático; é
regressivo. Ao apresentar a democracia liberal como fachada do fascismo, sua
crítica tende a deslocar o centro do conflito para dentro do próprio campo
democrático, deslegitima as mediações institucionais e reforça uma imaginação
política autoritária, na qual compromisso, pluralismo e disputa institucional
aparecem como formas de capitulação.
Esse
ponto é particularmente sensível no Brasil atual. A extrema direita não avança
apenas por discursos autoritários explícitos. Ela se fortalece explorando a
incapacidade do campo progressista de oferecer respostas concretas às
inseguranças, medos e frustrações da vida cotidiana. Quando a esquerda aparece
apenas como crítica da democracia existente, sem programa institucional e
social consistente para o presente, abre espaço para que o autoritarismo se
apresente como caminho de ordem e proteção.
A
radicalidade necessária hoje não é a recusa abstrata da democracia, mas sua
reconstrução em bases mais igualitárias e participativas. Isso exige enfrentar
desigualdades, controlar a violência estatal, conter o crime organizado,
qualificar polícias e justiça, fortalecer direitos, ampliar políticas públicas
e reconstruir vínculos com as maiorias sociais, enfrentando tanto os interesses
econômicos privados que capturam a política quanto o poder das oligarquias
patrimonialistas e corruptas. Trata-se de uma radicalidade democrática, não de
uma radicalidade que substitui a política pela denúncia da política.
Vladimir
Safatle tem razão ao lembrar que o Brasil teve um grande partido fascista, a
Ação Integralista Brasileira, e que a tradição autoritária nunca foi estranha à
formação social brasileira. Isso é fato. Mas também é fato que a luta pela
democratização trouxe à luz novos atores sociais, movimentos populares,
sindicais, feministas, negros, indígenas, comunitários e de direitos humanos,
que impactaram de forma duradoura o processo de democratização da sociedade
brasileira.
A
Constituição de 1988, com todas as suas limitações, não foi apenas uma
concessão institucional pelo alto. Foi também resultado dessas lutas, da
emergência de novos sujeitos coletivos e da ampliação do repertório democrático
no país.
Essa
dupla constatação é importante. Ela impede tanto o negacionismo das raízes
autoritárias e fascistizantes da sociedade brasileira quanto a redução da
democracia a uma simples fachada da dominação. A democratização brasileira foi
incompleta, desigual e atravessada por continuidades autoritárias, mas também
produziu direitos, instituições, formas de participação e sujeitos políticos
que não podem ser descartados como mera ilusão liberal.
Há
tendências fascistas, neofascistas e autoritárias em expansão, e a pergunta
decisiva é como enfrentá-las sem abandonar as distinções que nos permitem agir.
A questão se torna ainda mais complexa porque, nas experiências recentes,
algumas das mobilizações insurrecionais de maior impacto vieram justamente da
extrema direita, que aprendeu a ocupar as ruas, disputar afetos, mobilizar
ressentimentos, atacar instituições e apresentar a ruptura democrática como
expressão da vontade popular.
É
preciso produzir uma nova gramática de mobilização e ação política, capaz de
combinar participação social, disputa institucional, organização territorial,
comunicação pública, resposta às inseguranças cotidianas e compromisso com
direitos. A democracia precisa voltar a ser percebida não apenas como regime de
contenção do arbítrio, mas como forma concreta de proteção, reconhecimento e
transformação social.
Para
isso, a crítica precisa ser dura, mas também responsável. Precisa denunciar a
violência, mas também formular caminhos institucionais. Precisa reconhecer a
potência disruptiva das insurreições, mas sem romantizá-las, sobretudo quando a
energia destituinte pode ser capturada por projetos autoritários. O desafio é
construir formas democráticas duráveis, capazes de absorver conflitos, ampliar
direitos e enfrentar a extrema direita sem reproduzir sua lógica de destruição
das mediações.
Sem
mediação, programa e compromisso democrático, a crítica pode parecer sedutora.
Pode produzir frases fortes, circulação nas redes e reconhecimento entre os já
convencidos. Mas não organiza maiorias, não protege direitos, não reduz a
violência e não enfrenta a extrema direita de forma efetiva. Nesses termos,
deixa de ser teoria transformadora e se aproxima da performance. E a
performance, por mais sofisticada que seja, não substitui a política.
Fonte:
Por Rodrigo Ghiringhelli de Azevedo, em A Terra é Redonda

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