Gilberto
Menezes Côrtes: Irmãos Metralha perdem para os irmãos Bolsonaro
Confesso,
caro(a) leitor(a), que os fatos andam tão fora de ordem na política brasileira,
que só apelando à grossa ironia para a realidade fazer algum sentido.
Jornalista de Economia, há 54 anos cobrindo os fatos mais escabrosos do mercado
financeiro, confesso que, há 30/40 anos, relaxava, do dia a dia das finanças e
da política brasileira, lendo gibis do “Tio Patinhas” - de um dos sobrinhos da
época. As histórias contêm lições práticas de Economia. E são divertidas as
tramoias dos irmãos Metralha para se assenhorarem de parte da fortuna do velho
Patinhas, que vive disputando, com o rival Patacôncio, a moeda número um, da
sorte. O velho Patinhas sempre se sai bem. Já os planos dos Metralha sempre os
levam para atrás das grades.
As
patacoadas dos filhos de Jair Bolsonaro para tentar livrar o pai e os demais
golpistas da condenação pelas tramas do golpe contra o Estado Democrático de
Direito, entre o fim de 2022 e o 8 de janeiro de 2023, me lembram os
fracassados planos dos Metralha. Em fevereiro do ano passado, o filho 03, o
então deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP), pediu licença do mandato para
tramar contra o Brasil nos Estados Unidos junto ao governo de Donald Trump, na
companhia do economista Paulo Figueiredo, neto do último ditador brasileiro, o
general João Figueiredo. Paulo Figueiredo chegou a negociar com o então
empresário imobiliário Donald D. Trump uma parceria no Hotel Trump, na Barra da
Tijuca, que seria inaugurado para as Olimpíadas de 2016. O negócio micou. Trump
saiu da sociedade, mas os contatos de Paulo Figueiredo com o “staff” de Trump
lhe abriram portas com os republicanos.
Já
Eduardo Bolsonaro, que o pai tentou nomear embaixador do Brasil em Washington,
se aproximou de Steve Bannon. O ex-assessor de Trump o acolheu na QAnon,
agremiação da ultradireita dos Estados Unidos, da qual Eduardo virou
representante no Brasil, e que o credenciou a atuar nos bastidores do
Departamento de Estado chefiado pelo senador Marco Rúbio, propondo medidas
contra o governo Lula. Como Lula – mesmo em modo de reeleição – é passageiro,
as medidas acabaram atingindo o Brasil (os empresários e empregados das
empresas mais atingidas pelos tarifaços às exportações brasileiras).
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Tiros na soberania
Um tiro
pela culatra do ponto de vista político. Lula, que estava desgastado pelas
“fake news” de Nicolas Ferreira (PL-MG), que “vendeu” na sua rede social a
mentira de que as instruções da Receita Federal, para que cartões de crédito e
instituições de pagamentos seguissem os bancos e prestassem informações sobre
movimentações financeiras no Pix acima de R$ 5 mil, eram para “taxar o Pix”
(quando visava coibir a lavagem de dinheiro do crime organizado), voltou a
escalar nas pesquisas quando o clã Bolsonaro e o governador de São Paulo,
Tarcísio de Freitas, ex-ministro da Infraestrutura de Bolsonaro, louvavam o
tarifaço e as ameaças de Trump contra o Supremo Tribunal Federal.
Nas
suas redes sociais, o presidente americano exigia a suspensão, “IMEDIATAMENTE”,
do julgamento de Bolsonaro no Supremo (e o Departamento de Estado aplicou a Lei
Magnitsky). Lula começou a virar o jogo da opinião pública com a defesa da
soberania nacional, enquanto os Bolsonaro (com Jair condenado a mais de 27 anos
de prisão) eram chamados de entreguistas por usarem boné do MAGA e bater
continência à bandeira americana na Paulista.
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'Dark Horse' vira cavalo de Troia
Em
paralelo a tudo isso, se desenrolavam nos bastidores, desde o fim de 2024,
contatos íntimos (de “irmão” para “irmão”) entre o senador Flávio Bolsonaro
(PL-RJ) e o banqueiro Daniel Vorcaro. O dono do Banco Master criou um modelo de
negócios que captava recursos com o “aval” do Fundo Garantidor de Crédito e
aliciava políticos para conseguir gordas aplicações dos fundos de pensão dos
estados e prefeituras onde tinham influência (acima dos limites de proteção do
FGC, que era de R$ 250 mil). Os recursos obtidos eram aplicados em operações
arriscadas de fundos de investimentos que, não raro, lavavam dinheiro.[Pronto.
Foi às portas de Vorcaro, cujo banco recebeu sinal verde para operar sob a
gestão de Roberto Campos Neto, no governo Bolsonaro, em 2019, que o senador
bateu para pedir US$ 24 milhões (R$ 135 milhões à época) para bancar um filme
sobre a vida do pai, a ser usado na campanha eleitoral. O filme já tinha
recebido R$ 61 milhões em novembro de 2025, quando, às vésperas da liquidação
do Master pelo Banco Central, o senador, já indicado pelo pai para concorrer à
presidência em 2026, deixou um recado no celular do “irmão” Vorcaro, cobrando o
restante do dinheiro para finalizar a produção.
Mas
Vorcaro foi preso por alguns dias pela Polícia Federal. Solto em dezembro, logo
recebeu uma visita de Flávio Bolsonaro. O que trataram nesta visita ficaria em
segredo entre eles (repetindo o segredo da conversa entre seu pai, o então
capitão-candidato, e o comandante do Exército, general Eduardo Villas Boas, em
2018). Mas a Polícia Federal, numa segunda prisão de Daniel Vorcaro, em janeiro
de 2026, apreendeu pelo menos cinco celulares e computadores com provas que
mostravam relações promíscuas e comprometedoras com boa parte da elite da
República. Foi a revelação das conversas que fez Flávio Bolsonaro cair em
várias contradições. Negou os contatos.
Depois,
ante as ligações solicitando “recursos privados para um empreendimento privado
sobre um pai”, não pela Lei Rouanet (que exige transparência e prestação de
contas nas doações de empresas para projetos culturais, em alternativa ao
recolhimento de impostos federais), mas pela “Lei Roubanet”, como classificou o
jornalista Otávio Guedes, da Globonews (os dinheiro de Vorcaro têm o DNA dos
desvios de aposentados do INSS e de fundos de pensão de governos), admitiu que
visitou Vorcaro, em dezembro de 2025, para pôr "um ponto final" no
financiamento do filme.
O
presidente do PL, deputado Valdemar Costa Neto, disse à mesma GNews que o
senador foi cobrar os restantes R$ 74 milhões. Voz sibilina me soprou que “o
irmão” Flávio também poderia ter prometido ao “irmão” Daniel que, se eleito,
além do indulto ao pai, Jair, e a vários golpistas, reabilitaria o Master. Uma
promessa vã, pois nunca houve banco que ressuscitasse. No Brasil e no mundo.
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Tiros no pé e pela culatra
Eduardo
Bolsonaro tinha fama de atirador e de incentivar clubes de tiro, e foi um dos
ideólogos da liberação de armas de fogo para clubes de tiro, atiradores e
caçadores e colecionadores (CACs), além de policiais e membros das Forças
Armadas. A ideia era formar poderoso “exército” auxiliar para o golpe. Deu tudo
errado. Mas ele segue atirando a esmo, com tiros no pé ou pela culatra,
disparando, dos EUA, postagens e declarações que estão atingindo a candidatura
do irmão Flávio, com versões diferentes sobre o espinhoso uso dos recursos de
Vorcaro e temas políticos.
Informado,
por fontes do Departamento de Estado, de que os Estados Unidos iriam enquadrar
o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas, cavou para o irmão
uma audiência com o presidente Trump, da qual também participou Paulo
Figueiredo. Esperava-se que os irmãos acertassem os ponteiros e passassem a
limpo as contas de “Dark Horse”, mas não. Tentaram faturar o enquadramento do
PCC e do CV como organizações terroristas. Embora espalhem terror onde atuam
(como as milícias), ambas não são organizações terroristas de cunho político.
Só que
o pacote americano era como o Kinder Ovo. Tinha uma surpresa (nem sempre boa e
mais cara que o chocolate que a embala): um novo e mais duro tarifaço, além de
ameaças ao Pix. Como não podia deixar de ser, choveram críticas que derrubaram,
nas pesquisas, a candidatura do senador, chamado de “TariFlávio” nas redes
sociais. Se isso não fosse pouco, tentou se cacifar no evento “Marcha para
Jesus”, realizado no feriado de “Corpus Christie”, em São Paulo.
Idealizado
pelo apóstolo Estevam Hernandes, que ficou milionário ao fundar a Igreja
Apostólica Renascer em Cristo, o evento que reúne diversas congregações
evangélicas virou um palanque eleitoral. Em cima do trio elétrico discursaram o
senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e o governador Tarcísio de Freitas
(Republicanos-SP). Recluso desde a trágica explosão de um cano de gás da
Comgás, em obra da privatizada Sabesp, que matou uma pessoa, destruiu dezenas
de imóveis e desalojou mais de duas centenas de moradores no bairro do Jaguaré,
que lhe valeu o apelido de “Tragédia de Freitas”, lembrado pelo adversário, o
ex-ministro da Fazenda Fernando Haddad, o governador estava afastado de Flávio
desde que foi preterido por Jair Bolsonaro como candidato da direita à Presidência,
mas recentemente o alfinetou cobrando explicações para seus contatos com
Vorcaro.
O
evento foi o mais esvaziado das 30 edições em oito anos. Teriam os evangélicos
evitado misturar política com religião? Não creio. As igrejas continuam sendo
os maiores currais eleitorais do país.
O
calvário não parou. O boquirroto Eduardo Bolsonaro, que se julga um poço de
inteligência entre os irmãos, porque sabe falar inglês e “fritar” hamburguer,
tratou de elogiar o Zelle americano (pago, como são as operações via TED) e o
comparar ao Pix, defendendo a discussão do mercado de transferência de fundos
na mesa de negociações com os EUA. Mais um tiro certeiro no pé da candidatura
do irmão.
A
infraestrutura oferecida pelo Banco Central a todos os bancos, instituições
financeiras, “fintechs” e empresas comerciais e de serviços que fazem
transações no “e-commerce” e no “e-service” é gratuita e transfere fundos
imediatamente, incluindo sábados, domingos e feriados. E ainda tem 170 milhões
de usuários. Mais do que o total de eleitores aptos a votar em 4 de outubro de
2026. Bingo!
• Fachin rejeita suspeição de Nunes
Marques no caso Banco Master
O
presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Edson Fachin, negou o
pedido de suspeição apresentado por quatro senadores contra o ministro Kassio
Nunes Marques, relator do mandado de segurança que trata da Comissão
Parlamentar de Inquérito (CPI) voltada ao Banco Master. A decisão manteve o
magistrado à frente do caso.
Os
senadores Eduardo Girão, Alessandro Vieira, Marcos Pontes e Plínio Valério
alegaram que Nunes Marques teria relação de amizade com Ciro Nogueira, um dos
investigados no esquema apurado em torno do Banco Master. Fachin, porém,
considerou o pedido incabível por ter sido apresentado fora do prazo regimental
previsto pelo STF.
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Prazo regimental foi decisivo
Segundo
o ministro, o Regimento Interno do Supremo determina que a suspeição do relator
deve ser arguida em até cinco dias após a distribuição do processo. No caso do
mandado de segurança sobre a CPI do Banco Master, distribuído em 26 de março de
2026, o prazo se encerrou em 31 de março de 2026.
O
protocolo feito pelos senadores, no entanto, só chegou ao STF em 12 de maio de
2026, mais de um mês depois do fim do prazo. Com isso, Fachin entendeu que não
havia base processual para analisar o pedido e rejeitou a iniciativa dos
parlamentares.
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Disputa pela CPI do Banco Master
A
abertura da CPI do Banco Master é uma demanda antiga de parte dos
parlamentares, mas enfrenta resistência do presidente do Senado, Davi
Alcolumbre, responsável por colocar ou não o requerimento em pauta. O pedido
foi protocolado em novembro do ano passado, mas até agora não avançou na Casa.
Nesta
semana, Alcolumbre afirmou ser contra a instalação da comissão, alegando que a
movimentação seria usada como “palanque eleitoral”. Diante da resistência, os
senadores levaram a questão ao Supremo por meio de um mandado de segurança para
tentar obrigar a abertura da CPI.
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Relação política e investigação da PF
O
processo acabou nas mãos de Kassio Nunes Marques, que mantém relação antiga com
Ciro Nogueira. Em 2020, o senador foi um dos principais articuladores da
indicação do ministro ao STF pelo então presidente Jair Bolsonaro, com apoio
público e atuação nos bastidores para viabilizar sua aprovação no Senado.
Os dois
são do Piauí e convivem há anos nos meios político e jurídico do estado.
Nogueira também é alvo da 5ª fase da Operação Compliance Zero, da Polícia
Federal, que apura o escândalo do Banco Master. Segundo a investigação, o
senador teria usado o mandato parlamentar para defender os interesses da
instituição no Congresso.
Fonte:
JB

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