O
plano das Big Techs para unir inteligência artificial, Pentágono e poder global
dos EUA
Uma das reações mais interessantes para
compreender o livro foi a de Alexander Dugin, o filósofo ultranacionalista russo, que o chamou de “o
plano do tecnofascismo ocidental”. O fato de alguém tão reacionário quanto
Dugin dizer isso sobre Karp, sobre o livro e sobre o projeto de aliança entre
Estado e Big Techs que ele defende já diz bastante.
<><> As origens e a atualidade da
Palantir
Sem entrar em muitos detalhes sobre esse
aspecto, é necessário desenvolver um pouco a genealogia da Palantir para
entender de que tipo de ator estamos falando quando Karp e Zamiska falam em
“reconstruir a república tecnológica”. A empresa foi fundada em 2003 por Karp e
Peter Thiel, que já havia cofundado o PayPal ao lado de Elon Musk e construído
o núcleo do que é conhecido informalmente como a “Máfia do PayPal”: o círculo
de fundadores e ex-funcionários que, desde então, criou Tesla, LinkedIn,
SpaceX, YouTube, Yelp e outras plataformas que hoje estruturam a vida digital
global. A In-Q-Tel, o fundo de investimento da Agência Central de Inteligência
(CIA) criado para financiar empresas tecnológicas estratégicas para a
inteligência dos Estados Unidos, foi um ator-chave. A Palantir nasceu, literal
e financeiramente, como uma aposta da CIA para desenvolver ferramentas de
análise de dados que suas próprias agências não conseguiam construir
internamente. Desde então, a empresa construiu uma relação densa e multidimensional
com o aparato de segurança do Estado: contratos com a CIA, a Agência de
Segurança Nacional (NSA), o Federal Bureau of Investigation (FBI), o
Departamento de Defesa, o Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) e o
Exército dos Estados Unidos em missões no Iraque e no Afeganistão. Hoje, a
empresa está avaliada em mais de 300 bilhões de dólares e cresceu 500% nos
últimos cinco anos (principalmente nos últimos dois anos); foi defendida por
Trump no último mês, em meio à queda de suas ações, e recebeu apenas em 2025
bilhões de dólares em contratos, número que promete ser superado em 2026.
Um dos vínculos que mais gerou controvérsia
foi com o Serviço de Imigração e Controle de Alfândegas (ICE) dos Estados
Unidos. O software Gotham, da Palantir, foi central na construção do programa
ICM (Investigative Case Management), uma plataforma que integrava dados
de múltiplas agências e permitia realizar monitoramentos detalhados de pessoas.
Ativistas e meios de comunicação documentaram extensivamente que essas
ferramentas foram utilizadas para coordenar operações, deportações em massa e
separações familiares na fronteira. A isso somam-se os contratos militares com
implicações geopolíticas diretas. A Palantir trabalhou com o Exército
israelense, com agências que atuaram no contexto da guerra no Afeganistão e,
segundo investigações jornalísticas, suas ferramentas de análise estão
presentes em múltiplos conflitos em andamento. Relatórios de grupos de direitos
humanos apontaram o uso desses sistemas de análise.
<><> A fusão entre Estado e Big
Tech como defesa do “Ocidente” e a batalha contra o Vale do Silício e o
capitalismo dos aplicativos
O argumento central de The
Technological Republic é que vivemos um momento de emergência
geopolítica comparável à Segunda Guerra Mundial e, nesse contexto, a suposta
neutralidade tecnológica é uma forma de traição. Por isso, o Vale do Silício
teria uma espécie de dívida moral com o Estado que tornou possível sua
existência, e essa dívida deve ser quitada colocando suas capacidades técnicas
a serviço da defesa nacional. É a isso que os autores se referem quando falam
do “hedonismo leve” do Vale do Silício (p. 105). A maioria das empresas
dedica-se a desenvolver redes sociais, aplicativos de entrega, algoritmos de
marketing, e tudo isso seria uma frivolidade que distrai as mentes mais
brilhantes dos problemas que realmente importam. O iPhone, escrevem provocativamente,
pode ter sido a “maior realização criativa de nossa civilização” e, ao mesmo
tempo, estar “limitando e restringindo nosso senso do possível” (p. 50). O que
Karp e Zamiska chamam de “tirania dos aplicativos” é a outra face do que
poderia ter sido uma indústria tecnológica que, como nos anos do pós-guerra,
trabalhasse em estreita aliança com o Estado para produzir capacidades
militares, de inteligência e de segurança nacional de primeira ordem. Nosso
experimento ocidental de autogoverno é frágil. Não defendemos um patriotismo
superficial e vazio, um substituto para o pensamento e a reflexão genuína sobre
os méritos de nosso projeto nacional, bem como sobre seus defeitos. Os Estados
Unidos estão longe de ser perfeitos. Mas é fácil esquecer que existem muito
mais oportunidades neste país para aqueles que não pertencem às elites
hereditárias do que em qualquer outra nação do planeta […] Será necessária uma
colaboração mais estreita entre o Estado e o setor tecnológico, assim como um
maior alinhamento de visões entre ambos, se os Estados Unidos e seus aliados
quiserem manter uma vantagem que limite nossos adversários no longo prazo. As
condições prévias para uma paz duradoura frequentemente surgem apenas de uma
ameaça crível de guerra (p. 35).
Karp e Zamiska chegam inclusive a retomar uma
história em que o Exército dos Estados Unidos, no Afeganistão, precisava de uma
tecnologia melhor para prever a colocação de bombas improvisadas, utilizando
esse exemplo como um caso relevante para explicar a derrota por não ter sido
feito o investimento necessário que poderia ter mudado a história. Em suma,
trata-se do argumento de que o problema não foi a guerra em si, mas o fato de
não ter sido investido o suficiente no software correto. É uma lógica circular
que serve perfeitamente aos interesses de uma empresa que vende software
militar. Essa tensão é central, e o livro não a resolve: Karp foi formado por
autores da Escola de Frankfurt, declarou-se democrata e foi um crítico do
primeiro governo Trump. Karp é um ideólogo da ultradireita ou um oportunista
que encontrou um nicho? A resposta mais provável é que seja as duas coisas.
No livro coexistem uma defesa ferrenha do
capitalismo e a ideia de que essa fusão protegeria o sistema, com momentos de
crítica ao libertarianismo de mercado. A conclusão prática de todo o raciocínio
é sempre a mesma: mais investimento estatal em tecnologia militar, mais
contratos para empresas como a Palantir. O gasto público que Karp e Zamiska
reivindicam é o do Pentágono. “O mercado é um poderoso motor de destruição,
tanto criativa quanto de outro tipo, mas frequentemente não consegue fornecer
aquilo de que mais se necessita no momento adequado” (p. XIV).
Evgeny Morozov, em Oligarcas
intelectuais legisladores, desenvolve a ideia de que esse tipo de figura é
aquele que profetiza as exigências da tecnologia e depois desenha as políticas
para satisfazer os deuses que ele próprio inventou. Karp e Zamiska fazem
exatamente isso: descrevem uma crise civilizatória na qual o software de IA é a
única resposta possível, ao mesmo tempo em que Karp é CEO da empresa que vende
esse software. Observa Morozov: Mas o poder oligárquico oferece uma tentação
ainda mais sombria: por que ajustar as previsões para que coincidam com a realidade
quando é possível manipular a realidade para validá-las? (…) os intelectuais
oligárquicos reconfiguram a legislação, as instituições e as expectativas
culturais até que a profecia e a realidade se fundam em uma única alucinação.
Karp e Zamiska sustentam que a cultura
dominante do Vale do Silício, orientada para o consumidor de massa e viciada na
publicidade digital, produziu um capitalismo tecnológico simultaneamente
lucrativo e trivial. As redes sociais otimizadas para retenção, os modelos de
negócios baseados na extração de dados pessoais, a proliferação de aplicativos
que resolvem supostos problemas muitas vezes diretamente inventados… tudo isso
representa, em seu diagnóstico, uma forma de decadência técnica que não está à
altura do potencial real das tecnologias disponíveis. Mas a solução proposta
pelos autores não aponta para uma democratização desse poder tecnológico, como
seria de se esperar. Aponta para sua militarização. O problema do Vale do
Silício, dizem eles, é que esse poder não é colocado suficientemente a serviço
do Estado de segurança nacional. Não se trata de uma crítica ao capitalismo
como tal, mas de uma disputa interna entre frações do capital tecnológico.
<><> Mein Kampf, o nazismo e as
semelhanças inquietantes
Devo reconhecer que nunca li Minha
Luta, de Hitler, além de resenhas e críticas, de modo que minha comparação
pode ser imprecisa. Mas ler este livro gerou constantemente em mim a sensação
de estar experimentando algo parecido com o que devem ter sentido aqueles que
liam Hitler em sua época. A formulação de uma série de lugares-comuns, a defesa
do Ocidente, a imigração como ameaça — tudo isso para justificar a guerra e a
tecnologia de destruição em massa em nome da preservação de uma civilização
apresentada como superior. É isso que atravessa The Technological
Republic. Dito isso, o livro não é fascismo consumado. O fascismo histórico
de Mussolini e Hitler foi um movimento contrarrevolucionário que surgiu após a
Primeira Guerra Mundial, com uma característica central: a destruição violenta
e total das organizações operárias e populares, apoiada na mobilização de
massas pequeno-burguesas como força de choque e culminando na ditadura aberta
do capital monopolista. Nada disso está presente na atualidade, por mais que
pareça agradar aos autores de The Technological Republic.
Mas há algo além de uma simples referência
histórica. O próprio fio publicado pela Palantir no X (ex-Twitter) há alguns
dias, que tenta resumir os 22 pontos do livro, incluía afirmações como “algumas
culturas produziram avanços vitais; outras continuam sendo disfuncionais e
regressivas”; a crítica ao pluralismo apresentada não como uma posição
política, mas como um diagnóstico objetivo (“devemos resistir à tentação
superficial de um pluralismo vazio e inconsistente”); a identificação de um
inimigo externo (China e Rússia) que exige unidade interna sem dissidências; e
a ideia, herdada diretamente de Thiel, de que “a liberdade e a democracia já
não são compatíveis”. A operação ideológica central possui dois movimentos.
Primeiro, construir um Ocidente idealizado, supostamente liberal, livre e
superior, em oposição a um outro bárbaro encarnado pela China e pela Rússia.
Segundo, esvaziar esse Ocidente de todo conteúdo real em nome de sua defesa. Os
direitos democráticos, o pluralismo, a dissidência e os limites ao poder
estatal transformam-se em uma espécie de luxo que a urgência civilizatória não
pode se permitir. O que resta do Ocidente é a concentração de poder, a
vigilância e a lógica militar. O paradoxo é que, para salvar o Ocidente do
autoritarismo, Karp propõe construir um autoritarismo próprio. Essa é a ideia
de fundo que sustenta todo o argumento. Para salvar o capitalismo e o Ocidente,
seria necessário concentrar cada vez mais poder no aparato estatal e, para
fazer isso, concentrar cada vez mais poder nas Big Techs. Mas não em quaisquer
Big Techs: nas do tipo Palantir.
<><> A identidade nacional, o
antiwokismo e o paradoxo chinês
Um dos argumentos mais interessantes para
compreender seu pensamento é aquele que Karp e Zamiska desenvolvem sobre a
China. O país é apresentado como o principal inimigo, o adversário autoritário
que pode vencer a corrida da IA caso o Ocidente não reaja. No entanto, há um
elogio implícito que percorre todo o texto: a capacidade da China de mobilizar
recursos estatais e privados de forma coordenada, sem os “escrúpulos éticos” ou
os debates internos que freiam o Vale do Silício. O modelo que Karp e Zamiska
propõem para os Estados Unidos não é o oposto do modelo chinês. Essa tensão
torna-se ainda mais explícita nas declarações públicas de Karp. Em Davos 2023,
ele disse à sua audiência que queria funcionários “que desejem estar do lado do
Ocidente”. Quem não estiver, tem a “liberdade de procurar emprego em outro
lugar”. O livro também contém uma crítica explícita ao que chama de “esquerda
woke” ou às tendências que esvaziaram de conteúdo a identidade nacional
ocidental. A tese central aqui é que a esquerda cultural cometeu um erro
histórico ao destruir os marcos da identidade coletiva sem construir nada de
substancial em seu lugar. Karp e Zamiska propõem então uma identidade nacional
construída em torno de “inimigos comuns” e “histórias comuns”.
O resultado é uma cultura na qual aqueles que
são responsáveis por tomar nossas decisões mais transcendentais — em numerosos
âmbitos públicos, incluindo o governo, a indústria e o mundo acadêmico —
frequentemente não têm certeza de quais são suas próprias crenças ou, de forma
ainda mais fundamental, se possuem alguma crença firme ou autêntica (p. XVI). A
China aparece no livro como inimigo geopolítico, mas, ao mesmo tempo, funciona
como uma referência implícita constante, já que Karp e Zamiska apresentam certos
exemplos como evidência empírica de que um Estado que não é atravessado pelo
pluralismo cultural ocidental conserva capacidade de ação, coesão e direção
estratégica.Evidentemente, a dimensão reacionária do livro não está naquilo que
parece resgatar da China, mas na operação ideológica que realiza. Essa
equivalência, mencionada também no fio dos 22 pontos quando fala em “resistir
ao pluralismo vazio”, permite apresentar as políticas culturais reacionárias da
administração Trump como um retorno à sanidade nacional, e não como aquilo que
são: um ataque a direitos conquistados ao longo de décadas de lutas. Leo
Strauss, pai intelectual do neoconservadorismo, aparece nas últimas páginas do
livro como referência final, e isso não é casual. Com sua ideia de que a
suspensão dos julgamentos morais era necessária para a produção do conhecimento
científico, mas que essa inovação sem valores conduzia ao niilismo, os autores
recorrem a essa formulação para defender a ideia de inovar sem limites, porém
guiados por valores morais e por uma identidade nacional.
<><> O Projeto Manhattan, a
transcendência e a Inteligência Artificial como religião secular
O livro retorna repetidamente, quase de forma
obsessiva, a Oppenheimer e ao Projeto
Manhattan. Isso não é novidade. Em uma resenha do
livro Império da IA, de Karen Hao, também mencionamos esse aspecto
em relação a Sam Altman. O que Karp e Zamiska admiram naquele momento histórico
não é principalmente a bomba atômica (embora também não a condenem), mas a
capacidade de mobilização de talento, recursos e vontade coletiva a serviço de
um objetivo nacional de máxima prioridade. Por isso, a proposta central é
construir um equivalente para a IA: um “novo Projeto Manhattan” que coloque as
melhores mentes para trabalhar em aplicações militares e de segurança baseadas
em inteligência artificial. O livro é atravessado por uma preocupação com o
significado. Em várias passagens, fala do fim da era atômica e do início da era
da IA: “Esta próxima era de conflitos será vencida ou perdida pelo software”
(p. 28). A IA é apresentada não apenas como uma ferramenta, mas como o
horizonte definidor da condição humana: “a ascensão da inteligência artificial,
que pela primeira vez na história apresenta um desafio plausível à nossa
espécie pela supremacia criativa no mundo”.
Esse messianismo tecnológico possui uma
linhagem filosófica que o livro não explicita, mas que o atravessa. Nick Land,
o filósofo britânico que passou da teoria crítica ao aceleracionismo de direita
(e declarou sentir-se identificado com o livro), postulava que o capital e a
tecnologia possuem uma dinâmica própria que transcende qualquer controle humano
e que tentar freá-la é uma forma de fraqueza histórica. Marc Andreessen retomou
esse impulso em seu Manifesto Tecnoptimista, no qual declarou que a
tecnologia é “a força mais poderosa para o bem que o mundo já conheceu” e que
qualquer freio ético ou regulatório é essencialmente uma forma de traição ao
progresso.
Karp diferencia-se deles em um ponto. Como
vimos anteriormente, ele não confia apenas no mercado para conduzir esse
processo; precisa do Estado. Mas compartilha com ambos a premissa fundamental:
a de que o desenvolvimento tecnológico é um empreendimento quase sagrado, que
participar dele é uma forma de transcendência histórica e que aqueles que se
opõem não possuem argumentos, apenas medos. Trata-se dessa dimensão quase
religiosa expressa pela promessa de pertencer ao lado correto da história. O
movimento adicional consiste em mostrar que Karp não é um caso isolado, mas
parte de uma família ideológica, e que sua diferença em relação a Land e
Andreessen — a aposta no Estado — é justamente o que o torna mais perigoso, e
não menos, porque combina o messianismo tecnológico com o poder coercitivo
real. Nesse marco, trabalhar em aplicações militares de IA, além de ser um
negócio, é participar do empreendimento mais significativo da história humana.
“Muitos engenheiros do Vale do Silício
continuam se opondo a trabalhar em projetos de software que possam ter
aplicações militares ofensivas, incluindo sistemas de aprendizado de máquina
que permitem a localização e eliminação mais sistemática de inimigos no campo
de batalha” (p. 33). E sua crítica àqueles que se recusam a participar — por
exemplo, os engenheiros do Google que se opuseram ao Projeto Maven ou os
funcionários da Microsoft que rejeitaram contratos com o Exército — é
recorrente: eles são apresentados repetidamente como indivíduos que escolhem o
conforto moral em vez da responsabilidade histórica.
Em 2019, por exemplo, a Microsoft enfrentou
oposição interna para aceitar um contrato de defesa com o Exército dos Estados
Unidos. A empresa havia sido selecionada para fornecer óculos de realidade
virtual aos soldados para planejamento de missões e treinamento. No entanto, um
grupo de funcionários da Microsoft se opôs e escreveu uma carta aberta a Satya
Nadella, diretor-executivo da companhia, e a Brad Smith, seu presidente. “Não
nos contratamos para desenvolver armas”, argumentaram […] Em abril de 2018, um
protesto de funcionários do Google precedeu a decisão da empresa de não renovar
um contrato para trabalhar com o Departamento de Defesa dos Estados Unidos em
um projeto conhecido como Projeto Maven (p. 33). Essa resistência, a oposição
dos trabalhadores e de grande parte da classe trabalhadora em seu conjunto,
ampliou-se e hoje representa o principal obstáculo prático ao projeto que Karp
descreve.
<><> A batalha ideológica e
cultural para construir força moral
O livro é um contra-ataque ideológico a uma
resistência que Karp conhece bem porque a enfrenta na própria pele e que
representa a ameaça mais concreta à viabilidade do projeto que descreve. Enquanto
o livro circulava como best-seller, em Washington, Califórnia e Nova York,
ativistas e membros de comunidades migrantes bloqueavam os escritórios da
Palantir para denunciar o papel de seus softwares — ImmigrationOS, ELITE e o
sistema ICM — na engrenagem de deportações do ICE. Os manifestantes acusavam a
empresa de fornecer inteligência artificial que facilita o rastreamento e a
detenção de imigrantes, cidadãos e ativistas. A pressão social conquistou
vitórias, como quando o Sistema de Saúde Pública de Nova York, o maior do país,
decidiu não renovar seu contrato com a Palantir em protesto contra sua
colaboração nas deportações. Ao mesmo tempo, no setor tecnológico,
trabalhadores da Microsoft organizaram-se sob a bandeira “No Azure for
Apartheid” para denunciar que a infraestrutura de nuvem da empresa estava sendo
utilizada pelo Exército israelense em Gaza.
Duas funcionárias interromperam a cerimônia
do 50º aniversário da Microsoft, na presença de Bill Gates e do CEO da Microsoft
AI, Mustafa Suleyman, denunciando que a empresa vendia armas baseadas em IA
ao Exército israelense e que cinquenta mil pessoas haviam morrido enquanto a
Microsoft potencializava esse genocídio. Ambas foram demitidas. Meses depois,
trabalhadores da Microsoft foram detidos após ocuparem o escritório do
presidente Brad Smith, em Redmond, declarando uma “Zona Liberada” e exigindo
que a empresa rompesse seus vínculos com Israel. E, mais recentemente, quando o
Pentágono tentou forçar a Anthropic a eliminar suas restrições éticas para o
uso militar irrestrito de sua IA, mais de 300 funcionários do Google e mais de
60 da OpenAI assinaram uma carta aberta instando os líderes de suas empresas a
rejeitar o uso unilateral dessa tecnologia para vigilância em massa e
armamentos autônomos. É exatamente isso que a Palantir busca desativar. A
operação ideológica do livro não tem como principal objetivo convencer os
Estados nem os investidores; a maioria deles já está convencida ou diretamente
comprada. Ela se dirige a duas audiências que o projeto de fusão entre Estado e
Big Tech necessita, mas ainda não controla: a opinião pública, que ainda pode
se mobilizar contra essas alianças, e os próprios trabalhadores da tecnologia —
engenheiros, cientistas de dados e desenvolvedores — sem cuja colaboração
nenhum sistema de IA funciona. Para ambos, Karp e Zamiska constroem aquilo que
Clausewitz chamaria de uma “força moral”: um propósito suficientemente grande
para vencer a resistência interna. Esse propósito é a defesa do Ocidente, a
urgência civilizatória, a ameaça chinesa. Aqueles que se recusam a trabalhar em
aplicações militares são apresentados como pessoas acomodadas que escolhem a
tranquilidade moral em vez da responsabilidade histórica.
Daí sua afirmação de que é justamente essa
ameaça de guerra que permite a existência da paz:“A ironia, é claro, reside no
fato de que a paz e a liberdade das quais desfrutam, no Vale do Silício,
aqueles que se opõem a colaborar com o Exército dos Estados Unidos são
possíveis graças à ameaça crível do uso da força por parte desse mesmo Exército
(p. 46). É daí que surge a ideia de que os protestos nos escritórios da
Palantir representam o “pluralismo vazio” que deve ser combatido. Mas as
evidências dos últimos meses mostram que essa força moral possui limites. Os
trabalhadores da tecnologia não são uma massa homogênea disposta a marchar
atrás de qualquer manifesto, e as comunidades que arcam com os custos desses
sistemas não estão dispostas a fazê-lo em silêncio. É aí que reside a
contradição mais profunda do projeto de Karp: ele precisa, ao mesmo tempo,
concentrar o poder e recrutar vontades que, por enquanto, parecem não estar
dispostas a seguir seu plano.
Fonte:
Por Martín Schapiro, para Esquerda Diário

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